quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Choro


         


          Há algum tempo postei a respeito do Blues visando homenagear aqueles que inspiraram gerações e mais gerações de músicos. Essa postagem pode ser conferida aqui. Hoje sigo na mesma pegada, porém vou falar de um estilo bem mais antigo, mas que também tem uma origem parecida com a do blues. Falo do Choro. Isso mesmo, do estilo tipicamente brasileiro, que é pai da MPB, da Bossa Nova e do Samba. Temos que ter em mente que na Europa a música tinha tomado status de grande arte devido as grandes obras clássicas. Quando Blues e o Choro nasciam, a música erudita já havia ultrapassado todas as fronteiras possíveis do imaginado com Vivaldi, Mozart, Beethoven, Bach, Chopin e Wagner, entre outros é claro. Porém, para as Américas que eram meras colonias dos exploradores europeus, a arte nativa não passava de meras manifestações rudimentares de civilizações que não evoluíram. Com isso, os europeus destruíram quase tudo de genuíno da cultura dos povos colonizados. Esse choque da cultura européia com a nativa americana não poderia ter uma que se sobressaísse intacta perante a outra, por esse motivo, diversas manifestações tomaram formas híbridas das culturas conflitantes e, sendo representações de cada momento social e econômico, produziram estilos riquíssimos de música.
          O choro nasceu por volta de 1870 no Rio de Janeiro. Tratava-se de grupos de músicos que se reuniam para tocar instrumentos como violão, cavaquinho e flauta. Possivelmente estes grupos visavam reproduzir de alguma forma a música popular europeia, porém não tinha escola para isso além das ruas e botecos. Junte-se a isso a grande leva de escravos vindos da África e trazendo consigo sua cultura e seu ritmo. O lundu, a polca e outros ritmos formaram o que passou a ser algo tipicamente brasileiro. Assim, estes músicos reuniam-se com seus instrumentos na casa de um deles para improvisar melodias e harmonias e até mesmo se desafiarem em suas habilidades. O que era pra ser uma espécie de confraternização passou a ser uma divertida competição de instrumentistas. O nome pode ser uma alusão ao Xolo, espécie de baile de escravos da época colonial, ou mesmo a interpretação chorosa dos instrumentistas para as canções.
          A partir de 1880 o choro tornou-se popular nos bailes e salões de dança e consolidou-se como estilo próprio e não mais uma simples forma de tocar. Dai em diante, novos elementos foram inseridos no choro como a inserção de percussão, piano e depois o canto. Conforme os compositores iam surgindo, abordagens novas e estilos eram transformados em outras vertentes da música brasileira. A habilidade dos chorões em improvisar e agregar elementos rítmicos e harmônicos em sua performance fez com que Heitor Villa-Lobos se interessasse em divulgar o estilo fora do seu habitat tradicional. Pixinguinha foi convidado a excursionar pela Europa e Estados Unidos para promover sua musica tipicamente nacional. O próprio Villa-Lobos criou suas próprias abordagens do estilo compondo seus Choros.
          Adoniran Barbosa, Chiquinha Gonzada, Zequinha de Abreu, Jacob do Bandolin e Walmir Azevedo foram outros compositores fundamentais na construção deste estilo. O choro não é apenas mais uma manifestação cultural mestiça herdada de imigrantes europeus e escravos africanos. O choro é a música brasileira na sua forma mais rica e representativa. Independente de ter originado o Samba, a MPB tradicional e as diversas manifestações artísticas com cunho popularesco e marqueteiro, o choro deve ser estudado e pesquisado com carinho por quem aprecia a arte. Não é só Tico-Tico no Fubá e Brasileirinho e sim uma grande quantidade de composições a ser vista com outros olhos pelos músicos brasileiros. Até no exterior nossa música é tratada com respeito e admiração, aqui é vítima de interpretações canhestras e tratamento desleixado.
          Nos Estados Unidos temos o Blues e o Jazz como sendo fruto da imigração e colonização européia com o ritmo e a espiritualidade dos escravos. Aqui no Brasil temos o choro que é anterior a esses dois estilos, porém com a mesma verdade e qualidade daqueles. Todo brasileiro, além de protestar e bradar contra a corrupção, deve honrar e tratar com carinho nossos símbolos e nossa cultura, pois só assim seremos valorizados como povo, depois como pátria e depois como artistas. Se não tratamos nossa cultura com atenção e cuidado, de nada adianta nos preocuparmos com educação, saúde e segurança, pois cultura é a valorização da auto estima de um povo. Povo sem cultura perde a identidade, a dignidade e a moral se entregando a corrupção e a malandragem dos pilantras que fomenta o crime e a ignorância.  

