sábado, 9 de abril de 2016

Xaparraw

                    Essa postagem é para homenagear algumas pessoas muito importantes na minha história recente, são elas: Cássio Quines, João Paulo Ourique, Vinicius Mietlicki e Jonathan Brose, que foram muito influentes e contribuíram muito para minha história como músico e ser humano nos últimos anos. Posso dizer que tivemos mais momentos bons do que ruins e nos divertimos muito quando nos encontrávamos e apoiamos uns aos outros quando as dificuldades apareceram. Meus amigos, esta postagem é uma sincera homenagem a vocês, pelo amor, carinho, amizade e respeito que sempre tiveram comigo.        
           Acho que era umas 09:00 ou 10:00 da manhã de sábado. Tinha acabado de tomar café da manhã em um restaurante de beira de estrada. Estava sentado nos paralelepípedos a margem de uma auto estrada na entrada de Lages em Santa Catarina. Fumava um cigarro ao lado de meu amigo Cássio Quines. Estávamos indo participar do 7° Otacílio Rock Festival 2013. Este é um importante festival de verão onde diversas bandas tocam durante um final de semana e acontece anualmente. Enquanto nos recuperávamos do acidente que havíamos sofrido poucas horas antes e aguardávamos para ir ao encontro a nossos parceiros de viagem e colegas de banda que estavam hospitalizados com diferentes lesões causadas pelo capotamento de uma das duas de nossas vans que viajavam para a cidade onde ocorreu o evento. Naquele momento já se podia imaginar que seria a ultima viagem da Xaparraw para tocar em algum evento.
          Conheci o pessoal de Charqueadas em 2011 através de um colega de trabalho que iria tocar e me convidou. Estava me recuperando de um período em que havia mergulhado em depressão e apenas saia de casa para trabalhar. Tinha me isolado do mundo após a morte do meu avô paterno, e que era meu pai adotivo, em 2010. Tinha iniciado meus estudos sobre gravação e o pouco que interagia era pelas redes sociais. A Xaparraw tocou naquele evento e eu fiquei amigo do pessoal da banda logo de cara. A partir de então, passei a acompanhar a banda pelos locais onde tocavam e fiquei muito amigo do baterista, Cássio Quines. O cenário apresentado a mim nesses eventos me remetia a época em que estive junto a Evocation na metade dos anos 1990.
                    Ocorreu que as vésperas de tocarem em Charqueadas abrindo para o Krisiun, a banda ficou sem baixista. Como eu percebi a empolgação devido ao evento organizado por eles e depois a frustração pela baixa de ultima hora, ofereci-me para tocar baixo nesse show. Tive uma semana onde aconteceu um ensaio e meio para apresentar 4 musicas e marcar presença junto a Revogar e o Krisiun. Houve muita correria, atropelos e trabalho, mas naquele 24 de agosto de 2012 subimos no palco para minha estréia junto a banda. Não foi a melhor performance da minha vida, mas acho que contribui para a banda cumprir o que estava previsto. Subi para o show ao lado de Cássio Quines, João Paulo Ourique e Vinicius Mietlicki carregando meu baixo Évora desenhado por mim e construído pelo luthier Evandro Rosa. Era um baixo fretless de seis cordas, escala de 3 oitavas e com medidas exclusivas. Tivemos o reconhecimento das pessoas que compareceram ao evento e a banda ficou mais unida do que nunca.
          Passamos a ensaiar na casa do Cássio Quines, que era o baterista da banda, e projetávamos gravar algumas musicas e fazer alguns shows ainda em 2012. A banda tinha assinado com uma produtora e precisava de material para divulgação já que a demo gravada anteriormente não representava o momento musical da banda. Não lembro de contribuir em nada no processo de composição da banda, pois ainda estávamos trabalhando o material para os shows e azeitando as musicas antigas. Nesse meio tempo tocamos em Esteio, também para uma galera bem diferente do que havíamos tocado em Charqueadas. Estar numa banda naquele momento me inspirou a lutar contra muitos demônios que estavam me sufocando e tentando me drenar para o inferno o mais rápido possível. Também precisava estar forte e estável, pois acabara de descobrir que seria pai. Lembro que gravamos duas musicas no final daquele ano, uma delas pode ser conferida aqui. Chegamos a tocar no bar Eclipse em Porto Alegre onde me apresentei com o punho direito quebrado devido a um acidente de trabalho.
