sábado, 27 de agosto de 2016

Ensinamentos de Steve Vai


Uma coisa que a internet propiciou de forma abundante foi a quantidade de informações sobre praticamente todos os assuntos. Muitas dessas informações equivocadas ou mesmo mentirosas, vindas de fontes obscuras ou até desonestas. Se você quer fofocas e boatos sobre morte de famosos e traições, há uma enxurrada desses assuntos nas páginas principais de grandes portais como Yahoo, MSN, UOL, e assim por diante. Mesmo aqueles veículos de informação mais tradicionais, que migraram para a internet, cultivam essa prática de expor certas “curiosidades” sobre as celebridades. O nível de acessos e visualizações de páginas que exploram esses tópicos é imensa, o que demonstra o grande interesse da população em geral nesse tipo de informação. Outro fenômeno muito peculiar é a grande quantidade de youtubers. Muitas vezes são jovens que não possuem nenhuma habilidade relevante, que por conta de um movimento adolescente ou qualquer outra babaquice, acabam por viralizar na rede. É comum vermos jovens que sequer se formaram no ensino médio, usarem roupas extravagantes e penteados exóticos falando de politica, educação, ou simplesmente falando asneiras sobre sua rotina diária. Essas pessoas arrastam milhares de reféns de smartfones pelos shoppings e praças visualizando e compartilhando seus vídeos. O resultado disso tudo é muito claro, jovens facilmente manipulados, que são 99% aparência e 1% de inteligência usada para manusear seus celulares.
Entretanto, há muita coisa interessante a ser explorada para quem busca determinado tipo de assunto de forma séria. Para mim, um vídeo em especial foi de grande valia. É um vídeo para guitarristas, mas que serviria para qualquer pessoa que deseja fazer algo que gosta profissionalmente. Sou guitarrista por paixão e talvez teimosia. Lá por 1999 eu adquiri o álbum Eclipse do guitarrista sueco Yngwie Malmsteen. O cd não é muito interessante, porém a faixa título é uma canção fantástica para quem gosta de música instrumental. Nela o músico desfila toda sua velocidade com uma pegada de Metal Neoclássico característica do gigante sueco. Lembro que comprei uma cópia da tablatura da música que era parte do book do álbum. Frustrei-me com a quantidade de notas e a velocidade dos trechos mais interessantes que a faixa apresentava. Mesmo tendo um domínio razoável da técnica de sweep, certos trechos não soavam com uma naturalidade minimamente aceitável. Lembro-me de ter assistido uma entrevista de um profissional de alguma área, que não me recordo qual exatamente, dando dicas sobre como realizar as atividades mais complexas. Ele falava em visualizar a tarefa e tentar antecipar todas as possibilidades mentalmente, imaginando cada passo e tentando se familiarizar com todo o processo. Citou o desenvolvimento da concentração antes mesmo de se iniciar a atividade. Mencionou esportistas e cirurgiões para ilustrar sua teoria.
Achei aquela forma bem interessante de se preparar para fazer algo. Como ainda era jovem, não tinha a paciência necessária para me dedicar com afinco as atividades mais complexas. Passei então a imaginar cada nota da música que queria tocar. Como palhetaria as cordas, como posicionaria a mão em cada movimento, como abafaria as cordas que eu não estava tocando e assim por diante. Quando me sentei com o instrumento para tentar tocar mais uma vez a música, de cara notei que a digitação que constava na tablatura dificultava a fluência na execução das notas. Reescrevi as partes de guitarra, foi mais fácil ter a resposta adequada para a execução de determinados trechos. Consegui em duas horas, tocar aquilo que não conseguira em três meses.
Depois de muitos anos, nas vésperas de abrir um show para o Krisiun em Charqueadas, a banda dos meus amigos da Xaparraw ficou sem baixista e eu me ofereci pra suprir a ausência dos graves, para que a banda pudesse tocar no evento. Foi difícil tirar as músicas para o show em tão pouco tempo, já que teria poucas horas diárias para isso. Conseguia toca-las tecnicamente, mas me confundia bastante nos ensaios, pois não tinha decorado todos os trechos das músicas. Durante o show, consegui tocar as músicas quase sem erros, mas em muitas partes toquei atrás da guitarra por ainda não ter a confiança necessária. Isso foi apenas nessa apresentação específica, mas me deixou muito desconfortável. Poderia dar muitas desculpas e alegar que o resultado não foi tão ruim assim. Porém, sabia que poderia ter feito muito melhor, mesmo não sabendo exatamente como.
