sexta-feira, 25 de março de 2016

Metal sem fronteiras - Líbano

          Paula Wehbe é uma jovem libanesa de 21 anos que é a vocalista de uma banda de Death Metal chamada Hemorrhagia e estuda engenharia agrícola. Ela passou um link para uma pagina no facebook (https://www.facebook.com/femalemetalheadsunited) e a partir daí passei a ter contato com o Metal praticado no Líbano. Paula me confidenciou que as bandas grandes de Metal não tocam por lá porque são barradas pelo governo. É sempre complicado para um ocidental entender como as coisas funcionam no Oriente médio devido a cultura ser muito diferente. O que chega de informação  para nós são noticias sobre abundancia de petróleo e guerra territorial e religiosa. 
É interessante lembrar que se tirarmos os aspectos religiosos e políticos característicos de cada região, somos pessoas simples que sentariam em algum lugar para beber algo, ouvir musica e falar sobre nossas coisas mais rotineiras.
          No Líbano existem lojas de instrumentos musicais e coisas do tipo, mas o Heavy Metal é visto como sendo algo Ocidental e que simboliza a personificação do mal tentando corromper os jovens Orientais. Enquanto Israel e Palestina lutam por território, a Síria expulsa seu povo com guerras constantes, o Brasil se afunda cada dia mais na lama da corrupção, é de se pensar no mal que o ser humano faz a esse planeta e a sua própria subsistência. A religião e a ganancia extrema estão corrompendo e matando aleatoriamente como uma epidemia incontrolável. Parece que mudam as tecnologias, mudam as ideias, mudam as leis, mas o conteúdo mesquinho e autodestrutivo do ser humano permanece o mesmo e vai se aperfeiçoando com o passar do tempo. Felizmente a arte ainda consegue unir pessoas que gostam das mesmas coisas e consegu
em passar por cima de tudo isso e simplesmente falar do que gostam. 
O Heavy Metal consegue atravessar as barreiras do tempo, da religião, da distancia e dos costumes, assim como outras formas de arte. Como pode também promover a paz entre as pessoas, coisas que a religião e a politica não conseguem? Talvez a resposta seja a mais simples do que imagine, não há dinheiro envolvido ou não é ele o foco principal. Segue abaixo o bate papo que tivemos, eu e Paula Wehbe, sobre esses assuntos.          
          Paulo Ramos: _O Líbano é um país localizado entre Palestina e da Síria ambos os países envolvidos em guerras constantes. Como é para o povo libanês viver com esta realidade?
          Paula Wehbe: _Não há problema, não nos afeta tanto. Vivemos em paz hoje em dia. Nós apenas temos algumas questões políticas influenciadas pelas guerras que nos cercam.
          PR: _Como é viver num país com toda essa pluralidade religiosa? Há muitos conflitos religiosos ou restrições da própria população devido a essa diversidade?
          PW: _Sim, vivemos em um país com grande pluralidade religiosa. Essas religiões estão meio que controlando a mente das pessoas (uma vez que elas são muito religiosas) e a política.
          PR: _Como a população libanesa vê o mundo ocidental e seus costumes?
          PW: _A velha geração pensa que o Ocidente exerce má influencia sobre o Oriente por causa de seus costumes e outras coisas, mas a nova geração olha para o Ocidente e tenta agir como as pessoas ocidentais e trazem algumas novas tecnologias, costumes, comidas e outras coisas para o Oriente.
          PR: _Como é o mercado musical no Líbano, gravadoras, lojas de CD, sites de streaming e shows?
          PW: _Quando se trata de música árabe ou Pop, você pode encontrar o que quiser. Quando se trata de Metal não dá pra encontrar nada! Não há lojas, sem espaço pra tocar, sem selos, sem nada.
          PR: _Entre a galera que curte Heavy Metal, qual é o estilo mais popular?
          PW: _Thrash/Heavy Metal. Mas pessoalmente eu sou mais do Death Metal com todas os seus sub-gêneros.
          PR: _Existe algum tipo de preconceito contra o Heavy Metal e de que forma esse preconceito se manifesta?
