sábado, 27 de fevereiro de 2016

Entrevista Rodrigo Itaboray

         
          Rodrigo Itaboray é musico e produtor musical que reside na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Tem trabalhado com as bandas Luvart, Smouke, entre outros artistas da região. Faz trabalhos de mixagem e masterização via internet para pessoas de outras regiões. Fora isso organizou work shoppings on line direcionados para quem quer saber mais sobre compressão, Pro Tools, gravação de bateria e outros. Um pouco do seu trabalho pode ser conferido no seu canal do Youtube clicando aqui, onde ele, além de mostrar alguns bastidores de gravações ainda responde perguntas, faz reviews de equipamentos e dá algumas dicas. Seu conteúdo mais técnico pode ser conferido em sua página no Patreon  e demais informações na sua página oficial
                    Nesse bate papo realizado via skype no inicio do mês, conversamos sobre inicio de carreira, mercado de trabalho para produtores e músicos, características dos profissionais do mercado musica no Brasil e muito mais. Confira abaixo a transcrição dessa conversa e conheça um pouco mais sobre esse cara que tem chamado a atenção de milhares de pessoa pelo conteúdo exposto na internet em seus canais.
          Paulo Ramos: _Eu tenho acompanhado os teus vídeos no Youtube desde 2012, por ai, e queria saber quando você começou a trabalhar produzindo bandas? Também sei que você toca guitarra...Começou e BH mesmo?
           Rodrigo Itaboray: _Bem. Eu estou na verdade em Juiz de Fora, Minas Gerais também. E eu comecei a tocar guitarra com 14 anos, 1988 isso aí. E em 1993 eu já dava aulas de guitarra, eu comecei a me interessar primeiro por gravar meu próprio material. Meu próprio material não. Gravar material que poderia ser usado nas aulas para os alunos. Aquelas coisas de você pegar uma bateria eletrônica, pegar uma base de guitarra e fazer uma espécie de backing track, entendeu?
          PR: _Sim.
          RI: _Na época eu não usava computador. Eu não tinha computador ainda. Era 1993 e eu fui ter meu primeiro computador em 96. E eu comecei primeiro com essa coisa de gravar umas bases, gravar uns solos por cima, tudo em uma Tascam de quatro pistas. E ai começou a aparecer oportunidades de fazer alguns materiais para a publicidade. Aquelas coisas para carros de som e eventualmente algum jingle, uma trilha que rodava em rádio e começou até a aparecer algumas versões de música pra fazer. Aquelas coisas que rolavam na década de 90, por exemplo, de pegar a versão de uma musica conhecida, mudar a letra e essa letra ser usada pra rádio fazer uma homenagem de Natal, aquelas coisas assim.
          PR: _Ah, sim, claro.
          RI: _E ai que comecei a fazer alguns trabalhos e isso foi em 93. Eu já tinha um equipamento e comecei a comprar mais equipamentos e tentar manter esse conjunto o mais portátil possível. Eu eventualmente levava para alguns lugares pra gravar os meus alunos ou as bandas que os meus alunos arrumavam. Então eu colocava tudo dentro de uns cases ou umas bolsas e gravava o pessoal, assim, num sítio afastado, sabe? Na casa de alguém num bairro afastado. Aquela coisa de o mais silencioso possível pra gente não ter que se preocupar com acústica, né?
          PR: _Sim.
          RI: _Então rolava muito de gravar em sítio, em chácara, este tipo de coisa. Isso só em 93. Logo em seguida uma loja de instrumentos musicais queria fazer uma sala de testes de instrumentos. E eu falei: Já que vai fazer uma sala pra fazer testes de instrumentos, por que não faz um estúdio de ensaio? E ai eu projetei o estúdio de ensaio dos caras. Eu tinha muito contato com o pessoal dessa loja. Eu fiz um projeto acústico, porque na época eu já estava lendo a respeito disso, estudando muito o assunto. E eu tinha até algumas coisas de acústica que eu levava comigo eventualmente quando precisava fazer uma gravação em algum lugar destes que mencionei anteriormente. E ai eu peguei e projetei uma sala de ensaio pros caras e eu pagava pra eles o que era uma hora de ensaio. Eu repassava o dinheiro e tomava conta do ensaio e eventualmente pintava alguma gravação pra fazer. Eu gravava com meu equipamento e aproveitava a estrutura do estúdio pra poder fazer a gravação. Ou seja, eu repassava pra eles o valor relativo a uma hora de ensaio, mas com o meu equipamento eu fazia a gravação e cobrava a parte.
                    PR: _Aham.
          RI: _E com isso eu gravei bandas pra caramba. Gravei muita banda mesmo. Tanto mixando direto na mesa e com uma saída direta no MD estéreo já, direto, tudo mixado, tanto quanto gravando separadamente algumas coisas em quatro canais. Quando foi noventa e... acho que 96, mais ou menos, eu comprei um ADAT de oito canais, melhorei mesa, melhorei mais algumas coisas e fiquei nesse esquema mais ou menos até 97 ou 98, quando eu dei uma parada. Dei uma parada porque o mercado estava muito ruim. Meu negócio era essencialmente tocar guitarra e dar aulas, a parte de gravação era uma coisa mais secundária assim. E ai o mercado começou a contrair demais, tinha muita gente tocando de graça. Foi aquela época da explosão do pagode e tal. Então tinha muita banda de universitários tocando de graça, tocando por cerveja. E eu tava na noite profissionalmente, tava tocando quatro vezes por semana, ensaiando com bandas quase todas as noites, tocando pelo dinheiro, então não podia me dar ao luxo de ficar parado olhando os caras tocarem.
          PR: _Sim.
