sábado, 2 de abril de 2016

Carta ao povo brasileiro

          No início do ano fiz uma postagem com o titulo: Que 2016 nasça pobre, mas com dignidade. Era essa a minha esperança e o meu desejo como cidadão brasileiro, pai de família, trabalhador e ser humano, porém o que se vê 3 meses depois é completamente o oposto disso. Depois, lendo alguns artigos e assistindo algumas reportagens, escrevi de forma simplificada sobre alguns períodos da história do nosso país e dei minha opinião a respeito, claro, sem ter a pretensão de ser algo além de um brasileiro com alguma educação formal(leia aqui). Também havia escrito sobre corrupção entre outras coisas ligadas a politica e que influenciam diretamente no cotidiano de cada um(leia aqui). O fato é que me sinto ofendido com tudo que está acontecendo no nosso país. Com tudo mesmo. Desde a politica, passando pela atitude das pessoas nas redes sociais e até nas conversas informais. Quem sou eu para me ofender? O único que pode se ofender por mim. Escrevi também sobre como a vida seria mais fácil se fosse vivida de maneira mais simples(leia aqui), ou seja, escrevo, escrevo e escrevo a respeito das coisas que me incomodam e tudo só piora. E por que continuar escrevendo então? Porque quem cala consente e não adianta só reclamar que existem apenas bobagens na internet e não fazer nada, eu ao menos estou compartilhando assuntos e opiniões que acredito sejam de algum proveito a terceiros. Independentemente de partido politico, de veículo de comunicação, idade e nível social, o Brasil está um caos politico e social. De um lado o governo defendendo sua governabilidade e a ocultação de seus atos corruptos, do outro lado uma oposição igualmente corrupta que tenta ganhar uma queda de braços que perdera recentemente nas urnas. Claro que uma eleição no Brasil, onde nada funciona, não pode ser considerada acima de qualquer suspeita. No meio disso está o povo apatetado discutindo se A ou B tem razão, sugerindo a volta da ditadura militar, o que é crime desde 1985, ou seja, fazendo exatamente o que os poderosos querem, está dividido e confuso, portanto, impotente. 
          Quando era menino aqui no sul do país, estávamos em uma fase de transformação politica e social. A ditadura militar perdera sua força e o temor dava lugar a uma sensação de que tudo estava liberado, de que a partir dali se podia fazer qualquer coisa. Na ditadura alguns fenômenos aconteceram e que chegaram a me influenciar de forma significativa. Por exemplo: Encarávamos a farda como sendo um símbolo da repressão. Um policial ou um soldado do exército eram vistos como ferramentas do governo para conter e anular a liberdade individual de cada cidadão. A ditadura perseguia a musica e a arte em geral querendo calar a voz dos artistas que se manifestavam contra o regime, por isso, eu cresci convivendo com pechas do tipo: Todo músico é vagabundo e transgressor.  Havia também um pensamento de que deveríamos estudar para garantir um emprego decente, só pra isso e não para adquirir cultura e conhecimento. Ou seja, ferramentas do governo para construir uma mentalidade condizente com o que ele queria para se manter no poder, além das armas, é claro. Embora havendo sede por mudanças e a afirmação de ideias contrárias aquele tipo de governo, a população era cria daquele regime, muitos não conheciam outra realidade. Para muitos as coisas só eram assim e pronto, não haveria porque questionar.
