domingo, 12 de junho de 2016

Música "In The Box"

         
          Mais uma tarde fria nesse outono de 2016. Paro para escrever a respeito de algo bem em voga hoje em dia. Claro que me dirijo ao pessoal, que como eu, tem um gosto especial por produção musical. Para quem gosta do assunto áudio esse tópico pode ser bem interessante. Desde de que os computadores foram inseridos nos estúdios na segunda metade dos anos de 1990, muito tem se debatido a respeito dos rumos que a produção musical tomaria a partir de então. A internet ajudou a dar voz a milhões de pessoas com suas opiniões mais diversificadas. Pra quem trabalha com música a muito tempo foi apenas mais um elemento a se lidar no contexto dos estúdios, porém, como as produções caseiras foram facilitadas por essa nova forma de se fazer música, o que tem encabeçado os fóruns dedicados ao assunto são os prós e contras de plugins, interfaces, DAWs, simuladores, equipamentos vintage e todo esse papo técnico. As ferramentas passaram a ser o tema central e a qualidade dos profissionais e dos músicos ficaram em segundo plano. Isso claramente tem influenciado na maneira de como o mercado musical tem sido abastecido. O que se houve são musicas rasas e clichês do tipo colocados lado a lado e até superando em popularidade os artistas genuínos e de qualidade. Mas se temos tanta informação e constantes debates, por que isso ocorre? Nos parágrafos a seguir vou tentar trazer á luz um assunto que está no centro desse cenário contraditório e polêmico. Vou trazer relatos de profissionais experientes e consagrados, assim como emitir a minha própria opinião a respeito.

          Andrew Scheps, que trabalhou no último album do Black Sabbath, 13, e é vencedor de Grammys e um profissional altamente qualificado en consagrado fez a seguinte declaração recentemente: _A partir do momento que o audio passa pelo conversor AD/DA ele deve permacer lá para ser trabalhado. Isso se deve a deterioração do áudio ao ser convertido e reconvertido. _Portanto, ele desaconselha utilizar periféricos analógicos durante uma mixagem dentro de uma DAW. Isso gerou diversos debates e ainda não se tem uma informação conclusiva a respeito. Muitos podem entender que o barbudo engenheiro está dizendo que o certo é usar seu computador, uma interface e sua a DAW e tudo dará certo. Fora de contexto pode até ser interpretado dessa forma, mas na verdade ele estava falando apenas da parte da mixagem e o uso de elementos híbridos nessa tarefa. Se observarmos como Andrew Scheps trabalha e outros profissionais, veremos que eles tem acesso a um grande arcenau de periféricos caros e famosos em seus estúdios. Engana-se quem acaha que Chris Lord-Auge, Tony Maserati, entre outros, por fazerem propaganda da Waves e trabalharem com Pro Tools, eles utilizam apenas isso nas suas produções. É óbvio que não. Essas empresas que trabalham com simuladores de equipamentos não estão competindo com essas ferramentas e sim criando alternativas mais em conta para esse crescente mercado de home estúdios. Assim como os amplificadores, as guitarras, as mesas analógicas, os grandes músicos, e tudo o mais, cada um tem sua importancia, sua voz, seu timbre e sua utilidade. O mundo mudou, é verdade, mas ainda é a criatividdade e o talento que fazem a diferença, ferramentas nada mais são do que ferramentas.
          O outro lado desse assunto veio de um vídeo do produtor Lisciel Franco, onde ele fala a respeito do processamento ser feito na hora da gravação e não na hora da mixagem. O vídeo em questão pode ser conferido aqui. Achei estranho até ver o Lisciel falando a respeito, pois essa era a forma tradicional de se trabalhar. Se ajustava tudo durante a gravação como parametros de compressão, equalização, efeitos e tudo o mais e depois apenas se registrava na fita. Em outra oportunidade fui aconselhado por um produtor que faz trilhas pra filmes e trabalha em estúdios como engenheiro de áudio, a gravar com o mínimo de processamento para que possa trabalhar de forma mais livre na mixagem. Warren Huart, que trabalhou com Ace Frehley, Alice in Chains, entre outros, já acredita que o som deve estar pronto desde o ínicio, que um take perfeito é o ingrediente fundamental para um bom trabalho. Fiz uma entrevista com o Lisciel e com o Warren Huart para esse blog, confiram aqui e aqui. Para trazer para nosso país, o produtor Paulo Anhaia, em um de seus vídeos do Youtube, fala que o interessante é conseguir um bom pré, um bom microfone e bons cabos para que o som chegue a DAW o mais pronto possível. Eu particularmente, com algumas gravações no currículo e estudando bastante, acho que o melhor é exatamente isso: gravar a melhor performance com todo o som já processado, deixando o mínimo de trabalho para a DAW. Acho que é isso que Andrew Scheps queria dizer com sua afirmação inicial. Vou entrevistá-lo nos próximos dias e questionarei a respeito e pedirei uma explicação detalhada sobre o assunto.
          Para encerrar esse texto, digo que tudo não passa de uma bobagem. É interessante para quem gosta do assunto, mas não vai melhorar ou piorar as produções de cada um. Ferramentas são apenas ferramentas. Independentemente da forma que se trabalha, o importante é a qualidade final de tudo isso. Se queremos a sonoridade clássica, faremos as coisas da maneira clássica. Se queremos compor, gravar, mixar e masterizar um álbum inteiro utilizando as ferramentas dentro do computador, tudo bem, é uma forma de se trabalhar. O que não dá pra fazer é perder tempo comj discussões iguais a essa, ou que perguntam qual DAW é melhor? A música é muito maior do que isso. Estamos falando de 1% do processo. Ainda, a qualidade está na mão do músico que interpreta a canção escrita com amor e critérios. Que usa um instrumento que funcione de forma decente ao propósito, que se tire o melhor das ferramentas disponiveis, sejam elas quais forem. O fator humano é preponderante, o resto é conversa pra boi dormir. Se pode ferrar uma boa compósição com um trabalho mediocre? Claro. Mas nem toda tecnologia disponível ou as ferramentas perfeitas podem salvar uma composição ruim ou uma interpretação medíocre. daí o cara chega e diz assim: _Tô cagando pra isso. Enfio MP3 no meu celular e escuto no ônibus indo pro trabalho. Sim, é a verdade para a maioria das pessoas e temos que conviver com isso.