          RI: _Foi aí que eu resolvi dar uma parada com isso. Que eu já estava... Em 1996 eu comprei meu primeiro computador. Eventualmente eu até fazia alguma coisa no computador, mas eram coisas muito básicas de áudio. E em 1998 apareceu a oportunidade de ir para a área de TI. Eu já estava criando site pra mim, fazendo outras coisas e comecei a me interessar por programação. Acabei recebendo um convite pra trabalhar em São Paulo e fiquei quatro anos e meio na área de TI. Em 2002, quando eu voltei, a coisa já tinha virado completamente para o lado do computador, entendeu?
          PR: _Aham.
          RI: _Quando remontei, ou quando eu realmente montei o que dá pra chamar de "meu estúdio" mesmo em 2002, a coisa já estava completamente In The Box, já estava totalmente na base do plug in, na base da DAW, computador e tal. Por sorte, como eu fui pra área de TI, eu estava dominando bem a parte do computador, entendeu? Então, o áudio pra mim já era fácil, a musica já era uma coisa que eu já estava fazendo a mais de 10 anos já, ou quase 20 anos. E ai, quando a coisa migrou completamente para dentro do computador eu já estava completamente inserido na informática. E ai ficou fácil. Ainda montei um estúdio meio hibrido, porque eu ainda tinha, na verdade ainda tenho aquela coisa de gostar do esquema analógico, de gostar do equipamento físico, e de juntar o analógico com o digital, né?
          PR: _Sim.
          RI: _E isso é um cacoete que eu ainda não consegui abandonar. E de 2002 pra cá eu fiquei mais direto mesmo na área, dei uma parada breve em 2006 pra 2007. Que foi quando eu fui para Curitiba onde desmontei o estúdio e fiquei mais com a parte de pós-produção, que era a parte de edição, mixagem e masterização. Lá eu não tinha como ter um estúdio inteiro mesmo, então tinha um quarto no meu apartamento que eu adaptei e fazia essa parte de edição, mix e master. Quando eu voltei em 2008 para Juiz de Fora, Minas Gerais, eu montei novamente o estúdio e estou direto de novo até agora. E com isso já foram muitos estúdios. Muitas montagens e configurações diferentes. Já houve muitas montagens de estúdios para amigos, conhecidos e tal. Para clientes também, coisa que eu não gosto de fazer. Eu não gosto de cuidar dessa parte de acústica. Acho que essa parte é especifica demais e eu sei apenas o básico e o necessário para fazer uma sala soar bem. Mas eu não gosto dessa parte de acústica, porque acho que ela está muito mais ligada a física do que a musica. Meu negócio é mais musical, não é uma coisa tão técnica. Eu digo até para os alunos mesmo, que o importante é você desenvolver bem a parte técnica, para que ela não te atrapalhe quando você tiver que por a musica na frente, entendeu?
          PR: _Aham.
          RI: _Pois se você estiver agarrado na parte técnica, resolvendo um problema, um pepino que aparece e que vai aparecer toda hora não consegue trabalhar na parte musical. E você ficando agarrado tendo que resolver isso pra poder voltar pra musica não dá. Então, quanto mais rápido você resolver a parte técnica, mais flui a parte musical e melhor fica o resultado final.
          PR: _E como é o mercado ai em Juiz de Fora? Tem bastante bandas gravando? Eu vi que você fez alguns trabalhos com bandas médias, bandas que já tinham uma carreira no underground e que estavam investindo em seus trabalhos de forma independente mesmo. É esse o teu foco basicamente no estúdio?
          RI: _É. O quê que rola, assim? Eu tenho meu trabalho que faço com algumas bandas locais. Aqui rola muito lei de incentivo a cultura, sabe? Municipal.
          PR: _Sim. E eu não gosto de utilizar este tipo de recurso por dar muita ênfase ao lado político da coisa e eu acho que a arte deve ser independente ou privada.
                    RI: _Eu também não gosto de lei de incentivo a cultura. Eu não gosto de pegar esse tipo de trabalho. Inclusive já participei da comissão que julga este tipo de trabalho aqui em Juiz de Fora durante um ano. Recebi o convite e eles me chamaram para participar uma vez e eu participei durante um ano. Mas eu não gosto dessa parte de lidar com lei de incentivo a cultura e não gosto de trabalhar com esse tipo de coisa. Isso é um assunto mais complexo e não cabe discutir aqui.
          PR: _Eu entendo. Nem é o propósito deste nosso bate papo.
          RI: _Então, esse papo de lei de incentivo a cultura enrola muito o trabalho. Algumas bandas que acabam gravando algum disco ou fazendo algum trabalho por aqui, sejam bandas mesmo ou artistas independentes, acabam gravando utilizando esses recursos. Então, como eu não pego os trabalhos de lei de incentivo a cultura, acabo pegando os que são independentes e querem mergulhar de cabeça no próprio trabalho. E com isso, eu particularmente acho que eu consigo pegar pessoas melhores de trabalhar. Não do ponto de vista musical. Não estou desmerecendo o pessoal da lei de incentivo a cultura. Não é isso. Mas eu acho que o emprenho é diferente quando o cara mete a mão no próprio bolso pra pagar. O resultado e a cobrança que ele tem com a gente também que trabalha é diferente. Então, tenho umas bandas que estão comigo a um bom tempo e essas bandas, elas escolheram trabalhar comigo e eu escolhi continuar trabalhando com elas. E a gente já está com alguns trabalhos em andamento. Por exemplo, a Luvart que é uma banda underground relativamente conhecida na região. Que já tinha um EP que era um material não muito bem gravado, um material antigo deles de 10 anos atrás. Era aquela coisa bem típica do underground brasileiro mesmo. Aquela coisa que você escuta porque é um EP de uma banda nacional de Metal extremo, aí a galera prestigia, mas não porque é uma coisa bem gravada, sabe?
          PR: _Sim, sim.
