sábado, 28 de maio de 2016

Kiko Loureiro no Megadeth

         
           Nunca fui muito fã do Kiko Loureiro, mesmo gostando de alguns trabalhos dele com o Angra como o Rebirth, sempre tive minhas restrições, preconceito na verdade. No início dos anos 1990 para a maioria de nós, o Brasil se resumia a Sepultura e Ratos de Porão. Entretanto, é impossível afirmar que ele não seja um excelente guitarrista, a não ser que você não entenda nada de música, ou tenha em mente que só quem faz a música que você gosta saiba tocar. Um cara que toca guitarra initerruptamente desde o final da década de 80 e que já gravou com grandes produtores e músicos, estudou com professores do calibre de Mozart Mello, fez gravações e turnês pelo mundo todo, não só com o Angra, mas com vários nomes diferentes e de qualidade, tem seu valor como artista e profissional da música. Quando se ouve as interpretações de Kiko para obras de outros estilos fora do Heavy Metal como Bossa Nova, Choro, Jazz e Clássicos, se percebe o quão versátil e brasileiro é o seu estilo. Já assisti vídeos com interpretações dele que extrapolam a linguagem habitual do instrumento. Interessante mencionar que Kiko Loureiro tocou no Dominó, uma boy band de sucesso no Brasil nos anos 1980, e desde lá é guitarrista profissional. Mesmo tendo iniciado um curso superior, ele abandonou a faculdade para se dedicar a guitarra integralmente.

          O Angra começou suas atividades no início dos anos 90 fazendo um Metal Melódico cheio de partes sinfônicas, vocais extremamente forçados e toques de Pop misturados as guitarras de Metal. No álbum Angels Cry, podemos perceber alguns momentos de brilhantismo, mas no geral o disco soa exagerado, tanto em performances instrumentais e vocais como em misturas de estilos. Ficou muito forte a intenção de botar pra fora todas as influências quanto as habilidades musicais de cada integrante. Segundo o próprio Kiko, este álbum foi muito difícil de gravar, pois o produtor exigiu bastante da banda em termos técnicos. Já no segundo álbum, Holy Land, o foco estava em contar a história do Brasil em um álbum conceitual recheado de ritmos brasileiros, porém o resultado foi apenas mediano devido as performances exageradas, mais uma vez. Chegaram a gravar o álbum chamado Fireworks ainda com a mesma formação, tirando poucos momentos interessantes, o álbum também não convenceu. Embora os álbuns não agradassem tanto ao público do Heavy Metal brasileiro como fez o Sepultura, o Angra teve boa aceitação na Europa e principalmente no Japão lançando alguns EPs como Freedom Call e Holy Live. Porém, no final dos anos 90 a banda se dividiu com a saída do baterista Ricardi Confessori, do baixista Luis Mariutti e do vocalista André Matos que formariam o Shaman em seguida. Nessa fase ficaram apenas os dois guitarristas e o empresário.
          No início da década de 2000, o Angra recrutou o vocalista Edu Falaschi, o baixista Felipe Andreoli e o baterista Aquiles Priester para retomar as atividades da banda. Com essa formação gravaram o álbum Rebirth e um duplo ao vivo que também saiu em DVD gravado em São Paulo. Para mim, esse é o melhor trabalho da banda. Embora os novos integrantes tendo a necessidade de mostrar que estavam a altura dos que saíram, o álbum não soa exagerado, muito pelo contrário, eles acertaram a mão na proposta artística e nas composições. Há ótimas composições ali e ele é interpretado e gravado de forma mais natural que os anteriores, ao menos é o que me pareceu. Na sequência gravaram Temple of Shadows, que pra muitos é a obra prima da banda por ser mais um trabalho conceitual, só que agora abordando As Cruzadas como tema central e não o Brasil como fizeram em Holy Land. Achei este álbum interessante, mas a produção pareceu soar exagerada novamente, contudo percebe-se a consolidação da formação da banda. Esta é uma característica da banda que me incomoda um pouco, eles saem do bom momento para o caos em pouco tempo. É uma opinião particular, não exatamente algo definitivo. Os vocais do André Matos estragaram muitas composições da banda nos primeiros álbuns e a necessidade de todos os integrantes aparecerem com seu virtuosismo em todas as faixas era o que dava o tom exagerado. Aurora Consurgens e Aqua são álbuns fracos e nada mais representam do que uma caricatura da banda. O Angra conseguiu se repetir nos erros da década de 90 e passou por uma fase bem complicada em termos artísticos. Embora a inconstância criativa e as mudanças, tanto na formação como no direcionamento musical, o desempenho de Kiko Loureiro no Angra sempre foi de alto nível e isso o colocou no topo da lista de melhores guitarristas brasileiros e um dos mais reconhecidos mundialmente.