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Últimas notícias

          Depois de alguns anos de sonolência, parece que o Brasil está acordando para realidade. Quando parecia que os anos de inflação e desemprego tinham ficado para trás, passa a copa do mundo de 2014 e as eleições. O que resta do legado da copa é a maior avalanche de denuncias de corrupção e de desperdício de dinheiro público que este país já viu. Claro que a estratégia do governo em anestesiar a população com a falsa idéia de que tudo estava bem, que investidores estrangeiros poderiam investir a vontade, que a população poderia comprar seus smart phones, suas tvs de led de 40 polegadas, carros zero kilômetro e sonhar com uma vida nunca antes imaginada. Hoje, um ano após a Copa do Mundo, não temos polícia nas ruas, a saúde e a educação passam por sua pior fase de abandono e os indices de violência atingiram níveis alarmantes. Assim está o Brasil em 2015. O meu estado está quebrado. Estou sentindo no bolso o quando a economia despencou. Quando assistimos a qualquer noticiário, independente do veículo de noticias, só assistimos a reportagens de corrupção e violência.
          Mas o que fazer para mudar este quadro? Infelizmente não tenho essa resposta. Os políticos continuam corruptos e roubando descaradamente o povo. A população sai as ruas para protestar e depois volta pra casa para assistir pela internet os likes em suas redes sociais e compartilhar fotinhos tiradas de seus celulares. Imagino os governantes assistindo a isso. Devem sorrir e debochar de nossa grande revolta, que é tão representativa quanto uma greve de esquimós no pólo norte. O único objetivo dessas manifestações é aparecer nas redes sociais e formar estatísticas. Quando realmente há um hospital sem atendimento, policiais sem salário ou viaturas para trabalhar, enchentes que deixam centenas de desabrigados, assassinatos filmados por cameras de segurança ou escolas desabando por causa do abandono, só vemos meia duzia de pessoas diretamente prejudicadas pela situação em frente aos orgãos protestando. Onde está os protestantes nessas horas? Será que uma manifestação, que não tenha sido previamente marcada pelas redes sociais, não é legitima ou justa? 
          Não sou velho o suficiente para ter vivido os tempos de ditadura militar, mas lembro da campanha das diretas já, de corte de zeros nos valores dos produtos, lembro do bloqueio da poupança e do impeachment do presidente Collor. Pois estes mesmos protagonistas dessas trapalhadas continuam no poder ou mesmo transitando pelos corredores da câmara e do senado. Nada mudou realmente no país, o que houve foi uma grande propaganda de marketing para distrair o povo enquanto o governo montava seus cartéis e seus mirabolantes planos de irriquecimento ilícito. Um dia pagaríamos a conta, e parece que este dia chegou. Os ricos continuarão ricos. Alguns velhos cansados irão para suas confortáveis prisões domiciliares após deixarem suas familias e comparsas nadando no dinheiro, fruto de seus golpes.
          Alguém acredita que algum político ou partido pode resolver essa situação? Dessa gente só pode sair corrupção e leis fajutas. Do que adianta um monte de leis cheias de distorções e termos jurídicos que dão margem a milhares de interpretações diferentes se não temos nem presídios seguros para manter os presos? As inúmeras câmeras de segurança servem apenas para filmar ações criminosas para ilustrar matérias jornalísticas. Todos sabemos ou deveriamos saber que os crimes são praticados por pessoas que já são procuradas pela polícia, foragidos do nosso sistema carcerário. Portanto não dão a mínima para câmeras. Nem as cidades do interior estão livres desse turbilhão de violência, pois na internet tem todas as informações sobre a localização das agências bancárias e a quantidade de policiais para fazer a segurança do local.
          Vivemos num mundo onde a desculpa para não se baixar o limite da maioridade penal é a falta de presídios. Onde um pai não pode ser mais enérgico com um filho por causa da lei da palmada. Onde professores são agredidos em plena sala de aula porque crianças são conhecem os limites da educação e não precisam temer punição alguma. Quem agride um ser humano, independente da sua idade deve ser punido, mas dar total liberdade para que qualquer um possa fazer o que quiser já é demais. Não adianta ter um estatuto da criança e do adolecente que só pune os pais e professores, pois quem realmente comete crimes contra a infância não respeita lei alguma. O irônico é que quem redige essas leis, são os mesmos que roubam o dinheiro da educação, da saúde e da segurança pública. Há uma inversão total de valores, onde é mais cômodo apresentar uma imagem politicamente correta do que fazer algo realmente significativo.
          Parece incrível, mas colaboramos diretamente para todo esse cenário de caos e degradação. Fazemos isso quando viramos as costas para pequenos delitos das pessoas a nossa volta e ignoramos a enorme cafagestagem a que somos expostos. Quando vamos para as redes sociais promover conteúdo descartável ou apoiar manifestações populescas que só divertem e dão mídia á quem está sendo atacado. Quando valores sociais são deixados de lado, algo preenche os espaço, normalmente algo sem valor ou totalmente oposto a eles. Não temos mais valores cívicos como respeitar nossa bandeira e nosso hino que estão sendo totalmente expostos a banalidade. Não valorizamos a família, pois a mesma se desmancha por competições banais, desrespeito ou tragédias. Perdemos a capacidade de admirar um professor, respeitar uma farda e confiar em um médico. Valorizamos o que é supérfluo e abandonamos a prática da humildade, compaixão, amor, solidariedade, honestidade e amizade.
          Nossa pátria não é nossos políticos, nossas leis, nossas intituições. Nossa pátria é o povo, é ele que constrói a cultura, a história e para ele é que as instituições devem trabalhar. E quem é o povo? O povo é cada criança que nasce assistida por um médico preparado e atencioso. Que teve uma mãe assistida por um sistema de saúde adequado e equipado e que irá recebe-la num lar cheio de amor. Essa criança irá crescer numa vizinhança segura e entrará numa creche onde será educada e assistida. Estudará numa escola onde lhe ensinarão os segredos do idioma, as ciências exatas e humanas. Após a escola terá a opção de cursar uma boa faculdade ou fará um curso técnico que lhe garantirá uma profissão. Infelizmente essa ideia tão simples, parece impossível de se concretizar nos dias de hoje. O povo é cada um de nós. A bandeira representa cada um de nós. As instituições devem servir a cada um de nós. Pagamos todos os dias por nossa educação, saúde e segurança, mas além de não recebermos o que contratamos, ainda somos roubados por quem deveria nos servir. Isso é importante, esse é o problema. Fora isso, tudo é supérfluo.
          Sou de origem humilde e permaneço trabalhando todos os dias para, ao menos, garantir alimento e moradia para minha família e fico feliz por ainda conseguir. Fora isso escrevo minhas ideias, minhas músicas, leio livros, escuto e pesquiso sobre música, tento dar atenção para minha família e eventualmente saio para assistir a um show ou confraternizar com amigos ou familiares. Gostaria de ir a mais shows, levar meus filhos para brincar em uma praça, passear no zoológico, num parque ou um circo. Adoraria ir ao teatro, em bares com música ao vivo e a eventos culturais. Infelizmente as opções são poucas e quase sem qualidade, não há segurança para sair as ruas, falta dinheiro para financiar estes programas. Então me recolho ao meu humilde lar, inacabado e com a maioria das coisas feitas por mim mesmo, busco interagir com minha família e buscar entretê-los de forma simples e contida com a esperança que eles se tornem cidadãos de bom caráter e com alguma cuultura. Torço para que tenham saúde para crescerem e se desenvolverem e sorte para que não sejam vítimas da criminalidade. Tenho a ingênua esperança que o futuro deles reserve uma vida melhor do que a minha. Porém tenho a conciência de que esperavam o mesmo para minha geração e o resultado é tudo isso que vemos hoje e que descrevi acima.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Origens Blues

          Hoje vou falar a respeito de um estilo que venho estudando a um tempo e gostaria de compartilhar com vocês. Não pretendo aqui escrever um guia, apenas dar algumas dicas das origens e alguns artistas que impulsionaram este estilo tão admirado até hoje. Escrevi em outra postagem  respeito da verdade do blues que pode ser conferida aqui e que recomendo para que entendam como um fã de Heavy Metal a mais de 20 anos se identificou com a genialidade do blues. Tenham em mente que tudo nasceu entre os escravos nas plantações de algodão. Espero que gostem.           