          RI: _Eles tinham este EP e depois de mudar a formação e etc, eles me procuraram, por conta do baterista deles que já era conhecido meu, meu amigo já há vinte anos. Não digo amigo porque eu não tinha muito contato, mas conhecido meu há 20 anos praticamente. E ai ele falou pros caras: “Vamos procurar o Rodrigo Itaboray porque ele é chato. Ele vai fazer o melhor possível, vai cobrar muito da gente e vai ficar um puta trampo legal.” E eu peguei a Luvart pra trabalhar no primeiro disco de 2012, se não me engano, 2013 alguma coisa assim. Ai teve outro em 2015. Na verdade, teve um de 2014 para 2015 e um EP que saiu em vinil agora no finalzinho de 2015, inicio de 2016. Ou seja, já são três trabalhos com a Luvart e este trabalho ele sai na França e aqui no Brasil simultaneamente. E outras bandas. Algumas que estão paradas ou que estão passando por uma reestruturação, etc. Mas outras que estão indo bem. Por exemplo, a Smouke. Eu já estou no terceiro trabalho com eles. A Smouke está crescendo muito como banda, como artistas. Eles estão conseguindo uma identidade bacana, conseguindo um resultado sonoro bom. A qualidade das composições está melhorando bastante. A gente está conseguindo, na hora de peneirar as musicas e escolher as que são as melhores, estamos conseguindo aproveitar mais musicas. A primeira demo que a gente fez foi uma musica só. Então, entre algumas eu escolhi uma. Aí tivemos um segundo trabalho e entre algumas eu já escolhi duas. Neste trabalho agora, entre algumas eu escolhi três, quase quatro. Não escolhemos quatro porque eles não tinham recursos pra fazer quatro. A gente sente que está tendo um crescimento. Eu já estou com a Smouke desde 2012, 2013 eu acho. E outras que também estão na jogada. São só dois exemplos, só pra você ter uma ideia. Tem muita banda aqui? Tem. Mas gravando mesmo são poucas.
          PR: _É pouco trabalho, né? Eu entendo.
          RI: _E com pouca quantidade de musicas também. A cidade não tem muita visibilidade. Apesar de ser uma cidade que está entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, é uma cidade em que as coisas não fluem muito. Não sei se muito por culpa dessa proximidade com o Rio, acaba que muita gente vai pro Rio. Não sei se por conta dessas leis de incentivo a cultura que acabam atrasando o trabalho para poder ver se conseguem financiamento da lei, entendeu? E com isso banda que não toca, acaba, a verdade é essa. As bandas têm que gravar e tocar se não elas acabam. Ninguém insiste muito tempo em uma coisa que não está andando né?
                    PR: _Sim. Claro. Eu falei com o Felipe Lisciel, você deve conhecer ele, né?
          RI: _Sim. Conheço ele sim.
          PR: _Eu levei um papo com ele há algumas semanas, um mês atrás. E ele chegou a trabalhar com Detonautas, MV Bill e Mauricio Barros, essa coisa mais mainstream. Ele começou mais ou menos como você, gravando a própria banda e alguns amigos e tal. Ele é mineiro também, mas de BH. E diz que trabalhou um tempo com mainstream, mas teve que sair fora porque ele não curtiu. Ele prefere trabalhar com bandas independentes. Os caras chegam com uma ideia de trabalho, ele abraça e segue com aquilo ali porque os caras investem forte na integridade do próprio trabalho deles. No mainstream ele disse que o cara tem apenas que fazer o trabalho na forma que eles pedem, ninguém dá bola se o som está animal, se está original e bem feito.
          RI: _Eu trabalho com o que aparece dentro dos estilos que eu me proponho a trabalhar. Aqui não tem essa coisa de mainstream, né? Infelizmente isso não rola aqui. É sempre Rio, o mercado do Rio grande do Sul também, porque tem algumas bandas que acabam indo pra São Paulo e saíram daí. Belo Horizonte também tem algumas bandas Skank, Jota Quest, o próprio Sepultura, são as mais conhecidas, o Overdose mais antigo, né? Essas mais conhecidas. Mas tem outras também. Tem algumas que tem investimento, tem grana pra poder fazer a coisa rolar. Se não me engano Tianastacia era de lá também, alguma coisa assim. Não estou bem lembrado agora. Mas em BH existe um mainstream, existe quem toca no mercado nacional e veio de lá. Existe o mercado do Rio. Existe o mercado de São Paulo, principalmente.
          PR: _Com certeza, de todos o de São Paulo é o mais forte pela visibilidade, investimento e locais para shows que ainda existem. São Paulo é o principal centro financeiro do país.
          RI: _Sim. Principalmente para Rock, Pop, Metal, São Paulo é a capital mais forte mesmo nesse mercado. E tem uma parte de Rock que é relativamente forte no nordeste, mas lá tem muita musica regional também, bem deles mesmo, tendo um mercado muito grande para estes estilos mais populares. Tenho vários conhecidos e contatos que trabalham com esses “Arrocha”, Axé, essas coisas assim. Com essas misturas agora de sertanejo universitário com arrocha, tem vários que estão despontando. Semana passada mesmo eu dei consultoria para um cara que está montando um estúdio em Feira de Santana se não me engano, e ele já trabalha com um cara que tem DVD gravado, ele trabalha operando o áudio para um cara que já tem um trabalho que está despontando. Já está começando a ter uma quantidade grande de shows e com valor elevado. E você vê que o nível de profissionalismo e de investimento é outro. Em termo de som, de luz, de sincronização de leds e etc, sabe? Tudo do bom e do melhor pra tentar fazer a coisa com mais qualidade possível. Isso é um mercado que aqui, por exemplo, na região não rola isso. Então, por sorte o Brasil é bem grande, a mistura é grande, os mercados são bem diversificados e a gente consegue focar no que a gente quer e consegue uma certa regularidade de trabalho, né? Por sorte o campo é grande. Não necessariamente todo mundo vai se dar bem, mas que tem mercado tem. Principalmente para quem quer se especializar numa coisa a mais. Aqui nem é a questão de trabalhar ou não trabalhar com o mainstream e ficar mais no underground, é mais por conta da região. Eventualmente eu faço algum trabalho de mixagem e masterização, mas normalmente são clientes pequenos. E faço via internet este trabalho para clientes de outras regiões, pequenos também. Eventualmente pinta alguma coisa que está com potencial ou programado para rodar em alguma rádio do interior, aquele tipo de coisa. Mas eu não trabalho com o mainstream porque aqui na região realmente não tem. Aqui na região não rola este tipo de coisa. “Não é uma questão de opção, assim: "Eu optei por trabalhar só com o underground.” Não, não é isso. Eu acho que se tivesse alguma banda de mainstream aqui da região ou alguma de Rio, BH, São Paulo e quisesse trabalhar comigo eu trabalharia numa boa. E acho que eu não teria que eleger assim: “Só vou ficar nessa área ou só vou ficar nessa outra área.” Entendeu? Porque essa diversidade pra mim até é bom.
