sábado, 5 de março de 2016

Pausa para reflexão

         
          No inicio do ano postei um texto com o titulo "Que 2016 nasça pobre, mas com dignidade", e acho que é o sentimento da grande maioria da população brasileira, ao menos eu espero que seja. Com tudo que vemos de corrupção, violência e idiotice é o mínimo que posso desejar. Eu nasci no dia 14 de janeiro de 1978, final de um longo período onde a ditadura militar controlou o Brasil. Essa ditadura militar durou de 1964 até 1979 e teve um período de redemocratização até 1985. Foi nessa fase final que a pluralidade partidária começou a surgir para se transformar no que é hoje. O que quero propor aqui é uma reflexão sobre todo esse contexto politico e social. Sugiro que cada um que costuma comentar noticias, defender A ou B, debater suas teses e manifestar suas opiniões nas redes sociais, que pare um instante, largue a bandeira, vista a camisa da imparcialidade e reflita, repense todas as suas teses politicas e sociais para não cair na vala comum da teimosia. Por que propor isso agora? Simples, para que consigamos resgatar a dignidade que nós brasileiros talvez nunca tivemos plenamente. Não é um partido politico assumindo o poder que irá lutar por você para conseguir isso. O jogo politico é nefasto e mesquinho. Um politico bem sucedido em sua trajetória jamais será defensor de causas nobres ou alguém engajado em conseguir o bem comum. Um cidadão comum que entra para politica pensa somente em duas coisas: dinheiro e poder. Qualquer outro pensamento é esquecido durante o processo ou se torna um obstáculo para ascensão politica do individuo. Vou separar alguns tópicos para facilitar o direcionamento da reflexão que proponho.
          Ditadura Militar: Li muito a respeito e ouvi muitas histórias de meu avô e seus contemporâneos. Acho que em cada local esse período foi diferente, pois vivemos em um pais muito grande territorialmente e que possui uma pluralidade climática, cultural e econômica que faz toda a diferença. Quando ouço depoimentos de artistas, políticos e jornalistas que sobreviveram aquela época, sinto que havia uma necessidade muito grande em fechar a boca de quem tinha uma opinião diferente da deles ou simplesmente tivesse opinião. Resumindo, a capacidade de pensar e se expressar era extremamente combatida pelo regime militar. A filosofia militar parte de uma estratégia para se atingir um determinado objetivo, um plano de ação e uma execução indiscriminada a partir de seu potencial bélico. Meu sentimento era que existia um grande temor e respeito a farda e as consequências de se ser preso por cometer algum delito. Se pararmos para prestar atenção nas letras das musicas e textos produzidos nessa época, vemos que a policia e o exército representavam a força de execução contra o povo de um poder consolidado. Muitos grupos foram criados para defender certas classes que ainda tinham alguma representatividade por serem uteis para a economia do país. Nós, filhos e netos da ditadura crescemos com esse temor que aos poucos foi se diluindo com o passar do tempo e o surgimento de novas gerações.
         