          Um movimento muito forte possibilitou que o povo votasse diretamente para presidente, governadores, prefeitos e tudo o mais. Existiu uma grande comoção, se é que podemos dizer assim, em prol da mudança. Nossa mordaça caiu por terra, estávamos nos desvencilhando das correntes que nos amarravam. Parecíamos sobreviventes de uma guerra civil nunca anunciada. Lamentava-se a morte de jornalistas, ativistas, músicos e outros que ao longo do período ditatorial lutaram pela liberdade. O Brasil estava pobre, mas tinha esperança. Artística e intelectualmente aquele período deu belos frutos, abriram-se as portas para o conhecimento de ideias e conceitos outrora proibidos. Só que um inimigo sempre presente e silencioso traçava seu plano de dominação e lavagem cerebral. Quando o povo finalmente pode votar e manifestar sua vontade, elege o Collor como presidente do Brasil. Essa foi a contra revolução que o próprio povo criou. Ainda éramos uma maioria desacostumada a questionar e analisar as coisas. Era como se um dono de escravos os libertasse numa terra estranha, estávamos sem um norte a perseguir. Não havíamos nos acostumado a recente liberdade, e como crianças inexperientes, fizemos merda.  A mídia que elegera Collor ajudou a derrubá-lo dois anos depois porque ele deve ter agido contra os interesses dela. Não foi o movimento cara-pintada que levou ao impeachment, mas sim a vontade da mídia, dos bancos, das grandes empresas e dos políticos perpetuados no poder como os do PMDB, PDT, e por ai vai. Quem acredita naquele discurso de que o povo foi para a rua e derrubou o presidente deve acreditar no grito de independência, Papai Noel e Coelhinho da Páscoa e Bicho-Papão. Sem Collor e com Itamar Franco a direita mais conservadora reassume o poder e ilude o povo de que tudo daria certo com o Plano Real. Pouca coisa mudou para o povo, mas a mídia, os banqueiros, as multinacionais estavam contentes com todo o resto. 
          Nesse meio tempo, aqueles que se diziam defensores da causa operária foram aprendendo as estratégias do jogo politico. O discurso populesco eles já tinham bem consistente, mágoa e rancor por causa da ditadura militar também. Por insistência Lula se tornou presidente do Brasil no inicio do século e houve grande comoção e expectativa em torno dele. Depois de ser derrotado nas urnas por Collor e duas vezes por Fernando Henrique Cardoso, Lula abriu mão do discurso agressivo e passou a agir de forma mais polida e condizente com o estilo politico de mentir.  Aos poucos apareceram coisas como a supervalorização da Petrobrás, o tal do investimento nos programas sociais, a corrupção que já apareceu no primeiro mandato e assim por diante, mas o Brasil acreditou naquela proposta. Lembra-se do inimigo silencioso? Pois é, ele estava agarrado ao poder desde sempre. Todos temiam que Lula não tomasse posse ou que fosse limado como Collor, mas ele soube fazer seus acordos e permaneceu no poder por dois mandatos. O Brasil não se tornou o paraíso dos pobres e nem o regime comunista que se imaginava. O que se viu no país foi uma campanha enganosa de crescimento e progresso. Tudo por conta de uma Copa do Mundo. Vamos mostrar que nossa indústria é forte, vamos levar transporte e comunicação de primeiro mundo ao povo, diziam eles. Muita gente alertou e foi contra todo este circo, mas a maioria contava com o tal do legado da copa, apostando no fato que o brasileiro é apaixonado por futebol. Talvez a grande marca deste período tenha sido a Copa do Mundo, pois depois dela, vários dirigentes da Fifa foram investigados e presos, apareceram diversas irregularidades envolvendo as maiores construtoras do Brasil e de fora dele. Muita gente foi investigada por conta de milhões dos cofres públicos irem parar em avenidas sem sentido, obras inacabadas, projetos desastrosos e uma quantidade quase que intangível de desperdício do dinheiro público. A derrota da seleção brasileira para a Alemanha por 7 a 1 simbolizou o que a organização brasileira, o poder politico e a corrupção são para o Brasil, uma enorme vergonha. 