          PR: Sim. E como surgiu o lance de postar vídeos no Youtube e ministrar cursos on line? Qual foi o real objetivo na verdade? Compartilhar o conhecimento? Foi, de repente, um misto de compartilhar o teu trabalho, o que tu sabes fazer e também adquirir um conhecimento novo trocando ideias? Como foi pra ti isso ai, cara?
         RI: _Foi o seguinte. Eu, na verdade a coisa toda começou com alguns vídeos antigos porque eu sempre comprei e vendi muito equipamento. Meu mesmo, não era assim de comercializar equipamentos. Eu compro, experimento, uso por determinado tempo e ponho a venda. Eventualmente um equipamento ou outro que eu utilizava, as vezes eu ficava satisfeito, as vezes não. Às vezes eu ficava puto porque estragava, porque acontecia alguma coisa. E eu comecei a querer colocar em vídeo este tipo de coisa. Inclusive, os primeiros vídeos que eu fiz, foram uns videos muito mais do tipo revoltado, tipo canal do otário, sabe?
          PR: _Sim, sim. Eu lembro de alguns nesse sentido.
          RI: _”Pô, comprei uma mesa Mackie, tava aqui usando de boa fui conectar um plug vagabundo e ele ficou preso dentro da mesa. Então vou mostrar pra vocês eu abrindo a mesa, tirando o plug de dentro do conector.” Esse foi um dos primeiros vídeos que eu acho que foi pro ar. Deve ter sido por volta de 2009 ou 2010, se não me engano. Aí depois teve outro vídeo que eu fiz trocando o alto falante de uma das minhas HS 80 que tinha quebrado. Meu filho tinha metido uma baqueta no falante e tinha quebrado o falante. Ai fiz um vídeo todo puto, todo magoado, pois eu gastei mais de 1000 reais para poder comprar um par novo de auto falantes.
          PR: _Nossa!
          RI: _Os primeiros vídeos foram isso. Os primeiros videos foram uma coisa mais, assim, Vlog. Tipo assim: “Olha, eu to puto aqui porque aconteceu isso.” Era mais ou menos isso. A ideia era mais ou menos essa. Inclusive um conhecido que me acompanha desde o inicio me deu o toque. Ele falou na época assim que eu já tinha uns 30, 40 videos ou mais. Ele falou assim: Cara, você precisa fazer um vídeo vendendo seu peixe, porque você não fala do seu serviço, você não fala de nada. Você não vende seu peixe. Você deve vender seu peixe. Eu parei pra pensar e é mesmo. Pra que que eu estou colocando estes vídeos no ar?
          PR: _Só pra encher o saco. Heheheh.
          RI: _Era patético. Como eu vou dizer. Era inocente. Era sem pretensão nenhuma de nada. Era uma coisa assim de: “ Pô, eu to aqui numa cidade do interior, não tenho muito com quem conversar, entendeu?
          PR: Sei como é.
          RI: _Vou fazer esses meus videos aqui e tal. E quando eu vi estava assim com 4000 curtidas em páginas do facebook. Estava com sei lá, 8000 assinantes no Youtube. E isso foi assim. Foi um crescimento meio lento, mas foi regular. Foi aquela coisa constante. E não foi uma coisa forçada. Não foi uma coisa de comprar visualizações ou de comprar assinantes. Tipo: “Assine o canal e você ganha tal coisa.” Ou então: “Ah, divulgue o meu canal.” Eu nunca pedi pra divulgar, eu nunca pedi para curtir e nem nada disso. Foi uma coisa que foi acontecendo. E isso foi em 2009 ou 2010. Esses primeiros vídeos acho que nem estão disponíveis mais. E ai quando foi em 2011 algumas pessoas me mandavam e-mails perguntando: “Poxa, eu queria aprender um pouco mais. Que interface eu compro? Que que eu faço e tal?” Ou então: “O que eu preciso para começar?” Isso era direto, era muito e-mail que chegava. E eu nunca usei o Youtube pra responder. Porque eu nunca usei o Youtube como rede social. Eu gosto do Youtube para depósito de vídeos. Você põe o seu vídeo lá e pronto. Não gosto nem de responder perguntas lá. Tanto que os comentários dos videos ficam fechados sempre. Eu não quero ir ao Youtube para ler o que está sendo escrito. Quem quiser falar alguma coisa comigo ou entrar em contato, fala comigo pelo e-mail e tal. Que aconteceu foi que eu comecei a fazer uns cursos na época e adquirir ainda mais conhecimento, mas via que muitas coisas não esclareciam muito bem as dúvidas do pessoal. Que a informação estava meio confusa e fragmentada. Ai eu decidi juntar tudo isso e começar a direcionar para certos assuntos, deixando a coisa bem mais focada no lado prático.
          PR: _E foi assim que surgiram seu workshops? Fale um pouco deles.
