segunda-feira, 30 de maio de 2016

A história da Evocation

         
         
          Um setembro de 2014 eu escrevi a respeito sobre a Evocation devido ao surgimento de uma cópia digitalizada da demo Belial's Land. Lembro que na época algumas pessoas comentaram a respeito daquela época de vinte anos atrás. Algumas pessoas vieram falar comigo sobre essas lembranças em alguns shows que fiz com a Xaparraw entre 2012 e 2013. Por uma simples questão cronológica eu exclui as postagens anteriores a 2015, pois fiquei longos períodos sem escrever desde que comecei minhas atividades nesse espaço em 2011. Aos poucos estou reformulando os textos e relançando. O texto que segue é o mesmo escrito em 2014 com o acréscimo deste primeiro parágrafo e do último. Fica aqui o registro para quem tiver interesse em conhecer a história da banda.
          A Evocation foi uma banda polêmica e que sempre conviveu com muitos problemas, principalmente quanto a estabilidade de sua formação. Estamos falando da metade dos anos 90 onde ter banda era para quem realmente estava disposto a trabalhar muito em condições precárias e receber pouquíssimo reconhecimento. Estávamos num momento interessante em termos de Rock e Metal em geral. Tínhamos bandas de Death Metal surgindo por todos os lados, ainda algumas bandas do Hard Rock glamoroso de arena que ainda subsistiam, o Grunge ainda estava muito presente na mídia, o Black Metal norueguês colhia os frutos do movimento chamado Inner Circle por aqui, o Metal brasileiro ganhava terreno com o Sepultura atingindo o topo e bandas como Angra, Dr. Sin, Viper e Raimundos conquistando notoriedade fora das fronteiras tupiniquins. Para o bem ou para o mal, os Mamonas Assassinas estavam permanentemente na mídia, o que não deixava de ser uma banda de Rock, ao invés do Funk Carioca e dos Sertanejos Universitários de hoje em dia. Graças a MTV, bandas mais alternativas como Faith No More, Red Hot Chilli Peppers e Rage Against The Machine também se mantinham fortes no conceito da molecada. O New Metal também nascia influenciado por Sepultura, Pantera e as bandas industriais como Nine Inch Nails, Fudge Tunnel, New Model Army e Fear Factory. Não lembro de uma fase tão diversificada e numerosa de bandas com estilos tão diferentes. Vários fatores contribuíram para isso, um deles a MTV, as revistas especializadas já traziam conteúdos diversificados, a troca de fitas demo e fanzines ajudaram a difundir diversos estilos. Porém, a efervescência de bandas talvez tenha sido o principal meio de divulgação do Heavy Metal. Formaram-se diversas cenas e elas aos poucos foram mantendo contato umas com as outras.
          A Evocation foi a consequência de mais duas bandas anteriores a ela, mas com seu guitarrista e fundador em comum. Hasmodel, pseudônimo adotado pelo Alex que era meu conhecido desde 1992 quando fundou a banda Crow com seu primo na bateria e mais dois músicos de Cachoeirinha. Essa banda tocava Death Metal, mas ainda de uma forma bem rudimentar. Chegaram a fazer uma ou duas apresentações e gravar uma demo ensaio. No ano seguinte, 1993, a banda foi reformulada e rebatizada de Desaster. A sonoridade agora ia de encontro ao Crossover de bandas como Napalm Death, que misturava Death Metal com Hard Core. Eu estava presente nesse momento tocando baixo e éramos um trio formado por Hasmodel, na época Alex, na guitarra e nos vocais, seu primo e ex baterista da Crow ainda nas baquetas e eu no baixo. Trabalhamos umas cinco ou seis composições, porém, com a troca de bateristas e problemas de relacionamento com seu líder, eu me retirei e montei minha própria banda. A Desaster seguiu com a participação de alguns amigos meus inclusive, mas não chegou a gravar nada.
          Acho que no final de 1994 Hasmodel decidiu montar uma banda de Black Metal aproveitando as sobras de composições anteriores e motivado pelas polêmicas sobre queima de igrejas, assassinatos de homossexuais e outros membros de bandas. Não sei ao certo porque não mantinhamos contato nessa época, só voltei a falar com o Alex quando ele convidou Adriano Pieres, que era meu amigo, para tocar teclados na Evocation. Fui a alguns ensaios e apresentações deles. Chegaram a gravar uma demo ensaio, mas o trabalho estava bem no início ainda. Minha banda estava num impasse quanto a estilo e as composições estavam confusas e patinando. Eis que o baixista abandona a banda e eu sou convidado a participar de alguns shows. Tirei as musicas, ensaiei algumas vezes e aceitei meu papel na banda, que era usar corpse paint, banguear como louco e usar distorção no baixo. Naquele momento a Evocation nada mais era do que o núcleo inicial da Desaster com o acréscimo dos teclados.
          A Evocation nunca teve uma formação estável. Mesmo com a minha entrada para resolver o problema dos graves, sempre tivemos dificuldades com bateristas. Tecnicamente a banda era um horror, pois havia precariedade nos instrumentos e equipamentos, nunca estávamos entrosados, pois a formação mudava o tempo todo, isso prejudicou muito a construção de novas músicas e um produto mais final mais coeso. Nossos shows eram confusos, pois ainda não existia um público consolidado e o pessoal que curtia o estilo, nos via com desconfiança por sempre tocar em festivais com diversas bandas de estilos diferentes. Tocávamos com Corpse Paint, crucifixos de ponta cabeça e velas acesas em meio a bandas de punk rock e pop muitas vezes. Nos motivávamos porque éramos os únicos e não tinhamos vergonha do que fazíamos, era tosco, improvisado e primitivo, mas era nosso.
          Gravamos uma demo chamada Belial's Land em final de outubro de 1996. Entramos no estúdio Live, ensaiamos por uma hora e gravamos na segunda. Simples assim. A demo representava nossa sonoridade e nossa performance ao vivo. Essa demo circula até hoje na internet em alguns sites e blogs alternativos. Vale como registro, pois através dessa fita recebemos um convite para participar de uma coletânea com outras dezenas do mundo todo pela gravadora Shiver Records da Bélgica. Sometimes Death is Better era o nome do trabalho e foi lançado em 1997 depois da banda já estar extinta. Houve uma reunião básica, a escolha da música de trabalho e a gravação já em multi canais e via ADAT. É interessante que trocamos o baterista, gravamos todos os instrumentos separadamente em outro estúdio e o resultado ficou igual a versão da demo para Obscurity Worship.
          Voltamos a nos reunir e tentar fazer alguma coisa no início de 2015, mas a coisa não fluiu como deveria. Essa reunião se deu por um blog que digitaliza fitas demo antigas postar a demo gravada em 1996. Achei por acaso em agosto de 2014 e falei para o ex tecladista. Volta e meia a Evocation surge como boato ou arrasta seu cadáver fedorento por um tempo, mas voltar a tocar e a gravar nunca aconteceu. O que existe é a demo Belial's Land de 20 anos atrás e o single de Obscurity Worshiper que entrou na coletânea belga. Era uma banda derivada de outras duas que bebeu bastante na fonte de Samael e Rotting Christ. Talvez se tivesse seguido com uma formação mais estável, as coisas seriam diferentes. O fato é que não aturávamos mais olhar um para acara do outro depois de sofrer para poder fazer shows com equipamentos e instrumento precários pagando tudo dos nossos bolsos. Sim, pagávamos por tudo e nunca cobramos cachê para tocar em lugar algum.

