sábado, 23 de abril de 2016

Metallica, o início

         
          Desde o início dos anos 90 sempre falei a todos que a minha banda favorita era o Metallica. O motivo, a apresentação de One no Grammy de 1989 (assista aqui). De 1990 a 1994 eu gravei em fita K7, como era de praxe na época, a demo anterior ao álbum Kill Em' All, No Life 'till Leather de um programa de rádio, também gravei o Metallica e o ...And Justice for All numa fita de 90 minutos da Basf, um álbum de cada lado, claro que não couberam todas as musicas. Outro álbum que tive acesso foi o Ride the Lightning, que também gravei em fita, e por um bom tempo foi o disco que mais gostei em toda minha vida. O ultimo álbum do Metallica que gravei em fita foi o Master of Puppets. Com a grande lacuna entre o álbum preto e o Load, o Metallica foi muito badalado e já causava polêmica por causa dos álbuns ...And Justice for All e o próprio Metallica. O que mais me chamou a atenção no Metallica naqueles tempos, foi o tamanho da banda, tocando para milhares de pessoas em estádios lotados. Guns n' Roses estava nesse nível também, além das bandas de Hard Rock dos anos 70 e 80 que costumavam lotar arenas, mas uma banda de Metal, acho que somente o Iron Maiden poderia se orgulhar de fazer isso o tempo todo. Porém, esse ultimo vinha de um álbum fraco, No Prayer for the Dying e em seguida um irregular, Fear of the Dark. Outras bandas de Metal estavam seguindo os passos do Metallica como o Testament, Anthrax, Kreator, Annihilator e Megadeth, buscando uma sonoridade alternativa ao Thrash Metal dos anos 1980. O próprio Slayer gravara um álbum de covers punk. Não é o caso aqui analisar o cenário musical profundamente, essas referências servem apenas para situar o leitor no momento musical vivido naquele período. Estamos falando de uma época onde grandes bandas de Hard Rock de arena começavam a fraquejar e davam seu último filho, o G N' R, ás grandes massas e o Pantera e o Sepultura ainda não haviam estourado ao ponto de influenciar a sonoridade dos anos 2000. Os únicos movimentos que estavam em ascensão eram o Death e o Black Metal, claro, e seus afluentes, porém ainda eram muito complexos e marginalizados para alcançarem o grande público. Se seus álbuns e demos ainda demoravam para circular por diversos países ao ponto de chamar a atenção da mídia mais comercial, imagine que o Metallica lotava arenas nos quatro cantos do mundo.         
          Nascido em 26 de dezembro de 1963 na cidade de Gentofte, na Dinamarca, Lars Ulrich era filho de um tenista profissional famoso e que também era dono de um bar onde tocava Jazz. Lars viajou o mundo para acompanhar o pai nos diversos torneios que disputava. Filho único e convivendo com o entra e sai de músicos na casa dos pais, o menino teve uma vida tranquila financeiramente e aprendeu muito cedo a ser independente, já que tinha que preparar o próprio café da manhã para ir para escola. Na biografia escrita por Mick Wall e para algumas revistas, Lars dizia que acordava pela manhã e a casa estava aberta e cheia de garrafas vazias de cerveja e copos espalhados por todo o lado devido as recepções dadas por seus pais aos músicos que tocavam no bar de jazz. Fã de Deep Purple, Lars ganhou sua primeira bateria da avó aos 13 anos. Aos 16 foi morar nos Estados Unidos em Los Angeles, lá conheceu e se apaixonou por bandas da New Wave of British Heavy Metal. Costumava gastar muito dinheiro com álbuns de bandas deste tipo. Chegou a voltar a Europa para se aprofundar mais nesse estilo e conhecer a cena de perto. Ficou na casa de Brian Tatler, fundador do Diamond Heads e uma das principais influências do Metallica e do Megadeth. Como a cena inglesa era muito forte desde o Black Sabbath e Deep Purple, passando por Motorhead e Judas Priest e chegando ao NWOBHM, Lars volta para os Estados Unidos empolgado em formar uma banda e divulgar aos amigos o que tinha vivido em sua temporada europeia.
          Em 1981, Lars colocou uma anuncio no jornal Recycler procurando músicos para formar uma banda e tocar musicas de Tygers of Pan Tang, Diamond Heads e coisas do tipo. Hugh Tanner respondeu ao anuncio e marcou um encontro com Lars e levou seu amigo James Hetfield, chegaram a fazer um som, mas segundo este ultimo foi horrível, ele sequer foi com a cara do baixinho fedorento e tagarela com sotaque esquisito. Porém Brian Slagel, que era amigo de Lars e fundador da gravadora Metal Blade, procurava bandas para uma coletânea de bandas independentes. Lars chamou Hetfield, que tocava no Leather Charm junto a Ron McGovney que se tornaria baixista do Metallica e era amigo de James, e eles gravaram uma demo em 4 canais com James cantando, tocando baixo e guitarra e o professor de guitarra dele, Lioyd Grant gravou o solo. A musica era Hit the Lights. O nome da banda foi tirada de uma lista do outro amigo de Lars, Ron Quintana, que estava tentando batizar um fanzine que ficava entre Metal Mania e Metallica. Um segundo anuncio de Lars no Recycler procurando um baixista foi respondido pelo guitarrista Dave Mustaine, pois Ron não estava muito contente em tocar baixo, sequer sabia tirar algum som do instrumento.
          James Hetfield era de uma família extremamente religiosa e começou a tocar e ter aulas de piano aos 9 anos. Sua mãe Cynthia era cantora lírica e incentivou o filho a aprender musica. Segundo James, tocar piano fez com que ele tivesse a independência necessária para fazer duas coisas ao mesmo tempo, como cantar e tocar guitarra, pois o piano exige que se tenha independência para tocar a melodia e a harmonia ao mesmo tempo. O pai de James, Virgil, era motorista de caminhões e saiu de casa quando ele tinha 13 anos e só reapareceu no inicio dos anos 1990. James rebelou-se contra as crenças religiosas dos pais por não poder tomar sequer um analgésico para dor de cabeça devido a religião da mãe. Motorhead e Thin Lizzy foram fundamentais para que ele se apaixonasse por Heavy Metal e formar a banda Leather Charm. Sua relação com Lars não foi muito amistosa no inicio, mas ele comenta que a recepção na casa dos pais do dinamarquês eram muito diferentes do que ele estava acostumado em sua casa devido a hospitalidade natural da família Ulrich. A paixão comum por NWOBHM foi fundamental para que a dupla se mantivesse unida, embora James se identificasse mais com o estilo marrento de Dave Mustaine. Quando juntou-se ao que seria mais tarde o Metallica, Hetfield já havia saído da casa da mãe e morava na casa dos pais de Ron McGovney que estava para ser demolida.
          Dave Mustaine era um menino que tinha que conviver, juntamente com suas irmãs, com os abusos do pai, que embora fosse uma figura aparentemente normal, era um alcóolatra que descarregava na família todo seu descontrole. Aprendeu cedo a conviver com as fugas noturnas de cidade para cidade depois que sua mãe resolveu se separar de seu pai. Dave interessou-se pela guitarra ao ver a irmã mais velha ter aulas de violão. Conta-se que a própria irmã quebrou o violão na cabeça dele por não suportar mais seu barulho. Aos 15 anos Mustaine sai de casa e passa a vender drogas para pagar o aluguel e se sustentar. Segundo conta, sua mãe casou-se novamente e seu padrasto, muito religioso, implicava com as capas dos álbuns do garoto. Uma de suas clientes trabalhava numa loja de discos e lhe dava álbuns do Judas Priest, Iron Maiden, Motorhead, entre outros para pagar pelas drogas. Ele forma algumas bandas e se interessa pelo anuncio de Lars no Recycler.
          Em determinado momento, com duas musicas lançadas nas coletâneas Metal Massacre 1 e 2, todos os integrantes do Metallica vão morar na casa de Ron McGovney, que convencido por James, assumiu definitivamente o baixo da banda. Juntos melhoram gradativamente sua parte musical, mas Dave Mustaine tem atritos com Ron e James em 1982. Segundo narrativa dos envolvidos, Dave tinha trazido dois cachorros para o ensaio e um deles arranhou o carro de Ron. James e ele discutem e chegam as vias de fato. Mustaine é demitido, porém é aceito no dia seguinte após desculpar-se. Para os três, Lars, James e Dave, a banda é a vida deles e a única chance de conseguirem fazer algo decente. Porém, para Ron era apenas diversão e em alguns momentos ele se sentia incomodado por ser praticamente baixista, roadie e transportar a banda para todo lado, fora isso, tinha que segurar a barra dos três quando a coisa ficava preta junto a seus pais.
          Graças aos esforços de Lars, o Metallica passa a ter nome e visibilidade no circuito de trocas de fita e seus shows começam a chamar a atenção. Imagine que nessa época o Metallica tinha um baterista esforçado, mas que apenas era bom no Business e um baixista descontente e desmotivado que sequer conseguia tocar seu instrumento direito. Juntando-se a isso, Dave e James eram os durões que ficavam incontroláveis quando bebiam e bebiam muito. Embora Hetfield fosse mais tímido, Mustaine era mais agressivo e perigoso. Num desentendimento de Lars com um integrante do Armored Saint, Dave quebrou a perna do sujeito com um golpe de karatê.
          Numa das viagens a San Francisco, Lars e James, aconselhados por um amigo, vão assistir a banda Trauma. O baixista era um hippie que parecia estar enlouquecido no palco e tocava muito mais do que qualquer um no Metallica pudesse conceber. Ron já notara o interesse, principalmente de Lars, no baixista do Trauma e começou a se preparar para deixar o Metallica. Depois de muitas conversas e impondo a condição de que a banda teria que se mudar para San Francisco, Cliff Burton entrou para o Metallica. Como em Los Angeles a banda era pequena devido a dominante cena  Glam, decidiram mudar-se para El Cerrito e ficar mais dentro da cena que começava a se formar. Os quatro rapazes tiveram a ajuda de um casal dono de uma loja de discos em Nova Jersey, John e Marsha Zazula, apaixonados pela demo da banda No Life 'til Leader, que os levaram para sua cidade e os abrigaram no porão. O casal acreditava muito na banda e bancou o primeiro disco. Na época John Z cumpria pena em regime semiaberto por invadir o sistema de segurança de uma loja.
          A demissão de Dave Mustaine devido ao seu comportamento e a entrada de Kirk Hammet, que era guitarrista do Exodus, foi fundamental para a consolidação do Metallica e do Thrash Metal no cenário mundial. Embora Mustaine tivesse que curar uma ressaca durante 18 horas dentro de um ônibus para Los Angeles, toda aquela raiva se tornaria o Megadeth, talvez o segundo maior nome do estilo, perdendo apenas para o próprio Metallica. Embora alguns boatos sobre um plano de demitir Lars e chamar um baterista mais competente tenha se criado alguns anos depois, o fato é que seria impossível a banda contar com tantas lideranças. Para James, ficar ao centro tendo Mustaine de um lado e Cliff do outro, a situação era muito estressante, ainda mais que era Dave quem falava com o publico, mesmo que ele James fosse o vocalista. Sua timidez, ou mesmo falta de interesse em ficar a frente do grupo, fez com que a banda cogitasse chamar o vocalista que gravou o primeiro álbum do Tygers of Pan Tang, Jess Cox, mas isso não ocorreu. Para bandas como o Anthrax, que foi a banda que dividiu um abrigo com eles na época das gravações de Kill 'Em All, o Exodus de Kirk Hammet, o Armored Saint e o próprio Megadeth, o Metallica seria uma referência que seria difícil de se afastar. Para o Slayer, que talvez fosse a banda mais veloz e agressiva de todas, sua atitude foi muito alterada por causa do Metallica, já que queriam ser mais rápidos e mais agressivos do que eles. Quando saiu o primeiro álbum da banda em 25 de julho de 1983, não pararam de ocorrer lançamentos de bandas de Thrash Metal, uma mais interessante que a outra.
          O Metallica é uma banda que foi sendo conhecida rapidamente devido ao boca a boca do circuito de troca de fitas, mas também muito pela persistência e a vontade de Lars, que para muitos não considerava o ambiente a sua volta de outra forma, a não ser ao que era relacionado a música. Hoje é muito fácil criticar outros músicos e desdenhar o trabalho deles, mas em 1980 quando o Metallica começou, tudo era muito diferente. Se Lars não é nem de longe o baterista mais interessante tecnicamente, sua importância para o Heavy Metal o coloca acima de todos os outros, exceto um nome ou outro. Gravar um vídeo para o Youtube e ficar descendo o pau na forma como o cara toca é fácil, mas segurar a onda de uma banda que já teve diversos problemas quase que fatais não é para qualquer um. A morte de Cliff Burton encerrou um ciclo para a banda. Cliff seguia certa ética e era a liderança criativa do Metallica, conforme eles mesmos falam. Segundo relatos, ele sabia se impor quando a situação precisava. Mesmo a banda sendo de Lars e James, Cliff era o moderador sábio e respeitável. Para ele ficar fazendo papel de idiota nos clipes da MTV não era digno do Heavy Metal. Cliff Burton era o DJ do Metallica e ele ouvia de Misftis a Simon and Garfunkel. Enquanto Lars e James piravam ao som da New Wave of British Heavy Metal, era o baixista que os fazia ouvir Yes, Jazz e musica clássica. Não é a toa que o baixista já registrou um solo de baixo logo no primeiro álbum da banda.
          Para terminar, gostaria de pedir desculpas a todos que acham que o Metallica é uma banda vendida e o escambau. Antes de gravar o Load e mudar o visual, a banda já alcançara o topo ao lançar o disco preto. Até aquele momento a maioria das bandas de Thrash tentava seguir o Metallica para onde é que eles fossem. Acredito que esse tipo de som perdeu espaço para as bandas de Seattle como Alice in Chains e Nirvana, fazendo com que os novos fãs de Rock e Metal buscassem coisas mais simples e intimistas. Se ...And Justice for All é um álbum complexo e tem uma sonoridade estranha, isso se deve ao fato do Metallica ter perdido Cliff Burton no acidente na Suécia e ter que lidar com o luto, enfrentar suas fraquezas e ainda manter a banda grande. Antes da gravação deste álbum, a banda prestou uma homenagem a seus ídolos gravando covers com o novo baixista, Jason Newsted, em The $ 5.98 E.P.: Garage Days Re-Revisited. Depois disso lançou seu primeiro vídeo clipe para "One" e a partir dai eu acompanhei a banda até os dias de hoje. Vi o Metallica dizer Adeus a Cliff Burton no vídeo Cliff Em' All e romper com a época romântica do Thrash Metal dos anos 80. Se para muitos a banda de James e Lars é uma piada, nada do que eu escreva aqui vai mudar isso. O objetivo dessa postagem é compartilhar minha paixão pela banda e porque ela é tão importante musicalmente para mim, abrindo minha mente para o Heavy Metal e tudo que se relaciona a ele. Vi a banda ao vivo em 1999 e em 2010, posso dizer que foram momentos únicos e insuperáveis em termos de Heavy Metal. Se é impossível o Metallica gravar um disco ao nível daqueles que já se tornaram clássicos, a banda continua firme e tudo pode ser visto ao vivo e sem playbacks.