          RI: _A motivação para fazer vídeos para Youtube foi mais na inocência. Na época foi isso mesmo e motivou outras pessoas a fazer vídeos do tipo. Eles aproveitaram aquele nicho existente ali. Teve momentos em que eu acordava de manhã pensando no que eu poderia postar no Youtube. Ai aos poucos foi vendo que não dava retorno da forma que eu esperava e acabei tirando o pé do acelerador e agora não está nem perto do que fazia antes e nem vai voltar a ser assim. Ai eu fiz o Patreon e comecei a postar conteúdo lá para quem quisesse colaborar com 3 ou 4 dólares e ter conteúdo exclusivo. No Youtube eu prefiro de vez em quando postar algo do tipo perguntas e respostas e alguma outra coisa referente a algum trabalho que esteja executando. Já o material dos workshops é mais um material baseado nas duvidas do pessoal, que eu juntei tudo e foquei em compressores e compressão, Pro Tools, gravação de bateria. Ficou mais direcionado para assuntos específicos e tem muita informação lá.
          PR: _Quando se fala a respeito destes criadores de conteúdo e o pessoal que trabalha com musica, vemos que lá fora o pessoal é bem mais unido. Quando falo em pessoal, me refiro aos produtores, os músicos, as empresas que trabalham com equipamentos para áudio profissional, parece que todos trabalham juntos para o mesmo objetivo. Já aqui, de cada 10 pessoas que você interage no seu nicho, 6 ou 7 vão querer ser seus concorrentes, outros vão te ignorar e talvez você consiga um amigo para trocar ideias e fazer parcerias nos trabalhos. Parece que existe uma necessidade de se isolar e tentar ser melhor que o outro.
          RI: _E pra piorar o mercado nacional de equipamentos simplesmente não existe. Falta preparação de engenheiros e profissionais que construam equipamentos e que formem um mercado forte e de qualidade. Nesse país não há chance de chegar nem perto de produzir tecnologia e profissionais iguais aos que tem lá fora. O que existe é de baixa qualidade e não há um ensino formal e de qualidade para ocupar essa lacuna.
          PR: _Uma coisa que eu noto é que o pessoal que trabalha com áudio aqui, é aquele que tocava numa banda e queria gravar seu próprio material. Isso acontecia de forma até rudimentar muitas vezes. Como é o seu caso, que queria gravar trilhas para dar aulas e tal. Lá fora os caras comentam que começaram trabalhando em determinado estúdio, era assistente de determinado produtor...
          RI: _É o cara escovava o chão do Abbey Road e começou a trabalhar como courier com determinado artista. Tem aquele pessoal que faz faculdade de produção musical ou mesmo de musica numa faculdades dessas Berkeleys da vida. Eu até conheço algumas pessoas que fizeram estágios em estúdios lá fora, mas o normal não é acontecer isso. Lá fora o pessoal tem muito mais recurso e acesso a conteúdo de qualidade e equipamentos.
          PR: _O pessoal no exterior é mais unido dentro do mercado e existem diversas convenções reunindo esses profissionais. Os próprios fabricantes de equipamentos e plug ins juntam grandes nomes para palestras e eventos promocionais. Tem aquela galera que tem programas de tv e internet onde abrem para outros profissionais falarem de seus trabalhos, aqui não se  isso.
          RI: _Em 2013/14 teve um movimento com esses CONAPRO MUSIC e tal, mas não sei se por causa da crise ou o que mais que acabou não rolando. Fui até convidado a participar desse tipo de evento, mas acabou não rolando e a pessoa não entrou mais em contato. Mas aqui é assim mesmo. Recebi um spam ou era algum site que assinei a newsletter, não sei ao certo, mas o caso é que recebi um convite para participar de um evento onde esses desenvolvedores de conteúdo se juntariam para participar de um grande evento. Coisas desse tipo acontecem o tempo todo lá fora.
          PR: _Aqui o mercado é extremamente defasado e as coisas acontecem de forma fragmentada e sem um objetivo claro. São eventos pontuais que fogem daquelas tradicionais festas que ocorrem corriqueiramente e são patrocinadas por grandes empresas. Isso faz com que o cenário nunca se desenvolva de forma consistente ao ponto de criar uma escola ou identidade própria que crie profissionais que sigam determinada linha de pensamento e desenvolvam isso.
          RI: _É. Por sorte o Brasil é um país muito grande e tem diversas formas das coisas acontecerem. Vejo que tem um movimento forte em BH, Rio, em São Paulo é onde a coisa acontece com mais força e no nordeste a coisa é mais cultural mesmo, com os eventos tradicionais deles. Mas, ainda da pra se manter fazendo musica e produzindo o pessoal mais underground. É difícil ter parceria para arrecadar incentivos para postar videos no Youtube e nem vale a pena, pois quem faz alguma coisa de qualidade, produz muito pouco e não investe nesse tipo de coisa. O Pedrone é um cara que ainda mantenho certa parceria de forma informal, mas é só.
          PR: _Bom, Rodrigo. Agradeço a disponibilidade em atender a solicitação para esse bate papo e sucesso ai nos seus projetos.
          RI: _Obrigado e eu que agradeço a oportunidade de falar para seu blog. Sucesso ai e fico a disposição para qualquer coisa.
          Nessa conversa surgiu o assunto de leis de incentivo a cultura que me motivou a escrever sobre a Lei Rouanet e também a polemica sobre o livro da cantora Claudia Leite. Acho que, embora muita gente discorde da minha opinião a respeito, noto que não estou sozinho e que algo deveria ser feito para melhorar o cenário cultural do Brasil. Outro ponto que achei interessante é que, tanto o Itaboray como o Lisciel falaram de como as coisas são feitas no Brasil e a qualidade dos profissionais e de empresas nacionais no mercado do áudio profissional. Outra coisa que chama atenção nas duas entrevistas, a do Lisciel pode ser lida aqui, é que os profissionais começam de forma rudimentar trabalhando gravando a própria banda ou fazendo outras coisas de forma improvisada e muito rudimentar. Já no mercado internacional mais em evidência, profissionais e empresas convergem para um mesmo foco, sem contar as faculdades de musica e produção musical com um know how consistente e tradicional, empresas que estão no topo do mercado a muitos anos e produzindo equipamentos e instrumentos de qualidade comprovada por diversas gerações, isso asem contar os profissionais que contam com uma bagagem e uma cultura que os qualifica para trabalhar em qualquer mercado, com qualquer estilo e equipamentos. 
