terça-feira, 30 de agosto de 2016

O político

          
          Aproveitando o momento político e as eleições que se aproximam, todas as propagandas políticas e as caras de safados estampadas em "santinhos" pelas ruas. Acho que é propício falar um pouco mais do que eu penso sobre os políticos que governam nosso país. Acredito que não adiantara nada escrever aqui, pois a maioria das pessoas fica tomada pelo espírito de mudança em períodos eleitorais. Todos uniformizados, com discursos afiados, teorias salvadoras e inovadoras. Uma legião de empolgados eleitores ansiosos por exercerem a cidadania. Loucos para legitimar a mesma roubalheira e palhaçada de sempre. Já escrevi sobre politica aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. São no mínimo estes seis textos. Eles basicamente falam da mesma coisa e com o mesmo ponto de vista, se interessar basta clicar nos "aquis". Não almejo cargo politico algum, mas pago meus impostos e não estou satisfeito com os serviços que estão me apresentando. Então aproveito o momento e dou minha explicação pobre sobre política e minha opinião sobre essa classe que "nos serve".
          No Brasil o politico é uma pessoa que ocupa ou almeja um cargo público. Temos os vereadores, vice-prefeitos e prefeitos dentro do município. Esses são assessorados pelos secretários e diferentes pastas. Estes também têm seus assessores. A nível estadual temos os deputados estaduais, o vice-governador e o governador. Para assessorá-los também temos os diferentes secretários e suas respectivas pastas. A esfera federal constitui-se de deputados federais representando os estados, senadores, também representando seus respectivos estados, o vice-presidente e o presidente da república. Este último assessorado pelos ministros e demais assessores. Para completar o cenário temos os três poderes, tanto em âmbito municipal, estadual como no âmbito federal, são eles o Legislativo composto por vereadores, deputados e senadores, respeitando as devidas hierarquias. Temos o Executivo, prefeitos e vices, governadores e vices, presidentes e vices, mais seus ministros e secretários. Por fim, temos o Judiciário, poder independente que julga o cumprimento e a legalidade das leis. Analisando a grosso modo, é basicamente isso que temos no ambiente politico principal. Claro que temos diversos outros tipos de personagens e ambientes políticos, mas me ative ao poder público de forma bem simplificada.
          Sai de cena o politico formal e seu ambiente teórico e entra a pessoa. Você tem duas opções básicas para entrar para a politica, se oferecer para se filiar a um partido ou ser procurado por um partido. Os partidos são compostos por diversos personagens formais como o presidente, tesoureiro, assessores em geral, e os informais que abrangem todo o resto. Os partidos políticos seguem uma ideologia de acordo com a vontade de seus fundadores, teoricamente. Conceitos de esquerda, direita, centro, conservador, progressista, comunista, trabalhista, democrático, liberal e assim por diante, adjetivos que costumam integrar as siglas dos partidos. O ambiente competitivo já inicia dentro dos partidos e os nomes começam a ganhar ou perder visibilidade dentro das próprias rotinas internas das siglas as quais são afiliados. Digamos que os partidos políticos são os times que os postulantes a cargos públicos precisam ser filiados ou representar para concorrerem em uma eleição. Conforme a popularidade dos partidos, aumentada ou não pela nominata que os representa, eles garantem espaços diferentes no legislativo, pois no executivo somente um partido pode estar representado na figura de um único nome.
          Todo esse contexto ilustrado acima existe para que haja um governo que represente a população geral de um município, estado ou da federação, arrecade recursos para sua subsistência e para a manutenção dos itens sociais básicos característicos como saúde, educação, habitação, economia, transporte, segurança e produção, para citar os mais importantes. Para isso ele propõe, discute e aprova leis que formam o macro regimento e os micro regimentos. Ele também é responsável pela implantação e fiscalização das práticas resultantes de suas leis e projetos. O financiamento disso tudo vem dos impostos cobrados percentualmente de cada movimentação econômica, seja na forma de comércio de bens ou de serviços. Toda atividade econômica gera impostos para o governo. Para que essa cobrança de impostos seja feita e o montante seja redistribuído para diversos fins, existem organizações governamentais, mistas ou privadas responsáveis por cada tipo de atividade.
          O sistema politico resultante desse fluxo de atividades e organizações é parte muito importante de toda a estrutura social de uma nação. Essa é formada pela população e suas características culturais, comerciais, intelectuais, biológicas e de toda adequação necessária ao ambiente para que possibilitem uma existência dentro de certos padrões previamente definidos. Entre os não políticos efetivamente estão os militantes e simpatizantes de determinados partidos, ideias ou movimentos, assim como existem os sindicatos e outras entidades representativas de algum nicho profissional ou social. Quando chegamos a essa parte da estrutura politica, onde a composição é feita pelas classes mais baixas, é onde temos maior quantidade de indivíduos e menor renda per capta. Essa é a base da pirâmide.
          Então a pirâmide social é composta por uma base de classe baixa e de característica rural e/ou proletária. Trabalhadores humildes que pagam os impostos ou não, mas que dependem muito da estrutura controlada pelo governo como obras sociais, sistemas de saúde e ensino públicos, atividade rural ou operária. Também se incluem os miseráveis e os incapacitados. De uma forma ou de outra também pagam impostos já que tudo que compramos é tributado em algum momento ou vários momentos. Essa base ampla e mal estruturada financeiramente sustenta a grande maioria de todo o complexo sistema financeiro. Acima dessa base temos alguns empresários de menor porte que conseguem oscilar de estágios. Podem tanto cair para a base como podem subir para o próximo nível. Esses caracterizam-se por explorar mão de obra barata e se servem da informalidade, muitas vezes. Porém, existem os profissionais autônomos e os microempresários sérios e cumpridores de seus deveres. Esses geram empregos e possuem condições melhores de vida, mas também são os mais propensos a descer pra base do que subir de nível.