          Hoje o que temos na nossa politica são homens e mulheres que viveram intensamente aquele período, direta ou indiretamente. Eles carregam suas mágoas e as cicatrizes daqueles tempos. Você olha para o PT hoje e pensa: É aquele partido que lutava pela igualdade social, por condições dignas para todos, contra os bancos, multinacionais e todo o resto? Será que há ainda algum resquício daquelas ideias revolucionárias? Não culpo as pessoas por ainda defender aquela antiga ideia sobre este partido em particular, pois aquilo que eles pregavam ia a favor de tudo que o povo necessitava. Porém, quando chegou ao poder em 2002 à primeira coisa que o partido fez foi romper com suas alas mais radicais como pessoal do PSOL, PSTU, entre outros. Aquela mentalidade revolucionária e de igualdade social não manteria ninguém no poder por muito tempo. Então ele foi além, aliou-se a partidos mais suspeitos de contradição das antigas ideias como o PL. O vice-presidente da república era um cidadão diretamente ligado a grandes empresas, ou seja, não estava do mesmo lado do assalariado que o partido defendera. Tudo bem, você pode pensar, faz parte do jogo político. E aí é que pode estar o grande equivoco e a raiz de todo o problema, o viciado e maldito jogo politico. Nossa presidente é do PT e o vice-presidente do PMDB, quer prova maior de que há algo de errado? Que aquele partido revolucionário só queria chegar ao poder? Não vamos aqui entrar no mérito das intenções de  A, B ou C, o que importa é que o povo está sendo divido e manipulado por quem enriquece a cada dia mais e se agarra ao poder com unhas e dentes. Nunca bancos como Itaú, Santander, esses que estão sempre nos comerciais de televisão, ganharam tanto dinheiro. Da mesma forma empresas como Odebrech, Andrade Gutierrez, e todas constantemente citadas nos escândalos que já fazem parte do cotidiano no brasileiro. Resumindo, o governo fez uma mega operação chamada Copa 2014 e dividiu entre essas empresas todos os recursos possíveis para custear o evento e construir sua estrutura. Evento esse que obedeceria aos padrões de uma entidade que se mostrou internacionalmente corrupta, a FIFA. Houve uma declarada união das forças que movem o mundo para se enriquecerem ainda mais. O Brasil virou um show de desperdício do dinheiro público e mentiras grandiosas. Chegaram a dizer que o Brasil era a quinta maior economia do mundo, ficando a frente até da Inglaterra. Tudo propaganda enganosa para desviar o foco de toda a corrupção e roubalheira que nunca foi tão intensa no país.
          O que restou para o brasileiro? R$ 100,00 Reais de bolsa família? Programa Minha Casa, Minha Vida? É essa a contrapartida desse governo? Segurança, saúde e educação ficam onde nessa história toda? Nosso governo é campeão de inventar emendas, leis e o escambau. Nossa legislação é uma colcha de retalhos feita para confundir a população e possibilitar aos legisladores que atuem em beneficio próprio. Trocando em miúdos, subentende-se que a quinta economia do mundo foi destruída em poucos anos, graças à corrupção do governo, é isso que o governo quer passar para a população. E por que isso é da nossa conta? Porque a gente financia tudo isso. Não adianta ir para as ruas protestar contra o governo, a mídia vai dizer que é uma manifestação legítima e o governo dizer que é coisa de meia dúzia da oposição tentando dar um golpe. Se você vai pra rua para protestar em prol do governo, supostamente achando que é tudo mentira e que os representantes do governo são inocentes, você é abertamente a favor de tudo que está acontecendo. A internet está sendo uma ferramenta muito útil para essa luta inútil contra tudo isso que o brasileiro diz ter repulsa, mas que no seu cotidiano financia e apoia. Dói muito falar dos programas sociais do governo que destina recursos para educação, habitação e bem estar social. Mas, espere um momento, não é obrigação do governo disponibilizar esses recursos para a população? Não é para isso que pagamos a maior carga de impostos do mundo? Será que a mentalidade da população está tão deturpada que não compreende isso? Não é a razão da existência do governo e dos impostos prever tudo isso para quem financia, no caso, quem paga imposto? 