          O que restou dessa fase é o reconhecimento de algumas pessoas que ainda lembram da banda e a experiência adquirida para os projetos futuros de cada um. Tocamos na região metropolitana de Porto Alegre (Canoas, Esteio, Gravataí e Cachoeirinha) e em Guara Mirim em Santa Catarina. Talvez a grande vilã de toda essa história seja a época mesmo. Quando entrei para banda ainda era menor de idade. Éramos todos moleques imaturos ainda e a sonoridade da banda era muito datada, registrava aquele período. Não chegamos a evoluir e buscar nosso próprio caminho, apenas embarcamos na onda que as outras bandas iniciaram e quando a coisa esfriou não tivemos personalidade e nem motivação para seguir adiante. A estrutura também não ajudou, estávamos na fase das gravadoras mandarem em tudo e a música independente ficar marginalizada. Bancar estúdios para ensaio já era difícil, imagina uma gravação profissional. Essa é a curta história da Evocation, ao menos a que fiz parte, e acho que essa banda teve sua importância e merece ser lembrada as vezes, pois volta e meia é citada em algum lugar.
          Possivelmente algumas pessoas irão ler algumas histórias épicas a respeita da banda, tentando transformar a banda em algo maior do que foi, mas isso não passa de uma tentativa mambembe de usar o nome e a história para tentar reviver aquela época. Eu tenho registros de uma reunião nossa no início de 2015 e que não foi adiante. Se houvesse uma intenção séria de retomar a banda, teria acontecido nesse período, mas não ocorreu. Se falarmos de Evocation o que temos é a demo Belial's Land e ponto final. Qualquer lançamento diferente disso é cover ou mera picaretagem.

sábado, 28 de maio de 2016

Kiko Loureiro no Megadeth

         
           Nunca fui muito fã do Kiko Loureiro, mesmo gostando de alguns trabalhos dele com o Angra como o Rebirth, sempre tive minhas restrições, preconceito na verdade. No início dos anos 1990 para a maioria de nós, o Brasil se resumia a Sepultura e Ratos de Porão. Entretanto, é impossível afirmar que ele não seja um excelente guitarrista, a não ser que você não entenda nada de música, ou tenha em mente que só quem faz a música que você gosta saiba tocar. Um cara que toca guitarra initerruptamente desde o final da década de 80 e que já gravou com grandes produtores e músicos, estudou com professores do calibre de Mozart Mello, fez gravações e turnês pelo mundo todo, não só com o Angra, mas com vários nomes diferentes e de qualidade, tem seu valor como artista e profissional da música. Quando se ouve as interpretações de Kiko para obras de outros estilos fora do Heavy Metal como Bossa Nova, Choro, Jazz e Clássicos, se percebe o quão versátil e brasileiro é o seu estilo. Já assisti vídeos com interpretações dele que extrapolam a linguagem habitual do instrumento. Interessante mencionar que Kiko Loureiro tocou no Dominó, uma boy band de sucesso no Brasil nos anos 1980, e desde lá é guitarrista profissional. Mesmo tendo iniciado um curso superior, ele abandonou a faculdade para se dedicar a guitarra integralmente.