           A pirâmide segue com um nível mais elitizado, mas com variações de perfis. Aqui estão aqueles propensos a descer de nível, mas que vez por outra podem ascender devido as suas oportunidades. Aqui estão as estatais de médio porte, as empreiteiras, os políticos em geral e alguns comunicadores e meios de comunicação. Os empresários bem sucedidos podem passar por períodos nessa posição em algum momento. Aqui é onde o capital flui em maior abundância em contratos com governos e multinacionais. Esse estágio garante luxo e riqueza para quem consegue atingi-lo e para se manter nele é necessário grande montante de dinheiro e influência no mercado. E a classe mais alta no país é aquela em que estão os mega empresários das telecomunicações, os políticos corruptos mais bem sucedidos, os grandes empresários das áreas agrícolas e da industria. Esses são os donos da mídia, dos políticos menores, das regras de mercado e das decisões econômicas. É para eles que todos os demais trabalham.
          Esse cenário completo é que espera um politico. Portanto, por mais que no inicio um individuo possa acreditar em algum ideal, ele não vai conseguir defendê-lo ou por em prática suas ideias. Como vimos no inicio, há um filtro que antecede cada etapa, portanto, quem entra na politica com boas intenções desiste delas em pouco tempo. Quem tem o desprendimento para fazer acordos e receber favores terá sempre vantagem. Por mais baixo que seja um cargo politico, o salário é maior do que o da maioria dos trabalhadores comuns. Não é necessário um investimento em uma graduação ou preparação acadêmica ou técnica, basta fazer o jogo de forma precisa e ter alguns pré-requisitos. Como bônus há o poder de se envolver em tramoias e desviar dinheiro de algum projeto, superfaturar notas de serviços, fraudar benefícios, cobrar propina, essas coisas. Por mais que não se possa provar a totalidade da corrupção na politica que envolve grandes empresários e empresas, o que atrai alguém para uma carreira politica é o poder e o dinheiro.
          Então o sujeito expõe sua família, seu nome, sua imagem perante toda a sociedade, mas garante muito dinheiro e uma vida de luxo para seus filhos e netos, quando muito é preso quando já está velho e recebe penas brandas e tem toda uma máquina politica por trás para aliviar seu sofrimento. Isso é tudo feito de forma escancarada e mesmo assim muita gente veste a camisa de partidos políticos, adotam ideias como se fossem suas e tem a esperança que as coisas mudem. A história mostra que o poder é quem escolhe seus representantes. A ideia já está fixa e definida na cabeça de todos. Há uma herança maldita perpetuada por porcos que se reciclam de tempos e tempos, se mantem no poder e desfrutando de todos os benefícios que ele disponibiliza. A cada eleição, cada vez que conseguem dividir a população, uns a favor de A outros a favor de B, eles tem garantido o direito de roubar o máximo que puder e com o aval da população. 
          Aqueles que acreditam que um governo vai investir em educação, por exemplo, não só estão enganados como fazem papel de idiotas. O formato do jogo politico só se garante porque há uma população ignorante em sua maioria. Escolas, cursos técnicos e faculdades, atualmente só servem para direcionar verbas a serem desviadas, dar o mínimo de instrução para que se tenha mão de obra útil e consumidores sedentos, se multiplicar a alienação cultural, social e politica que é pregada nas escolas e universidades. Não há um planejamento para o desenvolvimento de profissionais capazes de atender a necessidade brasileira. O que há é a formação de profissionais medíocres para abastecer a necessidade das multinacionais, que são quem realmente detêm a patente, o controle e o know how sobre a produção dos bens de consumo. Não há uma industria de tecnologia 100% brasileira que possa atender as demandas de televisões, computadores, Smartfones, carros, motos, sistemas de segurança, softwares, equipamentos hospitalares, máquinas industriais, e todo o resto. Tudo vem de fora porque não temos profissionais capazes de atender a demanda por uma empresa brasileira. As escolas particulares são melhores, mas também cobram muito caro e muitas vezes não contam com profissionais preparados para a função.
          Isso também pode ser notado na saúde. Temos médicos ricos que encabeçam diversas operações fraudulentas, mesmo que eles já sejam muito bem remunerados. Eles usam as estruturas construídas com dinheiro público para enriquecer ainda mais e fazer suas tramoias enquanto a população morre nos corredores dos hospitais por falta de atendimento. Temos as máfias dos planos de saúde, onde muitas vezes nenhum hospital ou exame está acessível para quem precisa. Na maioria dos casos paga-se muito caro para ser atendido em um guichê diferente no mesmo hospital e pelos mesmos médicos do sistema único de saúde. Ou seja, paga-se dobrado para se ter um pouco mais de conforto para marcar uma consulta. Isso é um fato que afetaria também os mais ricos, pois os mesmos podem precisar dessa estrutura em uma emergência. A realidade mostra que futuro nos aguarda. Não são apenas os pobres que sofrem com a violência diária e os problemas estruturais, todo o contexto padece com a situação que deixamos se criar. Agora pode ser tarde para que haja uma saída possível, portanto olhe bem nos olhos dos políticos que vão até você para pedir seu voto. É o mesmo discurso de sempre do mesmo tipo de pessoa querendo fazer o mesmo tipo de coisa.

sábado, 27 de agosto de 2016

Ensinamentos de Steve Vai


Uma coisa que a internet propiciou de forma abundante foi a quantidade de informações sobre praticamente todos os assuntos. Muitas dessas informações equivocadas ou mesmo mentirosas, vindas de fontes obscuras ou até desonestas. Se você quer fofocas e boatos sobre morte de famosos e traições, há uma enxurrada desses assuntos nas páginas principais de grandes portais como Yahoo, MSN, UOL, e assim por diante. Mesmo aqueles veículos de informação mais tradicionais, que migraram para a internet, cultivam essa prática de expor certas “curiosidades” sobre as celebridades. O nível de acessos e visualizações de páginas que exploram esses tópicos é imensa, o que demonstra o grande interesse da população em geral nesse tipo de informação. Outro fenômeno muito peculiar é a grande quantidade de youtubers. Muitas vezes são jovens que não possuem nenhuma habilidade relevante, que por conta de um movimento adolescente ou qualquer outra babaquice, acabam por viralizar na rede. É comum vermos jovens que sequer se formaram no ensino médio, usarem roupas extravagantes e penteados exóticos falando de politica, educação, ou simplesmente falando asneiras sobre sua rotina diária. Essas pessoas arrastam milhares de reféns de smartfones pelos shoppings e praças visualizando e compartilhando seus vídeos. O resultado disso tudo é muito claro, jovens facilmente manipulados, que são 99% aparência e 1% de inteligência usada para manusear seus celulares.