          A ideia do blog é também juntar quem faz musica por aqui e debater as ideias, afinal são os caras que tem ou tiveram home estúdios, trabalhando com suas bandas, usando instrumentos de baixa qualidade e equipamentos rudimentares, que formam a base de tudo que é feito no Brasil hoje em dia. Por que tem que haver competição entre músicos e bandas, entre estúdios e profissionais se tem tanta gente disposta e compartilhar o que aprendeu e usa no dia a dia? Estamos felizes com o mercado musical? Estamos felizes por vermos os profissionais mais preparados e com estruturas melhores trabalharem para um Mainstream que só produz lixo? Já falei a respeito das picaretagens do show business, de álbuns de diversos estilos que eu recomento, já falei de equipamentos e de muitas ouras coisas neste blog, tudo isso para que as pessoas que gostam de musica e da arte em geral conheçam minhas opiniões e também reflitam e formem as suas. Somos nós, bandas de garagem, produtores independentes, donos de home estúdio e blogueiros que podemos fazer alguma coisa, se é que isso é possível, para mudar o quadro. Não considero Regis Tadeu, Rodrigo Itaboray, Felipe Lisciel, ou qualquer outra pessoa que venha conversar e postar aqui, meus amigos. Não são pessoas com as quais conviva ou compartilhe coisas em comum, a não ser a musica. Mesmo assim, tenho admiração e apoio da forma que for possível seus respectivos trabalhos, pois acredito no que eles fazem e sei que estamos juntos, lutando com as armas que temos para melhorar a qualidade de nossa musica, nossa cultura e da vida em nosso pais.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Lei Rouanet, quem precisa dela?

         
          Essa semana, mais especificamente na segunda-feira (15/02), circulou nas redes sociais e em alguns outros veículos de informação, a noticia de que a cantora Claudia Leite teria levantado uma quantia significativa de mais de 300 mil reais para a produção de uma auto biografia. Fontes ligadas a artista já informaram que se tratava de um projeto de 2014 e que a quantia era apenas especulação e visava apenas lançar um livro com fotos inéditas, letras de musicas, essas coisas. Em meio a essa polemica foi citada a Lei Rouanet (clique aqui para ter acesso ao texto da lei). Não vou explicar a lei ou descrever o que exatamente se trata, muito menos falar quem foi Ruoanet nesse processo. Tenho completa aversão sobre dar mídia a políticos e mais ainda àqueles que ocupavam o poder em 1991, ano em que foi sancionada essa lei, por isso vou evitar citar mais nomes. Entretanto a internet tem diversas informações referentes as citações acima, interessados podem ir atrás.
          Contudo, para situar o leitor, a mencionada lei foi criada para que o governo pudesse terceirizar certos compromissos criados por ele para incentivar a cultura, que foi uma das bandeiras de campanha do presidente da época, por ironia o combate a corrupção também, mas isso não vem ao caso agora. Para ilustrar e contextualizar o leitor para a compreensão do texto, vou criar uma situação hipotética. Digamos que um professor de musica planeje montar uma pequena orquestra para meninos carentes. Ele vai escolher um lugar, definir o formato da orquestra, quantos músicos farão parte do projeto, irá instrui-los e orçar o valor dos instrumentos, definir despesas com estrutura, divulgação e mão de obra. Com tudo documentado e com um projeto bem claro e todas as etapas detalhadas, este professor entrará em contato com empresas de sua região ou de fora em busca de financiamento. Após reunir a documentação necessária que formalizasse o interesse das empresas em fornecer a quantia hipotética que ele busca, o professor ingressa com o pedido formal para registrar o projeto para ser aprovado junto aos órgãos responsáveis do governo. Este órgão aceitara ou não a abertura do processo de aprovação, normalmente ele defere mas manda uma carta de correções e algumas exigências. Passada essa fase o projeto segue para a apreciação das instancias do governo ligadas diretamente as secretarias ou ministérios responsáveis pela cultura, dependendo do caso e tamanho do projeto. Se no final o projeto do professor for aprovado, ele terá o montante solicitado e as empresas terão uma porcentagem dos valores e muitas vezes integralmente, descontados do que eles teriam que pagar de impostos.
         
          Parece interessante para aqueles que querem fazer algo por suas comunidades, ou até para o país, e precisam de incentivo para pesquisa ou concretização de um projeto. Mas como a maior falha de nossas leis é a fiscalização, as coisas tendem a sofrerem distorções, e o que poderia ser um incentivo a pequenos e dedicados produtores artísticos se transforma em um grande campo para lavagem de dinheiro e corrupção. A coisa já fica suspeita por ter que passar pela aprovação dos políticos, que todos nós sabemos, ou deveríamos saber, só se interessam em encher os próprios bolsos. Imagine os critérios que estes crápulas adotam para avaliar os projetos apresentados. Fora isso, profissionais com carreiras consagradas e com dinheiro privado, apresentam projetos estapafúrdios, que visam apenas vantagens em forma de isenções  de impostos e tiram a oportunidade de pessoas, como nosso professor, de terem seus projetos aprovados.
          Se pararmos para fazer uma rápida pesquisa na internet, veremos a quantidade de projetos aprovados que não trazem nenhuma contrapartida cultural ao país. Não vou perder meu tempo citando casos aqui, acredito que meus leitores não são tão limitados a minha simples narração, se interessados pelo assunto, possivelmente buscarão mais informações de outras fontes. O que quero aqui é apenas contextualizar do que se trata e que existe uma lei de incentivo a cultura no Brasil a quase 25 anos. Porém, tem um detalhe que faz com que todo o debate a respeito desse assunto se torne inútil. Não existe mais cultura genuína no Brasil. O que antes chamávamos de cultura, hoje tratamos como entretenimento. O que chamamos de manifestação cultural como um livro, um cd, um show, uma feira, uma pintura ou uma escultura, ou seja, qualquer fruto ou resultado de uma manifestação cultural, hoje é classificado como sendo um simples produto. Traduzindo e classificando: um cd é um produto da área de entretenimento. Se pensarmos assim, não vejo motivos para criticar ou se importar com esse tipo de tramoia além do que já se critica as manifestações descaradas de corrupção do poder constituído e de seus pretendentes.