          Tendo casado com uma instrumentista finlandesa e ficando sempre no eixo Brasil-Finlândia por três anos, Kiko Loureiro resolveu se mudar definitivamente para os Estados Unidos. Mesmo com toda a tranquilidade e o reconhecimento que tinha no Brasil, resolveu arriscar uma mudança radical em sua vida particular, que poderia dar melhores frutos na sua carreira internacional. Assinou com a Ibanez como endoorsement, tendo seu nome junto ao de Stevie Vai e Joe Satriani na linha de frente da marca. O resultado desse esforço foi um convite para um teste no Megadeth de Dave Mustaine, para substituir o guitarrista Chris Broderick. Para muitos foi uma surpresa, um guitarrista brasileiro tocando em uma banda tão representativa do Heavy Metal, principalmente levando em consideração que os fãs do Angra e do Megadeth não são exatamente os mesmos. Entretanto, Dave Mustaine sempre optou por guitarristas mais versáteis ao seu lado. Tirando Kerry King, lá no início do Megadeth, Chris Poland e Jeff Young eram músicos de Jazz, segundo o próprio Mustaine, muito melhores guitarristas do que ele. Marty Friedman, que gravou os álbuns mais famosos da banda como Rust in Peace e Countdown to Extinction, era um guitarrista que havia feito parte do Cacophony ao lado de Jason Becker, mas mesmo assim era bem versátil e tinha influências bem diferentes do Heavy Metal. Analisando esse histórico, Kiko Loureiro era o guitarrista perfeito para o atual momento da banda e possivelmente a melhor escolha.
          O Angra lançou o álbum Secret Garden em 2015 com o vocalista Fabio Lione e Bruno Valverde na bateria, Kiko começou a gravar Dystopia com o Megadeth no mesmo ano. A presença de Kiko Loureiro como guitarrista do grupo não mudou drasticamente a sonoridade da banda e isso era evidente. Uma banda como o Megadeth só muda alguma coisa quando seu líder quer e ele parece feliz com os últimos trabalhos. A contribuição de Kiko é óbvia e acho até que supera as expectativas em seus solos, pois sua técnica é limpa mesmo nas partes mais complexas e seu timbre beira a perfeição sonora para o estilo. Ao vivo a banda ainda não demonstrou grande entrosamento, mesmo com a grande qualidade dos integrantes, ao menos é o que pude constatar nos primeiros vídeos que assisti e pelos depoimentos do próprio Kiko. Acredito que com o tempo e a manutenção dessas peças durante a turnê do Dystopia, o desempenho melhore como banda e o Megadeth possa entregar aos fãs toda a qualidade que eles esperam da banda ao vivo. O álbum em si é bom. Não chega a ser um clássico definitivo, mas tem 3 ou 4 faixas que podem figurar muito bem nos futuros set lists da banda ao vivo. O resultado final ficou bem parecido com o The System Has Failed, álbum muito interessante e importante na retomada de carreira da banda, achei que ficou a frente de Super Collider, TH1RT3EN e Endgame. Uma banda com 15 álbuns de estúdio e uma carreira conturbada devido á brigas, excessos de bebida e sérios problemas com drogas, contando com constantes mudanças de formação e problemas de saúde de seu líder poder continuar em turnês e gravando álbuns relevantes é uma grande vitória por si só.