          O Angra começou suas atividades no início dos anos 90 fazendo um Metal Melódico cheio de partes sinfônicas, vocais extremamente forçados e toques de Pop misturados as guitarras de Metal. No álbum Angels Cry, podemos perceber alguns momentos de brilhantismo, mas no geral o disco soa exagerado, tanto em performances instrumentais e vocais como em misturas de estilos. Ficou muito forte a intenção de botar pra fora todas as influências quanto as habilidades musicais de cada integrante. Segundo o próprio Kiko, este álbum foi muito difícil de gravar, pois o produtor exigiu bastante da banda em termos técnicos. Já no segundo álbum, Holy Land, o foco estava em contar a história do Brasil em um álbum conceitual recheado de ritmos brasileiros, porém o resultado foi apenas mediano devido as performances exageradas, mais uma vez. Chegaram a gravar o álbum chamado Fireworks ainda com a mesma formação, tirando poucos momentos interessantes, o álbum também não convenceu. Embora os álbuns não agradassem tanto ao público do Heavy Metal brasileiro como fez o Sepultura, o Angra teve boa aceitação na Europa e principalmente no Japão lançando alguns EPs como Freedom Call e Holy Live. Porém, no final dos anos 90 a banda se dividiu com a saída do baterista Ricardi Confessori, do baixista Luis Mariutti e do vocalista André Matos que formariam o Shaman em seguida. Nessa fase ficaram apenas os dois guitarristas e o empresário.
          No início da década de 2000, o Angra recrutou o vocalista Edu Falaschi, o baixista Felipe Andreoli e o baterista Aquiles Priester para retomar as atividades da banda. Com essa formação gravaram o álbum Rebirth e um duplo ao vivo que também saiu em DVD gravado em São Paulo. Para mim, esse é o melhor trabalho da banda. Embora os novos integrantes tendo a necessidade de mostrar que estavam a altura dos que saíram, o álbum não soa exagerado, muito pelo contrário, eles acertaram a mão na proposta artística e nas composições. Há ótimas composições ali e ele é interpretado e gravado de forma mais natural que os anteriores, ao menos é o que me pareceu. Na sequência gravaram Temple of Shadows, que pra muitos é a obra prima da banda por ser mais um trabalho conceitual, só que agora abordando As Cruzadas como tema central e não o Brasil como fizeram em Holy Land. Achei este álbum interessante, mas a produção pareceu soar exagerada novamente, contudo percebe-se a consolidação da formação da banda. Esta é uma característica da banda que me incomoda um pouco, eles saem do bom momento para o caos em pouco tempo. É uma opinião particular, não exatamente algo definitivo. Os vocais do André Matos estragaram muitas composições da banda nos primeiros álbuns e a necessidade de todos os integrantes aparecerem com seu virtuosismo em todas as faixas era o que dava o tom exagerado. Aurora Consurgens e Aqua são álbuns fracos e nada mais representam do que uma caricatura da banda. O Angra conseguiu se repetir nos erros da década de 90 e passou por uma fase bem complicada em termos artísticos. Embora a inconstância criativa e as mudanças, tanto na formação como no direcionamento musical, o desempenho de Kiko Loureiro no Angra sempre foi de alto nível e isso o colocou no topo da lista de melhores guitarristas brasileiros e um dos mais reconhecidos mundialmente.

          Tendo casado com uma instrumentista finlandesa e ficando sempre no eixo Brasil-Finlândia por três anos, Kiko Loureiro resolveu se mudar definitivamente para os Estados Unidos. Mesmo com toda a tranquilidade e o reconhecimento que tinha no Brasil, resolveu arriscar uma mudança radical em sua vida particular, que poderia dar melhores frutos na sua carreira internacional. Assinou com a Ibanez como endoorsement, tendo seu nome junto ao de Stevie Vai e Joe Satriani na linha de frente da marca. O resultado desse esforço foi um convite para um teste no Megadeth de Dave Mustaine, para substituir o guitarrista Chris Broderick. Para muitos foi uma surpresa, um guitarrista brasileiro tocando em uma banda tão representativa do Heavy Metal, principalmente levando em consideração que os fãs do Angra e do Megadeth não são exatamente os mesmos. Entretanto, Dave Mustaine sempre optou por guitarristas mais versáteis ao seu lado. Tirando Kerry King, lá no início do Megadeth, Chris Poland e Jeff Young eram músicos de Jazz, segundo o próprio Mustaine, muito melhores guitarristas do que ele. Marty Friedman, que gravou os álbuns mais famosos da banda como Rust in Peace e Countdown to Extinction, era um guitarrista que havia feito parte do Cacophony ao lado de Jason Becker, mas mesmo assim era bem versátil e tinha influências bem diferentes do Heavy Metal. Analisando esse histórico, Kiko Loureiro era o guitarrista perfeito para o atual momento da banda e possivelmente a melhor escolha.
          O Angra lançou o álbum Secret Garden em 2015 com o vocalista Fabio Lione e Bruno Valverde na bateria, Kiko começou a gravar Dystopia com o Megadeth no mesmo ano. A presença de Kiko Loureiro como guitarrista do grupo não mudou drasticamente a sonoridade da banda e isso era evidente. Uma banda como o Megadeth só muda alguma coisa quando seu líder quer e ele parece feliz com os últimos trabalhos. A contribuição de Kiko é óbvia e acho até que supera as expectativas em seus solos, pois sua técnica é limpa mesmo nas partes mais complexas e seu timbre beira a perfeição sonora para o estilo. Ao vivo a banda ainda não demonstrou grande entrosamento, mesmo com a grande qualidade dos integrantes, ao menos é o que pude constatar nos primeiros vídeos que assisti e pelos depoimentos do próprio Kiko. Acredito que com o tempo e a manutenção dessas peças durante a turnê do Dystopia, o desempenho melhore como banda e o Megadeth possa entregar aos fãs toda a qualidade que eles esperam da banda ao vivo. O álbum em si é bom. Não chega a ser um clássico definitivo, mas tem 3 ou 4 faixas que podem figurar muito bem nos futuros set lists da banda ao vivo. O resultado final ficou bem parecido com o The System Has Failed, álbum muito interessante e importante na retomada de carreira da banda, achei que ficou a frente de Super Collider, TH1RT3EN e Endgame. Uma banda com 15 álbuns de estúdio e uma carreira conturbada devido á brigas, excessos de bebida e sérios problemas com drogas, contando com constantes mudanças de formação e problemas de saúde de seu líder poder continuar em turnês e gravando álbuns relevantes é uma grande vitória por si só.

