quarta-feira, 6 de abril de 2016

Um papo com Tom Jobim

        
          Para quem havia descoberto o Heavy Metal bem no início dos anos 90, escutar Tom Jobim ou qualquer outro compositor ou intérprete de Bossa Nova era quase que um sacrilégio. Explico o porquê. No inicio da década de 90 havíamos sofrido dois golpes políticos e culturais em muito pouco tempo. Tínhamos o final do período ditatorial nos anos 80, e quando achávamos que havia liberdade criativa e a chance do progresso, houve um retrocesso com a eleição de Fernando Collor. Por uma razão compreensível até, os jovens que queriam se aprofundar em musica focavam suas atenções mais para o que estava acontecendo no exterior. A cultura brasileira foi deixada de lado pelos mais jovens e abria-se a mente e o mercado para aquilo que vinha de fora. O Rock e o Heavy Metal já tinham fincado suas bandeiras desde os anos 80 e ouvir musica brasileira era cafona e démodé.
Falando por mim, era difícil engolir a música de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, essa galera da antiga safra da MPB. Guns n´Roses, Nirvana, Pearl Jam, Skid Row, entre outros, dominavam as rádios mais direcionadas para o publico jovem. Se não bastasse, ainda tinham rádios que tocavam musica eletrônica feita para pistas de dança. Quer mais?  O sertanejo chororô de duplas como Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, entre outros, dominavam as rádios mais popularescas e muitos programas de televisão. Como se não bastasse o que já foi dito, haviam aquelas bandas de Pop Rock como Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Engenheiros do Havaii. Some-se a isso tudo, mais as bandas de um sucesso só, duplas sertanejas eventuais, o surgimento do pagode de camelô. Resumindo: Era impossível para um jovem ter contato com a obra de Tom Jobim, a não ser pelos especiais em virtude de sua morte na metade dos anos 90 ou os rivivals da TV e do rádio.
          A mídia teve um papel fundamental para isso acontecer, mas o principal agente, sem duvidas, foi o fator politico. Esse pensamento de auto preservação, que faz com que quem tenha o poder tenha uma postura anti-cultural com relação ao povo, para este ser mais fácil de usar como massa de manobra. A ditadura já tinha feito isso ao prender músicos e jornalistas. É um principio básico que visa o emburrecimento do povo para a manutenção do poder consolidado. Nossa riqueza artística natural foi assassinada por aqueles abriram espaços para o que vinha de fora e investiu na produção de manifestações popularescas e sem conteúdo intelectual e artístico. Com a obra de Tom Jobim sufocada por essa invencível artilharia noventista, outros compositores foram sendo esquecidos e largados a margem de nossa juventude.
          Lembro-me que havia certo constrangimento em cantar o Hino Nacional, se vestir de verde e amarelo, entre outras coisas. Para minha geração, ir para escola era se entregar a lavagem cerebral do governo, o que não deixa de ser verdade. Mas como todo jovem é generalista e radical, isso fechou a porta para muitas coisas interessantes. Nunca deixarei de gostar das bandas que ouvia nos anos 90, não é disso que se trata este texto, é sim uma tentativa de resgate da nossa riqueza cultural. Se tivéssemos o ensino de musica nas escolas todo esse tempo, com certeza teríamos pessoas mais inteligentes e profissionais melhores, ao menos, teríamos mais questionamentos e uma população contestatória. Havia muito preconceito e radicalismos na época da minha juventude. Escrevi para esse blog falando do Choro, pois vejo que nossa capacidade musical é natural, só que tem sido desprezada pelas gerações mais novas. Ainda há comentários e citações sobre os grandes mestres do passado, mas na verdade não há uma retomada artística de onde eles pararam. Imagine uma banda de Rock, Heavy Metal, Pop, Samba, ou qualquer outro estilo musical, despejando a complexidade harmônica e rítmica dos mestres do passado. Estaríamos muito avançados musical e culturalmente. Com certeza o mundo se renderia a nossa musica como fez nos anos 60 com a ida de Tom Jobim para os Estados Unidos.
          O Brasil é o país do violão por diversos motivos, e para mim, como para muitos músicos, foi a porta de entrada para o universo musical. A obra de Tom Jobim misturava o clássico de Debussy e Villa-Lobos com o sossego e a melancolia da musica popular da noite carioca dos anos 50. Há grande similaridade espacial com o Jazz americano, assim como o Blues e o Choro no inicio do século passado. Simples poesias musicadas ao violão com sofisticação harmônica e melódica que se transformavam ao vestir a roupagem de Big bands ou com arranjos mais elaborados. Mas infelizmente as pessoas se assustam quando lêem as cifras da Bossa Nova, pois caem na mediocridade cultural, ou melhor, analfabetismo musical. Assim como um texto escrito com palavras menos usuais na trivialidade torna-se incompreensível para a maioria. Com certeza há um paralelo entre a linguagem escrita e falada hoje em dia, principalmente nas redes sociais, e a musica que se faz e que se escuta, não diria só no Brasil, mas no mundo todo.