sábado, 16 de abril de 2016

Entrevista com Warren Huart

         
          Essa é a segunda matéria internacional que posto neste espaço, a primeira pode ser vista aqui, porém acredito que essa seja menos exótica, pois ao invés de falar de um mercado não muito comum para o Heavy Metal ou Rock em geral, como o Líbano, entrevistei um produtor inglês e que desde a metade dos anos 90 está trabalhando e vivendo nos Estados Unidos. Falo de Warren Huart, embora não tenha ouvido falar muito sobre ele aqui no Brasil, quem é fã de bandas como Korn, Aerosmith ou artistas como Ace Frehley e James Blunt devem saber de quem se trata, pois o mesmo trabalhou ou trabalha com esses artistas, entre muitos outros. Para quem tiver curiosidade a lista completa está aqui. Warren Huart é um daqueles caras que conhece e é respeitado por artistas e profissionais consagrados e referências mundiais em suas atividades. Em seu canal no Youtube já vi entrevistas com Chris Lord Alge, Billy Sheehan, Stevie Slate, entre muitos outros. Além desses bate-papos, as vezes nos estúdios de trabalho dos caras, ele também passa sua experiência como engenheiro de som e produtor dando dicas de como gravar vocais, guitarras, baixo, bateria, mixar, masterizar entre outras coisas. Seu projeto Produce Like a Pro, visa, segundo ele, compartilhar o conhecimento que lhe foi passado por grandes profissionais ao longo dos anos e que ele mesmo pôde testar e aprimorar nos seus trabalhos. Talvez essa seja uma matéria exclusiva aqui no Brasil, pois ao fazer buscas simples na internet, não me recordo de ter visto nada a respeito dele por aqui. 
         
