sábado, 13 de fevereiro de 2016

Mercado Musical Nacional

         

           Essa é uma daquelas postagens que visam fazer com que o leitor reflita um pouco. O assunto é o mercado musical em geral. Ou melhor ainda, as diferenças existentes entre os profissionais e as empresas que sustentam o mercado musical nacional e o americano. Por exemplo, só a nível de comparação me atenho a estes dois nichos, entretanto, acho que em parte da Europa e da Asia também existam as mesmas diferenças que percebemos entre Brasil e Estado Unidos. Por que acho o tema interessante? Simples, eu gosto de musica, tenho home estúdio, já toco em bandas desde 1992 e tenho feito o possível pra me manter informado sobre o mercado musical. A grande prova disso é minha dedicação a este blog, onde busco temas relativos a arte e a musica, entrevisto pessoas que estão inseridas neste mercado e dou minhas dicas de acordo com meu gosto pessoal sobre equipamentos e a musica propriamente dita. Conversei informalmente com diversos profissionais do mercado e tive a oportunidade de conversar com Felipe Lisciel, Rodrigo Itaboray, Régis Tadeu e publicar as entrevistas aqui e outros de fora que ainda publicarei neste espaço. A conclusão que cheguei ou o norte que me foi mostrado através destes bate papos eu exponho abaixo. Claro que não é nada definitivo, apenas uma ilustração do que acontece no mercado brasileiro e internacional. Antes de mais nada, pra quem é musico, gosta de musica ou quer ingressar no mercado, é muito importante entender o que acontece nesse meio, ou ao menos atentar para algumas coisas.
          Primeiramente vamos focar no Rock. Por que isso? Porque boa parte dos grandes produtores e músicos do mercado musical tem sua origem ou referencia no Rock e é o nicho em que estou inserido. Se pegarmos bandas clássicas como Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin, mesmo quando contavam com pouco orçamento para seus primeiros trabalhos, eles já tinham algumas características bem claras. Eles sabiam o que queriam musicalmente, as pessoas envolvidas no processo de criação eram muito dedicadas aquilo e tinham conhecimento, o acesso a equipamentos e instrumentos de qualidade eram bem maiores que no Brasil. Eles já tinham uma herança musical e de produção que vinha das décadas de 50 e 60 onde diversos profissionais dedicavam suas vidas em prol da industria musical. Quando as bandas europeias citadas assinaram com gravadoras maiores ou tinham um orçamento mais generosos, elas iam para os Estados Unidos gravarem seus álbuns ou buscavam equipamentos e profissionais do mercado americano. Este mercado já contava com ótimos estúdios, empresas que fabricavam equipamentos e instrumentos de qualidade e profissionais preparados para tirar o máximo daquilo que tinham em mãos. Muitos profissionais de renome ainda usam instrumentos e equipamentos construídos entre 1950, 60 e 70, devido a sua qualidade de timbre, construção e identidade. O que pra mim é o topo da qualidade de produção, o inicio dos anos 1990, a presença desses instrumentos, equipamentos e sobre tudo o conceito usado para desenvolver os álbuns, fez com que se atingisse o topo da qualidade de produção em diversos trabalhos. Depois disso as mídias mudaram com o advento da informática e o formato digital ganhando espaço e sufocando velhos formatos e técnicas. Mas isso é assunto para mais adiante.         
          E no Brasil? O que tínhamos no período citado acima? Primeiramente vamos atentar para o fato de que muitos álbuns foram gravados nos Estados Unidos, outros tiveram a mão de gente de fora tomando conta da parte técnica. O Brasil enfrentava problemas com a ditadura, economia quase primitiva e profissionais despreparados. Os estúdios do Brasil eram mais oficinas de arte do que empresas dedicadas a musica. A televisão e o rádio dominavam a tecnologia e os orçamentos para adquirir equipamentos e instrumentos mais dignos em parceria com as gravadoras, pois a industria musical nacional inexistia. O ensino de musica nas escolas já tinha sido descartado, não haviam cursos que preparavam profissionais para este mercado. A musica virou quase um folclore quando não era vendida como um produto descartável para promover determinados eventos e programas. Tivemos nomes de destaque no cenário Rock, Mutantes, Secos & Molhados, Raul Seixas, entre outros que conseguiram adaptar seus estilos musicais ao que tinham disponível pra trabalhar e conseguiram lançar álbuns dignos, mas todos soando exóticos e com climas mais alternativos. Muitos músicos daquela época falam que viram determinado equipamento ou instrumento quando alguma banda gringa passava por aqui. 
