quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ordem do Músicos do Brasil

          Decidi fazer essa postagem motivado por dois assuntos: A recente aprovação da lei que tira a obrigatoriedade de filiação á Ordem dos Músicos para exercer a profissão e a minha re-aproximação da entidade após mais de 15 anos. 
          Para situar o leitor no tempo e justificar minhas decisões de me afastar da Ordem e depois voltar, revivo a metade dos anos 90. Naquela época tínhamos algumas dezenas de bandas e músicos de finais de semana que costumavam tocar em pequenos bares, nas calçadas, nas escolas, em praças e onde mais tivesse publico e instrumentos. Cada um arranhava alguma coisinha em seu instrumento e compartilhava esse conhecimento com os demais para aprender mais também. Eu já segui um caminho diferente, passei a estudar solitariamente e dificilmente pegava um violão em público, salvo raríssimas excessões. Quando entrei na escola, já sabia alguma coisa sobre partituras e notação musical. Isso possibilitou que pudesse estudar alguns métodos para piano, já que não tinha acesso a obras direcionadas ao estudo de violão, muito  menos guitarra. Eventualmente consultava alguma revista cifrada para testar a sonoridade de alguns acordes dentro de um contexto harmônico, mas no geral era tentar adaptar as transcrições feitas para piano.
          Independentemente da metodologia adotada por um músico para desenvolver-se no instrumento um dos tabus que tinhamos era a respeito da tal carteira de músico. Ouvia muita gente comentar sobre a dificuldade de tirar a carteira e a real necessidade. Nesse entremeio comecei a tocar em algumas bandas e o assunto possou a ficar mais sério. Ouvi relatos de pessoas que foram abordadas pela polícia, que exigira o fim de algum evento onde algumas pessoas tocavam seus instrumentos, sob a suposta denúncia de um fiscal da OMB sobre execução ilegal da profissão. Em algumas dessas ocasiões os instrumento eram apreendidos e só poderiam ser devolvidos perante pagamento de multa. Achei meio absurdo aquilo que era narrado por algumas pessoas, mas segui em frente e acabei visitando a sede regional da OMB no centro de Porto Alegre e me informei sobre as condições para tirar a tal carteira.
         No dia e hora marcados, compareci com meu violão e a documentação necessária, assim como o pagamento da taxa que não lembro o valor agora. Preparei umas 8 músicas e estudei um pouco mais de teoria. Chegando na sede da Ordem, após aguardar cerca de uma hora fui chamado para o exame. Me apresentei para uma bancada onde estavam meia duzia de senhores sentados e um deles me explicou rapidamente de como aquilo funcionava. Interpretei uma canção quase completa e trechos de mais umas duas no violão. Tive o cuidado de escolher dentre aquelas sugeridas pela Ordem. Depois tive que explicar alguns detalhes técnicos e teóricos do que toquei e depois veio a parte do ditado lendo trechos de uma partitura. Fui aconselhado a buscar aperfeiçoamento técnico e teórico junto a uma entidade formal, mas estava apto a exercer a profissão de músico com algumas limitações, a carteira que consegui era provisória.
         Dentro uns dias tinha a carteira com minha foto, meu nome, um numero de registro e o título de musico profissional. Pode parecer estranho, mas aquilo nunca foi motivo de orgulho, pois minha família reprovava meu envolvimento com a musica e as pessoas com as quais eu tocava e saia não davam importância ou simplesmente repudiavam a Ordem dos Músicos. Tempos depois fui abordado quando saia de um bar por alguns amigos que haviam sido aconselhados a não tocar no evento em questão. Um certo "fulado de tal" teria apresentado a carteira da Ordem e se dizia delegado. Fui ao encontro do sujeito e questionei a respeito. O mesmo ameaçou tomar minha guitarra com a ajuda da polícia. Apresentei minha carteira e discutimos por certo tempo a respeito de toda aquela situação. Lembro de ter ido até a sede da entidade e jogado minha carteira no lixo após ouvir a explicação deles.
          Teve uma época no Brasil que o músico era preso por vadiagem, a profissão não era reconhecida pela sociedade. Eu mesmo sofri com o preconceito daqueles que me rodeavam, tanto é verdade que sempre tive um emprego formal, mesmo ganhando dinheiro com música em alguns momentos. A Ordem dos Músicos foi criada nos anos 60 para acabar com este estigma do músico ser vagabundo. Entre outras coisas, isso garantiu ao músico certo amparo junto aos órgão do governo como os sistemas de saúde e a previdenciário. A anuidade cobrada pela Ordem nunca chegou a ter valores exorbitantes. Mas a fama que carregava e certos membros se acharem acima das demais pessoas fizeram com que a imagem da entidade sempre ficasse manchada. 
          A minha revolta e de algumas outras pessoas era com o descaso dos membros da Ordem com aqueles que ambicionavam ser músicos. Começando pela ineficácia da Ordem em deixar que o ensino musical nas escolas públicas fosse arrancado do currículo escolar para nunca mais voltar. A falta de representatividade frente a sociedade, aparecendo apenas para cobrar anuidades e intimidar quem não fosse filiado. O fato é que a Ordem nunca cresceu ao ponto de se tornar atraente aos olhos de quem ambiciona ser músico e muitos deles ficaram contra a entidade ao ponto de contribuir para derrubar judicialmente a lei de obrigatoriedade de filiação para poder exercer a profissão devido a fatos públicos em que a entidade voltou-se pontualmente contra alguns artistas.
          Então acabei procurando a Ordem dos Músicos do Brasil em dezembro de 2014 e fui bem recebido. O presidente na época, sr. Manoel Peres foi muito educado e atencioso ao me explicar sobre a mentalidade atual dos membros da entidade. Acreditei que poderia ser bem-vindo no que eles chamam de "A Casa do Músico" e comecei a estudar Solfejo e Teoria Musical, curso este gratuito e preparatório para quem deseja assimilar os fundamentos teóricos para prestar o exame para tirar a carteira. No caso da sede regional de Porto Alegre, há possibilidade de se inscrever para quatro cursos, além do que foi supra citado temos o de Harmonia, violão para iniciantes e violão e guitarra avançados. Tal iniciativa da ordem acaba sendo uma contra-partida aos não músicos e um convite a se filiar. Para quem gosta de música e se dedica a tocar em uma banda, compor ou simplesmente tocar um instrumento vale a pena estudar na Ordem e tirar a carteira, afinal ter a profissão de músico reconhecida é um grande avanço, porém ainda fala muita coisa para a entidade cair no gosto e no respeito dos músicos em geral. Outro fator interessante de frequentar a Ordem é fazer parte da "confraria" ter com quem conversar sobre música e até colaborar em projetos de outros artistas, conhecendo seus trabalhos, ampliando e compartilhando conhecimentos e experiências.

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