          Na verdade eu encontrei um vídeo do Warren quando estava atrás de uma interface de áudio e deparei-me com um unboxing e alguns tutoriais feitos por ele em seu canal do Youtube. Me inscrevi e quase que diariamente recebo material novo como videos e postagens no seu blog sobre assuntos muito interessantes para quem é profissional ou apaixonado por áudio e música. Tanto nos vídeos como nos e-mails que trocamos Warren Huart demonstra sempre bom humor, humildade e gentileza britânica. Uma de minhas grandes curiosidades era sobre até que ponto compartilhar todo esse material que ele cria para ensinar novos profissionais, visa o crescimento geral do mercado ou a auto promoção. Acredito que seja uma afirmação da ideia dos profissionais de fora, que se todos se ajudarem elevarão o nível de seus trabalhos e todos ganharão com isso, pois aqui no Brasil a mentalidade é que você precisa "eliminar" a concorrência para se manter vivo em um mercado medíocre. Já entrevistei profissionais daqui e todos começam gravando suas bandas de forma precária e depois vão crescendo profissionalmente e com seus próprios erros. Nos Estados Unidos, por exemplo, já há um Know How bem mais consistente, pois as grandes empresas estão lá, o mercado já está definido e aprimorado e também existe todo esse legado deixado por grandes profissionais e empresas. No bate papo abaixo trago a vocês um poucos das ideias e das histórias desse grande profissional. Espero que gostem.
          Paulo Ramos: _Você é inglês, mas desde meados da década de 1990 vive nos Estados Unidos, certo? Qual é a diferença entre o mercado musical americano e o europeu na sua visão?
          Warren Huart: _Wow! Essa é uma grande questão! Minha experiência de fazer música na Inglaterra é a seguinte: Se eu encontrar um artista, trabalhar ele e fazer algo surpreendente, ele será lançado no mercado. Na América, o processo pode ser mais longo por causa da maior quantidade de pessoas envolvidas nos negócios. O mercado aqui nos EUA é mais rígido e há mais especulações acontecendo. Sendo o maior mercado de música do mundo, é definitivamente menos propenso a assumir riscos. A maioria das produções Pop, em particular, é feita pelo mesmo punhado de pessoas.
          PR: _Fale-me sobre as bandas Star 69 e Dis. Inc. e o que elas representaram na sua carreira?
          Warren Huart: _Entrei para Star 69 em meados de 94. Muito rapidamente, apenas depois de um par de shows, já conseguimos um contrato com uma gravadora chamada Organic Records de propriedade de David Steele. Ele costumava ser o vice-presidente da Virgin Records. Quando Richard Branson vendeu a Virgin e antes que ele abrisse a V2 Records, David começou seu próprio selo. Nós lançamos um par de singles, ambos na Inglaterra. Mas o nosso som era mais estilo americano, tínhamos uma vocalista americana. O baterista Patrick Hannan, (Patch) é um dos meus amigos mais antigos do mundo, ele também foi o baterista da Sundays. Decidimos nos mudar para a América para fazer uma gravação com Don Smith, de quem eu era fã porque ele tinha gravado com o Travelling Wilbury de Tom Petty e naquele tempo tinha acabado o álbum Kerosene Hats do Crackers, que é uma obra-prima de produção. Eu estava muito animado para trabalhar com ele, infelizmente Patch estava prestes a gravar novamente com o Sundays em 95 e não poderia vir com a gente. Para mim se mudar para Los Angeles para fazer um álbum foi uma experiência de aprendizagem extremamente importante. Don Smith (que morreu há alguns anos) foi um dos maiores engenheiros que já viveu, através do trabalho com ele no álbum Star 69 eu aprendi muito. Ele foi o primeiro engenheiro que vi usar uma Neve Sidecar equipada com 1073, naquele ponto, por volta do final dos anos 80 a meados dos anos 90, todo mundo estava trabalhando em SSL, o regresso ao som clássico de prés e compressores vintage, que nós temos como clássicos agora , mas que ainda não eram reconhecidos. Então, Don estava usando equipamento vintage antes de isso estar na moda. Ele tinha compressores Fairchild nos vocais, tinha U47s quando todo mundo estava usando equipamentos novos, e ele era incrivelmente talentoso. Don iria passar horas buscando o melhor som da bateria, certificando-se se a borda da caixa estava afinada com a música, sua atenção aos detalhes era incrível!
         
Em 1998 eu comecei uma banda chamada Disappointment Inc. Em nosso primeiro show no Linda' Doll Hut em Anaheim, um olheiro da Time-Bomb Records de Jim Guerinot nos viu e assinamos com Jim. Levamos nossas demos que tínhamos feito em ADAT para Dave Jerden, outro grande produtor e engenheiro que eu admirava, e sua reação foi "suas demos são tão boas, por que eu iria gravá-las novamente?", que foi muito honesto da parte dele e me fez gostar mais dele ainda! Mas a nossa gravadora queria levá-las ao próximo nível, por isso regravamos e nós o fizemos com uma combinação de todos os membros da banda mais as  muito talentosas habilidades de Dave Jerden na produção e a engenharia surpreendente de Bryan Carlstrom e também Annette Cisneros, um grande engenheiro de Pro Tools. Foi uma grande experiência para mim. Fui de um grande produtor/engenheiro para outra dupla de grandes engenheiros e produtores em dois anos fazendo álbuns. Eu estava sendo verdadeiramente abençoado por poder trabalhar com essas pessoas de nível mundial. Dave Jerden fez "Future Shock", de Herbie Hancock. Ele fez "Remaining Light" do The Talking Heads com Brian Eno. Então, estar na sala com ele e ser capaz de lhe fazer perguntas foi incrível. Sem mencionar que ele também produziu álbuns do Alice in Chains, Jane's Addiction e Rolling Stones. Então, estar ali com Don Smith e perguntar-lhe sobre o vocal de Bob Dylan, ou o timbre da guitarra de George Harrison são coisas de valor inestimável. Comecei o Produce Like a Pro para repassar essas informações porque eu não acho que você possa mais ter essa experiência nos dias de hoje.
          PR: _Você já trabalhou como engenheiro de som e produziu vários nomes de diferentes estilos musicais e até mesmo fez trabalhos para a séries de TV. Você geralmente trabalha de acordo com o artista e o tipo de trabalho ou você foi mudando sua metodologia conforme foi ganhando experiência? Como costuma organizar seu trabalho?
          WH: _O trabalho de um produtor é facilitar uma grande gravação. Eu usei esta citação muitas e muitas vezes e eu vou usá-la novamente. Ha Ha! Dave Jerden uma vez me disse: "às vezes você tem que re-escrever a música inteira, alterar o arranjo, a tonalidade, o ritmo, tudo, até mesmo a instrumentação. Outras vezes você só tem que ficar fora do caminho do artista e ajudá-lo a fazer uma grande gravação ". Não há apenas uma maneira correta de fazer determinada coisa. Mas ainda assim, o conhecimento acumulado que você tem de trabalhar com grandes quantidades de talentosos artistas ao longo dos anos ensina você a consertar as coisas quando precisam ser corrigidas e não corrigi-las quando eles não precisam ser consertadas. Uma das questões que as pessoas se queixam de música moderna, e eu tenho que concordar com elas, é que um monte de produtores fazem música de acordo com um conjunto de habilidades limitadas. Então, se eles são realmente bons engenheiros de Pro Tools  e eles sabem como por tudo perfeitamente no tempo e todos os sons afinados, isso é uma coisa que pode usar para fazer uma gravação. Mas para fazer um grande disco isso é apenas uma parte das habilidades que você precisa. Para ser um grande produtor você precisa saber fazer as coisas mais quantizadas e afinadas apenas se for necessário.
          PR: _É notório que muitos profissionais experientes estão investindo em blogs, cursos on-line e outras formas de compartilhar os conhecimentos adquiridos durante suas carreiras, por exemplo  temos: New Model artist de Dave Kusek, Ken Tamplin Vocal Academy, entre outros. Isto é realmente para o benefício da música e do conhecimento ou é vaidade e / ou uma maneira diferente de explorar o negócio da música? Fale sobre o Produce Like a Pro, que eu acompanho. Qual é o objetivo do projeto e como surgiu a ideia?
          WH: _Quando eu comecei o Produce Like a Pro foi muito importante para mim não colocar o meu nome no título. Não é sobre mim, é muito maior do que isso, porque Produce Like a Pro, neste um ano e meio desde que eu comecei, está crescendo como uma comunidade on-line maravilhosa. O  único objetivo do Produce Like a Pro é criar uma comunidade de profissionais que tem a mesma opinião: produtores, engenheiros, compositores, mixadores e até mesmo executivos que podem ajudar uns aos outros partilhando as suas experiências. A finalidade do Produce Like a Pro Academy por exemplo, é criar um lugar seguro onde eu mesmo posso enviar a minha pior mixagem de um som e discutir com as pessoas sobre como melhorar aquilo. Minha jornada, como eu aprendi, sendo primeiro um fã de música, em seguida um compositor-músico que se tornou um produtor e engenheiro, me fez perceber que a forma tradicional de chegar no negócio da música, indo para a escola de música ou entrar em um enorme estúdio, em seguida, tornando-se um estagiário, então assistente, e em depois engenheiro e produtor, estava viciada. Esse caminho foi se tornando menos e menos eficaz. Eu estava pegando estudantes recém saídos da escola e a eles foram ensinadas todas estas formas de fazer as coisas que realmente não se relacionam com situações da vida real. Os estúdios tradicionais quase não existem mais. Sei que existem pessoas que vivem em pequenas cidades no meio da América, e em todo o mundo, que não têm acesso a grandes estúdios, escolas caras e outras formas de aprender essas coisas. Então o Produce Like a Pro foi projetado para ajudar a todos. Estou muito feliz que na Academia muitos dos membros são produtores muito ativos e bem-sucedidos por conta própria e somos capazes de aprender uns com os outros. Eu, pessoalmente, aprendo muito com eles todos os dias, tanto é que eu estou investindo mais e mais tempo no projeto para desenvolvê-lo ainda mais.
         