          Não temos como deixar de lado todo este cenário quando falamos de qualidade de produção musical. Enquanto um produtor de 60 anos, que começou como assistente ou estagiário em algum estúdio tradicional ou com outros profissionais já consagrados, aqui o pessoal de 50 anos começou com gravadores amadores de 4 canais tentando gravar a própria banda. São estes caras que temos no mercado musical atualmente. Enquanto lá fora existem faculdades de renome formando profissionais com o que há de mais top em termos de tecnologia. Há uma escola de produção sendo aprimorada e debatida continuamente. Onde empresas lideres no mundo interagem com os profissionais buscando sobreviver no mercado. Aqui no Brasil temos algumas opções de ensino que surgiram a pouco tempo, não temos um mercado tecnológico competitivo, embora muita gente tente negar isso, a unica coisa que temos de verdade são músicos de qualidade e apaixonados por musica que tentam competir de forma desigual com o que há lá fora. Se não admitirmos isso, nunca teremos exito com nossas coisas. Eu e muitos músicos que começaram nos anos 1990 ficávamos orgulhosos quando nossos instrumentos podiam se manter afinados e regulados durante uma gravação ou um show, que nossos equipamentos e cabos funcionassem o tempo todo. Essa é a realidade do mercado brasileiro para maioria de nós.
          Tudo que foi falado acima é de maneira geral, foi o que vi e conversei a respeito com as pessoas que tenho contato. Sempre existirão pessoas que defenderão seus pontos de vista com unhas e dentes mesmo a história apresentando outra versão totalmente diferente. Se as pessoas acharem que um tremendão ou um Meteoro é a mesma coisa que um Marshall, que uma Gianinni é o mesmo que uma Fender ou uma Gibson ou que um Leson é igual um Shure ou Newmann. entendo que defendam ou tentem se justificar de alguma forma. Mas acho que temos que reconhecer nossas limitações para que o que é nosso possa melhorar e também darmos real valor ao que foi feito aqui. Afinal as marcas citadas acima serviram tanto pra manter artistas reconhecidamente relevantes no topo e manter apaixonados por musica trabalhando e tentando viver este sonho. Felizmente tive um Gianinni para aprender a tocar violão, um amplificador Staner pra plugar uma guitarra Jennifer e um Leson para poder cantar nos ensaios, mas seria muito melhor se fossem outros equipamentos, pois teriam evitado muitas dores de cabeça.
         Para encerrar, mesmo que agora as condições de acesso a informação e a tecnologia tenham melhorado, não conseguimos ainda agregar o conhecimento e a habilidade de quem trabalha com o que há de melhor durante 40 anos. Reconhecer onde estamos e o que temos é fundamental para evoluirmos. Enquanto grandes nomes da industria e do mercado gringo se reúne em feiras ou congressos e trabalha junto para as coisas acontecerem, nós ficamos aqui com nossas teses apaixonadas tentando nos enganar enquanto os gringos nos dão show. Músicos, produtores, empresas e o próprio publico tem de parar com as manias de grandeza e com os maneirismos idiotas e tentarem melhorar o que está ai, caso contrário sempre haverá um "sertanejo dor de corno", um "Axé pra ginastica aeróbica", "funk carioca", "rock de playboy" e um "pagode pra periguetes semi-analfabetas" poluindo as televisões, rádios e eventos a nossa volta. Enquanto dermos as costas para nosso sertanejo legitimo, nosso samba de raiz, nosso rock poético, nossas culturas regionais e nossa arte genuína seremos sempre terceiro mundo, não importa quanto tentem mentir para nos provar o contrário. Não adianta profissionais irem para a mídia pagarem de sábios e de professores, as empresas investirem em propaganda, as mídias investirem dinheiro em mega eventos, se continuamos a produzir tanta porcaria como estamos fazendo. Musicalmente falando o Brasil é numero 1 em produção de porcarias irrelevantes e tem gente que acha que está tudo bem. Sempre existirão exceções, mas nunca se deve partir delas para entender um contexto. Nunca se teve tanto acesso a informação e tecnologia, porém estamos usando tudo isso pra produzirmos mais e mais porcarias e inflarmos nossos egos.
          Sei que este texto é direcionado ao mercado musical e muita gente pode ficar ofendida e tentar usar daqueles artifícios clássicos de tentar diminuir quem dá a opinião, mas o fato é que, independente de quem emite esse ponto de vista, ele se mostra verdadeira e não é apenas a minha opinião particular. Ao invés de criticar ou tentar se justificar, reflita a respeito e faça algo, mesmo que pequeno para mudar essa realidade. Eu uso este espaço e tento colaborar de alguma forma. E você? Está feliz com essa realidade? Se não está, o que tem feito pra mudar? Pense nisso.
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