Entretanto, há muita coisa interessante a ser explorada para quem busca determinado tipo de assunto de forma séria. Para mim, um vídeo em especial foi de grande valia. É um vídeo para guitarristas, mas que serviria para qualquer pessoa que deseja fazer algo que gosta profissionalmente. Sou guitarrista por paixão e talvez teimosia. Lá por 1999 eu adquiri o álbum Eclipse do guitarrista sueco Yngwie Malmsteen. O cd não é muito interessante, porém a faixa título é uma canção fantástica para quem gosta de música instrumental. Nela o músico desfila toda sua velocidade com uma pegada de Metal Neoclássico característica do gigante sueco. Lembro que comprei uma cópia da tablatura da música que era parte do book do álbum. Frustrei-me com a quantidade de notas e a velocidade dos trechos mais interessantes que a faixa apresentava. Mesmo tendo um domínio razoável da técnica de sweep, certos trechos não soavam com uma naturalidade minimamente aceitável. Lembro-me de ter assistido uma entrevista de um profissional de alguma área, que não me recordo qual exatamente, dando dicas sobre como realizar as atividades mais complexas. Ele falava em visualizar a tarefa e tentar antecipar todas as possibilidades mentalmente, imaginando cada passo e tentando se familiarizar com todo o processo. Citou o desenvolvimento da concentração antes mesmo de se iniciar a atividade. Mencionou esportistas e cirurgiões para ilustrar sua teoria.
Achei aquela forma bem interessante de se preparar para fazer algo. Como ainda era jovem, não tinha a paciência necessária para me dedicar com afinco as atividades mais complexas. Passei então a imaginar cada nota da música que queria tocar. Como palhetaria as cordas, como posicionaria a mão em cada movimento, como abafaria as cordas que eu não estava tocando e assim por diante. Quando me sentei com o instrumento para tentar tocar mais uma vez a música, de cara notei que a digitação que constava na tablatura dificultava a fluência na execução das notas. Reescrevi as partes de guitarra, foi mais fácil ter a resposta adequada para a execução de determinados trechos. Consegui em duas horas, tocar aquilo que não conseguira em três meses.
Depois de muitos anos, nas vésperas de abrir um show para o Krisiun em Charqueadas, a banda dos meus amigos da Xaparraw ficou sem baixista e eu me ofereci pra suprir a ausência dos graves, para que a banda pudesse tocar no evento. Foi difícil tirar as músicas para o show em tão pouco tempo, já que teria poucas horas diárias para isso. Conseguia toca-las tecnicamente, mas me confundia bastante nos ensaios, pois não tinha decorado todos os trechos das músicas. Durante o show, consegui tocar as músicas quase sem erros, mas em muitas partes toquei atrás da guitarra por ainda não ter a confiança necessária. Isso foi apenas nessa apresentação específica, mas me deixou muito desconfortável. Poderia dar muitas desculpas e alegar que o resultado não foi tão ruim assim. Porém, sabia que poderia ter feito muito melhor, mesmo não sabendo exatamente como.
Então assisti vídeo do Stevie Vai que mencionara no início. É um workshop onde ele dá dicas de como alcançar o sucesso tocando guitarra. O vídeo pode ser assistido aqui. Ele se apega única e exclusivamente ao ato de dedicar-se ao instrumento. Ele sugere que, se é há a certeza de que é tocar guitarra o desejo da pessoa, ela deve reservar um tempo todos os dias para se dedicar aquilo. Simplesmente reservar um horário para apenas tocar guitarra. Esquecer celular, internet, ou outra distração qualquer e concentrar-se no instrumento. Começa-se por escolher uma música que se deseja tocar. Algo dentro da capacidade técnica do individuo. Então, se imagina tocando a musica perfeitamente, nota por nota, visualizando cada detalhe da execução. Há um processo de meditação direcionado a assimilar cada nuance da canção. Quando a musica estiver bem decorada e guardada intimamente com seus mínimos detalhes, ai então se pega o instrumento e se toca aquilo que foi imaginado. Nesse momento a música já está fixada do seu intimo, pois já foi mentalizada e faz parte de você. Mesmo se houverem trechos mais complexos, estes devem ser treinados e repetidos até se alcançar a perfeição, mas nunca pode se tornar uma tortura interpretar a peça. Tocar guitarra deve ser uma diversão, um momento prazeroso. Havendo maiores dificuldades, se deve voltar e iniciar o processo todo novamente.
Achei muito interessante essa dica do Stevie Vai e vai de encontro ao que aquele profissional lá do inicio do texto sugeria. Muitas vezes temos que parar para analisar, sentir, refletir e se imaginar fazendo algo perfeitamente antes de realmente tentar fazer. Sempre fui adepto da anotação e da prática repetitiva para alcançar meus resultados e talvez tivesse que ter tido mais paciência e tranquilidade para exercer minhas atividades. Principalmente quando se trata de música, não é a mesma coisa que decorar um texto, é preciso sentir a vibração de cada nota. Parece bobagem, daquelas que saem da boca de palestrantes motivacionais, mas tem muita lógica e resultado prático. Usam-se as notas do instrumento para se representar sentimentos que aquela canção busca passar. É muito difícil fazer isso quando tais sentimentos não estão lá. Mesmo não gostando muito da música que o Steve Vai toca, tem que se admitir que ele é um guitarrista magnífico. Ele fala também em se concentrar nas virtudes, na força e não nos defeitos ou fraquezas. Isso eu fiz muito, me concentrava naquilo que eu não conseguia fazer e esquecia-me de aprimorar o que eu já dominava. Talvez por isso muitos iguais a mim estejam se dedicando a uma atividade paralela a música ao invés de estar vivendo dela. Pode ser este um dos fatores que separa uns músicos dos outros.