          PR: _No Brasil alguns profissionais de áudio fazem o mesmo tipo de compartilhamento de informações de seus trabalhos, mas é para preencher uma lacuna, uma vez que não existem programas específicos ou grandes trabalhos profissionais com uma estrutura eficiente. Estamos muito atrasados em termos de produções de qualidade e de mercado, se comparado a outros lugares do mundo. Mas nossos músicos são muito talentosos e alguns reconhecidos mundialmente como Tom Jobim, Sepultura, etc. Como você  vê isso estando de fora do Brasil, ou não vê?
          WH: _A cultura brasileira, seja ela no futebol, dança ou todas as outras artes, é muito, muito poderosa! Vindo da Inglaterra nós temos uma impressão muito forte sobre os brasileiros. Quer se trate de Pelé ou apenas o futebol em geral, o Carnaval e, claro, uma cena de música latina vibrante. Estes são todas demonstrações incríveis de potencial! Eu acho que, se eu fosse brasileiro, tendo essa vasta cultura, e como você disse, talento incrível, eu não iria medir meu sucesso com outros países. Especialmente quando muitos dos outros países não têm essa força cultural.
          PR: _O final dos anos 1980 e início de 1990, é uma referência de qualidade na produção musical, pelo menos para mim e para outros que eu converso. Hoje álbuns daquela época ainda soam superiores em termos de desempenho e produção. Deixando o lado do romantismo, é claro, você acha que a revolução tecnológica tem prejudicado a qualidade da música produzida? É muito mais fácil trabalhar com computadores e simuladores do que fazer produções mais "vintage"? Nota: Por que Metallica, Aerosmith, Bon Jovi, etc. soavam melhores há 20 anos?
          WH: _Eu acredito fortemente que a criatividade é a coisa mais importante, independente da época. Se você ouvir "Royals" do Lorde, não há nada nessa música que não poderia ter sido feito em qualquer formato, qualquer DAW, fita, cassete, etc. Não há nada de difícil em termos de produção, é apenas uma música maravilhosa com o mais importante, um incrível vocal e uma letra maravilhosa. Assim, independentemente da tecnologia moderna, a criatividade ainda reina soberana. A revolução digital tem permitido um monte de gente ser capaz de fazer música, ela nivelou o campo de jogo para que qualquer pessoa com algumas centenas de dólares tenha acesso a uma quantidade incrível de opções. Existem recursos de edição incríveis e há uma enorme quantidade de Plugins disponíveis para nós fazermos mixagens maravilhosas! Quando antes, há 20 anos, você só era capaz de ter 3 ou 4 reverbs e 2 delays em um estúdio de gravação, agora você pode ter quantidades ilimitadas de reverbs, delays, compressores e equalizadores à sua disposição quando você vai mixar na sua DAW. Com o nivelamento do campo de jogo significa que há uma maior quantidade de música lá fora.
Eu acho que tirar de músicos uma pegada mais forte e precisa, embora ele leve mais tempo para gravar, irá sempre soar melhor do que a edição digital para acertar as coisas. Então, se você ouvir os registros feitos 20 ou 30 anos atrás eles foram gravados em fita. Consertar as coisas perfeitamente na sua DAW remove toda a humanidade da musica. Optando por aperfeiçoar a interpretação para melhorar suas habilidades na hora de gravar vai lhe dar os melhores resultados.
          PR: _Você optou por usar Pro Tools e Plugins devido á uma realidade de mercado ou prefere trabalhar da maneira antiga? O que você sente quando conversa sobre isso com outros produtores e engenheiros de som que tem contato? Alguns desses nomes que eu já vi você entrevistar já experimentaram os dois mundos exaustivamente.
          WH: _Eu vivo nos dois mundos. Eu não me vejo trabalhando totalmente longe do analógico em um futuro próximo. No entanto, eu pessoalmente acho que não é tão importante nos dias de hoje ter uma mesa de mixagem ou especialmente uma summing box. Alguns dos melhores engenheiros de som do mundo agora mixam inteiramente in the box. Eu acho que os resultados falam por si. Vai ouvir qualquer das mixagens de Andrew Scheps, elas soam incríveis. Eu não vejo mais uma necessidade de ter uma mesa de som, a não ser para mixar uma bateria ao vivo em particular. No entanto, captar um grande som na origem é o principal. Se você pode pagar pelo menos por um bom pré amplificador de microfone, e talvez um bom compressor, que, combinado com um microfone decente, fará uma grande diferença na sua gravação, maior do que qualquer tipo de summing box. Obter um grande sinal na captação, bem gordo, capta-lo soando incrível, quando for mixá-lo sua vida vai ser muito fácil, independentemente de como você mixá-lo, in the box ou com summing analógico. Gravá-lo muito bem é o segredo. Então, para mim, o analógico no momento é realmente importante na entrada do sinal. Dito isto, caras como Steven Slate, que está inventando o microfone virtual, e outras empresas estão realmente começando a empurrar os limites para mais adiante. A revolução digital está aqui para ficar e é bastante provável que no futuro, até mesmo no futuro próximo, as pessoas vão fazer gravações inteiramente digitais que irão soar como elas fossem gravadas totalmente em analógico.
          PR: _Loops e edição de tempo e afinação na mixagem tiraram a obrigatoriedade do músico de executar seu instrumento com perfeição no momento da gravação, isso afeta a maneira como eles estão trabalhando hoje? Comente sobre isso.
          WH: _Um monte de novos artistas ascendentes estão começando a trabalhar com produtores de rock modernos e são privados da experiência de tocarem juntos em uma sala. Acho isso lamentável porque atrasa o seu desenvolvimento como músicos e geram músicas que soam incrivelmente artificiais que só podem ser reproduzidas com toneladas de playbacks ao vivo. Estamos todos cientes disso, todos nós temos visto e ouvido nos shows. Eles têm de competir com artistas pop para permanecer relevantes, então eles têm que fazer todas as coisas que os artistas pop fazem.
          PR: _Como você acha que a indústria da música será em poucos anos? Você acha que a música ao vivo tende a acabar agora que vemos tantos playbacks e recursos tecnológicos que está sendo usados nos shows e tem agradado o público em geral ou isso não é percebido com frequência? Você se lembra do Milli Vanilli? Porque Justin Bieber, David Guetta e outros artistas com as mesmas características não sofrem as mesmas consequências, que os farsantes citados acima, por fazerem shows praticamente todos pré gravados? Gostaria de sua opinião honesta sobre isso, estou curioso. (Escrevi sobre isso aqui)
          WH: _Infelizmente, Milli Vanilli não eram os cantores reais nas gravações. Eles eram apenas personagens para outros cantores. Justin Bieber é realmente muito talentoso. Ele é um grande cantor e multi-instrumentista, se você pesquisar na internet verá que há uma abundância de vídeos no YouTube dele cantando fantasticamente quando era criança. A realidade com a música pop é que as pessoas querem ouvir o disco e ver o artista ao vivo. Estamos neste mundo infeliz onde playbacks são muito utilizados e cantores, que estão pulando e dançando até ficarem sem fôlego, estão cantando junto com sua trilha de voz pré-gravada. Dessa forma eles ainda soam "Profissionais". Felizmente, há uma grande quantidade de artistas que não precisam fazer isso, temos tantos artistas diferentes de diferentes gêneros neste mundo, que se você realmente é um fã de música de verdade, pode encontrar diversos artistas que ainda tocam realmente ao vivo e são incrivelmente emocionantes de assistir.
          PR: _Para as novas gerações a música está sendo vista como arte ou simples entretenimento, como jogos de vídeo ou televisão? Você acha que as pessoas estão comprando arte ou apenas compram um produto qualquer quando compram um CD, vão a um show ou fazem download de uma álbum pelo iTunes?
          WH: _Eu acho que eles compram tanto a arte como a mercadoria. Mesmo quando você é um adolescente impetuoso e descobre bandas  independentes, parte da razão por que você gosta delas é porque ninguém mais sabe sobre eles. É  como se descobrisse algo único, que é só seu. O grande barato sobre a música é que todos nós a amamos, e todos nós amamos ama-la. Às vezes nós amamos sempre as mesmas coisas, mas outras vezes não. É difícil de acreditar, haha, mas algumas pessoas não gostam de The Beatles! Isso é algo incomum para os fãs de música de acreditar, mas eu conheci pessoas que não gostam deles. Fiquei espantado com isso, eu achei inacreditável. Serve para ilustrar que a música nos fala a todos de maneiras diferentes e por razões diferentes. Grandes artistas como David Bowie não podem surgir novamente. Um artista não pode querer ser tão completo quanto ele, em todos os níveis. Isso não pode acontecer novamente porque as pessoas não estão susceptíveis a gostar disso. Mas você sabe, só havia um Michaelangelo e um Leonardo Da Vinci e havia apenas um David Bowie. Não há problema em ser duas ou três coisas que David Bowie foi. Se você é um grande compositor, mas não é um grande cantor, tudo bem. Indiscutivelmente Willie Nelson não é um grande cantor, mas é um dos melhores compositores que já viveu. Portanto, há um monte de coisas para amar sobre todos os tipos de música.
          PR: _Pra encerrar, com quase 50 anos de idade você acredita que é bem sucedido profissionalmente e como ser humano? Você acha que algo poderia ser diferente ou tudo é exatamente como você imaginou? Diga-me como é viver da sua paixão pela música já que eu não tive esse privilégio porque eu preferi alguma integridade artística (estupidez, eu acredito, hehehehe), em vez de uma carreira de músico profissional? O homem Warren Huart  ainda tem muito a alcançar?
          WH: _Eu não tenho arrependimentos. Existem coisas que eu poderia ter feito de forma diferente? Claro, mas elas teriam me levado por um caminho diferente. Uma frase que eu amo é " o passado de um homem é a sua contribuição para o futuro". Então, se você não viver tudo que você teve como experiência na vida, você pode não ser capaz de se relacionar com outras pessoas. É importante que mesmo alguns dos meus fracassos musicais existam, porque sem eles eu não saberia de algumas das armadilhas que agora eu posso orientar os artista ao meu redor a não caírem nelas. A razão que eu amo fazer o Produce Like A Pro é poder deixar todos saberem como evitar essas armadilhas. É realmente importante como produtor ser capaz de se relacionar com seu artista. Se você teve sucessos e fracassos na vida, você pode aplicar essas informações em cada situação.
         Então essa foi a entrevista com Warren Huart. Pra mim, nenhuma resposta que ele tenha dado me surpreendeu, talvez a que ele falou da cultura brasileira. Acho que, por já conhecer o trabalho dele, eu esteja acostumado com suas ideias ou mesmo tenha absorvido muitas delas. Mas não custa ressaltar alguns pontos como o objetivo do projeto Produce Like a Pro, que é compartilhar uma quantidade grande de informações e demonstrar como usá-las na prática. Nos vídeos que estão disponibilizados no Youtube você pode ver exatamente como ele grava e trabalha com artistas de renome. Também compartilho da ideia de que, se você trabalhar com outras pessoas, você tende a crescer constantemente, pois as tecnologias e as formas de trabalhar também mudam o tempo todo. foram meses aguardando para receber as respostas de meus questionamentos, já que não tivemos como fazer a entrevista por Skype ou Hangout, fizemos tudo por e-mail. Também foram horas fazendo a tradução para tentar trazer para a linguagem do blog tudo que o Warren pensa sobre os assuntos abordados. Essa é minha pequena contribuição visando melhorar a musica e a cultura no nosso país. Espero que leiam, gostem, aproveitem,compartilhem e discutam todos os temas abordados nesse espaço. Grande abraço a todos!
                    PS: Um grande abraço a Warren Huart e toda a equipe da Spitfire por possibilitarem este contato! Sucesso a todos!