As Origens
          O Blues nasceu na região que abrange os estados americanos do Mississipi, Georgia, Louisiana e Alabama no sul do país. Lá havia grande concentração de negros que trabalhavam como escravos, principalmente nas plantações de algodão.  Foi um filho de  ex-escravos que, saindo de casa ainda jovem, passou a viajar e a dar aulas de musica por onde passava. O nome dele era William Christopher Handy  o auto intitulado "Pai do Blues" nasceu em Florence, Alabama no dia 16 de novembro de 1873. Conta ele que ouviu o Blues pela primeira vez durante uma de suas viagens quando esperava um trem em uma estação em Tutwiler, Mississipi em 1903. Lá ele encontrou um musico negro tocando um violão usando um canivete como se fosse um slide. W.C. Handy foi trabalhar em Memphis e compôs Memphis Blues (1912) e St. Luois Blues (1914). Nesse período ele continuou trabalhando como compositor e arranjador para filmes, rádios e produções da Broadway. Veio a falecer em 27 de março de 1958 aos 84 anos em Nova York, vítima de uma pneumonia. O Blues não é criação de uma unica pessoa, e sim uma sucessão de fatos e manifestações artísticas que evoluem até se consolidar em um determinado momento. Mas podemos dizer que foi esse trompetista que tocava Jazz e Blues que levou o estilo até o mainstream. Inspirado na canção que ouvira na estação de trem, W.C Handy compôs Yellow Dog Blues. W.C. Handy Award é uma premiação de prestígio reservado aos músicos de Blues, assim como o festival anual de Música Handy, no Alabama.  
          Teria o Blues nascido do canto chamado "Spirituals" que era entoado pelos escravos para se motivarem durante condições precárias de trabalho forçado. Os chamados Work Songs, como eram conhecidos, também serviam como formas de comunicação entre os escravos, inclusive sendo usados para combinar estratégias de fuga. Mais que influenciar o Blues, a musica Gospel americana pode ser considerada como sendo uma releitura destes formatos de cantico que acompoanhou os escravos desde os anos de 1770 e que era passado de pai para filho de forma bem rudimentar e normalmente sem instrumentação.

          O Delta Blues
 
O pai do Delta Blues é Charley Patton. Nascido em Hinds Country, Mississipi por vlta de 1891, este descendente de brancos, negros e Cherokees mudou-se para Dockery Plantation onde ficou sob a tutela de Henry Sloan. Aprendendo o blues primitivo de Sloan, aos 19 anos Patton já era um talentoso musico tendo como discípulos John Lee Hooker e Howlin' Wolf. Veio a falecer por insuficiência cardíaca em 1934. Em 1929 gravou Pony Blues, sua primeira composição e em seguida registrou mais algumas dezenas até 1934. No embalo de Charley Patton surge Son House, Willie Brown, Leroy Carr, Bo Carter, Sylvester Weaver, Blind Willie Johnson, Tommy Johnson, entre outros, cantando musicas tradicionais como Catfish Blues e John The Revelator. 
 
          Son House influenciou Robert Johnson e Muddy Waters. Não era técnico nem virtuoso. Sua musica era dançante e composta para ser tocada em bares e festas. Ao longo da vida, Eddie James House Jr. gravou algumas canções para a Paramount e tocou com Charley Patton, Willie Brown, o próprio Robert Johnson e Leroy Williams. Ele passou um tempo preso na Fazenda Parchman após matar um homem. Morreu em 1988 após uma sucessão de problemas de saúde. Sua data de nascimento é um mistério que nem o próprio conseguiu desvendar. Sabe-se que é natural do Mississipi, possivelmente no anos de 1902. Após os anos de 1960 passou a ser reconhecido e tocou em alguns festivais, tendo uma de suas canções gravadas pelo White Stripes.
 
Leroy Carr foi outro nome importante do chamado Delta Blues. Nascido em Nashville, Tenessee, em 27 de março de 1905 e morreu dia 29 de abril de 1935. Mudou-se para Indianapolis ainda na adolescência. Largou a escola após aprender sozinho a tocar piano e aos 15 anos passou a viver nas ruas. Nesse meio tempo, este pianista gravou "How Long, How Long Blues" que lhe deu fama. Desenvolveu o estilo de crooning influenciando Nat King Cole e Ray Charles. Gravou mais de 200 musicas ao lado do guitarrista Scrapper Blackwel, incluindo sucessos como "Prison Bound Blues", "When the Sun Goes Down" e "Blues Before Sunrise". Em parceria com o já citado guitarrista fez diversas apresentações, além das gravações para a Vocalion Records, porém acabou sendo vitima do alcoolismo.
 
          Nascido no Texas, mais precisamente em Marlin, no dia 22 de janeiro de 1897, este guitarrista negro e cego baseou as temáticas de suas letras em temas bíblicos, entretanto sua musica sempre foi severamente Blues. Blind Willie Johnson não nasceu cego. Reza lenda que seu pai havia agredido sua madrasta após descobrir adultério e a mesma atirou soda caustica no  rosto do menino. Willie já tinha feito uma guitarra improvisada quando confessou ao pai que queria ser pastor, mas ganhou um violão de 12 cordas e seu pai o pôs numa esquina para ganhar dinheiro. Nesse tempo ele aprendeu os primeiros acordes. Em dezembro de 1927 a Columbia levou o guitarrista para um estúdio onde gravou seis musicas. Depois registrou mais umas 30 canções ao lado Willie B. Harris e uma cantora desconhecida. Em 1977, uma gravação de Blind Willie Johnson foi incluída no Voyager Golden Records como amostra da diversidade musical do planeta.    
 
          Na década de 30 brilhava aquele que seria o mais notável nome do Blues até então. Robert Leroy Johnson nasceu no dia 8 de maio de 1911 em Hazlehurst, Mississipi. Foi cantor e guitarrista e durou cerca de 27 anos apenas. Ele é responsável pelo consagrado formato de doze compassos para o Blues. Influenciou nomes importantes do Blues como Muddy Waters que o considerava como sendo o maior cantor de Blues de todos os tempos. Robert Johnson gravou 29 musicas em um total de 40 faixas em duas sessões  de gravação em San Antonio, Texas em novembro de 1936 e em Dallas, Texas, em junho de 1937. Treze musicas foram gravadas duas vezes. Artistas como Led Zeppelin, Eric Clapton, Rolling Stones, entre outros regravaram suas musicas. Segundo reza a lenda, Robert Johnson teria vendido a alma ao Diabo na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, Mississipi. Dizem que um estranho havia se aproximado, se apresentado e se oferecido para afinar seu violão. Alguns dão conta de que o mesmo teria bebido Whisky envenenado servido a pedido do marido de uma de suas amantes. Outros dizem se recuperaria do envenenamento, mas morreria pouco tempo depois por causa de sífilis, tiro de arma ou atacado por cães pretos. O fato é que a lenda está posta. Diziam que ele tocava de costas para a platéia para não mostrar os olhos fumegantes quando o demônio assumia o controle durante suas apresentações. Há também quem diga que ele tocava de costas para o público para que não vissem os acordes que ele tocava.
 