          PW: _Sim, as pessoas são na sua maioria retardadas. Elas pensam que somos satanistas devido às camisetas pretas que vestimos, o cabelo longo que temos, as tatuagens e outras coisas. Eles não estão acostumados a ver tais coisas. Então elas consideram isso como a personificação do mal trazida do Ocidente para destruir as novas gerações no Oriente!
          PR: _Quais seriam as bandas de Metal existentes em seu país?
          PW: _Blaakyum, Innerguilt, Deathlam, Hatecrowned, Kaoteon, Weeping Willow, Kimaera, Nocturna e Trashstorm.
          PR: _O Heavy Metal é profissional com escolas de música e um mercado formal por ai? Qual é a formação do músico que toca Heavy Metal no Líbano?
          PW: _A maioria deles aprendeu por conta própria, mas uns poucos aprenderam musica em escolas.
          PR: _Qual é a principal temática das letras compostas pelas bandas libanesas? As diferenças culturais e religiosas influenciam diretamente na atitude dos músicos?
          PW: _Cada banda tem a sua própria mensagem, mas a maioria delas têm um assunto em comum: lutar contra o sistema e contra a corrupção. A maioria dos músicos são ateus. Eu não acho que qualquer uma das bandas fala sobre as religiões. Eles evitam esse assunto em sua música.
          PR: _Que bandas de Heavy Metal são as mais adoradas no Líbano?
          PW: _Metallica, Motorhead, Iron Maiden, Slayer. As mesmas que são mais populares no Ocidente também.
          PR: _Qual é a frequência de shows com bandas ocidentais e como eles são recebidos pelo público libanês?
          PW: _Não há shows de bandas ocidentais por aqui. Só tivemos Nightwish e Epica. E há alguns anos o Katatonia tocou aqui e nada mais. Então, a única maneira de assistir aos shows de algumas bandas é viajar para o exterior, para outro país, infelizmente.
          PR: _O que você gostaria de dizer sobre seu país que não foi abordado nas perguntas anteriores?
          PW: _Gostaria que as pessoas parassem para ouvir, ler a respeito e conhecer nossa música antes de nos rotular de alguma forma devido a nossa posição geográfica.
          PR: _Falando de religião. O que o povo libanês pensa a respeito de Jesus Cristo? Ele é o centro da religião preponderante no Ocidente. Por que Jesus Cristo é tão importante para os ocidentais e é um pouco desprezado por vocês?
          PW: _Aqui nos somos muçulmanos ou cristãos e uma pequena parte da população é composta por Ateus. Bem, eu não sei. Eu sou uma crente e não ateu. O Oriente é sempre conhecido como sendo muito religioso. Provavelmente porque Maomé e Jesus viveram no Oriente e influenciaram o Ocidente de certa forma. O Ocidente não é conhecido como um lugar muito religioso. Mas o Oriente é totalmente o oposto.
          PR: _Lendo sobre sua história e riqueza cultural que os precede, por que há tanto radicalismo entre as pessoas daí? Qual é sua opinião a respeito disso?
          PW: _A maioria dos políticos são ditadores, começa por aí. As pessoas estão doentes por serem tratados como escravos ou sem direitos iguais e coisas assim. Então eles tinham que fazer revoluções para se tornam livres. A minha opinião não é contraria a tudo isso, mas prefiro ficar longe das guerras, tentar ser pacífica e encontrar uma maneira pacífica para se tornar livre considero que é melhor.
          Finalizo essa postagem falando que quanto mais eu tenho contato com outras pessoas de outros estados, países e outras culturas, mais fica claro pra mim que o dinheiro e a corrupção são os grandes males da humanidade. Que sem preconceitos, sem ambições exageradas e sem medo de viver o simples, podemos existir com dignidade e coexistir respeitando as diferenças de cada um. Independente da religião, nacionalidade, cor da pele ou idioma, a grande preocupação deveria ser a sobrevivência digna e justa para todos, sem discrepâncias ou excessos, pois as necessidades básicas são comuns a todo o tipo de ser humano. A cultura e a arte são as únicas coisas capazes de ir contra tudo e contra todos e ainda unir as pessoas.