          Falei bastante do Angra, falei do Megadeth e o título sugeria o foco na entrada do Kiko Loureiro no Megadeth. Se fosse há 20 anos atrás essa notícia cairia como uma bomba, assim como a folclórica história do convite feito a Pepeu Gomes para integrar a mesma banda na década de 80, que foi tratada como deboche pela maioria das pessoas. Hoje as coisas mudaram bastante. Não somos mais reféns de revistas picaretas traduzindo matérias gringas ou reportagens esporádicas da MTV para termos informações sobre as bandas. Isso vale para todas as outras coisas também. O Angra tem um vocalista italiano, o Sepultura tem um americano, o próprio Andreas Kisser já fez parte do Anthrax e o Max Cavalera tem músicos em suas bandas que não são brasileiros. Muitos podem alegar que os brasileiros só estão tendo espaço porque o momento musical está uma porcaria e eles estão piorando ainda mais a situação. Essa é uma tese bem popular, mas não deixa de ser idiota. Há muitos músicos excelentes no Brasil, e se nós mesmos levássemos essa qualidade mais a sério, ainda haveriam muitos mais. O triste é saber que a maioria tem que convencer que são bons na Europa, Estados Unidos e Japão para depois serem reconhecidos por aqui. Kiko Loureiro merece o local onde está, pois trabalhou muito para isso, independente se a maioria dos Headbangers brasileiros não gostem dele.
          O álbum Dystopia tem recebido ótimas críticas e os videoclipes das músicas mostram um Megadeth ainda mais agressivo e uma perspectiva caótica de futuro em suas letras, o título do disco fala por si. Isso é muito comum de Dave Mustaine. Não importa se ele tenha se convertido ao cristianismo a alguns anos, sua agressividade continua a mesma. Não sei se é possível essa formação atual gravar quatro ou cinco álbuns de estúdio, mas também não duvido que aconteça e certamente eles terão um nível relativamente alto em qualidade, pois diferente do Metallica, o Megadeth não é visto com desconfiança pelos fãs mais ortodoxos, talvez só tenha causado desconforto na fase do Risk, mas isso já faz quase 20 anos. Megadeth é uma banda que jamais deixou de lançar álbuns e por isso tenha alcançado uma importância equivalente a Judas Priest e Black Sabbath pela quantidade de material disponível aos seus fãs. Enquanto algumas bandas antigas se despedaçam para lançar um novo trabalho, as coisas para o Megadeth parecem mais naturais. Não digo que Dave Mustaine não tenha as mesmas dificuldades, pois o baixista e amigo de longa data Dave Ellefson o processou em quase uma centena de milhões de dólares, mas parece que tudo foi resolvido e ele voltou pra banda a um bom tempo e o trabalho continua, não importando exatamente quem está na banda.

          Um dos segredos para a qualidade do Megadeth e para o seu sucesso foi contado por Kiko Loureiro em um de seus espaços na internet, onde ele fala que a equipe que acompanha o grupo é muito competente e a maioria das pessoas trabalha nela a bastante tempo. Segundo o guitarrista, a equipe chega ao local do show 10 horas antes da hora marcada para a banda subir ao palco. A banda em si chega cinco horas antes para acompanhar como tudo está correndo. Esse ritual acontece da mesma forma independentemente do tamanho ou o local do show. Se Mustaine teve seus vários problemas com drogas e de comportamento, jamais permitiu que seus músicos prejudicassem a banda por conta disso. Ao longo dos anos Dave assumiu totalmente o controle do que acontece no Megadeth e isso faz com que a banda permaneça ativa e com sua reputação intacta. A escolha por Kiko Loureiro só poderia ser estranha para nós brasileiros que temos a síndrome do vira-latas, pois para mídia internacional isso não foi nada estranho, para muitos até bem natural. Tenho uma inveja branca para com essa situação, pois ser guitarrista do Megadeth é algo que realmente eu gostaria de fazer como músico. Mas parabenizo o Kiko por isso, pois eu nunca tocaria guitarra tão bem quanto ele, mesmo vivendo um milhão de anos e estudando 24 horas todos os dias. Ninguém merece mais este reconhecimento e talvez poucas pessoas sejam tão capacitadas quanto ele para essa tarefa.

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