          Está mais do que provado que a legislação do país é fraca, mas nem pode ser criticada ou avaliada mais a fundo, pois não existe fiscalização séria e nem profissionais qualificados, que possa trazer uma avaliação completa sobre o efeito prático de uma lei, seja ela qual for. Os políticos e seus advogados são muito habilidosos em mascarar e distorcer as coisas a seu favor, usando uma linguagem confusa e cheia de por menores, gráficos fantasiosos que mostram apenas o que eles querem que a gente a credite. Como uma população que lê, mas não entende, que fala, mas não se comunica, pode lutar contra o poder consolidado no Brasil? Acho que todos os artistas e demais possíveis beneficiados com leis de incentivo a cultura não precisariam de nada disso se a população em geral tivesse uma educação séria e não sofresse uma lobotomia institucional que está agindo nas instituições de ensino. Se os meios de comunicação não fossem direcionados a divulgar certos interesses políticos e comerciais. Toda diversidade cultural que dizem existir no Brasil agoniza no descaso de uma globalização capitalista e que apenas emburrece, que visa dar esmolas ao povo para repartir entre uns poucos a grande e suja fatia do montante total.
          Para finalizar, se você acredita que uma lei criada pelo governo pode te beneficiar, você é um idiota, pois cada centavo que te dão eles embolsam milhões. Todo e qualquer projeto do governo que prega educar, dar moradia, saúde, emprego e segurança para o povo, não passa de um golpe para lavar dinheiro. Se você é um artista genuíno e busca apenas produzir sua arte, fuja de incentivos fiscais, leis e patrocínios suspeitos, mesmo que fique inviável consolidar um projeto, sinta-se feliz por manter sua integridade, embora ser integro e honesto só gere infortúnios. Saiba que sucesso no Brasil é sinônimo de mediocridade, pois não há cultura, como falei anteriormente, existem produtos para o mercado de entretenimento, é isso que vende, gera renda e consegue investimento em nosso país. A verdadeira cultura está escondida entre os camponeses e os artistas profanos, como um rei descreveu em sua narrativa séculos atrás. A cultura vem do coração para tocar o coração de quem a aprecia, não o bolso. Fica a dica e quem me dera estar errado nesse sentido.   

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Mercado Musical Nacional

         

           Essa é uma daquelas postagens que visam fazer com que o leitor reflita um pouco. O assunto é o mercado musical em geral. Ou melhor ainda, as diferenças existentes entre os profissionais e as empresas que sustentam o mercado musical nacional e o americano. Por exemplo, só a nível de comparação me atenho a estes dois nichos, entretanto, acho que em parte da Europa e da Asia também existam as mesmas diferenças que percebemos entre Brasil e Estado Unidos. Por que acho o tema interessante? Simples, eu gosto de musica, tenho home estúdio, já toco em bandas desde 1992 e tenho feito o possível pra me manter informado sobre o mercado musical. A grande prova disso é minha dedicação a este blog, onde busco temas relativos a arte e a musica, entrevisto pessoas que estão inseridas neste mercado e dou minhas dicas de acordo com meu gosto pessoal sobre equipamentos e a musica propriamente dita. Conversei informalmente com diversos profissionais do mercado e tive a oportunidade de conversar com Felipe Lisciel, Rodrigo Itaboray, Régis Tadeu e publicar as entrevistas aqui e outros de fora que ainda publicarei neste espaço. A conclusão que cheguei ou o norte que me foi mostrado através destes bate papos eu exponho abaixo. Claro que não é nada definitivo, apenas uma ilustração do que acontece no mercado brasileiro e internacional. Antes de mais nada, pra quem é musico, gosta de musica ou quer ingressar no mercado, é muito importante entender o que acontece nesse meio, ou ao menos atentar para algumas coisas.
          Primeiramente vamos focar no Rock. Por que isso? Porque boa parte dos grandes produtores e músicos do mercado musical tem sua origem ou referencia no Rock e é o nicho em que estou inserido. Se pegarmos bandas clássicas como Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, mesmo quando contavam com pouco orçamento para seus primeiros trabalhos, eles já tinham algumas características bem claras. Eles sabiam o que queriam musicalmente, as pessoas envolvidas no processo de criação eram muito dedicadas aquilo e tinham conhecimento, o acesso a equipamentos e instrumentos de qualidade eram bem maiores que no Brasil. Eles já tinham uma herança musical e de produção que vinha das décadas de 50 e 60 onde diversos profissionais dedicavam suas vidas em prol da industria musical. Quando as bandas europeias citadas assinaram com gravadoras maiores ou tinham um orçamento mais generosos, elas iam para os Estados Unidos gravarem seus álbuns ou buscavam equipamentos e profissionais do mercado americano. Este mercado já contava com ótimos estúdios, empresas que fabricavam equipamentos e instrumentos de qualidade e profissionais preparados para tirar o máximo daquilo que tinham em mãos. Muitos profissionais de renome ainda usam instrumentos e equipamentos construídos entre 1950, 60 e 70, devido a sua qualidade de timbre, construção e identidade. O que pra mim é o topo da qualidade de produção, o inicio dos anos 1990, a presença desses instrumentos, equipamentos e sobre tudo o conceito usado para desenvolver os álbuns, fez com que se atingisse o topo da qualidade de produção em diversos trabalhos. Depois disso as mídias mudaram com o advento da informática e o formato digital ganhando espaço e sufocando velhos formatos e técnicas. Mas isso é assunto para mais adiante.         