sábado, 9 de abril de 2016

Xaparraw

                    Essa postagem é para homenagear algumas pessoas muito importantes na minha história recente, são elas: Cássio Quines, João Paulo Ourique, Vinicius Mietlicki e Jonathan Brose, que foram muito influentes e contribuíram muito para minha história como músico e ser humano nos últimos anos. Posso dizer que tivemos mais momentos bons do que ruins e nos divertimos muito quando nos encontrávamos e apoiamos uns aos outros quando as dificuldades apareceram. Meus amigos, esta postagem é uma sincera homenagem a vocês, pelo amor, carinho, amizade e respeito que sempre tiveram comigo.        
           Acho que era umas 09:00 ou 10:00 da manhã de sábado. Tinha acabado de tomar café da manhã em um restaurante de beira de estrada. Estava sentado nos paralelepípedos a margem de uma auto estrada na entrada de Lages em Santa Catarina. Fumava um cigarro ao lado de meu amigo Cássio Quines. Estávamos indo participar do 7° Otacílio Rock Festival 2013. Este é um importante festival de verão onde diversas bandas tocam durante um final de semana e acontece anualmente. Enquanto nos recuperávamos do acidente que havíamos sofrido poucas horas antes e aguardávamos para ir ao encontro a nossos parceiros de viagem e colegas de banda que estavam hospitalizados com diferentes lesões causadas pelo capotamento de uma das duas de nossas vans que viajavam para a cidade onde ocorreu o evento. Naquele momento já se podia imaginar que seria a ultima viagem da Xaparraw para tocar em algum evento.
          Conheci o pessoal de Charqueadas em 2011 através de um colega de trabalho que iria tocar e me convidou. Estava me recuperando de um período em que havia mergulhado em depressão e apenas saia de casa para trabalhar. Tinha me isolado do mundo após a morte do meu avô paterno, e que era meu pai adotivo, em 2010. Tinha iniciado meus estudos sobre gravação e o pouco que interagia era pelas redes sociais. A Xaparraw tocou naquele evento e eu fiquei amigo do pessoal da banda logo de cara. A partir de então, passei a acompanhar a banda pelos locais onde tocavam e fiquei muito amigo do baterista, Cássio Quines. O cenário apresentado a mim nesses eventos me remetia a época em que estive junto a Evocation na metade dos anos 1990.
                    Ocorreu que as vésperas de tocarem em Charqueadas abrindo para o Krisiun, a banda ficou sem baixista. Como eu percebi a empolgação devido ao evento organizado por eles e depois a frustração pela baixa de ultima hora, ofereci-me para tocar baixo nesse show. Tive uma semana onde aconteceu um ensaio e meio para apresentar 4 musicas e marcar presença junto a Revogar e o Krisiun. Houve muita correria, atropelos e trabalho, mas naquele 24 de agosto de 2012 subimos no palco para minha estréia junto a banda. Não foi a melhor performance da minha vida, mas acho que contribui para a banda cumprir o que estava previsto. Subi para o show ao lado de Cássio Quines, João Paulo Ourique e Vinicius Mietlicki carregando meu baixo Évora desenhado por mim e construído pelo luthier Evandro Rosa. Era um baixo fretless de seis cordas, escala de 3 oitavas e com medidas exclusivas. Tivemos o reconhecimento das pessoas que compareceram ao evento e a banda ficou mais unida do que nunca.
          Passamos a ensaiar na casa do Cássio Quines, que era o baterista da banda, e projetávamos gravar algumas musicas e fazer alguns shows ainda em 2012. A banda tinha assinado com uma produtora e precisava de material para divulgação já que a demo gravada anteriormente não representava o momento musical da banda. Não lembro de contribuir em nada no processo de composição da banda, pois ainda estávamos trabalhando o material para os shows e azeitando as musicas antigas. Nesse meio tempo tocamos em Esteio, também para uma galera bem diferente do que havíamos tocado em Charqueadas. Estar numa banda naquele momento me inspirou a lutar contra muitos demônios que estavam me sufocando e tentando me drenar para o inferno o mais rápido possível. Também precisava estar forte e estável, pois acabara de descobrir que seria pai. Lembro que gravamos duas musicas no final daquele ano, uma delas pode ser conferida aqui. Chegamos a tocar no bar Eclipse em Porto Alegre onde me apresentei com o punho direito quebrado devido a um acidente de trabalho.
          Passamos o final de 2012 e inicio de 2013 ensaiando semanalmente. Na noite em que aconteceu o fatídico incêndio na boate Kiss em Santa Maria, em 27 de janeiro de 2013, a Xaparraw tocava na cidade de Butia e fazia um show correto e elogiado pelos amigos e músicos de outras bandas que estavam ali. Era muito bom fazer parte daquela banda e tocar em cidades que ainda não conhecia. Esse show em especial não lembro de errar uma nota sequer no baixo. Tocamos muito perto do publico em um local bem pequeno e o som parecia que ia esmagar a cabeça de tanta pressão sonora. O ano iniciara muito promissor para nós.
          Tocamos em Porto Alegre no Carnametal do ano seguinte no bar Eclipse com a formação bem mais entrosada. Na mesma época lançamos o single de TV Slave e eu aproveitei imagens de nossa apresentação abrindo para o Krisiun e adicionei a música em versão de estúdio. O resultado pode ser conferido aqui. Também postamos algumas músicas ao vivo no bar Eclipse no Carnametal. Estes videos podem ser conferidos aqui e aqui. Nossas atividades nos últimos meses tinham gerado mais perspectivas de shows e crescimento no cenário underground. Porém, embora estivesse a pouco tempo na banda, ela já tinha uma história de cinco anos e certo desgaste começou a ocorrer entre os outros três membros da banda. O fato de tocarmos no festival de Otacílio Costa gerou descontentamento devido a viagem e a previsão de tocarmos no domingo pela manhã.
          Entendo que para o Cássio era importante estar presente em todo o evento para divulgar a banda. Por outro lado compreendo que os outros dois ficassem contrariados em ficar todo o final de semana longe de casa para tocar num domingo pela manhã. Eu estava deixando minha mulher grávida sozinha em casa, mas como me propus a entrar na banda e não tinha poder de veto, apenas concordava com o que a maioria decidia. Embora tudo que conversamos a respeito de tocar em Santa Catarina, a possibilidade de tocar com o Sepultura após o festival nos motivou a partir para Porto Alegre na sexta-feira a noite e encarar a viagem. Jantamos e bebemos descontraidamente e a meia noite saímos de Porto Alegre rumo a Santa Catarina em duas vans. Pegamos algumas pessoas pelo caminho e rumamos pela madrugada. Estávamos eu, o guitarrista e o vocalista da Xaparraw, junto a banda Leviathan e mais a esposa e o filho do Flávio, vocalista e baixista da mesma. Na nossa van ia o material para divulgação, instrumentos e equipamentos, na outra ia o Cássio e o pessoal que iria em excursão para curtir o festival.
         Foi impossível se manter acordado durante a viagem, por isso adormeci em alguns momentos. Quando já conversávamos sobre parar em algum lugar para tomar café da manhã, distante poucos quilômetros do local do show, eis que um caminhão cruza em alta velocidade pelo meio da pista e nos arremessa para fora da estrada. A van capota e em meio aos equipamentos, instrumentos e um cheiro de sangue, ouvíamos os gemidos e o choro do motorista que estava com lesões sérias e não aguentava a dor. O relato mais detalhado pode ser conferido aqui. Lembro ter sido o ultimo a sair da van, pois ajudei o João Paulo sair por uma das janelas com o braço quebrado e fiquei para tentar estourar a porta traseira para que os outros pudessem sair. Estavam também chocados com o acontecido e machucados.
          A policia esteve no local, ambulâncias também, mas a lembrança mais claras era de estar no meio do nada tentando entender o que havia acontecido. Passamos o dia em Lages aguardando o transporte para voltar para casa e cuidando dos amigos machucados. Partimos de volta no sábado a noite. Fiquei acordado durante toda a viagem vendo caminhões passarem ao nosso lado e com a cena do capotamento bem clara ainda em minha mente. Minha perna queimava enquanto o tecido da calça roçava na ferida aberta que o acidente provocara. Por um bom tempo, quando não estava conversando com o pessoal, vinha a mente a história da morte de Cliff Burton do Metallica e eu torcia para poder chegar em casa e esperar para ver o nascimento da minha filha. 
          Algumas semanas depois tentamos reagrupar para tocar com o Sepultura, mas o show foi cancelado e a Xaparraw encerrou as atividades. Hoje trabalho nas minhas musicas e escrevo para o blog. Continuo estudando musica e produção musical, o Cássio gravou com a El Diablo que era o projeto dele desde a época da Xaparraw e toca em outras bandas também. Fiz uma matéria com a banda que pode ser conferida aqui. O João Paulo e o Cambão formaram a Super Truckers e continuam na ativa. Mas com certeza a Xaparraw foi muito importante para todos nós, e particularmente sinto-me honrado por fazer parte da banda por alguns meses e sempre serei grato a todos por dividirem tantos momentos comigo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Um papo com Tom Jobim