Claro que caras como Steve Vai, Yngwie Malmsteen, entre tantos outros, são pessoas que dedicaram as suas vidas ao instrumento e chegaram a níveis extremos no que se dedicaram a fazer. Não adianta querer tocar parecido com eles com apenas algumas horas de dedicação à guitarra por semana. Mas, assim como existem eles, existem pessoas como Johnny Ramone que fez tanto sucesso quanto eles ou até mais, tocando sua guitarra de forma simples e genuína. Não faria sentido o Stevie Vai tocar nos Ramones e nem o Johnny Ramone no Dream Theater, pois cada um tem o seu lugar reservado de acordo com sua capacidade e dedicação. Não adianta focar em tirar o lugar de alguém ou superar outra pessoa que está em evidência, esse tipo de motivação é vazia e só desvaloriza quem a possui. É comum vermos muitos músicos cheios de patrocínios de marcas famosas e visualizações nos seus canais do Youtube e páginas da internet manterem uma carreira exclusivamente baseada nisso. Porém, notamos que muitos deles são meros imitadores ou até mesmo malabaristas musicais, pois ao analisarmos suas carreiras, não vemos um trabalho sequer realmente interessante artisticamente. Voltando ao exemplo do Stevie Vai, eu adoro o que ele fez no Alcatrazz e no Whitesnake, mesmo não achando sua carreira solo tão interessante, ao coloca-lo em bandas que outros grandes guitarristas já passaram, nota-se como ele é realmente bom. Ele também deixou sua marca em guitarras e amplificadores, projetando e desenvolvendo aquilo que ele acha ser interessante para sua musica em se tratando de instrumentos e acessórios. Basta uma observação rápida nas guitarras Ibanez e nos amplificadores Legacy. Isso beneficiou muitos músicos do mundo todo e continua a beneficiar. Seus projetos musicais ficam cada vez mais grandiosos e sua personalidade mais simpática e simples.
Para aqueles que acham que se deve monetizar tudo, que o foco é o dinheiro e não a qualidade artística, eu pergunto: _Stevie Vai é pobre? As pessoas tem usado a necessidade de ganhar dinheiro como desculpa para não almejarem uma realização artística maior. É nesses casos que entram os músicos de finais de semana, classificação que sempre me definiu bem. Nunca me empenhei em ser um musico profissional e tocar musicas que eu não gosto para sobreviver. Nada contra quem faz isso e faz muito bem, mas isso nunca me seduziu. Embarcar em projetos mais alternativos com amigos sempre trouxe mais satisfação. Novamente fazendo menção a Steve Vai, a musica muitas vezes deve ser uma celebração com os amigos, o que era o meu caso, fazer musica com os amigos. Fazer música por si só já é prazeroso, quando podemos compartilhar desse prazer com quem está a nossa volta, se torna ainda melhor. #stevevai #heavinna #heavymetal #ibanez #pauloramos

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Metallica - Hardwired

          
          Ontem, 18 de agosto de 2016, saiu no site oficial do Metallica o novo clipe da que também pode ser visto no canal oficial da banda no Youtube. Assim como o clipe, também foi divulgado no site a data do lançamento do álbum, 18 de novembro. Ali aparecem as opções de pré-venda em diversos formatos. O álbum será duplo com uma versão especial em formato triplo, versão de luxo. Já escrevi sobre o inicio da carreira do Metallica aqui, baseado em todas as matérias que li, documentários que assisti, a biografia da banda, e tudo o mais. É muito bom saber que a banda que mudou minha vida está pra lançar um álbum de inéditas. Ouvi a música citada acima e ela me pareceu bastante crua, sem muitos detalhes, como se fosse ainda alguma sobra do Death Magnetic, mas sem toda a saturação sonora. Inclusive o riff principal da música remete bastante ao trabalho anterior, assim como o timbre vocal de James Hetfield e a temática da letra. No aspecto de timbres e de mixagem não me surpreendeu muito a sonoridade. O vídeo talvez seja o mais simples já produzido pela banda, mas isso não quer dizer nada, pois o Metallica sempre teve na sua imagem tocando, uma das suas maiores virtudes.
          Na postagem anterior falei do Dystopia e do atual momento do Megadeth, aí fico imaginando se mais uma vez o Metallica superará a banda de Mustaine como fizera com desde o início. Claro que isso é bobagem, mas é dessas bobagens que vive o cenário lúdico do Heavy Metal e o torna apaixonante para os fãs. Acho pouco provável que Hardwired...To Self-destruct seja tão bom quanto Dystopia, mesmo assim estou curioso. Conheci o Metallica na fase ...And Justice for All, em seguida veio o álbum preto com o nome da banda e aquela foi a imagem mais marcante da banda para mim. Aos poucos fui me familiarizando com Kill' Em All, Ride The Lightning e Master of Puppets. Até então a banda era intocável, ao lado de Iron Maiden. 
          Alguns anos se passaram e eu acompanhei o lançamento de Load. Ao escutar o álbum notei que estava diferente em vários aspectos, mas estava muito ligado ao que acontecia na época com o surgimento do Grunge e tal. Porém, foi tão comentado como sendo um lixo que era difícil olhar para o disco e pensar só na música. Os cabelos mudaram, os solos mudaram, a temática mudou, os caras de preto e com cabelos compridos deram lugar a quatro pessoas diferentes, deslocadas um do contexto do outro. O semem com sangue na capa do cd também não caiu no agrado do fãs de Metal. A banda estava irreconhecível e sua música foi ignorada, embora nunca se tenha visto tanto o Metallica na televisão como nessa fase. Um ano depois, mais um tiro no pé, agora musicalmente Reload era muito fraco. O Metallica estava muito distante de seus fãs e o mundo do Metal que eles ajudaram a construir fechou as portas para sua música.