          Então tive este estranho sonho outra noite qualquer. Entrei num bar para fazer um lanche num final de tarde e deparei-me com aquele senhor apreciando alguns petiscos acompanhados de uma cerveja gelada. Era Tom Jobim. No meu sonho, um senhor com trejeitos específicos da idade, mas que se mostrou amável. Num bate papo tranquilo e despretensioso, bebi um pouco da sabedoria do mestre num ambiente mais familiar pra mim, um bar. Claro que de maneira prática, tudo se resumiu a entrevistas antigas que li e assisti a pouco tempo, mais os estudos e as conversas que tive durante meu curso de harmonia na Ordem dos Músicos. Era meu subconsciente falando comigo e tentando me lembrar de algumas coisas que entrego facilmente ao esquecimento. Em resumo, o que conversamos não foi nada demais, nenhum segredo foi revelado ou se traçou um plano mirabolante sobre um novo tratado sobre musica. Apenas conversamos sobre o porquê de algumas coisas.
          A sofisticação harmônica se dá pela precariedade no alcance vocal e a falta de uma pluralidade de vozes instrumentais na hora de compor. Se uma voz que se limita a uma extensão de uma oitava, se cantarmos sobre harmonias usuais e ritmos duros, não teremos mais do que uma peça patética e desinteressante. Porém, se jogarmos essa melodia simples em cima de acordes menos óbvios, com dissonâncias mais ousadas e com um ritmo que faça um contra-ponto ao ataque das melodias, começaremos a fazer Bossa Nova. Experimente ir contra as regras e criar melodias em cima de quartas aumentadas, de nonas menores, de sextas, essas coisas que dizem o tempo todo pra não fazer, mas certifique-se que essas notas estarão presentes nos acordes. Vindo da boca de Tom Jobim parece óbvio. É totalmente contrário daquele senso de harmonia bonitinho e usual, mas é exatamente o objetivo de harmonizar algo, fazer  com que tudo se encaixe e apareça. 
          Claro que é mais fácil usar os mesmos acordes de sempre e falar as mesmas gírias. A preguiça sempre vai ser o principal entrave, some-se a isso a falta de incentivo, o despreparo, a promoção da futilidade, tudo soma para que a mentalidade artística se atrofie, tanto para quem faz musica como para quem consome. Tem inúmeros compositores que nos anos 40, 50 e 60, antes de muitos nomes conhecidos pensarem em gravar algo, brasileiros já desenvolviam um alto padrão harmônico e rítmico que a mídia conseguiu esmagar, rotulando, desprezando e principalmente ignorando para cumprir as vontades de quem detêm o poder. Vejo muita conversa sobre "preocupação" com os jovens na escola, mas a educação, a disciplina e a erudição estão sendo sepultados nessas instituições. O mundo de Tom Jobim, Radamés Gnatali, Edu Lobo, Hermeto Pasqual e Heitor Villa-Lobos não existe mais e aos poucos seu legado está sendo esquecido. O resultado desse processo é a precariedade musical e intelectual percebida em todos os cantos.
          Dificilmente escuto Bossa Nova e continuo ouvindo as mesmas bandas, porém, o trabalho dos grandes mestres está infiltrado entre minhas coisas. A prova disso é este texto, é a analise de algumas composições de Tom Jobim, as releituras de alguns Chorinhos das antigas que tenho inserido no meu fraseado de guitarra. Me sinto órfão desse conhecimento musical que desprezei durante 30 anos. Assim como se despreza um rígido professor na época de estudante, tal disciplina é reconhecida quando se alcança a maturidade. Meu papo com Tom Jobim foi breve e inesperado, mas mudou minha vida musical. Quero deixar aqui meu depoimento de quem ama a música e jamais trocaria os riffs metálicos pelo balanço melancólico da Bossa Nova. Desculpem-me grandes mestres por desprezar seus ensinamentos. Desculpem-me por ironizar o brilhante trabalho de vocês. Desculpem-me por não levar adiante seu legado e me contentar em imitar meus sedutores heróis da infância. Confesso que também sou responsável pela situação cultural, musical, social e politica do país. Me perdoem.
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