           A redemocratização: Esse acho que foi o período mais importante do nosso país. Houveram muitas greves, confrontos, as minorias começaram a se unir em prol de uma mesma causa, começou-se a questionar as coisas e a estrutura do poder que já estava velha, caduca e impotente, então ele começou a perder o controle. A arte ressurgiu como sendo a voz de uma geração cansada de apanhar da policia, de ter amigos presos e desaparecerem, aos poucos as mordaças das pessoas foram caindo. Ideias e teses revolucionárias vindas de outros países começaram a chegar as massas. surgiram novos partidos políticos, novas lideranças e uma nova esperança. O país estava pobre e miserável, mas começava a lutar por condições mais dignas. Surgiu o movimento punk, os movimentos sindicais ganharam força, o povo parecia se agarrar nesses novos ideais de liberdade e mudança. O cinema, por exemplo, mostrava uma realidade decadente, depravada, mesquinha e ao mesmo tempo bem humorada de nossa sociedade. A musica era usada para reviver as memorias de um passado repressor e ainda muito recente. O Brasil começou a olhar para as guerras e revoluções no resto do mundo e decidiu opinar. Eramos pobres e ainda padecíamos de uma educação mais consistente, mas tínhamos curiosidade e juventude para lutarmos. Naquela época acreditávamos que nossa cultura e nossa opinião poderiam mudar o mundo, tínhamos nossos ideais. Eu era criança nesse período e lembro bem de como éramos educados e vi os movimentos culturais tomando forma.
          A reestruturação: Considero esse período emblemático, pois foi quando entrei na escola na segunda metade dos anos 80. Tínhamos problemas como uma inflação descontrolada, desemprego, ameaças de guerra, mas estávamos otimistas pois o fantasma da ditadura tinha ficado no passado e nossos novos ideais políticos e sociais pareciam bem claros. Em nossas mentes ainda infantis foi plantado um conceito onde tínhamos que estudar para conseguirmos bons empregos e ajudar nossas famílias e na construção de um novo país. Mas por que chamo esse período de reestruturação? Não é a reestruturação do país, mas sim do poder. Os meios de comunicação inteligentemente trouxeram grandes marcas para o país como sendo uma demonstração de progresso individual do cidadão comum e uma nova era para o Brasil. Algumas pessoas se aproveitaram que a poeira baixou e vendo que a ditadura havia perdido o poder, começaram a criar alianças para então governar o país de acordo com os interesses deles. Foi muito claro o golpe iniciado ali, mas na época não percebíamos, pois estávamos acostumados com o inimigo armado e identificado com farda e patente. Não estávamos prontos para enfrentar um inimigo sorridente, que oferecia entretenimento, arte, educação, carros, apartamentos, estilo e tudo o mais. Estávamos distraídos atirando contra um inimigo morto e passamos a nos entregar a sedução de quem achávamos que era nosso aliado.
          A reconquista: Começou em 1989 com a eleição para presidente com voto direto. A mídia criou mocinhos e vilões, financiou campanhas, trouxe essas grandes marcas e seu dinheiro para a ação politica e social. E a década seguinte começava com um presidente arrogante e criado pela mídia e dinheiro de origem suspeita. Ao que parece, o escolhido tinha um ego maior do que se admitia e em dois anos foi criticado, acusado, condenado e deposto. O real poder iludiu a população fazendo com que ela achasse que tinham o controle e derrubaram o presidente. Já havia um salvador da pátria pronto para consertar tudo e ele o fez. Criou moeda forte, redefiniu as regras do jogo e o poder reconquistou seu posto, mas sem armas e ameaças, usou a vaidade e a crença popular para enganar o povo. Durante esse período os jogadores foram se aprimorando e desenvolvendo novas táticas. Tínhamos duas correntes muito fortes medindo foças politicas e uma porção de nanicos com seus movimentos tentando se articular.
O país conseguiu uma nova imagem principalmente para consumo interno. E silenciosamente o poder conseguiu calar a voz revolucionária que existia anteriormente. Como a máquina militar estava enferrujada e pegava mal usa-la, a arma usada foi a mídia, principal agente do poder consolidado. Ao invés do rock contestatório, das letras e peças com sacadas sociais e politicas bem elaboradas, das criticas e movimentos das minorias, o poder promoveu a projeção de artistas água com açúcar, com letras românticas e apaixonadas do sertanejo popularesco. Depois veio o pagode adocicado e cheio de trocadilhos. O rock virou piada musicada e os antigos artistas intelectuais passaram a escrever para temas de novelas, já não contestavam mais o poder e mantinham apenas a imagem de perseguidos pela ditadura. Tudo isso tomou conta das rádios e televisões.
          A revolução de plástico: Como a nova estrutura do poder precisava respirar e reafirmar sua identificação com o povo, pegaram aquela marca que surgiu nas greves e movimentos sindicais, aquela voz identificada com o trabalhador explorado, deram uma refinada, fizeram alianças com empresários e políticos que representavam o velho, mas estavam esquecidos e com o discurso pronto e promessas de inclusão e eles elegeram um presidente que não tinha diploma, que não havia sido testado em nenhum mandato, portanto acima de qualquer desconfiança popular. O novo governo deu uma requintada no discurso, distribuiu esmolas ao povo, mascarou o panorama econômico, abriu o país para que a exploração das grandes empresas fosse ainda maior do que antes. Meros ativistas com empregos comuns enriqueceram enquanto o povo achava que estava aumentando seu poder aquisitivo e sua qualidade de vida. Politicamente o país foi se dividindo em pequenos nichos e esses sanguessugas, fingindo lutarem uns contra os outros, faziam alianças das mais improváveis. Desde o inicio esse novo governo teve diversos casos de corrupção vindos a publico, mas isso já não importava mais, o povo prefere acreditar em discursos vazios, se agarrar em bandeiras que não representam nada e demonstrar sua inconformidade com criativas e inúteis formas de protesto.
          O agente tecnológico: E para coroar todo esse processo, a televisão virou digital e acessível para os patrocinadores do poder conseguirem atingir ainda mais recursos financeiros e de influencia. A popularização dos Smartfones possibilitou que os objetos de consumo se tornassem mais portáteis para facilitar o roubo, atingissem uma faixa etária bem maior de consumidores e uma vida útil extremamente curta para forçar o consumo constante. Mais do que um golpe econômico, a integração possibilitada pela popularização da internet conseguiu dar ao poder um controle absoluto sobre o pensamento de seus governados. Os agentes do poder conseguem deixar o povo tão distraído com debates a favor ou contra A ou B, as crianças tão idiotizadas ao ponto de chegarem a adolescência sem saber ler e interpretar um texto, mesmo tendo estudado durante 5, 6 ou mais anos numa instituição de ensino. Enquanto achamos que estamos crescendo econômica e intelectualmente com nossos brinquedos digitais, não notamos que nunca sofremos uma lavagem cerebral tão eficiente. Hoje parece impossível de fugir de certos padrões, ou damos o braço a torcer para as imposições sociais e tecnológicas ou ficamos apatetadamente a margem de tudo criticando os outros.         
          Concluindo: Temos que voltar para nossa simplicidade de pensamento e usarmos as ferramentas que temos como simples ferramentas. Você não precisa vestir uma camisa ou carregar uma bandeira para ter o direito de criticar o governo, seja de qual partido for, pois você paga constantemente em forma de impostos para que eles lhe prestem serviço. É mais que um direito, é um dever do cidadão cobrar o governo que ele patrocina. Mesmo sabendo que num país onde nada funciona, uma urna eletrônica é vendida como sendo confiável e o povo como sendo o avalista principal de tudo que acontece na politica com seu voto. Não basta a população sair as ruas para protestar contra corrupção se na próxima eleição os mesmos políticos serão eleitos para continuar roubando. A politica nunca teve tanta atenção do povo e mesmo assim consegue fazer com que o povo continue confuso e enganado. Regredimos intelectualmente conforme fomos tendo acesso a informação. Nos afastamos uns dos outros quando conseguimos ferramentas para nos mantermos a cada dia mais conectados. Estamos conseguindo ficar a cada mais agressivos e com discursos mais afiados nas redes sociais, enquanto cresce a violência, a crise na saúde, a total desatenção com a educação e a corrupção. Só vão parar de roubar quando não houver mais dinheiro e isso não está tão longe de acontecer. Reflita sobre isso, pois o maior prejudicado é o cidadão comum.
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