          Outra coisa interessante é o fato de as bandas ocidentais não poderem entrar no Líbano. Como a Paula falou acima, para eles assistirem a algum show de uma banda grande, tem que viajar para outro país. Na década de 1990 era assim no Brasil também. Entretanto, isso se devia a falta de interesse das bandas em virem pra cá e quando vinham, normalmente ficavam apenas no eixo Rio-São Paulo. A partir do momento que as bandas notaram que era mais lucrativo realizarem mais shows pelo país, começaram a diversificar os locais para suas apresentações. No caso do Oriente médio a coisa é diferente, há grande resistência em aceitar manifestações artísticas ocidentais. Talvez eles não vejam motivos para abrir suas fronteiras para outras culturas e colocarem em risco suas leis e seus costumes. O certo é que sempre haverá um grupo de pessoas, mesmo que pequeno, que tentará romper certas fronteiras e buscar aquilo que acham que seja mais interessante para elas. A internet possibilita isso, mas também possibilita outros tipos de manifestações mais nocivas e perturbadoras, que não é o caso mencionar aqui. 

sábado, 12 de março de 2016

Conceito de arte

Esta foi minha primeira postagem para meu blog a alguns anoa atrás e pensei muito no que escrever para inaugurá-lo na época. Lembro que tive muitas opções que vieram a mente em um primeiro momento, afinal não tinha uma proposta clara do que iria fazer, apenas queria escrever para meus amigos. Poderia exemplificar falando da minha banda naquele momento, dos livros que tinha lido, dos seriados que assisti, dos filmes que havia visto ou do meu trabalho formal como assistente administrativo. Mas o assunto que prevaleceu foi o conceito de arte. Hoje preferi falar disso pra tentar mudar um pouco o foco da situação politica do país e de todo esse circo armado na imprensa. Então segue o meu conceito sobre arte e no que eu acredito a respeito.
                  
          Não falo da arte em si, ou de um tipo específico, e sim do conceito que define a alma de um artista, o que é bem mais complexo do que falar de um filme, de um cd ou de um livro. A manifestação genética, o que compõe o DNA do artista, o que o motiva a fazer seu trabalho de determinada forma e não de outra, o que deixa seu trabalho com a sua assinatura. Talvez seja abstrato demais tentar definir o que é um artista genuíno e um profissional da arte, até porque uma pessoa pode ser ambos ao mesmo tempo, de tempos em tempos ser um ou outro e às vezes nem um nem outro. Entretanto, acredito que existam algumas peculiaridades nos indivíduos que definem que tipo de artista ele pode ser. Talvez viver seja uma luta constante em busca de tentar equilibrar prazeres e obrigações, se planejar pra fazer o que deve ser feito, o que precisa ser feito e o que gostamos de fazer, que realmente nos dá prazer em fazer. Sendo assim, acabamos numa emboscada profissionalmente e isso dificulta muito para aqueles que querem trilhar o caminho de arte, mas tem que manter as atenções voltadas para um emprego formal, estudos e família. Muitos dizem que é impossível viver da arte sem fazer algumas concessões.                   
Quando nascemos estamos envoltos por um cenário onde só podemos observar as coisas e absorver informações aleatoriamente e sem critério algum. Não temos nenhum tipo de controle sobre a situação financeira, familiar ou profissional, sequer sabemos o que é isso. Aos poucos começamos a sentir, pensar e gradualmente vamos evoluindo. Começamos a mentir para explicar o que ainda não conhecemos. Trocamos o choro, os gemidos e os gestos pela fala para mostrar o que nos incomoda e o que queremos. Até conseguirmos entender e tentar manipular o mundo que nos cerca, já estamos contaminados com diversos vícios e heranças que nos foram impostas e armazenados no nosso inconsciente. Aos poucos começamos a nos moldar conforme a realidade que nos cerca ou discordar e ir contra ela. Começamos a experimentar sensações que não conhecíamos, lugares novos, pessoas diferentes. O mundo parece ser um enorme palco iluminado para desfilarmos nossa eterna juventude. Por sermos idiotas não valorizamos as coisas como deveríamos e passamos a mudar nossos conceitos conforme experimentamos coisas diferentes. É comum andar com um determinado grupo para não se sentir isolado ou fazer as coisas que outros fazem para não parecer estranho. Aí começam as pressões sociais e passamos a ocupar um determinado lugar em um contexto maior que a casa dos pais, ou qualquer ambiente que tenhamos nos mantido durante a infância.                 