        
          Para quem havia descoberto o Heavy Metal bem no início dos anos 90, escutar Tom Jobim ou qualquer outro compositor ou intérprete de Bossa Nova era quase que um sacrilégio. Explico o porquê. No inicio da década de 90 havíamos sofrido dois golpes políticos e culturais em muito pouco tempo. Tínhamos o final do período ditatorial nos anos 80, e quando achávamos que havia liberdade criativa e a chance do progresso, houve um retrocesso com a eleição de Fernando Collor. Por uma razão compreensível até, os jovens que queriam se aprofundar em musica focavam suas atenções mais para o que estava acontecendo no exterior. A cultura brasileira foi deixada de lado pelos mais jovens e abria-se a mente e o mercado para aquilo que vinha de fora. O Rock e o Heavy Metal já tinham fincado suas bandeiras desde os anos 80 e ouvir musica brasileira era cafona e démodé.
Falando por mim, era difícil engolir a música de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, essa galera da antiga safra da MPB. Guns n´Roses, Nirvana, Pearl Jam, Skid Row, entre outros, dominavam as rádios mais direcionadas para o publico jovem. Se não bastasse, ainda tinham rádios que tocavam musica eletrônica feita para pistas de dança. Quer mais?  O sertanejo chororô de duplas como Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, entre outros, dominavam as rádios mais popularescas e muitos programas de televisão. Como se não bastasse o que já foi dito, haviam aquelas bandas de Pop Rock como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Engenheiros do Havaii. Some-se a isso tudo, mais as bandas de um sucesso só, duplas sertanejas eventuais, o surgimento do pagode de camelô. Resumindo: Era impossível para um jovem ter contato com a obra de Tom Jobim, a não ser pelos especiais em virtude de sua morte na metade dos anos 90 ou os rivivals da TV e do rádio.
          A mídia teve um papel fundamental para isso acontecer, mas o principal agente, sem duvidas, foi o fator politico. Esse pensamento de auto preservação, que faz com que quem tenha o poder tenha uma postura anti-cultural com relação ao povo, para este ser mais fácil de usar como massa de manobra. A ditadura já tinha feito isso ao prender músicos e jornalistas. É um principio básico que visa o emburrecimento do povo para a manutenção do poder consolidado. Nossa riqueza artística natural foi assassinada por aqueles abriram espaços para o que vinha de fora e investiu na produção de manifestações popularescas e sem conteúdo intelectual e artístico. Com a obra de Tom Jobim sufocada por essa invencível artilharia noventista, outros compositores foram sendo esquecidos e largados a margem de nossa juventude.
          Lembro-me que havia certo constrangimento em cantar o Hino Nacional, se vestir de verde e amarelo, entre outras coisas. Para minha geração, ir para escola era se entregar a lavagem cerebral do governo, o que não deixa de ser verdade. Mas como todo jovem é generalista e radical, isso fechou a porta para muitas coisas interessantes. Nunca deixarei de gostar das bandas que ouvia nos anos 90, não é disso que se trata este texto, é sim uma tentativa de resgate da nossa riqueza cultural. Se tivéssemos o ensino de musica nas escolas todo esse tempo, com certeza teríamos pessoas mais inteligentes e profissionais melhores, ao menos, teríamos mais questionamentos e uma população contestatória. Havia muito preconceito e radicalismos na época da minha juventude. Escrevi para esse blog falando do Choro, pois vejo que nossa capacidade musical é natural, só que tem sido desprezada pelas gerações mais novas. Ainda há comentários e citações sobre os grandes mestres do passado, mas na verdade não há uma retomada artística de onde eles pararam. Imagine uma banda de Rock, Heavy Metal, Pop, Samba, ou qualquer outro estilo musical, despejando a complexidade harmônica e rítmica dos mestres do passado. Estaríamos muito avançados musical e culturalmente. Com certeza o mundo se renderia a nossa musica como fez nos anos 60 com a ida de Tom Jobim para os Estados Unidos.
          O Brasil é o país do violão por diversos motivos, e para mim, como para muitos músicos, foi a porta de entrada para o universo musical. A obra de Tom Jobim misturava o clássico de Debussy e Villa-Lobos com o sossego e a melancolia da musica popular da noite carioca dos anos 50. Há grande similaridade espacial com o Jazz americano, assim como o Blues e o Choro no inicio do século passado. Simples poesias musicadas ao violão com sofisticação harmônica e melódica que se transformavam ao vestir a roupagem de Big bands ou com arranjos mais elaborados. Mas infelizmente as pessoas se assustam quando lêem as cifras da Bossa Nova, pois caem na mediocridade cultural, ou melhor, analfabetismo musical. Assim como um texto escrito com palavras menos usuais na trivialidade torna-se incompreensível para a maioria. Com certeza há um paralelo entre a linguagem escrita e falada hoje em dia, principalmente nas redes sociais, e a musica que se faz e que se escuta, não diria só no Brasil, mas no mundo todo.
          Então tive este estranho sonho outra noite qualquer. Entrei num bar para fazer um lanche num final de tarde e deparei-me com aquele senhor apreciando alguns petiscos acompanhados de uma cerveja gelada. Era Tom Jobim. No meu sonho, um senhor com trejeitos específicos da idade, mas que se mostrou amável. Num bate papo tranquilo e despretensioso, bebi um pouco da sabedoria do mestre num ambiente mais familiar pra mim, um bar. Claro que de maneira prática, tudo se resumiu a entrevistas antigas que li e assisti a pouco tempo, mais os estudos e as conversas que tive durante meu curso de harmonia na Ordem dos Músicos. Era meu subconsciente falando comigo e tentando me lembrar de algumas coisas que entrego facilmente ao esquecimento. Em resumo, o que conversamos não foi nada demais, nenhum segredo foi revelado ou se traçou um plano mirabolante sobre um novo tratado sobre musica. Apenas conversamos sobre o porquê de algumas coisas.
          A sofisticação harmônica se dá pela precariedade no alcance vocal e a falta de uma pluralidade de vozes instrumentais na hora de compor. Se uma voz que se limita a uma extensão de uma oitava, se cantarmos sobre harmonias usuais e ritmos duros, não teremos mais do que uma peça patética e desinteressante. Porém, se jogarmos essa melodia simples em cima de acordes menos óbvios, com dissonâncias mais ousadas e com um ritmo que faça um contra-ponto ao ataque das melodias, começaremos a fazer Bossa Nova. Experimente ir contra as regras e criar melodias em cima de quartas aumentadas, de nonas menores, de sextas, essas coisas que dizem o tempo todo pra não fazer, mas certifique-se que essas notas estarão presentes nos acordes. Vindo da boca de Tom Jobim parece óbvio. É totalmente contrário daquele senso de harmonia bonitinho e usual, mas é exatamente o objetivo de harmonizar algo, fazer  com que tudo se encaixe e apareça. 
          Claro que é mais fácil usar os mesmos acordes de sempre e falar as mesmas gírias. A preguiça sempre vai ser o principal entrave, some-se a isso a falta de incentivo, o despreparo, a promoção da futilidade, tudo soma para que a mentalidade artística se atrofie, tanto para quem faz musica como para quem consome. Tem inúmeros compositores que nos anos 40, 50 e 60, antes de muitos nomes conhecidos pensarem em gravar algo, brasileiros já desenvolviam um alto padrão harmônico e rítmico que a mídia conseguiu esmagar, rotulando, desprezando e principalmente ignorando para cumprir as vontades de quem detêm o poder. Vejo muita conversa sobre "preocupação" com os jovens na escola, mas a educação, a disciplina e a erudição estão sendo sepultados nessas instituições. O mundo de Tom Jobim, Radamés Gnatali, Edu Lobo, Hermeto Pasqual e Heitor Villa-Lobos não existe mais e aos poucos seu legado está sendo esquecido. O resultado desse processo é a precariedade musical e intelectual percebida em todos os cantos.
          Dificilmente escuto Bossa Nova e continuo ouvindo as mesmas bandas, porém, o trabalho dos grandes mestres está infiltrado entre minhas coisas. A prova disso é este texto, é a analise de algumas composições de Tom Jobim, as releituras de alguns Chorinhos das antigas que tenho inserido no meu fraseado de guitarra. Me sinto órfão desse conhecimento musical que desprezei durante 30 anos. Assim como se despreza um rígido professor na época de estudante, tal disciplina é reconhecida quando se alcança a maturidade. Meu papo com Tom Jobim foi breve e inesperado, mas mudou minha vida musical. Quero deixar aqui meu depoimento de quem ama a música e jamais trocaria os riffs metálicos pelo balanço melancólico da Bossa Nova. Desculpem-me grandes mestres por desprezar seus ensinamentos. Desculpem-me por ironizar o brilhante trabalho de vocês. Desculpem-me por não levar adiante seu legado e me contentar em imitar meus sedutores heróis da infância. Confesso que também sou responsável pela situação cultural, musical, social e politica do país. Me perdoem.