          Com trabalhos como S&M, Garage Inc. no mercado e seus shows sempre lotados, com altíssima qualidade, a banda arrecadava mais e mais fãs para sua música. Mesmo com os headbangers virando as costas, brigas com a Napster, parecia que a banda estaria acabando, mas lá estavam eles incendiando os palcos e levando o público ao delírio. Assim o Metallica virou o século, cheio de incertezas e desconfianças. Nessa época só não estive mais distante da banda porque eles tocaram pela primeira vez em Porto Alegre/RS, como cresci numa época em que grandes shows eram raros, não podia perder aquilo, mas confesso que a empolgação não existia. Só caiu a ficha quando já estava no hipódromo, local do show, e começou a tocar a introdução. Daquele momento em diante eu vivia o melhor momento da minha vida até então, estava ouvindo Sad But True, Enter Sandman, Battery, Master of Puppets, Fight Fire With Fire, One e muitas outras em alto e bom som. Aquilo foi o suficiente para que eu continuasse a guardar com carinho a banda na minha lembrança ao invés de deixá-la no ostracismo. Acho que esse foi o grande trunfo do Metallica, cativar seus fãs no olho por olho nos seus shows.
          Um tipo de monstro, isso se tornou a banda com a saída de Jason e a tentativa de se situar entre bandas como Slipknot, Korn, Deftones, entre outras do New Metal do início dos anos 2000. St Anger é lançado junto com o documentário Some Kind of Monster. O álbum é ruim e a estética não agradou a maioria das pessoas. Acho que a recepção foi pior até que Load e Reload. Mas o documentário muito bem construído e formatado fez com que os fãs pudessem ver o lado humano e patético do grupo. O filme deixa um clima de esperança com relação ao futuro da banda. Dali em diante o Metallica correu o mundo em turnê participando de diversos festivais como headlinners. Mesmo com todas as feridas e decepções, o Metallica nunca deixou de ser grande.
          Death Magnetic é lançado e com certeza seria alvo de criticas negativas. É o primeiro trabalho com Robert Trujillo no baixo e sem Bob Rock na produção. Rick Rubin foi escalado para produzir mais um álbum de estúdio do Metallica, isso atrasou a produção em mais de um ano, pois o mesmo estava envolvido em cd do Red Hot Chilli Peppers na época. As expectativas foram as mesmas quando saiu o clipe de The Day That Never Comes e a banda executando Cyanide ao vivo antes do lançamento. Pois oito anos depois não considero Death Magnetic pior do que Reload ou St Anger e tenho certeza que este Hardwired também, não será. 
          Agora é esperar. Com certeza quem não gosta da banda vai falar mal. Os antigos fãs vão ouvir várias vezes, talvez comprar e falar mal da produção, da capa, do som da guitarra, da batera do Lars, dos solos do Kirk, e todas aqueles mimimis que já são de praxe. Eu vou comprar o álbum, ouvi-lo bastante, espero que a turnê venha para o Brasil e eu certamente irei ver o show se rolar em Porto Alegre. É isso aí, a banda ta viva e lançando mais um álbum de inéditas após oito anos. Quando sair oficialmente e eu poder escutá-lo com atenção e conhecer todos os detalhes postarei minha opinião aqui. Só resta esperar. #metallica #hardwiered #heavymetal #18denovembro2016 #singlemetallica

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Megadeth - Dystopia em Porto Alegre

         
          Esse é o segundo show do Megadeth que eu prestigio. O primeiro havia sido em 2010 na turnê comemorativa dos 20 anos do álbum Rust in Peace. A impressão que tive ao ver o Megadeth naquela oportunidade é que a banda já estava em uma curva descendente. Havia ido ao mesmo Pepsi On Stage, local do show, para assistir Helloween e Gamma Ray dois anos antes e vi duas bandas ultrapassadas e com muito pouco mais a oferecer ao público do que versões menos empolgantes de velhos clássicos e músicas novas descartáveis. Embora o Megadeth seja uma banda que casa mais com meu gosto particular do que as outras duas citadas, estava pessimista quanto ao show da banda em 2010. Na verdade o show não foi ruim. Embora Chris Broderick e Shawn Drover fossem bons músicos e estivessem entrosados, a banda parecia ter perdido um pouco do poder de fogo. No palco se via uma banda certinha, mas sem muita coisa a mais a se dizer. O som estava mais ou menos, as músicas são excelentes, mas faltava algo. Longe de ser decepcionante, porém, empolgante também não foi. Quem viu a banda em 2013 abrindo para o Black Sabbath também teve essa impressão, ao menos foi o que me relataram. A banda parecia soterrada pelos longos anos de excessos de seu líder que tentava se manter vivo com dignidade em meio a uma existência claudicante. Muitos podem até discordar radicalmente dessa opinião, porém também adoro a banda e essa foi a minha impressão em in loco. 
          Algumas coisas aconteceram nos seis anos de intervalo entre os dois shows. O Megadeth lançou mais dois álbuns de estúdio com a mesma formação de Endgame, TH1RT3EN de 2011 e Super Collider de 2013. Nesse meio tempo a banda fez uma turnê de 20 anos do álbum Countdown to Extinction. Será que o Megadeth estaria ainda mais desgastado em 2016? Duas coisas tem que ser levadas em conta nessa projeção. A banda grava mais um álbum, Dystopia, e muda a formação, Kiko Loureiro assume as guitarras (já falei disso aqui) e o baterista do Lamb of God, Chris Adler, grava a bateria. Muito se especulou sobre como seria um músico brasileiro tocando no Megadeth, desde a bizarra história de Pepeu Gomes nos anos 80. Seria a pá de cau na carreira do Megadeth? Até que ponto Dystopia seria influenciado pelo brasileiro? Essas questões com certeza geraram diversos comentários. No que o Megadeth teria se tornado agora? Dave Mustaine com aparência cansada e um pouco resignado tecia elogios aos novos parceiros, principalmente ao brasileiro, mas o que se via nas redes sociais e canais oficiais da banda era um Mustaine tirando forças não sei de onde para gravar o disco.