          Big Bill Broonzy foi mais um negro americano nascido no MIssissipi, mais precisamente em Scott Country em 26 de junho de 1893 ou 1898, a enveredar pelo mundo do blues. Era guitarrista ensinado por Papa Charlie Jackson, quando em 1924 foi para Chicago, Illinois. Era um musico requisitado principalmente pelo público branco para tocar no formato voz e violão que era considerado mais autêntico, mesmo que tenha inserido outros instrumentos ao Blues como Traps, baixo acústico e harmônica, . Lançou discos como Big Bill and His Chicago Five por selos menores da American Record Corporation, como Melotone e Perfect Records. Em 1939 a ARC foi adquirida pela CBS e as gravações de Broonzy passaram a ser feitas pela Vocalion Records e em 1945 pela Columbia Records. Key to the Highway foi escrita e gravada nessa época e é uma de suas musicas mais famosas. Também nessa época tocava por bares do sul dos Estados Unidos com Memphis Minnie. Chegou a excursionar pela Europa em 1956. Voltou para Chicago em 1958 e morreu de câncer na garganta.
 
          John Lee Curtis Willianson tocava harmônica e sua primeira gravação Good Mourning, School Girl foi um sucesso em 1937. Nascido em Jackson no Tenessee em 30 de março de 1914, tornou-se um sinônimo da harmônica no Blues nas décadas seguintes. Era conhecido como Sonny Boy Williamson e morreu assassinado em 1948.
 
          Aaron Thibeaux Walker nasceu em Linden, Texas, no dia 28 de maio de 1910. Era de descendência afro-americana e Cherokee e foi cantor, guitarrista e compositor. Ainda jovem mudou-se com sua família para Oak Cliff, região sul de Dallas, e aprendeu guitarra com Blind Lemon. Gravou como Oak Cliff T-Bone pela gravadora Columbia Records em 1929. Seu estilo só apareceu mesmo em 1942 quando começou a gravar pela Capitol Records. Entre 1946 e 48 gravou a maioria das suas produções na Black & White Records. A canção Stormy Monday serviu de inspiração para B.B. King e The Allman Brothers. Teve como grande admirador e imitador confesso de seu estilo ninguém menos  que Jimi Hendrix. T-Bone Walker morreu aos 64 anos em 1975. 
          Nesse período criou-se e definiu-se certos padrões do Blues que seguem até hoje, como a repetição de 12 compassos e solos de guitarra independentes da harmonia e totalmente improvisados. Foi uma época que influenciou e definiu também o Jazz e data da utilização de instrumentos eletrificados. Existem várias coletâneas com diversos artistas de Blues dessa época que foram lançadas em CDs nos últimos anos. Para a maioria acostumada com a música moderna muitos destes artistas e suas gravações podem parecer ridículas devido a sua rudimentariedade, mas influenciaram diretamente as gerações seguintes. Claro que muitos bluseiros famosos não foram citados acima, pois preferi priorizar o inicio de tudo, o chamado Delta Blues. Mais pra frente voltarei ao assunto Blues falando de outros gênios e ícones do estilo. Por hora fica a dica.