sábado, 2 de abril de 2016

Carta ao povo brasileiro

          No início do ano fiz uma postagem com o titulo: Que 2016 nasça pobre, mas com dignidade. Era essa a minha esperança e o meu desejo como cidadão brasileiro, pai de família, trabalhador e ser humano, porém o que se vê 3 meses depois é completamente o oposto disso. Depois, lendo alguns artigos e assistindo algumas reportagens, escrevi de forma simplificada sobre alguns períodos da história do nosso país e dei minha opinião a respeito, claro, sem ter a pretensão de ser algo além de um brasileiro com alguma educação formal(leia aqui). Também havia escrito sobre corrupção entre outras coisas ligadas a politica e que influenciam diretamente no cotidiano de cada um(leia aqui). O fato é que me sinto ofendido com tudo que está acontecendo no nosso país. Com tudo mesmo. Desde a politica, passando pela atitude das pessoas nas redes sociais e até nas conversas informais. Quem sou eu para me ofender? O único que pode se ofender por mim. Escrevi também sobre como a vida seria mais fácil se fosse vivida de maneira mais simples(leia aqui), ou seja, escrevo, escrevo e escrevo a respeito das coisas que me incomodam e tudo só piora. E por que continuar escrevendo então? Porque quem cala consente e não adianta só reclamar que existem apenas bobagens na internet e não fazer nada, eu ao menos estou compartilhando assuntos e opiniões que acredito sejam de algum proveito a terceiros. Independentemente de partido politico, de veículo de comunicação, idade e nível social, o Brasil está um caos politico e social. De um lado o governo defendendo sua governabilidade e a ocultação de seus atos corruptos, do outro lado uma oposição igualmente corrupta que tenta ganhar uma queda de braços que perdera recentemente nas urnas. Claro que uma eleição no Brasil, onde nada funciona, não pode ser considerada acima de qualquer suspeita. No meio disso está o povo apatetado discutindo se A ou B tem razão, sugerindo a volta da ditadura militar, o que é crime desde 1985, ou seja, fazendo exatamente o que os poderosos querem, está dividido e confuso, portanto, impotente. 
          Quando era menino aqui no sul do país, estávamos em uma fase de transformação politica e social. A ditadura militar perdera sua força e o temor dava lugar a uma sensação de que tudo estava liberado, de que a partir dali se podia fazer qualquer coisa. Na ditadura alguns fenômenos aconteceram e que chegaram a me influenciar de forma significativa. Por exemplo: Encarávamos a farda como sendo um símbolo da repressão. Um policial ou um soldado do exército eram vistos como ferramentas do governo para conter e anular a liberdade individual de cada cidadão. A ditadura perseguia a musica e a arte em geral querendo calar a voz dos artistas que se manifestavam contra o regime, por isso, eu cresci convivendo com pechas do tipo: Todo músico é vagabundo e transgressor.  Havia também um pensamento de que deveríamos estudar para garantir um emprego decente, só pra isso e não para adquirir cultura e conhecimento. Ou seja, ferramentas do governo para construir uma mentalidade condizente com o que ele queria para se manter no poder, além das armas, é claro. Embora havendo sede por mudanças e a afirmação de ideias contrárias aquele tipo de governo, a população era cria daquele regime, muitos não conheciam outra realidade. Para muitos as coisas só eram assim e pronto, não haveria porque questionar.
          Um movimento muito forte possibilitou que o povo votasse diretamente para presidente, governadores, prefeitos e tudo o mais. Existiu uma grande comoção, se é que podemos dizer assim, em prol da mudança. Nossa mordaça caiu por terra, estávamos nos desvencilhando das correntes que nos amarravam. Parecíamos sobreviventes de uma guerra civil nunca anunciada. Lamentava-se a morte de jornalistas, ativistas, músicos e outros que ao longo do período ditatorial lutaram pela liberdade. O Brasil estava pobre, mas tinha esperança. Artística e intelectualmente aquele período deu belos frutos, abriram-se as portas para o conhecimento de ideias e conceitos outrora proibidos. Só que um inimigo sempre presente e silencioso traçava seu plano de dominação e lavagem cerebral. Quando o povo finalmente pode votar e manifestar sua vontade, elege o Collor como presidente do Brasil. Essa foi a contra revolução que o próprio povo criou. Ainda éramos uma maioria desacostumada a questionar e analisar as coisas. Era como se um dono de escravos os libertasse numa terra estranha, estávamos sem um norte a perseguir. Não havíamos nos acostumado a recente liberdade, e como crianças inexperientes, fizemos merda.  A mídia que elegera Collor ajudou a derrubá-lo dois anos depois porque ele deve ter agido contra os interesses dela. Não foi o movimento cara-pintada que levou ao impeachment, mas sim a vontade da mídia, dos bancos, das grandes empresas e dos políticos perpetuados no poder como os do PMDB, PDT, e por ai vai. Quem acredita naquele discurso de que o povo foi para a rua e derrubou o presidente deve acreditar no grito de independência, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa e Bicho-Papão. Sem Collor e com Itamar Franco a direita mais conservadora reassume o poder e ilude o povo de que tudo daria certo com o Plano Real. Pouca coisa mudou para o povo, mas a mídia, os banqueiros, as multinacionais estavam contentes com todo o resto. 
          Nesse meio tempo, aqueles que se diziam defensores da causa operária foram aprendendo as estratégias do jogo politico. O discurso populesco eles já tinham bem consistente, mágoa e rancor por causa da ditadura militar também. Por insistência Lula se tornou presidente do Brasil no inicio do século e houve grande comoção e expectativa em torno dele. Depois de ser derrotado nas urnas por Collor e duas vezes por Fernando Henrique Cardoso, Lula abriu mão do discurso agressivo e passou a agir de forma mais polida e condizente com o estilo politico de mentir.  Aos poucos apareceram coisas como a supervalorização da Petrobrás, o tal do investimento nos programas sociais, a corrupção que já apareceu no primeiro mandato e assim por diante, mas o Brasil acreditou naquela proposta. Lembra-se do inimigo silencioso? Pois é, ele estava agarrado ao poder desde sempre. Todos temiam que Lula não tomasse posse ou que fosse limado como Collor, mas ele soube fazer seus acordos e permaneceu no poder por dois mandatos. O Brasil não se tornou o paraíso dos pobres e nem o regime comunista que se imaginava. O que se viu no país foi uma campanha enganosa de crescimento e progresso. Tudo por conta de uma Copa do Mundo. Vamos mostrar que nossa indústria é forte, vamos levar transporte e comunicação de primeiro mundo ao povo, diziam eles. Muita gente alertou e foi contra todo este circo, mas a maioria contava com o tal do legado da copa, apostando no fato que o brasileiro é apaixonado por futebol. Talvez a grande marca deste período tenha sido a Copa do Mundo, pois depois dela, vários dirigentes da Fifa foram investigados e presos, apareceram diversas irregularidades envolvendo as maiores construtoras do Brasil e de fora dele. Muita gente foi investigada por conta de milhões dos cofres públicos irem parar em avenidas sem sentido, obras inacabadas, projetos desastrosos e uma quantidade quase que intangível de desperdício do dinheiro público. A derrota da seleção brasileira para a Alemanha por 7 a 1 simbolizou o que a organização brasileira, o poder politico e a corrupção são para o Brasil, uma enorme vergonha. 