          Os desafios são muitos, mas as belezas também. Acho que é neste momento que o conceito de arte começa a se moldar no intimo da pessoa. É aquela vontade de reproduzir os sons que ouvimos, desenhar as coisas que vemos, contar as histórias que inventamos e que gostaríamos de viver, muitas outras coisas que vão acabar nos definindo e despertando nossas paixões. Acho que o impulso principal nasce quando o individuo se apaixona por uma manifestação artística e percebe que só ela pode fazer-lo se sentir de determinada forma ou levá-lo a um lugar no qual ele se sente melhor, mais importante, ou com algum controle. Se não fosse assim não haveria pessoas que não gostam de musica, literatura, cinema, e demais manifestações artísticas. É triste saber que algumas pessoas nunca pararam para escutar uma musica e relembrar de uma paixão, de uma festa ou de um simples sentimento. É o mesmo que não sentir saudades ao ver a foto de uma pessoa que se foi ou de um tempo que não voltará mais.
                     Uma coisa é certa, o conceito de arte que falo aqui surge quando começamos tentar entender o que sentimos. Todos somos artistas em potencial, pois viver é uma arte, pode ser feia, grotesca e triste, mas não deixa de ser arte. O que lamento é ver que as pessoas, em sua grande maioria, se contentam em ser figurantes para conseguir acumular certa quantia de dinheiro ou garantias questionáveis. Todas as outras coisas são deixadas em um segundo plano, como se fosse o preço a ser pago por estar vivo, sempre garantir a sobrevivência e não ter qualquer critério para isso. Já o artista se expõe ao sofrimento para poder expressar sua agonia, a amar para escrever um romance, a sonhar para criar uma ficção e a morrer para que sua arte sobreviva. Sua arte o define, ela não pode ser roubada ou comprada, ela é a manifestação mais honesta de seu caráter e de sua dedicação. Os verdadeiros artistas estão em um patamar mais alto que os demais seres humanos, pois eles vivem, manipulam a vida e são donos de algo só deles, sua arte. E esta não pode ter preço, fim ou qualificação.
Dedicação, talento, dinheiro e oportunidades não fazem um grande artista ser reconhecido. Um dos mercados mais ingratos que existe é o artístico. Porém, ser artista é o máximo que um ser humano pode alcançar em termos de realização. Quem consegue viver realmente sua arte será pago com algo mais valioso que o dinheiro, a auto-realização. O conceito de arte é o motivo intangível que faz com que uma pessoa faça algo de uma forma que só ela mesma poderia fazer. É o jeito único de manifestar seu talento ou seus sentimentos. Este conceito é fruto da soma do conhecimento, das experiências e do talento deste artista e que só pertencem a ele e não pode ser reproduzido por mais ninguém com a verdade de suas nuances. Há uma grande confusão entre aprender arte e aprender a usar uma ferramenta ou instrumento. Uma coisa não tem muito a ver com outra, na minha opinião. É muito perigoso querer ser artista e imitar alguém. A grande diferença está na linha que divide a influencia da cópia. Acho que a lição mais importante é tentar aprender o oficio para manisfestar o que se sente e não aprender algo para reproduzir o sentimento dos outros.