sábado, 15 de agosto de 2015

Black Sabbath, a origem do Heavy Metal



          Uma das coisas mais interessantes de ser apaixonado por musica, como é  meu caso, é ir além do que está gravado e sendo reproduzido pelos alto falantes. É uma característica dos metaleiros da minha geração tentar juntar o máximo de informações possíveis e debater com os amigos a respeito. Hoje com a internet isso fica mais fácil, mesmo sabendo que muito do que se compartilha na rede é informação incompleta e muitas vezes até mentirosa. Antes saber a origem e o nome de cada integrante de uma banda, onde o album tinha sido gravado e coisas do tipo já era mágico de certa forma. Ter um grande conhecimento a respeito de certas bandas era sinal de status entre seu grupo. Muitos excogitavam bandas bizarras apenas para tirar onda entre os amigos. Recentemente li a biografia do Ozzy Osbourne, "Eu sou Ozzy", e a biografia do Black Sabbath escrita por Mick Wall. Pretendo ler a biografia de Tony Iommi ainda este ano, pois parece ser bem interessante porque, de acordo com os dois livros que acabei de citar, Iommi é o verdadeiro responsável por tudo que o Black Sabbath representa, tendo carregado nas costas toda a glória e todos os fracassos da banda. Hoje quando se vê um Sabbath lançando um ultimo disco, 13, onde termina com os mesmos ruídos que abriram o primeiro disco com trovões e chuva, se esquece que a banda lançou discos medíocres e teve grandes problemas com drogas e diversas formações diferentes. Quando se lê as versões de várias pessoas e se escuta a obra do artista, muitas coisas passam a fazer sentido. Já tenho o hábito de ler revistas direcionadas a instrumentos e a produção musical para ter informações mais técnicas sobre a sonoridade dos álbuns e a performance dos músicos, é uma leitura complementar, além de ser um hábito muito benéfico intelectualmente, ainda é uma fonte que possibilita uma apreciação diferenciada. Tenho a sorte de tocar guitarra e baixo, portanto posso saborear de diversas formas as composições e a sonoridade das bandas que eu adoro e respeito.
          Vou resumir a história do Black Sabbath nesta postagem tendo como base minhas impressões a respeito da banda depois que li as biografias citadas, revi documentários, escutei novamente todos os álbuns e pesquisei outras fontes relacionadas a banda. Tudo isso pelo simples prazer de apreciar o trabalho deles. Saber que essas pessoas as quais admirei durante todos estes anos são de carne e ossos como eu e estão sujeitos a tudo que eventualmente pode ocorrer com qualquer um, dá certo alivio e aumenta ainda mais a admiração que tenho por eles. Engraçado, mas guardadas as devidas proporções, também tive problemas para formar bandas, relacionamentos conturbados com outros músicos e o fato de culturalmente no Brasil o musico ser desprezado, inclusive e principalmente pela família, tive que levar uma vida profissional paralela em outras áreas para garantir o sustento e o pouco que acumulei nestes anos. 
          Destaco o Black Sabbath por diversos motivos. O termo Heavy Metal foi usado pela primeira vez quando um jornalista o utilizou para desdenhar o trabalho do grupo. A banda serviu de base para 90% dos grupos que surgiram depois. Mais de 40 anos após o lançamento de seu primeiro disco consegue lançar mais um álbum e fazer uma turnê mundial. Claro que reconheço a existência de bandas e músicos anteriores ao Sabbath que também tinham uma veia metálica em suas sonoridades, mas a banda de Tony Iommi e companhia foi a síntese do estilo, e para mim, de forma definitiva.  Então vamos a história.
          Quando os integrantes do Black Sabbath começaram a enveredar para o lado artístico a Inglaterra, assim como toda a Europa, ainda vivia a crise do pós guerra. Birmingham era um lugar pobre e muito hostil, conforme relatos dos próprios integrantes da banda. Enquanto Ozzy vivia com seus pais que trabalhavam na industria dia e noite para garantir o sustento da família, o mesmo tinha problemas na escola que se agravaram durante sua adolescência. Trabalhou afinando buzinas na empresa em que sua mãe trabalhava. Teve como atividade trabalhar num matadouro abatendo gado. Um belo dia decidiu-se pela música, não sem antes ter sido preso ao tentar roubar uma loja. Seu pai comprou um sistema de PA e ele pôs um anuncio numa loja procurando músicos para formar uma banda. Isso atraiu Geezer Butler com quem passou a tocar. Nesse meio tempo, Tony Iommi já era conhecido por ter guitarra e tocar em algumas bandas. Nessa fase conheceu o baterista Bill Ward. Para Tony as coisas não foram fáceis. Na fábrica em que trabalhava foi vitima de um acidente com uma máquina que decepou a ponta de dois de seus dedos. Isso ocorreu no seu ultimo dia de trabalho no local ao substituir um colega que havia faltado numa etapa anterior a dele na produção.
          A banda de Ozzy e Geezer não evoluía, pois os músicos não eram as pessoas certas para o trabalho e isso era frustrante. Chegavam a passar horas bebendo e improvisando covers de Blues e Jazz. Com muito esforço e persistência o guitarrista improvisou próteses para seus dedos e aos poucos voltou a tocar, mesmo com a indicação médica que isso seria impossível e que ele deveria se contentar em exercer outra atividade. Talvez nesse período o guitarrista tenho construído toda a armadura que o permitiu seguir em frente durante mais de 40 anos sem ser derrubado. Mesmo com as dores e as dificuldades, foi desenvolvendo um estilo próprio e em nenhum momento o fato de não ter a ponta dos dedos anelar e médio foi motivo de pena ou receio de qualquer pessoa em relação a sua musicalidade. O que mudou a história da musica aconteceu ao verem o anuncio de Ozzy na loja, ele e Bill ficaram curiosos e então lembrou-se do menino da escola que conhecera algum tempo antes chamado Ozzy. Pensou que não poderia se tratar da mesma pessoa, pois aquele cara nem cantava, muito pelo contrário, era um idiota que ficava fazendo palhaçadas para escapar das encrencas. Ao ir até a casa de Ozzy acompanhado de Bill, suas suspeitas foram confirmadas. Mesmo com a decepção, Tony foi convencido por Bill a dar uma chance, afinal as coisas não estavam nada boas. Ozzy sugeriu seu amigo Geezer para completar a banda. Alguns músicos acompanharam o lendário quarteto que focavam em tocar jazz e blues em diversos lugares. Costumavam encostar uma van com seus equipamentos em frente aos locais onde sabiam que alguma banda mais conhecida iria tocar. Caso acontecesse algum problema eles estavam prontos para assumir e salvar a noite. Numa dessas oportunidades o Jethro Tull teve problemas e a banda assumiu o lugar da banda que já era bem conhecida. No meio do show viram Ian Anderson na platéia que foi justificar-se, eles não poderiam fazer o show porque estavam com problemas no ônibus que transportava a banda e os equipamentos. O líder do Jethro Tull gostou do que viu e posteriormente chamou Tony Iommi para sua banda.
          Esse foi um ponto crucial na história da banda. Com Tony fora após a banda ter feito alguns shows e conseguir juntar algum público, Ozzy, Geezer e Bill ficaram bebendo e conjecturando um futuro negro para eles. O sentimento era de que o sonho tinha acabado antes mesmo de alguma coisa mais séria acontecer. Para quem tem banda e tem que conviver com a saída de um integrante é sempre dificil, imagine para o Black Sabbath que girava em torno das ideias e o talento de seu guitarrista. Já haviam passado diversos músicos e os três já tinham tocado em outras bandas, mas sem Tony e sua van caindo aos pedaços os três estavam abandonados a própria sorte e essa era péssima. Para Tony Iommi aquilo era a realização pessoal, pois tinham decretado o fim de sua carreira como musico quando teve o acidente na fábrica. Agora estava ali para tocar com uma banda conhecida e em um evento que tinha ninguém menos do que Rolling Stones promovendo. Entretanto, pouco tempo depois o guitarrista volta para a banda. Não lhe agradou ser um musico de apoio, mesmo não sendo a banda de seus sonhos, aqueles três caras que havia deixado para trás, eram a base que ele precisava para seguir em frente. Desde então deixou claro de como as coisas funcionariam. Tendo grande influência sobre os três, suas condições nunca seriam questionadas, afinal, Ozzy, Geezer e Bill estavam aliviados, suas carreiras e sua banda estavam salvas. O impacto da volta de Tony a banda acelerou o processo para a gravação do primeiro álbum.
          Após gravar um single como Earth, descobriram que havia outra banda com esse nome. Geezer sugeriu Black Sabbath, tirado do filme de terror. Outra coisa que chamou a atenção da banda era como o cinema enchia quando passava algum filme do gênero. Decidiram fazer musica para assustar, já que não faziam muito sucesso entre as mulheres mesmo. Geezer começou a escrever aquelas letras que falavam de demônios e magia negra inspirado nos livros que lia. Tony Iommi tirava os riffs que se tornariam clássicos de sua guitarra. Assim nasceu Black Sabbath, N.I.B, The Wizard e a coisa não parou mais. Não tardaram a gravar o primeiro disco que foi lançado em uma sexta-feira 13 de fevereiro de 1970. Assim nascia a primeira e mais influente banda de Heavy Metal.
           Quando se ouve o primeiro álbum, se lê as declarações das pessoas envolvidas, vê videos da época, corre atrás de informações a respeito de todo o contexto, passasse a entender a sonoridade da banda, o que aquilo representa e o mais importante, faz com que tenhamos consciência de que as coisas não são fáceis pra nossos ídolos também. Imagine o guitarrista perder seus dedos, ter que trabalhar como escravo praticamente em empregos insalubres e ganhar uma miséria para se sustentar. Imagine investir na musica sem se ter a minima ideia do que pode acontecer e ainda se deparar com um monte de gente do mercado musical bombardeando a banda de diversas formas. Pois tudo isso aconteceu com o Black Sabbath e acontece com um monte de gente o tempo todo. Por hoje fico por aqui, em breve sigo contando mais a respeito desses caras e de outras bandas que julgo relevantes para compartilhar com todos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Compartilhamento de opiniões