          Falei bastante do Angra, falei do Megadeth e o título sugeria o foco na entrada do Kiko Loureiro no Megadeth. Se fosse há 20 anos atrás essa notícia cairia como uma bomba, assim como a folclórica história do convite feito a Pepeu Gomes para integrar a mesma banda na década de 80, que foi tratada como deboche pela maioria das pessoas. Hoje as coisas mudaram bastante. Não somos mais reféns de revistas picaretas traduzindo matérias gringas ou reportagens esporádicas da MTV para termos informações sobre as bandas. Isso vale para todas as outras coisas também. O Angra tem um vocalista italiano, o Sepultura tem um americano, o próprio Andreas Kisser já fez parte do Anthrax e o Max Cavalera tem músicos em suas bandas que não são brasileiros. Muitos podem alegar que os brasileiros só estão tendo espaço porque o momento musical está uma porcaria e eles estão piorando ainda mais a situação. Essa é uma tese bem popular, mas não deixa de ser idiota. Há muitos músicos excelentes no Brasil, e se nós mesmos levássemos essa qualidade mais a sério, ainda haveriam muitos mais. O triste é saber que a maioria tem que convencer que são bons na Europa, Estados Unidos e Japão para depois serem reconhecidos por aqui. Kiko Loureiro merece o local onde está, pois trabalhou muito para isso, independente se a maioria dos Headbangers brasileiros não gostem dele.
          O álbum Dystopia tem recebido ótimas críticas e os videoclipes das músicas mostram um Megadeth ainda mais agressivo e uma perspectiva caótica de futuro em suas letras, o título do disco fala por si. Isso é muito comum de Dave Mustaine. Não importa se ele tenha se convertido ao cristianismo a alguns anos, sua agressividade continua a mesma. Não sei se é possível essa formação atual gravar quatro ou cinco álbuns de estúdio, mas também não duvido que aconteça e certamente eles terão um nível relativamente alto em qualidade, pois diferente do Metallica, o Megadeth não é visto com desconfiança pelos fãs mais ortodoxos, talvez só tenha causado desconforto na fase do Risk, mas isso já faz quase 20 anos. Megadeth é uma banda que jamais deixou de lançar álbuns e por isso tenha alcançado uma importância equivalente a Judas Priest e Black Sabbath pela quantidade de material disponível aos seus fãs. Enquanto algumas bandas antigas se despedaçam para lançar um novo trabalho, as coisas para o Megadeth parecem mais naturais. Não digo que Dave Mustaine não tenha as mesmas dificuldades, pois o baixista e amigo de longa data Dave Ellefson o processou em quase uma centena de milhões de dólares, mas parece que tudo foi resolvido e ele voltou pra banda a um bom tempo e o trabalho continua, não importando exatamente quem está na banda.

          Um dos segredos para a qualidade do Megadeth e para o seu sucesso foi contado por Kiko Loureiro em um de seus espaços na internet, onde ele fala que a equipe que acompanha o grupo é muito competente e a maioria das pessoas trabalha nela a bastante tempo. Segundo o guitarrista, a equipe chega ao local do show 10 horas antes da hora marcada para a banda subir ao palco. A banda em si chega cinco horas antes para acompanhar como tudo está correndo. Esse ritual acontece da mesma forma independentemente do tamanho ou o local do show. Se Mustaine teve seus vários problemas com drogas e de comportamento, jamais permitiu que seus músicos prejudicassem a banda por conta disso. Ao longo dos anos Dave assumiu totalmente o controle do que acontece no Megadeth e isso faz com que a banda permaneça ativa e com sua reputação intacta. A escolha por Kiko Loureiro só poderia ser estranha para nós brasileiros que temos a síndrome do vira-latas, pois para mídia internacional isso não foi nada estranho, para muitos até bem natural. Tenho uma inveja branca para com essa situação, pois ser guitarrista do Megadeth é algo que realmente eu gostaria de fazer como músico. Mas parabenizo o Kiko por isso, pois eu nunca tocaria guitarra tão bem quanto ele, mesmo vivendo um milhão de anos e estudando 24 horas todos os dias. Ninguém merece mais este reconhecimento e talvez poucas pessoas sejam tão capacitadas quanto ele para essa tarefa.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Megadeth, a síntese