          Algumas certezas podia se ter. Mustaine com certeza é responsável por mais de 90% de tudo que o Megadeth faz, portanto, a mudança de formação pouco influenciaria na sonoridade do novo trabalho. Outro ponto a ser considerado é que Chris Adler é um baterista experiente, moderno e qualificado para o posto, não estaria ai o furo da banda. Segundo consta, as músicas já estavam praticamente prontas quando Kiko entrou na banda, então, pouca diferença poderia fazer. O que levaria Dystopia a ser diferente dos álbuns anteriores? Poderia se esperar mais um trabalho como os três anteriores ou um pouco melhor como The System Has failed ou United Abominations? Essa era a medida do trabalho de Mustaine desde o inicio dos anos 2000. Mas o Megadeth chega ao 15° trabalho de estúdio e seu líder continua furioso, mesmo tendo envelhecido e se convertido uma religião. Então Dystopia teria alguma coisa a contribuir para a carreira do Megadeth?
          Singles são lançados e o álbum vai para as lojas. Os clipes de The Treat is Real e da faixa titulo são violentos e caóticos como as próprias letras das músicas sugerem (eles podem ser conferidos aqui e aqui. Não ouvi tantas vezes o cd como ouvi outros, mas já adianto que me empolga mais que Endgame, TH1RT3EN e Super Collider. Também achei que em United Abominations e The System Has Failed não tem uma música como Dystopia. Acho melhor que Risk, que pra mim é o pior álbum da banda, igual ou até superior ao Cryptic Writings ou até mesmo Youthanasia, que na época de seu lançamento pouco empolgou, mesmo tendo A Tout Le Monde, Train of Consequences e Reckoning Day como músicas ótimas, assim como o anterior que abria com Trust e tinha She-Wolf, tocadas pela banda ao vivo até hoje. É bem difícil posicionar um novo álbum dentro de uma discografia tão volumosa e digna como a do Megadeth, pois o que pode parecer interessante no contexto de hoje pode soar deslocado amanhã e vice e versa. Contudo tirar uma hora pra ouvir esse novo trabalho tem suas recompensas. Não vou perder meu tempo analisando faixa por faixa de Dystopia, pois isso por si só já tiraria um pouco do charme do trabalho.
          Então vamos ao show do Megadeth de 16 de agosto de 2016 em Porto Alegre. Particularmente eu achei ótimo. O som estava com a potência que um Thrash Metal dos anos 1980 deve ter pra soar bem. Dave Mustaine passou mais a imagem dos anos 90 do que a que estava costumado a mostrar ultimamente. O baterista que substituiu Chris Adler, Dirk Verbeuren ex-Soilwork, é preciso e tem uma pegada muito firme e constante. Junto com David Ellefson formam um cozinha pesada e confiável. Kiko Loureiro sempre foi um guitarrista esforçado e dedicado, essas virtudes fizeram dele um músico preciso, virtuoso e com uma identidade que agregou muito ao Megadeth. Fora sua contribuição musical, sua energia no palco contagiou os outros dois Daves que constantemente se deparavam com o guitarrista correndo pelo palco, trocando de posição enquanto reproduzia os solos de Chris Poland e Marty Friedman com uma fidelidade que nem os próprios músicos que gravaram-nos conseguiriam ao vivo hoje em dia.
          Dave Mustaine não é uma pessoa muito comunicativa quando está no palco, se apega a gestos e poucas palavras. Porém a platéia reconhece sua importância para o Thrash Metal e para a vida de cada um que estava presente ali porque admira a banda e saudava sempre que era propicio com gritos de "Mustaine, Mustaine" ou o tradicional "Ole, ole, ole, ole, Mustaine, Mustaine". Com um setlist interessante, mesmo dando espaço para as músicas novas e deixando algumas mais interessantes de fora. É estranho como o Megadeth não consegue encaixar faixas de seus seis álbuns mais recentes nos seus shows. Claro que o público quer ouvir o material dos anos 1980 e 90 e a banda está divulgando um novo trabalho e precisa apresentá-lo, mas será que o próprio Mustaine não acha que haja canções a altura da banda nesse últimos trabalhos? É uma bela pergunta.
          Em termos visuais o Megadeth nunca teve tão efetivo, pois todo o palco está montado para que telões despejem imagens condizentes com o que está acontecendo musicalmente. As músicas The Treat is Real e Dystopia tiveram seus clipes exibidos com a banda tocando em cima das imagens, isso deu o clima ideal para que o trabalho fosse apresentado. A iluminação está bem presente e dentro do contexto. A banda conseguiu tirar um bom resultado dos recursos que o Pepsi On Stage disponibiliza. Todo o evento ocorreu sem atrasos ou problemas significativos. O que deve se destacar é o custo alto de bebidas e comida no local, mas isso já é uma constante. Quem comparece a um evento desses já deve estar preparado para enfrentar esse tipo de coisa, infelizmente. Eu ainda gosto de ir ao Pepsi On Stage, pois dificilmente se espera muito para entrar após a abertura da casa e o espaço é mais interessante. Depois de anos frequentando o Bar Opinião, começa-se a valorizar certas coisas.
Quando se assiste uma banda de renome como o Megadeth em turnê de um bom álbum, uma ideia vem a cabeça. Por quê muitas bandas não lançam álbuns de inéditas com mais frequência e fazem turnês para divulga-los? Acho que os motivos são muitos, mas quando se propõem a fazer isso, as coisas ficam bem interessantes. Uma ideia bacana seria vender o ingresso com o cd de brinde, afinal, cobra-se tão caro por ingressos que levar o álbum da banda de lambuja seria bem mais atraente. Por hora é isso. O fato de escrever bastante sobre o Megadeth comprova que a banda está bem presente na minha vida atualmente de forma positiva e isso é muito bom.
          Encerrando este texto, quero mencionar que Kiko Loureiro está mostrando que é um guitarrista tão bom ou até melhor que os outros que passaram pelo Megadeth. Dave Mustaine é um ícone e faz justiça a toda admiração que seus fãs tem por ele. Pode-se dizer que ele desapontou alguns ao se converter ao cristianismo e ter certas atitudes, mas a essência do Megadeth está revigorada e musicalmente a banda recuperou todo espaço que havia perdido a alguns anos atrás. Mais do Megadeth pode ser conferido aqui. Fotos de site Van do Halen.