         
          Estava conversando com amigos e em determinado momento surgiu o assunto que quero abordar aqui hoje. Falo das pessoas que eventualmente seguimos no Twitter, no Youtube, Facebook, entre outros, a procura de informações, afinidades musicais ou de outra origem qualquer. Felizmente para nós, podemos escolher algumas dessas pessoas que emitem suas opiniões em blogs sobre diversos assuntos, como é o meu caso. Para ilustrar cito alguns exemplos de programas ou blogs que sigo atualmente buscando informações:
          O canal República do Kazagastão é o mais interessante pra mim por diversos motivos. Tem como seus apresentadores do Heavy Lero, programa semanal, Gastão Moreira e Clemente Nascimento, duas personalidades que entendem de musica e se dedicam a buscar informações a respeito. Cada um deles tem uma grande estrada nesse ramo e são fontes confiáveis sobre diversos seguimentos de Rock em geral. Num formato interessante onde juntam imagens de clipes e shows, com comentários dos dois sentados num sofá rodeados de bonecos e instrumentos como se tivessem num descontraído bate-papo. A cada semana há uma atração diferente em compactados dez minutos de programa aproximadamente. Para completar, Gastão compartilha de seu vasto arsenal de entrevistas dos tempos da MTV trazendo personalidades muito influentes do Rock.
       
          Posso citar outros programas como o Rig On Fire, onde Silas Fernandez fala a respeito de equipamentos e seus trabalhos. O blog Na Mira do Régis Tadeu no Yahoo, onde o ex-dentista e agora crítico musical escreve sobre musicas e outros assuntos aos quais ele acha oportunos. Tem o canal da Guitar Player que apresenta diversos videos de apoio para as matérias da revista. Os canais oficiais de diversos artistas que admiro e também de alguns produtores ou fabricantes que discursam sobre música, equipamentos e plug ins.
          Pois bem, agora vem o lado ruim disso tudo. Várias pessoas totalmente descompromissadas com qualquer coisa, postam vídeos quase que diariamente apenas para reclamar e falar mal de outras pessoas com o claro objetivo de conseguir curtidas ou gerarem comentários. Nesse momento dou-me o direito de não citar ninguém, pois o objetivo não é criticar os videos ou opiniões de alguém, e sim fazer os nobres leitores que dedicam um tempinho para acompanhar minhas postagens, a pensar a respeito. Será que vale a pena dar mídia a quem só quer usar as ferramentas que a internet disponibilizam apenas para detonar alguém?
Acho que todo mundo tem o direito de postar videos e escrever textos sobre o que quiserem. Porém, há sempre que se pensar a respeito das intenções da pessoa ao emitir uma opinião antes de apoiá-la e sair compartilhando e comentando, mesmo que seja para discordar, pois uma hora ou outra vai se comprar uma ideia errada e acabar caindo em descrédito. Portanto, desconfie de alguém que passa o tempo todo denegrindo a imagem de outras personalidades, banalizando o trabalho de alguém, sem que haja uma opinião sincera motivando isso. A dica que dou é buscar acompanhar jornalistas que tem uma reputação a zelar, gente que tenha um trabalho bacana e que justifique sua exposição, coisas assim. Tudo bem que o politicamente correto de hoje é a coisa mais irritante, mas admirar quem usa uma linguagem dura e que atira pra todo lado sem oferecer credibilidade ou mesmo informações uteis, é mais patético ainda. 
          O que me levou a escrever isso não foi alguém que tenha me estressado, mas sim aqueles que tem entrado em contato comigo para tirar dúvidas sobre equipamentos que já usei por exemplo. Ou aqueles que ouvem um dos cds que indico e comentam que tinham a mesma opinião que eu sobre algum assunto, mas nunca comentaram porque achavam que era besteira. Esse lado construtivo que devemos tentar disseminar. Assim como ajudo algumas pessoas, tenho aprendido muito com muitas delas, afinal a internet é uma ferramenta muito poderosa, mas precisamos aprender a usá-la de forma construtiva para o nosso próprio benefício.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Roadshow Avid para Home Studio

         
         Em janeiro de 2013 eu fiz um curso de homestudio no IGAP-RS buscando conhecimento nas áreas de gravação e mixagem em Homestudio. Posso dizer que o valor investido na época teve retorno quase que imediato, pois foi o ponta pé inicial para pôr em prática meu projeto de homestudio. Pois bem. Fui convidado a participar de uma apresentação de aproximadamente 4 horas sobre as soluções propostas pela Avid para produção tanto musical como audiovisual, mas mais focada em gravação de áudio mesmo. O palestrante foi Eduardo Andrade, que entre outras coisas é especialista em soluções da Avid, engenheiro de som e produtor musical. A idéia era demonstrar o Pro Tools 12, as interfaces de audio Duet e Quartet da parceria com a Apogee e as linhas S3 e S6, que são superfícies de controle EUCON, assim como fazer uma breve apresentação sobre os novos conceitos da empresa e sua linha de produtos. Em resumo, a apresentação foi em uma das salas de aula da escola na qual o IGAP está incluso. Teve a participação de donos de estudios, produtores, musicos e entusiastas da área. Todos trabalhando diretamente em estudios ou indiretamente em produções musicais ou som ao vivo. Eduardo Andrade conduziu sua apresentação de forma descritiva enquanto ilustrava o que falava com o apoio de slides. Num segundo momento, apresentou alguns produtos como um controlador, que também é interface de áudio e alguns recursos do Pro Tools 12 apoiado num macbook, uma interface Apogee, uma Avid Omni e alguns acessórios.
          Se para alguns a palestra foi muito interessante, pra mim foi definitiva para aumentar minha desconfiança e certos pensamentos sobre a Avid e o mercado em geral. Uma coisa que ficou bem clara é intenção da Avid em dividir bem o que é para estudios grandes e profissionais e o resto. Como assim? Explico: O controlador apresentado é o modelo S3, ainda um protótipo e apresenta 16 faders de controle motorizador, leds demonstrando níveis de sinal, diversos botões e teclas com funções programáveis e ainda é uma interface de 4 canais, tudo isso para ser usado com o Pro Tools. Também foram apresentados outros controladores que podem ser vistos no site da Avid e da Quanta, mais compactos e com a mesma característica de construção com leds, teclas programáveis e uma design moderno e sedutor. O próprio Pro Tools tem novas funções, que para muitos que trabalham com outras Daws não são tão novas assim, como função freeze e a possibilidade de transmissão de videos para produções cooperativas a longa distancia via web. O que mais chamou a atenção é o fator dinheiro. E ai que está o grande divisor de águas que falei anteriormente. Os custos para adquirir um pacote razoável, que inclui o software Pro Tools, interface e controladores, para uma boa produção musical ficaram muito altos e necessitam de outros fatores para serem bem aproveitados, como máquinas potentes e conexão de internet de grande desempenho.
          O conceito Avid Everywhere, não só elevou os custos de seus produtos, como propõe superfícies modulares que podem ser ampliadas com o tempo e uma forma diferente de trabalhar. Não melhor, apenas diferente mesmo. Não consegui, do alto da minha ignorância, enxergar algo realmente empolgante como poderiam imaginar alguns. Não vi nada que pudesse melhorar consideravelmente uma musica ou facilitar realmente uma tarefa de produção. Talvez a interligação via ethernet, mas isso também não é novidade. O que eu vi foi um design sedutor, a incorporação de algumas marcas de terceiros, que podem trazer de arrasto alguns usuários de outras plataformas, algumas estratégias de venda apenas diferentes também, e por aí vai. Mesmo o Pro Tools First é uma tentativa de seduzir quem não trabalha com a DAW. Não consegui perceber nenhum movimento na empresa de oferecer monitores de áudio ou fones de ouvido próprios, ou instrumentos virtuais integrados que pudessem competir com os populares do mercado, coisas assim, que somassem na sonoridade e que estimulassem o uso da marca em ambientes mais modestos de produção, já que a marca divulga um slogan que sugere uma total integração na produção de áudio e vídeo.
          Era isso que tinha para escrever a respeito do evento no qual participei e fiquei muito feliz de ser lembrado para o convite. Deixo claro que entendo a necessidade das empresas de se renovar e quase que impor aos clientes uma constante atualização, mas isso não quer dizer que concorde com tal prática, muito pelo contrário, acho  a pratica abusiva e que só produz coisas coisas descartáveis ou com uma vida útil muito curta. A Apple é outra empresa que tem feito a mesma coisa, investe em design e em recursos que obrigam um upgrade de hardware quase que anual para acompanhar todas as novas funcionalidades. Entretanto, o ganho real no trabalho e na utilização de tais recursos está muito aquém do investimento necessário para se manter atualizado. Em tempos de crise econômica e incertezas, a convicção que fica é que as grandes empresas definitivamente estão trabalhando para os grandes clientes, que são minoria absoluta e que a tal integração que todos pregam, não passa de estratégia de marketing. 