          Hoje o que temos na nossa politica são homens e mulheres que viveram intensamente aquele período, direta ou indiretamente. Eles carregam suas mágoas e as cicatrizes daqueles tempos. Você olha para o PT hoje e pensa: É aquele partido que lutava pela igualdade social, por condições dignas para todos, contra os bancos, multinacionais e todo o resto? Será que há ainda algum resquício daquelas ideias revolucionárias? Não culpo as pessoas por ainda defender aquela antiga ideia sobre este partido em particular, pois aquilo que eles pregavam ia a favor de tudo que o povo necessitava. Porém, quando chegou ao poder em 2002 à primeira coisa que o partido fez foi romper com suas alas mais radicais como pessoal do PSOL, PSTU, entre outros. Aquela mentalidade revolucionária e de igualdade social não manteria ninguém no poder por muito tempo. Então ele foi além, aliou-se a partidos mais suspeitos de contradição das antigas ideias como o PL. O vice-presidente da república era um cidadão diretamente ligado a grandes empresas, ou seja, não estava do mesmo lado do assalariado que o partido defendera. Tudo bem, você pode pensar, faz parte do jogo político. E aí é que pode estar o grande equivoco e a raiz de todo o problema, o viciado e maldito jogo politico. Nossa presidente é do PT e o vice-presidente do PMDB, quer prova maior de que há algo de errado? Que aquele partido revolucionário só queria chegar ao poder? Não vamos aqui entrar no mérito das intenções de  A, B ou C, o que importa é que o povo está sendo divido e manipulado por quem enriquece a cada dia mais e se agarra ao poder com unhas e dentes. Nunca bancos como Itaú, Santander, esses que estão sempre nos comerciais de televisão, ganharam tanto dinheiro. Da mesma forma empresas como Odebrech, Andrade Gutierrez, e todas constantemente citadas nos escândalos que já fazem parte do cotidiano no brasileiro. Resumindo, o governo fez uma mega operação chamada Copa 2014 e dividiu entre essas empresas todos os recursos possíveis para custear o evento e construir sua estrutura. Evento esse que obedeceria aos padrões de uma entidade que se mostrou internacionalmente corrupta, a FIFA. Houve uma declarada união das forças que movem o mundo para se enriquecerem ainda mais. O Brasil virou um show de desperdício do dinheiro público e mentiras grandiosas. Chegaram a dizer que o Brasil era a quinta maior economia do mundo, ficando a frente até da Inglaterra. Tudo propaganda enganosa para desviar o foco de toda a corrupção e roubalheira que nunca foi tão intensa no país.
          O que restou para o brasileiro? R$ 100,00 Reais de bolsa família? Programa Minha Casa, Minha Vida? É essa a contrapartida desse governo? Segurança, saúde e educação ficam onde nessa história toda? Nosso governo é campeão de inventar emendas, leis e o escambau. Nossa legislação é uma colcha de retalhos feita para confundir a população e possibilitar aos legisladores que atuem em beneficio próprio. Trocando em miúdos, subentende-se que a quinta economia do mundo foi destruída em poucos anos, graças à corrupção do governo, é isso que o governo quer passar para a população. E por que isso é da nossa conta? Porque a gente financia tudo isso. Não adianta ir para as ruas protestar contra o governo, a mídia vai dizer que é uma manifestação legítima e o governo dizer que é coisa de meia dúzia da oposição tentando dar um golpe. Se você vai pra rua para protestar em prol do governo, supostamente achando que é tudo mentira e que os representantes do governo são inocentes, você é abertamente a favor de tudo que está acontecendo. A internet está sendo uma ferramenta muito útil para essa luta inútil contra tudo isso que o brasileiro diz ter repulsa, mas que no seu cotidiano financia e apoia. Dói muito falar dos programas sociais do governo que destina recursos para educação, habitação e bem estar social. Mas, espere um momento, não é obrigação do governo disponibilizar esses recursos para a população? Não é para isso que pagamos a maior carga de impostos do mundo? Será que a mentalidade da população está tão deturpada que não compreende isso? Não é a razão da existência do governo e dos impostos prever tudo isso para quem financia, no caso, quem paga imposto? 
          Temos que pensar o seguinte: Pagamos impostos para financiar a segurança, a educação, a saúde e a infraestrutura. Isso é o básico. Mesmo assim pagamos creches, escolas e faculdades particulares. Ou seja, não basta pagar imposto em cima de imposto e ainda pagamos diretamente do nosso bolso para nossos filhos terem uma educação minimamente aceitável. As escolas públicas do país, em sua maioria, conta com estruturas péssimas, ambiente violento e sem disciplina, faltam professores, condições para os professores darem suas aulas, falta merenda para os alunos, falta segurança. Isso não é invenção da posição ou sensacionalismo da mídia, é a verdade de muitas pessoas. Essas pessoas são humildes e precisam de creche para deixar seus filhos enquanto trabalham. Precisam de escolas que multipliquem todo o conhecimento necessário para suprir a necessidade intelectual, cultural e social. Não podemos aceitar pagar por escolas que mal ensinam uma criança a ler, que sujeitam os alunos ao trafico de drogas e abusos dentro das instituições. O governo deve agir desde a infância até a formatura em nível superior de seu cidadão, não financiar junto a uma entidade privada parte dos estudos de um trabalhador, que se divide entre a profissão e o curso. Por que pagar por algo que era para ser financiado por nossos impostos? É mais fácil para quem governa iludir uma classe menos favorecida com propostas desse tipo do que arcar com a sua responsabilidade junto ao cidadão.
          A saúde é outra obrigação do governo e custeada via impostos, mas que está sucateada e não apresenta condições dignas nem para aqueles que pagam por um plano de saúde privado. Ou seja, se paga duas vezes por aquilo que é de direito e recebe um serviço precário. Estende-se essa critica a segurança pública que faz vitimas diariamente. As estradas destruídas e ainda com cobrança de pedágios por empresas terceirizadas. O transporte público é uma vergonha. Para que se paga tanto imposto no Brasil? Fácil de responder essa. Para financiar a corrupção. Tudo aquilo que foi falado até aqui tem um único foco, corrupção. Se existe uma classe que explora a mão de obra do proletariado, acima dela tem a classe politica que facilita e enriquece junto com ela. A base do país, que é quem trabalha, cria seus filhos, paga impostos e que vive com a simplicidade que lhe é permitida, financia todo o resto e não tem nenhuma contrapartida. Claro que eu sei que perto de 80% do dinheiro que circula no país está na mão de uma minoria e que o trabalhador tem muito pouco dessa porcentagem, mas sem o cidadão comum não existiria mão de obra, não existira estado e não existiria nenhuma outra classe social acima do assalariado. Porém, sem um governo corrupto e sem uma máfia empresarial com certeza existiria o cidadão comum, trabalhador e cumpridor de seus deveres e obrigações. Se uma entidade, instituição ou governo não atende as necessidades do seu povo, ele não tem porque existir. Cabe a cada trabalhador, pai, mãe, estudante, aposentado, criança, idoso, mulher e homem olhar ao redor e se questionar se o que vê é justo, certo, correto, digno, bom, não interessa o foco, mas tem que avaliar. 
          O poder da mudança está em cada um. Numa mudança de pensamento, nas atitudes cotidianas, numa nova cultura sem preconceitos e sem divisão de classes. Está numa escola que ensina a viver com respeito, sustentabilidade e profunda instrução cultural. Onde todos compartilham o conhecimento e trabalham juntos para que as coisas funcionem para o bem da coletividade. Imagine um mundo onde doentes são tratados com a devida atenção, sem burocracia e nem longas filas de espera para uma consulta, um exame ou uma internação. Imagina circular pela cidade a noite ou em plena luz do dia sem temer um assalto, tentativa de homicídio ou uma atropelamento. Imagine os grandes centros sendo lentamente esvaziados e as pessoas não passarem horas no transito dentro de um coletivo ou veiculo próprio para chegar ao trabalho. Tudo isso é possível sem projetos sociais do governo na forma que vemos hoje, mas sim a atenção e assistência dignas da importância de cada item. Acostumamo-nos a comprar determinadas coisas que só atendem ao interesse de quem anuncia e de quem vende. Não questionamos a real importância das coisas triviais do nosso cotidiano, porque se o fizéssemos, certamente não deixaríamos as coisas chegarem aos níveis que chegaram. E não me venham com a conversa de que as eleições são a oportunidade de mudança porque não há opção de mudança e nem o sistema é confiável. Não haverá mudança na educação, saúde, segurança, mobilidade urbana e infraestrutura a partir de partidos políticos ou sistemas de governo, não adianta insistir. Este modelo atende exatamente aos interesses de todos que tem se beneficiado com ele, então não farão nada para mudá-lo em beneficio da população. Esqueça essa hipótese.