Já vi muita gente tentar criar uma ferramenta para poder quantificar a qualidade de determinado trabalho, mas penso que isso é impossível. A arte bate direto no ponto onde as pessoas se diferem, no seu gosto pessoal. Acredito que não exista uma pessoa que tenha ferramentas que possa faze-lo entender e conceituar todos os tipos de música, por exemplo. As vezes nos deparamos com um tipo rudimentar e primitivo de arte, despido de toda e qualquer sofisticação e nos apaixonamos por aquilo. Outras vezes a complexidade e o minimalismo de um trabalho nos causa tédio e não nos toca de forma alguma. Acho que por esse motivo temos que nos entender antes de tentar entender a arte. Escrevi sobre a verdade do Blues e sobre o Chorinho que são manifestações artísticas bem específicas e que refletem uma época, uma situação e determinados sentimentos. Quando falo de arte genuína estou falando disso. Muitas pessoas acham ridículo ouvir Robert Johnson, já outros o consideram um gênio, o que é inegável é sua influencia e a importância de sua curta carreira. 

sábado, 5 de março de 2016

Pausa para reflexão

         
          No inicio do ano postei um texto com o titulo "Que 2016 nasça pobre, mas com dignidade", e acho que é o sentimento da grande maioria da população brasileira, ao menos eu espero que seja. Com tudo que vemos de corrupção, violência e idiotice é o mínimo que posso desejar. Eu nasci no dia 14 de janeiro de 1978, final de um longo período onde a ditadura militar controlou o Brasil. Essa ditadura militar durou de 1964 até 1979 e teve um período de redemocratização até 1985. Foi nessa fase final que a pluralidade partidária começou a surgir para se transformar no que é hoje. O que quero propor aqui é uma reflexão sobre todo esse contexto politico e social. Sugiro que cada um que costuma comentar noticias, defender A ou B, debater suas teses e manifestar suas opiniões nas redes sociais, que pare um instante, largue a bandeira, vista a camisa da imparcialidade e reflita, repense todas as suas teses politicas e sociais para não cair na vala comum da teimosia. Por que propor isso agora? Simples, para que consigamos resgatar a dignidade que nós brasileiros talvez nunca tivemos plenamente. Não é um partido politico assumindo o poder que irá lutar por você para conseguir isso. O jogo politico é nefasto e mesquinho. Um politico bem sucedido em sua trajetória jamais será defensor de causas nobres ou alguém engajado em conseguir o bem comum. Um cidadão comum que entra para politica pensa somente em duas coisas: dinheiro e poder. Qualquer outro pensamento é esquecido durante o processo ou se torna um obstáculo para ascensão politica do individuo. Vou separar alguns tópicos para facilitar o direcionamento da reflexão que proponho.
          Ditadura Militar: Li muito a respeito e ouvi muitas histórias de meu avô e seus contemporâneos. Acho que em cada local esse período foi diferente, pois vivemos em um pais muito grande territorialmente e que possui uma pluralidade climática, cultural e econômica que faz toda a diferença. Quando ouço depoimentos de artistas, políticos e jornalistas que sobreviveram aquela época, sinto que havia uma necessidade muito grande em fechar a boca de quem tinha uma opinião diferente da deles ou simplesmente tivesse opinião. Resumindo, a capacidade de pensar e se expressar era extremamente combatida pelo regime militar. A filosofia militar parte de uma estratégia para se atingir um determinado objetivo, um plano de ação e uma execução indiscriminada a partir de seu potencial bélico. Meu sentimento era que existia um grande temor e respeito a farda e as consequências de se ser preso por cometer algum delito. Se pararmos para prestar atenção nas letras das musicas e textos produzidos nessa época, vemos que a policia e o exército representavam a força de execução contra o povo de um poder consolidado. Muitos grupos foram criados para defender certas classes que ainda tinham alguma representatividade por serem uteis para a economia do país. Nós, filhos e netos da ditadura crescemos com esse temor que aos poucos foi se diluindo com o passar do tempo e o surgimento de novas gerações.