         
          De repente o cara é despertado com dor de cabeça por causa de mais uma ressaca. Quando abre os olhos vê os vultos de três homens cabeludos e maltrapilhos. Um deles, o mais baixo e com sotaque engraçado diz: _Dave, você está fora da banda e nós já compramos a passagem de volta a Los Angeles! _O embriagado guitarrista pergunta a que horas sairia o avião e recebe a noticia de que o ônibus partiria em uma hora. O sujeito em questão era Dave Mustaine e a banda era o Metallica. Foram 18 horas viajando de ônibus até chegar em seu antigo apartamento em Los Angeles. Tempo suficiente para sentir muita raiva e planejar detalhadamente sua vingança. O nome que surge na mente é Megadeth. O jovem que saíra de casa aos 15 anos e alugou um apartamento com dinheiro do tráfico de drogas. Uma de suas clientes, normalmente sem dinheiro para sustentar seu vício, oferecia discos do Black Sabbath, Judas Priest e Iron Maiden para satisfazer suas necessidades. Juntou-se a banda Panic com o objetivo de seguir carreira tocando guitarra. Agora tinha seu sonho interrompido ao ser demitido, segundo ele, injustamente da banda que tinha tudo para estourar. Um dia, ao ser incomodado por um moleque tocando baixo, arremessou um vaso de plantas sobre o ar condicionado do apartamento de David Ellefson. Os dois se tornariam amigos pouco tempo depois. O jovem vai até o apartamento de Mustaine com desculpa de perguntar sobre lojas de bebidas. Ali vê o ruivo executar seus riffs velozes e se empolga com a ideia de formar uma banda.
          Nasce o Megadeth, fruto do insaciável desejo de vingança de Mustaine em relação ao Metallica. Cansado de procurar vocalista e trocando constantemente de formação e gravar demos, Dave Mustaine assume os vocais e as guitarras. Busca um segundo guitarrista para encorpar o som da banda, Kerry King do Slayer toca um tempo na banda neste periodo. A formação se estabiliza mais adiante com Gar Samuelson na bateria, Chris Poland na guitarra, David Ellefson no baixo e Dave Mustaine nas guitarras e vocais. Com essa formação gravam 2 álbuns, Killing Is My Business... And Business is Good de 1985 e Peace Sells... But Who's Buying? de 1986. A banda vai relativamente bem com o primeiro álbum lançado por uma gravadora independente e se afirma com o segundo, já com uma gravadora mais formal. Se Dave Mustaine e Dave Ellefson eram fãs de Metal, os outros dois eram mais ligados ao jazz, sendo músicos mais técnicos, isso deu uma sonoridade bem característica para o Megadeth. O vício em drogas e as costumeiras bebedeiras foi o que aproximou Dave de seus companheiros de banda, mas também motivou muitas brigas.        
          Após muitas brigas e problemas com drogas, Poland e Samuelson são demitidos e em seus lugares entram Jeff Young e Chuck Behler respectivamente. Essa formação grava So Far, So Good... So What de 1988. Nesse álbum há uma música que Mustaine escreveu inspirado no sentimento causado pela morte de seu amigo e ex colega de Metallica, Cliff Burton em um acidente de transito na Suécia. O disco é um sucesso, mas nada fazia o Megadeth superar o Metallica. O resultado foi uma viagem catastrófica ao submundo das drogas. As neuroses do lider do Megadeth fazem com ele demita seu guitarrista e seu baterista novamente. Após um tempo na reabilitação, Dave Mustaine chama Nick Menza para a bateria e Marty Friedman para a guitarra. Em 1990 lançam Rust in Peace, sucesso de vendas e um disco clássico do Thrash Metal. Parecia que a vingança de Mustaine chegara com uma grande turnê. Por um tempo ...And Justice For All e Rust in Peace eram comparados e o segundo se mostrava mais relevante. Porém, em 1991 o Metallica lançava o álbum homônimo e sairia para a sua turnê de maior sucesso e de maior duração. Isso para o líder do Megadeth foi amargo demais para engolir. Mesmo lançando o bem sucedido e clássico Countdown to Extinction em 1992, o Megadeth via sua co-irmã e rival colher os louros da vitória. Esse álbum, a exemplo do preto do Metallica, possuia uma sonoridade mais polida e com composições mais variadas e isso foi interessante para a banda comercialmente. No mesmo embalo foram gravados Youthanasia de 1994 e Cryptic Writings de 1997. Esses álbuns em nenhum momento mancham a discografia do Megadeth, mas isso mudaria em seguida.
          Durante a Turnê de 1997 o baterista Nick Menza é diagnosticado com um tumor no joelho. Por sorte era benigno e pode ser operado e se recuperou bem. Ainda no hospital o baterista é avisado por telefone que estava sendo demitido. Para seu lugar Dave Mustaine chamou Jimmy Degrasso e em 1999 o Megadeth lança o álbum Risk. Para muitos um tiro no pé, por flertar com música eletrônica e pop. Nessa época Marty Friedman também é demitido. Os motivos ainda não foram esclarecidos de forma definitiva, mas oficialmente ele preferiu investir numa carreira solo e não tocou mais em bandas. Em muitas entrevistas alegou que o direcionamento musical da banda e a forma de seu líder lidar com as situações já não lhe agradavam mais.
          No dia 21 de maio deste ano, Nick Menza morre por problemas no coração e deve estar ao lado de Gar Samuelson em algum lugar falando mal de Mustaine por suas demissões. O fato é que Dave Mustaine é um líder intransigente e muitas injusto, pois cobra coisas de seus músicos que várias vezes nem ele mesmo cumpria. Nesse meio tempo chegou a ser processado por seu grande parceiro Dave Ellefson, mas este voltou pra banda a alguns anos e agora estão novamente em paz. Dave se converteu a cristianismo e já não toca algumas das antigas músicas com letras obscuras e falando de satanismo, entretanto nunca foi tão ácido em suas criticas politicas e sociais como hoje. Durante os anos o comportamento de Mustaine atraiu polêmicas e confusões. Contudo, parece que após se recuperar de uma inflamação no tendão do braço e voltar com o Megadeth após dois anos de inatividade fizeram seu líder ficar em paz com seu passado.      
          Dave Mustaine talvez tenha passado grande parte de sua vida amargurado pela sua raiva do Metallica e buscado a satisfação nas drogas e não nas coisas que ele conquistou como músico. Talvez nem seus momentos mais radicais e lúdicos do início de carreira ele pudesse imaginar que chegaria tão longe. Hoje com 15 álbuns de estúdio e ter contado com grandes músicos em suas diversas formações, o Megadeth é uma das maiores bandas de Metal de todos os tempos e tudo graças a fúria de Dave Mustaine. Ele não é o maior guitarrista do Thrash Metal, mas com certeza é um dos mais importantes da história do Heavy Metal. 

sábado, 14 de maio de 2016

A Dilma caiu, e daí?