          Temos que pensar o seguinte: Pagamos impostos para financiar a segurança, a educação, a saúde e a infraestrutura. Isso é o básico. Mesmo assim pagamos creches, escolas e faculdades particulares. Ou seja, não basta pagar imposto em cima de imposto e ainda pagamos diretamente do nosso bolso para nossos filhos terem uma educação minimamente aceitável. As escolas públicas do país, em sua maioria, conta com estruturas péssimas, ambiente violento e sem disciplina, faltam professores, condições para os professores darem suas aulas, falta merenda para os alunos, falta segurança. Isso não é invenção da posição ou sensacionalismo da mídia, é a verdade de muitas pessoas. Essas pessoas são humildes e precisam de creche para deixar seus filhos enquanto trabalham. Precisam de escolas que multipliquem todo o conhecimento necessário para suprir a necessidade intelectual, cultural e social. Não podemos aceitar pagar por escolas que mal ensinam uma criança a ler, que sujeitam os alunos ao trafico de drogas e abusos dentro das instituições. O governo deve agir desde a infância até a formatura em nível superior de seu cidadão, não financiar junto a uma entidade privada parte dos estudos de um trabalhador, que se divide entre a profissão e o curso. Por que pagar por algo que era para ser financiado por nossos impostos? É mais fácil para quem governa iludir uma classe menos favorecida com propostas desse tipo do que arcar com a sua responsabilidade junto ao cidadão.
          A saúde é outra obrigação do governo e custeada via impostos, mas que está sucateada e não apresenta condições dignas nem para aqueles que pagam por um plano de saúde privado. Ou seja, se paga duas vezes por aquilo que é de direito e recebe um serviço precário. Estende-se essa critica a segurança pública que faz vitimas diariamente. As estradas destruídas e ainda com cobrança de pedágios por empresas terceirizadas. O transporte público é uma vergonha. Para que se paga tanto imposto no Brasil? Fácil de responder essa. Para financiar a corrupção. Tudo aquilo que foi falado até aqui tem um único foco, corrupção. Se existe uma classe que explora a mão de obra do proletariado, acima dela tem a classe politica que facilita e enriquece junto com ela. A base do país, que é quem trabalha, cria seus filhos, paga impostos e que vive com a simplicidade que lhe é permitida, financia todo o resto e não tem nenhuma contrapartida. Claro que eu sei que perto de 80% do dinheiro que circula no país está na mão de uma minoria e que o trabalhador tem muito pouco dessa porcentagem, mas sem o cidadão comum não existiria mão de obra, não existira estado e não existiria nenhuma outra classe social acima do assalariado. Porém, sem um governo corrupto e sem uma máfia empresarial com certeza existiria o cidadão comum, trabalhador e cumpridor de seus deveres e obrigações. Se uma entidade, instituição ou governo não atende as necessidades do seu povo, ele não tem porque existir. Cabe a cada trabalhador, pai, mãe, estudante, aposentado, criança, idoso, mulher e homem olhar ao redor e se questionar se o que vê é justo, certo, correto, digno, bom, não interessa o foco, mas tem que avaliar. 
          O poder da mudança está em cada um. Numa mudança de pensamento, nas atitudes cotidianas, numa nova cultura sem preconceitos e sem divisão de classes. Está numa escola que ensina a viver com respeito, sustentabilidade e profunda instrução cultural. Onde todos compartilham o conhecimento e trabalham juntos para que as coisas funcionem para o bem da coletividade. Imagine um mundo onde doentes são tratados com a devida atenção, sem burocracia e nem longas filas de espera para uma consulta, um exame ou uma internação. Imagina circular pela cidade a noite ou em plena luz do dia sem temer um assalto, tentativa de homicídio ou uma atropelamento. Imagine os grandes centros sendo lentamente esvaziados e as pessoas não passarem horas no transito dentro de um coletivo ou veiculo próprio para chegar ao trabalho. Tudo isso é possível sem projetos sociais do governo na forma que vemos hoje, mas sim a atenção e assistência dignas da importância de cada item. Acostumamo-nos a comprar determinadas coisas que só atendem ao interesse de quem anuncia e de quem vende. Não questionamos a real importância das coisas triviais do nosso cotidiano, porque se o fizéssemos, certamente não deixaríamos as coisas chegarem aos níveis que chegaram. E não me venham com a conversa de que as eleições são a oportunidade de mudança porque não há opção de mudança e nem o sistema é confiável. Não haverá mudança na educação, saúde, segurança, mobilidade urbana e infraestrutura a partir de partidos políticos ou sistemas de governo, não adianta insistir. Este modelo atende exatamente aos interesses de todos que tem se beneficiado com ele, então não farão nada para mudá-lo em beneficio da população. Esqueça essa hipótese.

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