         
           A redemocratização: Esse acho que foi o período mais importante do nosso país. Houveram muitas greves, confrontos, as minorias começaram a se unir em prol de uma mesma causa, começou-se a questionar as coisas e a estrutura do poder que já estava velha, caduca e impotente, então ele começou a perder o controle. A arte ressurgiu como sendo a voz de uma geração cansada de apanhar da policia, de ter amigos presos e desaparecerem, aos poucos as mordaças das pessoas foram caindo. Ideias e teses revolucionárias vindas de outros países começaram a chegar as massas. surgiram novos partidos políticos, novas lideranças e uma nova esperança. O país estava pobre e miserável, mas começava a lutar por condições mais dignas. Surgiu o movimento punk, os movimentos sindicais ganharam força, o povo parecia se agarrar nesses novos ideais de liberdade e mudança. O cinema, por exemplo, mostrava uma realidade decadente, depravada, mesquinha e ao mesmo tempo bem humorada de nossa sociedade. A musica era usada para reviver as memorias de um passado repressor e ainda muito recente. O Brasil começou a olhar para as guerras e revoluções no resto do mundo e decidiu opinar. Eramos pobres e ainda padecíamos de uma educação mais consistente, mas tínhamos curiosidade e juventude para lutarmos. Naquela época acreditávamos que nossa cultura e nossa opinião poderiam mudar o mundo, tínhamos nossos ideais. Eu era criança nesse período e lembro bem de como éramos educados e vi os movimentos culturais tomando forma.
          A reestruturação: Considero esse período emblemático, pois foi quando entrei na escola na segunda metade dos anos 80. Tínhamos problemas como uma inflação descontrolada, desemprego, ameaças de guerra, mas estávamos otimistas pois o fantasma da ditadura tinha ficado no passado e nossos novos ideais políticos e sociais pareciam bem claros. Em nossas mentes ainda infantis foi plantado um conceito onde tínhamos que estudar para conseguirmos bons empregos e ajudar nossas famílias e na construção de um novo país. Mas por que chamo esse período de reestruturação? Não é a reestruturação do país, mas sim do poder. Os meios de comunicação inteligentemente trouxeram grandes marcas para o país como sendo uma demonstração de progresso individual do cidadão comum e uma nova era para o Brasil. Algumas pessoas se aproveitaram que a poeira baixou e vendo que a ditadura havia perdido o poder, começaram a criar alianças para então governar o país de acordo com os interesses deles. Foi muito claro o golpe iniciado ali, mas na época não percebíamos, pois estávamos acostumados com o inimigo armado e identificado com farda e patente. Não estávamos prontos para enfrentar um inimigo sorridente, que oferecia entretenimento, arte, educação, carros, apartamentos, estilo e tudo o mais. Estávamos distraídos atirando contra um inimigo morto e passamos a nos entregar a sedução de quem achávamos que era nosso aliado.
          A reconquista: Começou em 1989 com a eleição para presidente com voto direto. A mídia criou mocinhos e vilões, financiou campanhas, trouxe essas grandes marcas e seu dinheiro para a ação politica e social. E a década seguinte começava com um presidente arrogante e criado pela mídia e dinheiro de origem suspeita. Ao que parece, o escolhido tinha um ego maior do que se admitia e em dois anos foi criticado, acusado, condenado e deposto. O real poder iludiu a população fazendo com que ela achasse que tinham o controle e derrubaram o presidente. Já havia um salvador da pátria pronto para consertar tudo e ele o fez. Criou moeda forte, redefiniu as regras do jogo e o poder reconquistou seu posto, mas sem armas e ameaças, usou a vaidade e a crença popular para enganar o povo. Durante esse período os jogadores foram se aprimorando e desenvolvendo novas táticas. Tínhamos duas correntes muito fortes medindo foças politicas e uma porção de nanicos com seus movimentos tentando se articular.
O país conseguiu uma nova imagem principalmente para consumo interno. E silenciosamente o poder conseguiu calar a voz revolucionária que existia anteriormente. Como a máquina militar estava enferrujada e pegava mal usa-la, a arma usada foi a mídia, principal agente do poder consolidado. Ao invés do rock contestatório, das letras e peças com sacadas sociais e politicas bem elaboradas, das criticas e movimentos das minorias, o poder promoveu a projeção de artistas água com açúcar, com letras românticas e apaixonadas do sertanejo popularesco. Depois veio o pagode adocicado e cheio de trocadilhos. O rock virou piada musicada e os antigos artistas intelectuais passaram a escrever para temas de novelas, já não contestavam mais o poder e mantinham apenas a imagem de perseguidos pela ditadura. Tudo isso tomou conta das rádios e televisões.