         
          A presidente Dilma foi afastada por até 180 dias, e agora? Michel Temer é o presidente interino por esse período e montou um novo ministério. O que vai mudar para o brasileiro? Nada. Talvez até piore, como tem piorado nos últimos meses. O Brasil está acordando de um sonho, apenas sonho, um delírio provocado pela paixão partidária de muitos. Vários destes ainda não acordaram e nem vão, como aqueles que insistem em sentir saudades da ditadura militar. O país está dividido e foram os próprios políticos que dividiram para brincar de poder. Todas as crises que existiram ao longo da história de nossa república são culpa dos políticos, não de um especificamente, mas de todos eles, sem exceção. A Dilma não é a única culpada, mas também não é esse exemplo de honestidade que prega. O que aconteceu nesse dia 12 de maio de 2016 é, a grosso modo, o resultado de uma queda de braços entre vaidades. Eduardo Cunha, presidente afastado da câmara e corrupto, ao ser desafiado pela arrogância da presidente em insistir em dar um ministério ao ex-presidente para que o mesmo não fosse investigado pelo juiz Sérgio Moro, depois de também ter passado por cima do congresso ao contrair dívidas públicas para tentar disfarçar uma crise econômica gigantesca causada pela corrupção principalmente, as chamadas pedaladas fiscais. Essa rusga veio por á prova a metodologia habitual da maioria das pessoas acusadas de algo ou questionadas, que é acusar seus opositores ao invés de se defender de forma correta. 
          Muito se comentou sobre o conteúdo em áudio divulgado pelo juiz Sérgio Moro onde o ex-presidente deixou claro como estava se articulando pra se defender e sua opinião a respeito das investigações que chegaram até ele. Isso foi a gota d'água que faltava para que a câmara dos deputados mostrasse como tudo isso ecoou naquela casa e aceitasse o pedido de impedimento da presidente. O PT, no governo a tanto tempo, parece ter perdido as medidas de como fazer as coisas. Para chegar ao poder em 2002 e assumir a presidência, o Partido dos Trabalhadores se aliou a grandes empresários e ao longo do processo trouxe para a frente do governo um dos partidos mais conservadores do país, o PMDB. Não foi mero acaso que, para que Dilma ficasse a frente do governo o vice presidente, o presidente do Senado e o da Câmara dos deputados fossem de tal partido. Claro que tal força sendo desafiada ou fazendo função apenas decorativa, como reclamara Michel Temer no final do ano passado, uma hora se levantaria. Os principais nomes do partido do governo haviam sido presos ou abandonaram o partido ao longo dos anos, só restando alguns nomes arrogantes e intempestivos. 
          O grande mérito do partido no governo foi manter uma militância representativa e bem articulada. Mesmo com tudo isso contra, a presidente precisava passar a imagem de que tudo estava bem para poder bancar uma olimpíada no país, ato final desse governo. Já a oposição aproveitou a oportunidade para expor as feridas que estão matando o país aos poucos, mas que em muito foram causadas por eles também. Se tudo correr de forma natural, todos os políticos cairão, mas isso não acontecerá. Vozes serão silenciadas das formas mais obscuras que se posso imaginar. Novos heróis se levantarão e não se sustentarão, outros serão acusados e ridicularizados para perderem a credibilidade até um novo ciclo se inciar assim que este terminar. No meio disso tudo está o povo, enganado, explorado, usado como massa de manobra e iludido. Assim como uma torcida de futebol, cada lado defende suas cores até o fim e se perdem uma batalha, jamais admitem ter errado. Desde o início do governo Lula brotaram denuncias de corrupção, porém, mesmo com peixes grandes julgados e questionados por conta disso, muita gente não admite que eles sejam bandidos, mesmo alguns sendo condenados. 
          Houve um tempo em que melícias armadas eram formadas em cantos afastados do país, assim como ainda existem na Colômbia e na Bolívia. Houve um momento que o exército tomou o poder e isso foi muito ruim para todos, mas uma luta aramada poderia ser ainda pior. Porém, há de se ver as coisas com a clareza que nossa gente não possui, para se ter a imparcialidade necessária para julgar qual o melhor caminho a seguir. Apenas trocar acusações sem admitir os erros é tática clara de quem também tem o rabo preso. Outra tática é insistir que se está sendo injustiçado e é vítima de golpe. Ao contrário do que nossa presidente afastada insiste em dizer, cada deputado e senador da república foi eleito da mesma forma que ela e foi a maioria deles que a colocou na situação atual. O fato é que as votações tanto na Câmara como no Senado mostraram que é impossível a presidente governar sem passar por cima das entidades citadas acima, e se um governante faz isso, está muito perto de se tornar um ditador. 
          Particularmente me incomoda os apoiadores do governo usarem a cor vermelha para caracterizar seu movimento e achei um desrespeito usar luzes vermelhas para iluminar os palácios oficiais em Brasilia. Por mais que ouvir deputados e senadores discursar, na maioria das vezes soa como deboche, há de se respeitar os símbolos nacionais como a bandeira, suas cores, seus brasões e sua constituição, mesmo não concordando com os políticos ou as leis vigentes. Por pior que as coisas possam ficar, ainda somos brasileiros e temos nossa responsabilidade junto a nação. Para isso pagamos a maior carga tributária do mundo. Enquanto o Brasil se divide em vermelho de um lado e verde e amarelo do outro para ver quem é que ganha o joguinho de poder, quem demonstra que realmente tem força nessa disputa é a criminalidade, a cada dia mais violenta, organizada e bem sucedida em suas empreitadas. Nesse meio tempo os hospitais caem aos pedaços e os servidores entram em greve, os que ficam não tem condições mínimas para exercerem suas atividades. As escolas da dita pátria educadora sofrem com a falta de estrutura e a formação criminosa que já está enraizada nas fragilizadas instituições de ensino. Vamos falar das estruturas de nossas estradas e locais públicos sem segurança e se desmanchando. 
          Enquanto prédios caem em outros países e cidades são arrasadas por causa da guerra, aqui isso acontece por incompetência do governo, qualquer governo. Enquanto uns temem represálias e perseguições iguais as da ditadura, a perda da liberdade, outros diz temer o golpe comunista e uma ditadura totalitária com milicias armadas nas ruas. O fato é que nem um nem outro se justifica, pois o tal governo de esquerda entregou boa parte do país a empreiteiras, os bancos nunca lucraram tanto, a máquina do governo está sucateada e o país dividido. Se tem alguns idiotas falastrões falando em ditadura militar e coisas do tipo, dificilmente isso se criará pelo mesmo motivo que a presidente Dilma foi afastada e Collor perdeu o mandato no inicio dos anos 1990, não existe mais espaço para medidas extremas e ideias totalitárias. Portanto essa palhaçada criada por esses idiotas que representam a politica no Brasil só serve pra tirar a atenção do povo para a miséria e as condições precárias que se avizinham. Muitos falam em novas eleições, mas com os candidatos que estão ai concorrendo alguma coisa vai mudar? Nunca.
          Para finalizar esse assunto chato e repetitivo, espero que as pessoas acordem e encontrem uma forma de dialogar em busca de soluções práticas para seu dia-a-dia e não fiquem batendo boca nas ruas e nas redes sociais defendendo seu lado, pois os políticos defendem apenas o lado deles. Em um determinado momento estão brigando, depois são aliados e quem se ferra é sempre o povo, eles ficam lá ganhando seus altos salários pagos pelo cidadão e criando crise em cima de crise. O resultado de toda essa palhaçada é que quem sempre paga a conta é o trabalhador que corre sempre o risco de perder seu emprego e ganha R$ 2.000,00 a muito custo enquando tem sorte, enquanto quem ganha menos com politica ganha R$ 20.000,00 mais vários benefícios e a grande oportunidade de ficar milionário com a corrupção. Pense nisso quando for levantar uma bandeira ou a voz para defender algum lado.