          Passamos o final de 2012 e inicio de 2013 ensaiando semanalmente. Na noite em que aconteceu o fatídico incêndio na boate Kiss em Santa Maria, em 27 de janeiro de 2013, a Xaparraw tocava na cidade de Butia e fazia um show correto e elogiado pelos amigos e músicos de outras bandas que estavam ali. Era muito bom fazer parte daquela banda e tocar em cidades que ainda não conhecia. Esse show em especial não lembro de errar uma nota sequer no baixo. Tocamos muito perto do publico em um local bem pequeno e o som parecia que ia esmagar a cabeça de tanta pressão sonora. O ano iniciara muito promissor para nós.
          Tocamos em Porto Alegre no Carnametal do ano seguinte no bar Eclipse com a formação bem mais entrosada. Na mesma época lançamos o single de TV Slave e eu aproveitei imagens de nossa apresentação abrindo para o Krisiun e adicionei a música em versão de estúdio. O resultado pode ser conferido aqui. Também postamos algumas músicas ao vivo no bar Eclipse no Carnametal. Estes videos podem ser conferidos aqui e aqui. Nossas atividades nos últimos meses tinham gerado mais perspectivas de shows e crescimento no cenário underground. Porém, embora estivesse a pouco tempo na banda, ela já tinha uma história de cinco anos e certo desgaste começou a ocorrer entre os outros três membros da banda. O fato de tocarmos no festival de Otacílio Costa gerou descontentamento devido a viagem e a previsão de tocarmos no domingo pela manhã.
          Entendo que para o Cássio era importante estar presente em todo o evento para divulgar a banda. Por outro lado compreendo que os outros dois ficassem contrariados em ficar todo o final de semana longe de casa para tocar num domingo pela manhã. Eu estava deixando minha mulher grávida sozinha em casa, mas como me propus a entrar na banda e não tinha poder de veto, apenas concordava com o que a maioria decidia. Embora tudo que conversamos a respeito de tocar em Santa Catarina, a possibilidade de tocar com o Sepultura após o festival nos motivou a partir para Porto Alegre na sexta-feira a noite e encarar a viagem. Jantamos e bebemos descontraidamente e a meia noite saímos de Porto Alegre rumo a Santa Catarina em duas vans. Pegamos algumas pessoas pelo caminho e rumamos pela madrugada. Estávamos eu, o guitarrista e o vocalista da Xaparraw, junto a banda Leviathan e mais a esposa e o filho do Flávio, vocalista e baixista da mesma. Na nossa van ia o material para divulgação, instrumentos e equipamentos, na outra ia o Cássio e o pessoal que iria em excursão para curtir o festival.
         Foi impossível se manter acordado durante a viagem, por isso adormeci em alguns momentos. Quando já conversávamos sobre parar em algum lugar para tomar café da manhã, distante poucos quilômetros do local do show, eis que um caminhão cruza em alta velocidade pelo meio da pista e nos arremessa para fora da estrada. A van capota e em meio aos equipamentos, instrumentos e um cheiro de sangue, ouvíamos os gemidos e o choro do motorista que estava com lesões sérias e não aguentava a dor. O relato mais detalhado pode ser conferido aqui. Lembro ter sido o ultimo a sair da van, pois ajudei o João Paulo sair por uma das janelas com o braço quebrado e fiquei para tentar estourar a porta traseira para que os outros pudessem sair. Estavam também chocados com o acontecido e machucados.
          A policia esteve no local, ambulâncias também, mas a lembrança mais claras era de estar no meio do nada tentando entender o que havia acontecido. Passamos o dia em Lages aguardando o transporte para voltar para casa e cuidando dos amigos machucados. Partimos de volta no sábado a noite. Fiquei acordado durante toda a viagem vendo caminhões passarem ao nosso lado e com a cena do capotamento bem clara ainda em minha mente. Minha perna queimava enquanto o tecido da calça roçava na ferida aberta que o acidente provocara. Por um bom tempo, quando não estava conversando com o pessoal, vinha a mente a história da morte de Cliff Burton do Metallica e eu torcia para poder chegar em casa e esperar para ver o nascimento da minha filha. 
          Algumas semanas depois tentamos reagrupar para tocar com o Sepultura, mas o show foi cancelado e a Xaparraw encerrou as atividades. Hoje trabalho nas minhas musicas e escrevo para o blog. Continuo estudando musica e produção musical, o Cássio gravou com a El Diablo que era o projeto dele desde a época da Xaparraw e toca em outras bandas também. Fiz uma matéria com a banda que pode ser conferida aqui. O João Paulo e o Cambão formaram a Super Truckers e continuam na ativa. Mas com certeza a Xaparraw foi muito importante para todos nós, e particularmente sinto-me honrado por fazer parte da banda por alguns meses e sempre serei grato a todos por dividirem tantos momentos comigo.

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