          Há de se ressaltar que fiquei feliz de ser convidado para o evento. Pude rever amigos e me atualizar sobre alguns conceitos. O meu problema é com o resultado prático de tudo isso. Em momento algum me senti estimulado a migrar para o Pro Tools ou tentar adquirir um dos novos equipamentos. A sensação foi mais de as coisas chegarem no limite, onde apenas vender algo bonito e aparentemente complexo, que acompanhe a evolução tecnológica é o mais importante. Não que não haja nenhum ponto a favor. Com certeza o lado estético seduz bastante, a parceria com a Apogee significa um salto de qualidade, diferente da época da M-Audio que popularizou o Pro Tools entre as camadas mais amadoras com sua versão M-Powered. O Bounce offline agiliza o tempo de finalização das produções, entre outras funções interessantes. Mas nada justifica a constante mutação, com inúmeras justificativas e estratégias de marketing, que de certa forma depõe contra os lançamentos anteriores. Acho que a maioria dos engenheiros de áudio não se importaria de trabalhar nas versões antigas, acrescentando gradualmente as novas tecnologias gradualmente, porém a empresa tem que justificar sua existência e estar sempre competindo com seus rivais, sendo que o jogo já está ganho, o mercado que pode pagar por seus produtos vai pagar de qualquer forma. Acho que a Avid elitizou demais seu publico alvo e acabou esquecendo do mercado acendente dos homestudios. 
          Vamos ver o que as outras empresas irão inventar para tentar igualar o jogo. Espero que seja algo simples e inovador, que ninguém tinha pensado antes. Talvez uma interface de áudio que não permita finalizar a tarefa enquanto a musica não estiver boa, ou que interrompa uma gravação de voz quando ela estiver desafinada demais, ou um baterista que esteja tocando muito fora do tempo. Isso com certeza aumentaria a qualidade das produções.
 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Interface Steinberg UR 44

          
 