domingo, 8 de maio de 2016

Pantera

         
          Já escrevi aqui neste espaço sobre o início da carreira de algumas bandas que eu adoro e são muito populares no meio musical, principalmente no Heavy Metal. O motivo de eu falar sobre o início de Metallica, Iron Maiden e Black Sabbath, foi eu gostar mais dessa fase inicial da carreira dessas bandas. Sei que o Iron Maiden é mais criativo e surpreendente nos álbuns The Number of The Beast, Piece of Mind e Powerslave, mas gosto muito da crueza e honestidade dos álbuns com Paul D'Ianno. O Black Sabbath, nos seus primeiros álbuns com Ozzy ainda nos vocais, é a gênese do Heavy Metal, por coincidência, são os seus álbuns mais criativos e influentes. O mesmo pode ser dito sobre o Metallica, que em seu primeiro álbum, já superava a New Wave of British Heavy Metal em velocidade, peso e agressividade, dando origem ou abrindo os trabalhos de um estilo enormemente representativo pra o Metal que é o Thrash. O Metallica lançou dois álbuns fantásticos na sequência, Ride the Lightning e Master of Puppets que são o auge criativo da banda ainda com Cliff Burton no baixo. Falamos da década de 70 e 80, mas e a de 90? Será que deu ao Heavy Metal algum fruto? A resposta é sim, vários. Um deles é o Pantera.
          Não vou falar do início da banda porque contraria o enfoque principal aqui, que é o meu gosto pessoal. Embora muitas pessoas considerem a fase inicial do Pantera e seus álbuns independentes como sendo a mesma banda, eu já vejo como sendo uma fase de gestação. Ignoraremos a fase de 1981 a 1985 com esses três álbuns independentes, Metal Magic, Projects in the Jungle e I Am The Night e seu vocalista Terry Date. Nessa fase a banda fazia um Metal que misturava um pouco de NWOBHM, Hard Rock e Rock dos anos 70. Não que os álbuns sejam ruins, porém soavam genéricos demais devido ao grande amontoado de bandas Heavy Clássico dos anos 1980. Pra se ter ideia esses álbuns coincidem com os três primeiros do Metallica em anos de lançamento. Enquanto algumas bandas já estavam consolidadas, o Pantera estava na fase romântica da carreira musical. Porém, é preciso ressaltar que, no seu ultimo álbum independente há uma mudança quase fundamental para o futuro da banda, a entrada do vocalista Phill Anselmo para gravar Power Metal de 1988. Nessa época a banda tinha um visual Glam, e assim como o tipo de som, já estava saturado para a nova época do Heavy Metal. Para este ultimo álbum independente a banda regravou algumas coisas da época de Terry Date e adicionou material inédito para os vocais do ex-Razor White. Com um instrumental um pouco mais pesado e com riffs mais marcantes, o Pantera assina com a gravadora Atco para só assim lançar seu primeiro álbum propriamente dito.
          Conheci o Pantera através do álbum Vulgar Display of Power e sua linda capa, pelo menos é o que eu achava na época. Na verdade é a imagem de um punho cerrado atingindo um rosto. Na contracapa havia uma foto bizarra dos integrantes da banda com um visual mais rapper do que o costumeiramente utilizado pelas bandas da década de 1980, claro, já estávamos em 1993, eu acho. Nesse meio tempo o Pantera já havia lançado o álbum Cowboys From Hell, mas que criou relevância após o lançamento de seu segundo disco. Ouvi anteriormente o Vulgar..., e como ainda estava começando a conhecer os estilos musicais, achei o conceito lindo. Nada se comparava ao groove da guitarra de Diamond Darrel (como era chamado na época). Faixas como Regular People (Conceit) e Hollow fizeram com que eu questionasse a qualidade de One e Sad But True do Metallica. Pantera era pesado e moderno. Os músicos agora vestiam bermudas, camisas de flanela, tênis All Star ou botinas. Mais parecia uma banda grunge, que era o estilo em ascensão da época, do que o visual tradicional do Metal. Acho que essas mudanças foram as mais importantes para a banda, sonoridade e visual. Agora havia uma banda de Metal alternativa, porém, tão agressiva quanto as de Thrash dos anos 80 e mais honesta que as do Death Metal, que também começava a criar mais corpo nessa época.
          A MTV foi fundamental para que o Pantera fosse conhecido no Brasil, o início das transmissões. O Sepultura também contribuiu para o sucesso e a aceitação da banda pelos brasileiros, já que eles não haviam tocado por terras tupiniquins e saíram em turnê com os brasileiros pelos Estados Unidos, o que repercutiu muito bem por aqui. Comprei os álbuns Cowboys From hell e Vulgar Display of Power no mesmo dia e achei o primeiro menos atraente, afinal, ainda tinham resquícios do Glam da década de 1990, porém a faixa titulo e Psycho Holiday eram geniais e Cemetary Gates era a musica mais perfeita que eu já ouvi. Decorei todas as letras e detalhes desses álbuns de tanto que ouvi. Foi uma febre que não só tomou conta de mim, como da maioria dos amantes de Rock e Metal da minha geração. O Pantera passou a ser capa de revistas, aparecer em documentários e tocar com diversos gigantes do Metal. Suas participações em festivais clássicos deram a banda uma afirmação no cenário musical e possibilitaram que eles escrevessem seu nome na história do estilo.
          Em 1994, o Pantera aparece com os vídeos de I'm Broken, 5 Minutes Alone e Planet Caravan para promover o álbum Far Beyond Driven. Na capa uma imagem mais agressiva que a do álbum anterior. Havia uma bunda sendo perfurada por uma broca. Essa capa foi censurada e os relançamentos continham uma caveira em azul. Musicalmente o Pantera estava mais agressivo e direto, porém parecia ser uma tentativa de reeditar o Vulgar... isso ficou nítido em musicas como 5 Minutes Alone que lembrava Walk e Strengh Beyond The Strengh que seguia a linha de Fucking Hostile. Embora esse detalhe possa ter sido positivo no sentido comercial, algo estava errado em termos sonoros a partir da quinta faixa. O Pantera se mostrou obscuro e monótono a partir de então, com raras exceções em alguns momentos, mas não teria nenhuma musica relevante pra citar. Claro que assim que adquiri meu exemplar e comecei a dissecar cada segundo das musicas, a empolgação era grande. Os clipes citados acima ajudavam a induzir os fãs, como eu, que a banda estava no auge, realmente estava, mas quando virava o disco de vinil para escutar o lado B, as coisas ficavam estranhas. Eu esperava que a banda, além de fazer alusões claras áquilo que fizeram e deu certo, voltasse a trazer coisas mais Heavy, o que se espera de uma banda inovadora, porém não aconteceu. Talvez isso tenha feito com que a banda se desgastasse e seus integrantes tenham se afastado, principalmente seu vocalista.    