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sábado, 13 de agosto de 2016

Armadilhas do consumismo

         
          Algumas pessoas não admitem, mas são facilmente corrompidas por dinheiro. Não é uma crítica acusatória, mas uma constatação verídica. E essa constatação se faz necessária na hora de fazer uma reflexão sobre nossos valores. É claro que o dinheiro é fundamental para a manutenção de coisas básicas como alimentação, energia elétrica, água, vestuário e moradia. Nós escolhemos esse estilo de vida como padrão quando consolidamos as regras que regem o mundo moderno. Em algum momento todos concordaram que serviços, mercadorias e riquezas teriam seu valor dimensionado pelo dinheiro. Então, para que uma pessoa pudesse ter acesso as coisas, precisaria ter ao menos o valor em dinheiro e encontrar alguém que a vendesse. Isso é o comércio. Tudo passou a ter um valor medido por dinheiro, inclusive as pessoas. Aos poucos todos foram deixando de lado as coisas específicas que desejavam e passaram a focar só no acumulo de dinheiro. A partir daí, tudo passou a ser justificado por ele. Mortes, traições, prostituição, brigas, corrupção e a lista segue. Onde houver uma forma de ganhar dinheiro, certamente haverá alguém ávido por esgotar a fonte. É assim em todos os lugares do mundo. A grande sede do ser humano é por dinheiro. Nada motiva, seduz e excita mais uma pessoa do que dinheiro. A fácil associação do dinheiro com a garantia de sustentar uma família pode cegar até o mais humilde e honesto dos homens no momento oportuno. Imagine uma pessoa humilde poder garantir de uma unica vez a sobrevivência dos filhos. Esse desejo de acumular dinheiro começa a se confundir com a necessidade de subsistência, tornando-se um vício quase que definitivo.
          Percebendo a necessidade das pessoas em acumular dinheiro, alguns indivíduos tiveram a excelente ideia de adicionar a essa mistura uma nova substância, o consumismo. Somou-se a necessidade de se acumular dinheiro com a necessidade de se manter atualizado. Espertamente os fabricantes de bens de consumo pararam de investir em durabilidade para apostar em frequentes modernizações. Isso pode ser percebido facilmente, basta ver a frequência com que as pessoas trocam de telefones celulares, carros e outros bens de consumo. Aliada a uma grande estratégia de marketing, essas empresas forçam seus consumidores a gastarem com as novidades do mercado, ignorando os produtos que eles já possuem e lhes são úteis por modelos mais modernos e com algumas frescuras a mais. Essa tendência tomou conta de quase todos os fabricantes de bens de consumo mais comuns. Há até um investimento alto em modelos de segunda e terceira linha para que todas as classes sociais possam fazer parte desse movimento consumista. As características mais notórias são o alto investimento em propaganda e a descartabilidade dos produtos. Cuidadosamente os fabricantes já projetam um item programando qual será a necessidade que será suprida pelo próximo modelo. Chega ser patética toda essa corrida desesperada por tentar nos vender cada vez mais coisas que já temos.
          A internet foi o fator mais decisivo para a aceleração desse processo. Antes os computadores pessoais eram o alvo mais óbvio. Se criavam modelos e mais modelos que representavam um aumento de processamento, versatilidade, depois portabilidade e valor de mercado. Em determinada curva a Apple e a Microsoft se perderam e passaram a focar nos Smartfones e computadores mais versáteis. Com isso os valores foram subindo, criou-se uma quantidade imensa de aplicativos, houve a necessidade de se investir mais em tecnologia e integração. Hoje um smartfone tem a capacidade de processamento e armazenagem de informações tão grandes quanto um computador top de linha a dois ou três anos atrás. Quando a poucos anos a meta era ter um computador com internet em casa, hoje já se tem um smartfone com internet para se utilizar em qualquer lugar. Muitas pessoas tem dois ou três computadores, mais dois ou três smartfones em casa. Com isso caímos numa armadilha que nos suga grande parte do dinheiro e parece impossível escapar ileso desse ciclo. O mais triste é constatar que nem temos um ganho tão alto assim ao trocarmos nossos modelos mais antigos, não usamos metade dos recursos disponíveis e ainda nos viciamos em jogos e aplicativos.
          Além de convivermos com a ânsia de querer acumular dinheiro para gastar com coisas que pouco acrescentam a nossas vidas, todo esse movimento consumista desencadeou uma onda gigantesca  de roubos e mortes. O que mais se rouba hoje em dia são smartfones e carros, exatamente os itens que mais movimentam o consumismo. Normalmente estes roubos são seguidos de morte. Essa é a situação que estamos nos metendo. Enquanto estamos brincando com aplicativos, nos divertindo e nos expondo nas redes sociais, o terror e a criminalidade só aumentam a nossa volta. Não ficamos mais inteligentes e preparados porque temos toda informação da internet ao nosso alcance. Não ficamos mais alegres e atenciosos com nossos amigos porque estamos conectados o tempo todo, muito pelo contrário, normalmente direcionamos nossa atenção para quem nunca vimos e esquecemos de enxergar a pessoa que está do nosso lado. Se o objetivo de toda essa evolução tecnológica foi facilitar as coisas, só fez isso para os fabricantes de equipamentos e desenvolvedores de softwares.
          Resumindo toda essa ladainha, temos investido em atualizações de versões de smartfones, carros e outras coisas, temos um retorno muito abaixo do valor que investimos e ainda nos tornamos alvos fáceis da criminalidade. A pergunta que precisamos fazer é: "Estamos felizes com tudo isso?". Independentemente da resposta, continuaremos vivendo a mercê de toda essa tramoia criada por quem manipula as informações e o mercado atual. Somos massa de manobra que a cada dia se afunda mais na ignorância e na comodidade proporcionada pela modernidade oferecida por quem realmente investe pesado em tecnologia e propaganda para ganhar muito dinheiro. Independente do ciclo de consumo que você está inserido, pode ter certeza de que vai ser vitima de algum aproveitador que irá te empurrar a nova versão mais moderna e cara de algo que você já tem e que não precisa.   