           Seguindo com mais uma postagem, hoje vou falar de assunto que já não é novidade por aqui. Interface de áudio. Sim, mais uma. Já falei da Tascam US 1800, que causou certa polêmica devido a diversas reclamações e comentários negativos em fóruns e na própria página do importador. Essa interface, infelizmente, ficou comigo por pouco tempo, portanto não pude ter uma opinião definitiva a respeito, pois não usei todos os recursos. Também falei de uma interface bem popular com o pessoal de estudios amadores e homestudios, a Profire 2626 da M-Audio. Essa pude usar mais tempo, mas foi meio frustrante devido a espectativa que eu tinha em relação a ela. Porém, conheço pessoas que tiram um baita som e fazem bons trabalhos com ela. Contudo, o que me motiva a falar novamente de interfaces de áudio é um produto que me satisfez até aqui e que tenho usado a mais de um ano. Falo da interface Steinberg UR 44.
          Adquiri essa interface junto ao importador da Yamaha/Steinberg no Brasil, ou um dos importadores, o Atelier do Som do meu amigo Marcello Dalla. Na ocasião estavam lançando a série no Brasil e a descrição das características do produto me interessaram bastante. A fusão Yamaha/Steinberg foi algo interessante também, pois já era de reconhecida qualidade a marca Yamaha. As lendárias caixas NS 10 são um exemplo disso, mas quem conhece os instrumentos e os mixers também pode testemunhar a favor, sem contar os tecladistas, é claro. A Steinberg, por sua vez, tinha o knownhow de projetar o driver ASIO, interfaces midi e o popular Cubase e seus assemelhados. Quando os alemães e os japoneses juntaram forças, pareceu-me muito atraente o resultado dos seu futuros hardwares e softwares. Apostando nisso e por já trabalhar com um Mixer da Yamaha, aventurei-me em investir nessa promessa.
          Ai surge a proposta e eu adquiro a interface e mais alguns itens como um par de HS 8 e os controladores CMC para fazer companhia ao meu Cubase 7.5 e meu mixer MG166c. Não cheguei a instalar o Cobase AI 6, pois já tinha o 7.5. Porém, tive uma experiência bem interessante com o Cubase AI 5, que veio com o mixer no início de meus estudos. A grande vantagem de adquirir essas versões limitadas dessas Daws anteriormente, foi poder abrir caminho para quem não tem muita intimidade com esses softwares, pois essas opções apresentam recursos bem completos para iniciantes aprenderem a gravar, mixar e desenvolver seus projetos.
          Então chegou a minha encomenda. A interface veio em sua caixa, com um guia rápido, cabo USB, fonte individual e a licença do Cubase AI 6. Já tinha assistido aos videos e lido as descrições a respeito dela no site. Detalhe interessante, não incentivo as pessoas interessadas em adquirir, principalmente equipamentos de áudio, a ficar lendo opiniões em fóruns da internet, pois a tendência natural é o pessoal defender com unhas e dentes os equipamentos de sua preferência e criticar veementemente outras marcas e buscar um milhão de defeitos, quando na verdade a pessoa só está adquirindo uma ferramenta pra trabalhar nas suas musicas e ver o que sai. Seguindo com meu comentário a respeito da interface. Instalei os drivers baixados diretamente do site, fiz o registro do produto e pus para funcionar.
          Falando da qualidade da conversão, que promete uma resolução de 24 bits por até 192 kHz, não tenho como fazer uma análise mais técnica, mas aparentemente cumpre bem a função. O som obtido é muito claro e tando na reprodução como na gravação de forma geral. Também em nenhum momento tive problemas com o driver tanto no Windows como no Mac. A interface apresenta 6 entradas, nas quais a 1 e 2 compartilham o mesmo botão de Phantom Power 48 vc. É uma conexão combo, composta por XLR e conexão P10 de alta impedância para instrumentos passivos. Aqui já percebi algo interessante. Ao conectar qualquer uma das minhas 4 guitarras que possuo diretamente nas entradas 1 e 2, obtive um som nítido e bem transparente, sem ruídos anormais mesmo com o volume bem alto. Se comparado ao mesmo recurso, tanto da Profire 2626 como da Tascam US 1800, já deu uma diferença grande os tais prés D-Pre da Yamaha. 
          O mesmo se conferiu ao usar microfones tanto dinâmicos como condensadores. O outro par, 3 e 4, apresenta conexões combo e alimentação phantom power ativada por apenas um botão também, com a diferença que ao invés de ser XLR e entrada para instrumento, temos XLR e e entrada de linha comum. Ao conectar os microfones a reposta foi a mesma das entradas 1 e 2, já com os baixos ativos o sinal mostrou-se bem variado dependendo do pré-amplificador dos captadores. O Tagima Millenium mostrou-se mais comprimido e com leve distorção e o Court apresentou maior dinâmica e ganho, mas apresentou certo achatamento também. O mesmo baixo Court testado com sua captação passiva na entrada 1, de alta impedância, já mostrou uma naturalidade maior em termos de dinâmica e timbre, porém perdeu o ganho significativamente. Isso é normal, pois há uma vantagem quando se usa captação ativa de ter uma pré-amplificação para dar ganho e corpo a sonoridade do instrumento. Infelizmente não tenho guitarras com captação ativa para fazer o teste diretamente nas entradas de linha, mas multiefeitos e outros equipamentos conectados as entradas de linhas ofereceram uma boa resposta.
          As saídas são colocadas atrás do equipamento, junto com mais um par de entradas de linha que são bem honestos, mas que não apresentam novidade alguma, sendo úteis para conexão de equipamentos externos já que não há nenhum recurso de insert. Temos as saídas de 1 a 4, balanceadas, com conexão P10 e mais a saída Main Out estéreo, também balanceada para monitoração. Temos a possibilidade de utilizar dois fones de ouvido com volumes independentes com conexões na parte frontal da interface. Há a possibilidade de trabalhar diretamente com Iphones e Ipads através de um recurso específico, porém não o utilizei nenhuma vez para poder relatar sobre seu funcionamento, assim como suas conexões midi. O interligação interface/computador é feita através de conexão USB 2.0 bem comum nesse tipo de equipamento. Não tive problemas com latência, o que prova na prática que o sistema de monitoração sugerido é bem interessante.
          Em termos de software o DSP Mix FX, é uma agradável versão digital de um mixer com recursos bem completos como inversão de fase, corte de graves com opção de escolha de frequência, pan e volumes individuais e fácil direcionamento de bus. Além disso temos a opção de usar o Sweet Spot Morphing Chanel Strip como insert de compressor e equalizador de 3 bandas, simulando um channel Strip Yamaha que vem nas mesas, porém com um visual mais na linha Cubase mesmo. O recurso Rev X é um reverber da Yamaha bem parecido com o TrueVerb da Waves em termos de sonoridade e possui algumas opções de ajustes bem interessantes. A ideia proposta é tentar simular aquela sonoridade caracteristica dos módulos clássicos de reverb da marca. Outro recurso nativo é o simulador Guitar Amp Classics da Yamaha que podem quebrar o galho na hora de gravar ou mesmo tocar ao vivo uma guitarra conectada diretamente na interface. Existe quatro modelos de amplificadores que buscam atingir o som de amplificadores de guitarra da Yamaha.
          Todos os recursos descritos aqui podem parecer interessantes pra mim como os prés e a construção bastante robusta em um chassi de metal não necessariamente serão sedutores aos olhos de outras pessoas. Outros recursos não me atraíram tanto como os simuladores de amplificadores, mas podem agradar outras pessoas, isso vai depender do gosto pessoal mesmo. O ideal seria ter mais saídas e entradas e a função de conectar inserts, mas a de se levar em consideração que este modelo foi projetado para homestudios e trabalhos mais versáteis do que gravar baterias acústicas, som ao vivo e uma quantidade grande de instrumentos. Para isso existem as outras versões dessa linha, basta verificar no site do fabricante. 
          Sem ficar em cima do muro, a construção e a sonoridade da Steinberg UR 44 é superior a Profire 2626 e a Tascam US 1800, que foram interfaces que usei anteriormente com os mesmos instrumentos e com as mesmas técnicas. Isso é apenas uma opinião particular, sendo que a primeira busca maior flexibilidade em estúdio e a segunda é direcionada mais para o som ao vivo. Antes de escolher qual tipo de interface vai se adquirir é fundamental saber para quê ela vai ser usada e quanto vai ser investido. O ideal e aconselhável é ter uma boa noção do tipo de trabalho e a composição geral do ambiente de trabalho. Não adianta investir alto em uma interface e não ter bons monitores, computador, cabos, um ambiente adequado e com com energia elétrica confiável. O resultado do trabalho é a soma de todos estes elementos.
          Eu decidi optar pelos produtos Yamaha/Steinberg na sua maioria por afinidade e utilização prévia, aparência, durabilidade e pela sonoridade é claro. Tudo isso levando em conta a disponibilidade de recursos que tinha para investir e o conhecimento que fui adquirindo testando equipamentos, gravando em estúdios maiores e fazendo cursos. Talvez se tivesse condições de adquirir outros produtos de outras marcas, teria uma opinião diferente, mas precisaria testar todos antes de firmar uma opinião definitiva. O importante é que essas ferramentas servem a um único propósito, fazer música, e quanto a isso, não tem sido os hardwares nem os softwares os limitadores na grande maioria dos casos e sim quem trabalha com eles.