terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O fim da musica ao vivo

         
          É com grande tristeza que chego a conclusão de que muito em breve as pessoas se darão conta de que assistir a um show de uma banda tornou-se uma opção de entretenimento dispensável. Parece meio absurda essa idéia, principalmente para pessoas iguais a mim que esperavam anos até uma banda grande aparecer pra tocar por estes lados. Mesmo as bandas nacionais vinham pouco para o sul. Estamos falando da década de 90, até para o centro do país era complicado ver grandes bandas ao vivo. Entretanto, no inicio dos anos 2000 passou a ser comum ter bandas gringas passando por aqui em meio a suas turnês. Se era um evento quase anual uma banda de Rock ou Metal tocar por aqui antigamente, nesse período as bandas começaram a fazer seus shows quase que mensalmente. Ainda faltavam condições mais apropriadas, pois os eventos eram realizados em locais pequenos e com pouca estrutura na maioria das vezes. Sem contar os ingressos caros, é claro. Lembro de shows como do Helloween, Judas Priest e Malmsteen que não dava para se mexer dentro do bar Opinião. A maioria dos artistas tocavam ali, mas a casa comporta 2000 pessoas no máximo, mesmo assim, muitas vezes essa capacidade era ultrapassada em centenas de pessoas. Por sorte não aconteceu nenhuma tragédia neste período. Entretanto, em 2013 Santa Maria não teve a mesma sorte. Mesmo não sendo num show de Rock, várias pessoas morreram em uma festa, atraindo os olhos do Brasil todo para o fato. Novas leis foram criadas e ficou ainda mais difícil reunir condições adequadas para realizar um show. Várias casas de espetáculos foram interditadas e bares foram fechados. Gradualmente as coisas começaram a mudar novamente.
          Cheguei a assistir bons shows e com condições decentes para que os mesmos fossem interessantes e seguros para o público neste ano em Porto Alegre, mas foi no Pepsi On Stage, pois quando se meteram a realizar o mini Monsters of Rock no estádio do Zéquinha a coisa virou bagunça. Entretanto, reparei que a maioria das pessoas que vai aos shows não demonstra grande interesse pelo que está acontecendo no palco. Tirando alguns fãs alucinados, a maioria parece ir apenas para marcar presença e mostrar as fotos para os amigos nas redes sociais. São tantas pessoas interessadas em assistir aos shows através das telas de seus celulares que fica a sensação de que eles são idiotas em pagar por um ingresso caro para ver o show da mesma forma que veriam em suas casas. Claro que não são todos, mas uma grande parte faz isso e a demanda cresce cada vez mais. Se essas pessoas se tocarem que para elas não é tão interessante ir ao show, talvez se contentem em ficar em casa assistindo pelo Youtube. Existem muitas bandas que fazem performances on line já prevendo isso. Para eles é melhor, haja visto que não precisarão gastar com longas viagens e despesas de uma turnê, o público ficará em casa assistindo pelo computador sem gastar com deslocamento, ingresso e outras coisas mais.
          Tirando a falta de empolgação em ver um artista ao vivo por parte da audiência, temos o motivo mais forte e que por esse não dá pra criticar as pessoas que preferem ficar em casa, falo da violência. As grandes cidades estão vivendo o período mais violento da história. Fica muito complicado passar algumas horas na rua a noite e se deslocar para assistir a um show. Com os ingressos caros, a bebida mais ainda, não se pode dirigir após consumir álcool, mesmo assim é muito difícil encontrar lugar para estacionar com segurança, há o risco ainda de ter o carro roubado, mesmo com o transporte público estando disponível é uma aventura meio estúpida andar de ônibus a noite onde acontecem os shows. Claro que ainda não se notou uma grande desistência por parte do público e nem dos produtores, mas isso tende a acontecer muito em breve.
                    Volto ao inicio do texto e relembro quando fui ver o Sepultura com os Ramones em 1994 em porto Alegre. Parece que uma nuvem mágica me conduziu por todo o trajeto até chegar ao local do show. Lá dentro parecia que todos estavam hipnotizados com o som e o ambiente. Foi uma experiência memorável. Era como se fosse uma grande celebração da música e que jamais aconteceria algo igual novamente. Hoje, tirando os moleques imbecis que fazem idiotices pelos seus ídolos de plástico, os verdadeiros amantes de música sentem-se mais incomodados do que felizes em um show de uma banda que gostam. Tirando o clima meio forçado dos ambientes, paira no ar uma insegurança perturbadora. Mesmo indo ao show, sempre existem grandes reflexões na hora de comprar o ingresso, na hora de sair de casa e mesmo chegando ao local do evento, parece desconfortável ficar na fila pra entrar, sair para comprar uma bebida e voltar para casa assim que a banda pare de tocar.
                    Muitos foram os culpados para que as coisas chegassem a esse ponto. Cada parte envolvida contribuiu para que isso acontecesse, os organizadores, o público, os artistas e a sociedade em si. Por isso retomo a afirmação lá do inicio do texto, em breve não teremos mais musica ao vivo. O público prefere assistir a apresentações repletas de playbacks e os organizadores também preferem vender esse tipo de mercadoria, os investidores também optam por apoiar essa imundice toda. As bandas de moleques não ensaiam mais nas garagens ou nos quartos improvisados, eles trocam arquivos de computadores que produziram nas suas próprias casas. Eles não tem mais espaço para tocar ao vivo nas escolas, nas feiras e nos bares. Ninguém paga para ter um cd de uma banda famosa, imagine se vão pagar para ver uma banda iniciante. Felizmente tive a oportunidade de assistir a bons shows e tocar em uma dúzia de cidades com as bandas com as quais colaborei. Agora posso ficar em casa e assistir meus DVDs e escutar meus cds bebendo uma cerveja sem me preocupar com as coisas que acabei de enumerar. 
                   Para encerrar, cabe aqui uma reflexão. Será que todo o caos que estamos vivendo nos últimos meses vai continuar se consolidando ao ponto de não podermos mais sair de nossas casas? Ou cairemos num campo magnético que nos puxará de volta para os anos 80 onde o Brasil era visto como um enorme floresta com um povo primitivo que ficava vivendo o carnaval o ano todo? Ou pior ainda, poderemos cair no abismo da guerra civil e ficarmos nos matando uns aos outros e destruindo cada cidade por motivos banais? Se pararmos para pensar nisso é difícil ter pensamentos otimistas. Torço para estar errado.
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