sábado, 6 de agosto de 2016

Vaidade

Hoje vou falar de uma característica que, para muitos, é tida como defeito ou falta de humildade. Acho interessante pegar certos conceitos prontos e desmembrá-los para tentar acabar com certos tabus e ideias que as vezes herdamos de outras pessoas sem sequer pensar a respeito. São informações que recebemos na infância e devido a nossa ignorância típica da idade, não questionamos ou pensamos bem a respeito. Na verdade, agregamos esses pensamentos a nossas personalidades ou vamos contra eles por rebeldia em determinado momento, mas quando somos jovens não costumamos questionar. A vaidade é uma dessas características que muitas vezes é vista de forma equivocadamente prejudicial. Entretanto, sem ela o ser humano perde muito de sua magia e personalidade.
A vaidade é a característica mais notória dos seres humanos. Até os atos mais simples são motivados pela vaidade. A arte, muitas vezes, é uma grande demonstração de vaidade. Esta característica pode se confundir com a própria alma de um artista. Mas a mesma é criticada e até marginalizada por algumas pessoas. Contudo, sempre incompreendida por aqueles que a atacam. Todos direcionam o pensamento a uma vaidade física, às vezes até uma vaidade voltada para o consumismo e ao exibicionismo fútil e autoafirmativo. Entretanto, a vaidade é a razão de ser de um ser humano sadio intelectualmente. Quanto pode ser desinteressante uma pessoa sem vaidade, jogada ao acaso, sem nada a oferecer aos outros ou á si mesma? Quem não aprecia a vaidade não pode ostentar cultura, não pode compreender a arte e nem a ciência. Afinal, desde um cozinheiro que prepara deliciosos e elaborados pratos, passando por um musico que compõe suas melodias e as executa em seu instrumento e até as mãos hábeis de um grande cirurgião, tudo está sendo motivado pela vaidade, pelo prazer em ser bom e produzir algo grandioso. Seja ela intelectual, seja ela profissional e até física, a vaidade sempre moverá o ser humano para suas grandes conquistas e, principalmente, seus grandes fracassos. Pois como outras características dos seres humanos, a vaidade é algo perigoso se tratada de forma exagerada. Como todo o excesso é um pecado mortal para tudo na vida, o excesso de vaidade pode levar ao narcisismo, ou a coisas mais peçonhentas e nocivas ainda, a inveja é uma dessas coisas.
O que seria pior do que inveja motivada pela vaidade? Talvez nada.
A vaidade deve ser bem tratada, pois como motivadora de quase tudo, ela também se vizinha a autoestima. Mais do que isso, a vaidade alimenta a autoestima. Ambas estão interligadas e são manifestações do ego. O ego produz a vaidade para sobreviver e a autoestima é o sintoma de sua existência, sua manifestação mais fiel. Onde há inveja, não há autoestima, esta é a encruzilhada que o excesso de vaidade pode levar, o resultado prático de uma, destrói todas as possibilidades da outra produzir frutos.
Algumas religiões tentam fazer com que o ego seja totalmente reprimido. Consideram-no como uma erva daninha, e a mesma tem que ser arrancada e apartada para que o ser humano seja feliz. Como uma ideia pode ser tão equivocada e absurda, mesmo assim tida como dogma? O ego é a essência intangível do ser humano. Ele reúne todas as características natas do individuo, assim como suas aptidões, paixões e sentimentos. Para que o ser humano não seja considerado algo vazio como uma casa sem mobília, os religiosos tentam rebatizar o ego, chamam-no de alma, porém alma é algo mais profundo e particular. A grande falha da religião, e ao mesmo tempo sua principal razão de ser, é a mensagem da imortalidade da alma, algo criado por elas para substituir o ego, entretanto todo este conceito é paradoxalmente depressivo e melancólico. O cristianismo, socialmente difundido pelo mundo, parece ter o objetivo de diminuir o ser humano a um mero fantoche, onde viver é seguir uma cartilha de privações e submissão. Um cristão não pode querer se destacar dos demais. Um cristão não pode sentir prazer em coisas simples como o sexo ou até mesmo uma reunião entre amigos onde haja consumo de bebidas alcoólicas e prazeres gastronômicos. A religião tenta padronizar o ser humano sem respeitar suas características individuais. Tenta tirar dele suas ambições e seus prazeres em troca de servidão a um Deus criado pelo homem. A resposta para isto é simples e óbvia, quanto mais o individuo acredite necessitar de algo externo para se manter feliz, mais apático e sugestionável ele será, essa é a garantia da perpetuação da religião. Por mais absurdo que possa parecer, a maioria das pessoas prefere ser uma cobaia de laboratório, permitindo que tirem tudo que há dentro dela e a encham com idéias de redenção, culpa e insignificância, onde tudo de certo é motivado por Deus e tudo que está errado é culpa do Diabo.
O mundo sem a vaidade dos artistas não seria belo, sem a vaidade das mulheres também não. Uma pessoa sem vaidade não pode ser bela, culta ou fazer algo relevante. Uma pessoa sem vaidade não pode ser interessante. Não se pode viver apenas pela vaidade, mas também não se pode ser nada sem ela. Um ser humano vaidoso, equilibrado e proativo pode fazer grandes coisas. Quem abre mão de si mesmo pela ideia dos outros não produz quase nada e o pouco que constrói não lhe pertence e não lhe proporciona prazer algum.
Quanto mais verdade existir em um trabalho artístico, quanto mais vaidoso o artista for, mais seu trabalho terá condições de ser bem sucedido. Alimente sua arte para que ela possa colocar seu nome no hall dos imortais, suas teorias serem vistas como geniais, seus trabalhos tidos como caríssimas obras de arte e sua marca como garantia absoluta de qualidade e bom gosto. Coloque sua vaidade em tudo que faz e naturalmente terá grande cuidado em seus atos. O anonimato é uma ferramenta essencial dos sem caráter, dos corruptos. Todos aqueles que fazem seus trabalhos de acordo com sua vaidade e buscam reconhecimento, certamente colocarão sua alma nisso e o resultado pode ser brilhando, só ai seu ego será alimentado e ele se sentirá seguro para produzir mais. A vaidade não dá lugar a apatia, por isso os vaidosos não param muito, pois precisam alimentar seus egos e colocar a alma em um novo projeto assim que finalizam algo.