          E no Brasil? O que tínhamos no período citado acima? Primeiramente vamos atentar para o fato de que muitos álbuns foram gravados nos Estados Unidos, outros tiveram a mão de gente de fora tomando conta da parte técnica. O Brasil enfrentava problemas com a ditadura, economia quase primitiva e profissionais despreparados. Os estúdios do Brasil eram mais oficinas de arte do que empresas dedicadas a musica. A televisão e o rádio dominavam a tecnologia e os orçamentos para adquirir equipamentos e instrumentos mais dignos em parceria com as gravadoras, pois a industria musical nacional inexistia. O ensino de musica nas escolas já tinha sido descartado, não haviam cursos que preparavam profissionais para este mercado. A musica virou quase um folclore quando não era vendida como um produto descartável para promover determinados eventos e programas. Tivemos nomes de destaque no cenário Rock, Mutantes, Secos & Molhados, Raul Seixas, entre outros que conseguiram adaptar seus estilos musicais ao que tinham disponível pra trabalhar e conseguiram lançar álbuns dignos, mas todos soando exóticos e com climas mais alternativos. Muitos músicos daquela época falam que viram determinado equipamento ou instrumento quando alguma banda gringa passava por aqui. 
          Não temos como deixar de lado todo este cenário quando falamos de qualidade de produção musical. Enquanto um produtor de 60 anos, que começou como assistente ou estagiário em algum estúdio tradicional ou com outros profissionais já consagrados, aqui o pessoal de 50 anos começou com gravadores amadores de 4 canais tentando gravar a própria banda. São estes caras que temos no mercado musical atualmente. Enquanto lá fora existem faculdades de renome formando profissionais com o que há de mais top em termos de tecnologia. Há uma escola de produção sendo aprimorada e debatida continuamente. Onde empresas lideres no mundo interagem com os profissionais buscando sobreviver no mercado. Aqui no Brasil temos algumas opções de ensino que surgiram a pouco tempo, não temos um mercado tecnológico competitivo, embora muita gente tente negar isso, a unica coisa que temos de verdade são músicos de qualidade e apaixonados por musica que tentam competir de forma desigual com o que há lá fora. Se não admitirmos isso, nunca teremos exito com nossas coisas. Eu e muitos músicos que começaram nos anos 1990 ficávamos orgulhosos quando nossos instrumentos podiam se manter afinados e regulados durante uma gravação ou um show, que nossos equipamentos e cabos funcionassem o tempo todo. Essa é a realidade do mercado brasileiro para maioria de nós.
          Tudo que foi falado acima é de maneira geral, foi o que vi e conversei a respeito com as pessoas que tenho contato. Sempre existirão pessoas que defenderão seus pontos de vista com unhas e dentes mesmo a história apresentando outra versão totalmente diferente. Se as pessoas acharem que um tremendão ou um Meteoro é a mesma coisa que um Marshall, que uma Gianinni é o mesmo que uma Fender ou uma Gibson ou que um Leson é igual um Shure ou Newmann. entendo que defendam ou tentem se justificar de alguma forma. Mas acho que temos que reconhecer nossas limitações para que o que é nosso possa melhorar e também darmos real valor ao que foi feito aqui. Afinal as marcas citadas acima serviram tanto pra manter artistas reconhecidamente relevantes no topo e manter apaixonados por musica trabalhando e tentando viver este sonho. Felizmente tive um Gianinni para aprender a tocar violão, um amplificador Staner pra plugar uma guitarra Jennifer e um Leson para poder cantar nos ensaios, mas seria muito melhor se fossem outros equipamentos, pois teriam evitado muitas dores de cabeça.
         Para encerrar, mesmo que agora as condições de acesso a informação e a tecnologia tenham melhorado, não conseguimos ainda agregar o conhecimento e a habilidade de quem trabalha com o que há de melhor durante 40 anos. Reconhecer onde estamos e o que temos é fundamental para evoluirmos. Enquanto grandes nomes da industria e do mercado gringo se reúne em feiras ou congressos e trabalha junto para as coisas acontecerem, nós ficamos aqui com nossas teses apaixonadas tentando nos enganar enquanto os gringos nos dão show. Músicos, produtores, empresas e o próprio publico tem de parar com as manias de grandeza e com os maneirismos idiotas e tentarem melhorar o que está ai, caso contrário sempre haverá um "sertanejo dor de corno", um "Axé pra ginastica aeróbica", "funk carioca", "rock de playboy" e um "pagode pra periguetes semi-analfabetas" poluindo as televisões, rádios e eventos a nossa volta. Enquanto dermos as costas para nosso sertanejo legitimo, nosso samba de raiz, nosso rock poético, nossas culturas regionais e nossa arte genuína seremos sempre terceiro mundo, não importa quanto tentem mentir para nos provar o contrário. Não adianta profissionais irem para a mídia pagarem de sábios e de professores, as empresas investirem em propaganda, as mídias investirem dinheiro em mega eventos, se continuamos a produzir tanta porcaria como estamos fazendo. Musicalmente falando o Brasil é numero 1 em produção de porcarias irrelevantes e tem gente que acha que está tudo bem. Sempre existirão exceções, mas nunca se deve partir delas para entender um contexto. Nunca se teve tanto acesso a informação e tecnologia, porém estamos usando tudo isso pra produzirmos mais e mais porcarias e inflarmos nossos egos.
          Sei que este texto é direcionado ao mercado musical e muita gente pode ficar ofendida e tentar usar daqueles artifícios clássicos de tentar diminuir quem dá a opinião, mas o fato é que, independente de quem emite esse ponto de vista, ele se mostra verdadeira e não é apenas a minha opinião particular. Ao invés de criticar ou tentar se justificar, reflita a respeito e faça algo, mesmo que pequeno para mudar essa realidade. Eu uso este espaço e tento colaborar de alguma forma. E você? Está feliz com essa realidade? Se não está, o que tem feito pra mudar? Pense nisso.