          A revolução de plástico: Como a nova estrutura do poder precisava respirar e reafirmar sua identificação com o povo, pegaram aquela marca que surgiu nas greves e movimentos sindicais, aquela voz identificada com o trabalhador explorado, deram uma refinada, fizeram alianças com empresários e políticos que representavam o velho, mas estavam esquecidos e com o discurso pronto e promessas de inclusão e eles elegeram um presidente que não tinha diploma, que não havia sido testado em nenhum mandato, portanto acima de qualquer desconfiança popular. O novo governo deu uma requintada no discurso, distribuiu esmolas ao povo, mascarou o panorama econômico, abriu o país para que a exploração das grandes empresas fosse ainda maior do que antes. Meros ativistas com empregos comuns enriqueceram enquanto o povo achava que estava aumentando seu poder aquisitivo e sua qualidade de vida. Politicamente o país foi se dividindo em pequenos nichos e esses sanguessugas, fingindo lutarem uns contra os outros, faziam alianças das mais improváveis. Desde o inicio esse novo governo teve diversos casos de corrupção vindos a publico, mas isso já não importava mais, o povo prefere acreditar em discursos vazios, se agarrar em bandeiras que não representam nada e demonstrar sua inconformidade com criativas e inúteis formas de protesto.
          O agente tecnológico: E para coroar todo esse processo, a televisão virou digital e acessível para os patrocinadores do poder conseguirem atingir ainda mais recursos financeiros e de influencia. A popularização dos Smartfones possibilitou que os objetos de consumo se tornassem mais portáteis para facilitar o roubo, atingissem uma faixa etária bem maior de consumidores e uma vida útil extremamente curta para forçar o consumo constante. Mais do que um golpe econômico, a integração possibilitada pela popularização da internet conseguiu dar ao poder um controle absoluto sobre o pensamento de seus governados. Os agentes do poder conseguem deixar o povo tão distraído com debates a favor ou contra A ou B, as crianças tão idiotizadas ao ponto de chegarem a adolescência sem saber ler e interpretar um texto, mesmo tendo estudado durante 5, 6 ou mais anos numa instituição de ensino. Enquanto achamos que estamos crescendo econômica e intelectualmente com nossos brinquedos digitais, não notamos que nunca sofremos uma lavagem cerebral tão eficiente. Hoje parece impossível de fugir de certos padrões, ou damos o braço a torcer para as imposições sociais e tecnológicas ou ficamos apatetadamente a margem de tudo criticando os outros.         
          Concluindo: Temos que voltar para nossa simplicidade de pensamento e usarmos as ferramentas que temos como simples ferramentas. Você não precisa vestir uma camisa ou carregar uma bandeira para ter o direito de criticar o governo, seja de qual partido for, pois você paga constantemente em forma de impostos para que eles lhe prestem serviço. É mais que um direito, é um dever do cidadão cobrar o governo que ele patrocina. Mesmo sabendo que num país onde nada funciona, uma urna eletrônica é vendida como sendo confiável e o povo como sendo o avalista principal de tudo que acontece na politica com seu voto. Não basta a população sair as ruas para protestar contra corrupção se na próxima eleição os mesmos políticos serão eleitos para continuar roubando. A politica nunca teve tanta atenção do povo e mesmo assim consegue fazer com que o povo continue confuso e enganado. Regredimos intelectualmente conforme fomos tendo acesso a informação. Nos afastamos uns dos outros quando conseguimos ferramentas para nos mantermos a cada dia mais conectados. Estamos conseguindo ficar a cada mais agressivos e com discursos mais afiados nas redes sociais, enquanto cresce a violência, a crise na saúde, a total desatenção com a educação e a corrupção. Só vão parar de roubar quando não houver mais dinheiro e isso não está tão longe de acontecer. Reflita sobre isso, pois o maior prejudicado é o cidadão comum.