          O álbum gerou excelentes criticas, porém a sua turnê de divulgação fez a banda entrar numa descendente devido ao abuso de drogas e exageros diversos. Phill Anselmo ficaria afastado definitivamente da banda desde então e gravaria os vocais em separado dos demais integrantes no álbum seguinte. Uma overdose teria prejudicado ainda mais o vocalista que já sofria com dores nas costas. Enquanto o Pantera lançava seu disco mais obscuro, o fraco The Great Southern Trendkill, conquistando mais fãs e popularidade, suas letras e sonoridade já mostravam ares de desgaste irreversível. O Pantera lançou Official Live 101 Proof que chegou a ser bem aceito pelos fãs e mais alguns vídeos como Vulgar Videos e 3 Watch It Go, mostrando as divertidas, mas abusivas turnês da banda e contendo seus vídeo clipes. Os álbuns independentes deram ao Pantera a maturidade musical e a possibilidade de testarem muitas coisas. Entretanto, quando a carreira realmente decolou a banda já estava no seu limite, isso fez com que a banda saísse do ápice e mergulhasse rapidamente em declínio.
          A banda entra em estágio de apreensão, pois seu vocalista lança álbuns com seus projetos paralelos e cai na estrada para divulga-los. A partir de 1998 o futuro da banda era incerto. Bandas como Slipknot, Coal Chamber, Mudvaine, Limp Biskit e Korn ganharam visibilidade e o Pantera parecia ter sido deixado de lado. Claro que essas bandas citadas não chegaram a rivalizar em termos de popularidade com eles, mas saturaram um cenário onde o Pantera já estava desgastado. Muitos viraram as costas para a banda que produzia polêmicas e boatos, mas sequer conseguia fazer uma turnê decente. Por outro lado, as bandas do chamado New Metal, inspirado por eles e Sepultura ganhavam corpo e estavam com todo gás. Se o Pantera padecia pela grande quantidade de bandas que surgiam e chamavam a atenção do moleques, o Sepultura também naufragara com a saída de Max Cavalera. Se o Pantera tivesse a longevidade das bandas clássicas poderia ter sobrevivido, pois já alcançara a notoriedade necessária para isso, mas não aconteceu.
          Em 2000 o Pantera lança Reinventing the Steel. Um álbum longe de ser um clássico, mas mais interessante que seu antecessor e mais equilibrado que o Far Beyond Driver. Sem forçar a barra para se manter no posto de banda fodona e sem a obscuridade causada por drogas e excessos, o quinto álbum da banda foi muito bem aceito por críticos e fãs, pois dava a entender que com alguns ajustes e acertos em pontos específicos o Pantera voltaria a retomar seu caminho. Entretanto o vocalista já não queria mais fazer parte daquilo e obrigou seus colegas a desistir de esperar por ele. Superjoint Ritual e Down principalmente mantiveram Phill Anselmo no mercado, enquanto os irmãos Abbot amargavam o ócio e Rex Brown não se posicionava, mesmo tendo participado de alguns registros com Anselmo. Aquele álbum foi o derradeiro da banda e jamais voltariam a gravar novamente. O Pantera despediu-se de forma polêmica e deixando os fãs confusos em relação ao futuro.
          Quando em 2003, Down em alta e os irmão Abbot acenando com um novo projeto, Damage Plan, parecia que todos estavam se encontrando, mesmo que não fosse juntos. Chegaram a chamar a atenção em festivais e causaram alguma expectativa. Em 2004 o Damage Plan lança seu álbum de estreia e sai em turnê, porém em dezembro daquele ano, no inicio de um show em  Columbus, Ohio, um fanático por Pantera chamado  Nathan Gale  abre fogo contra banda e mata Dimebag Darrel. Fim do Pantera para sempre, fim de Phill Anselmo e suas bravatas contra seus ex-companheiros. Lentamente o Down começou engrenar uma solidificação de carreira, mas logo foi se esfacelando e jamais alcançou o reconhecimento que o seu líder imaginava. Vinnie Paul permaneceu sendo baterista e é figura importantíssima para a banda Hellyeah. Entretanto, ambos vivem a sombra de sua ex-banda e da fama que o Pantera lhes proporcionou nos anos 1990.
          O Pantera durou 20 anos e lançou dois grandes álbuns na verdade. No geral, o mais notório foi a forma como sua música proporcionou ao seu guitarrista marcar seu nome eternamente na história da guitarra. Por mais que em muitos momentos o Pantera mostrasse alguns deslizes, o timbre incomum e o groove de Dimebag reformulou a forma de encarar o instrumento. Influente e polêmica, a banda foi um marco dos anos 90 e a resposta do Heavy Metal ao som de Seattle. Era de visual hibrido, típico da época, mas de uma musicalidade orgânica e inovadora. Talvez o grupo tenha se desestabilizado e não conseguisse voltar a se equilibrar porque seus membros eram pessoas tão extremas quanto sua música. Volto a mencionar que a banda, ao meu ver, deveria ter lançado um álbum de covers registrando suas influências e talvez aliviando um pouco a tenção do ambiente. Com isso a banda poderia dar uma revisitada em seus antigos álbuns independentes e tirar de lá alguns temas para dar uma revigorada no estilo. Muitas bandas fazem isso quando as coisas estão degringolando. Lamento que a banda tenha tido esse fim tão sem graça e até trágico, com a morte de sua grande referência musical. Por sorte a banda deixou uma quantidade de material razoável para a posteridade, e como a maioria das bandas que estouraram nos anos 90, teve vida curta e um sucesso rápido seguido de um declínio quase que imediato. Mas fica a menção honrosa para essa banda que mudou os rumos do Heavy Metal a duas décadas atrás.