Então assisti vídeo do Stevie Vai que mencionara no início. É um workshop onde ele dá dicas de como alcançar o sucesso tocando guitarra. O vídeo pode ser assistido aqui. Ele se apega única e exclusivamente ao ato de dedicar-se ao instrumento. Ele sugere que, se é há a certeza de que é tocar guitarra o desejo da pessoa, ela deve reservar um tempo todos os dias para se dedicar aquilo. Simplesmente reservar um horário para apenas tocar guitarra. Esquecer celular, internet, ou outra distração qualquer e concentrar-se no instrumento. Começa-se por escolher uma música que se deseja tocar. Algo dentro da capacidade técnica do individuo. Então, se imagina tocando a musica perfeitamente, nota por nota, visualizando cada detalhe da execução. Há um processo de meditação direcionado a assimilar cada nuance da canção. Quando a musica estiver bem decorada e guardada intimamente com seus mínimos detalhes, ai então se pega o instrumento e se toca aquilo que foi imaginado. Nesse momento a música já está fixada do seu intimo, pois já foi mentalizada e faz parte de você. Mesmo se houverem trechos mais complexos, estes devem ser treinados e repetidos até se alcançar a perfeição, mas nunca pode se tornar uma tortura interpretar a peça. Tocar guitarra deve ser uma diversão, um momento prazeroso. Havendo maiores dificuldades, se deve voltar e iniciar o processo todo novamente.
Achei muito interessante essa dica do Stevie Vai e vai de encontro ao que aquele profissional lá do inicio do texto sugeria. Muitas vezes temos que parar para analisar, sentir, refletir e se imaginar fazendo algo perfeitamente antes de realmente tentar fazer. Sempre fui adepto da anotação e da prática repetitiva para alcançar meus resultados e talvez tivesse que ter tido mais paciência e tranquilidade para exercer minhas atividades. Principalmente quando se trata de música, não é a mesma coisa que decorar um texto, é preciso sentir a vibração de cada nota. Parece bobagem, daquelas que saem da boca de palestrantes motivacionais, mas tem muita lógica e resultado prático. Usam-se as notas do instrumento para se representar sentimentos que aquela canção busca passar. É muito difícil fazer isso quando tais sentimentos não estão lá. Mesmo não gostando muito da música que o Steve Vai toca, tem que se admitir que ele é um guitarrista magnífico. Ele fala também em se concentrar nas virtudes, na força e não nos defeitos ou fraquezas. Isso eu fiz muito, me concentrava naquilo que eu não conseguia fazer e esquecia-me de aprimorar o que eu já dominava. Talvez por isso muitos iguais a mim estejam se dedicando a uma atividade paralela a música ao invés de estar vivendo dela. Pode ser este um dos fatores que separa uns músicos dos outros.
Claro que caras como Steve Vai, Yngwie Malmsteen, entre tantos outros, são pessoas que dedicaram as suas vidas ao instrumento e chegaram a níveis extremos no que se dedicaram a fazer. Não adianta querer tocar parecido com eles com apenas algumas horas de dedicação à guitarra por semana. Mas, assim como existem eles, existem pessoas como Johnny Ramone que fez tanto sucesso quanto eles ou até mais, tocando sua guitarra de forma simples e genuína. Não faria sentido o Stevie Vai tocar nos Ramones e nem o Johnny Ramone no Dream Theater, pois cada um tem o seu lugar reservado de acordo com sua capacidade e dedicação. Não adianta focar em tirar o lugar de alguém ou superar outra pessoa que está em evidência, esse tipo de motivação é vazia e só desvaloriza quem a possui. É comum vermos muitos músicos cheios de patrocínios de marcas famosas e visualizações nos seus canais do Youtube e páginas da internet manterem uma carreira exclusivamente baseada nisso. Porém, notamos que muitos deles são meros imitadores ou até mesmo malabaristas musicais, pois ao analisarmos suas carreiras, não vemos um trabalho sequer realmente interessante artisticamente. Voltando ao exemplo do Stevie Vai, eu adoro o que ele fez no Alcatrazz e no Whitesnake, mesmo não achando sua carreira solo tão interessante, ao coloca-lo em bandas que outros grandes guitarristas já passaram, nota-se como ele é realmente bom. Ele também deixou sua marca em guitarras e amplificadores, projetando e desenvolvendo aquilo que ele acha ser interessante para sua musica em se tratando de instrumentos e acessórios. Basta uma observação rápida nas guitarras Ibanez e nos amplificadores Legacy. Isso beneficiou muitos músicos do mundo todo e continua a beneficiar. Seus projetos musicais ficam cada vez mais grandiosos e sua personalidade mais simpática e simples.
Para aqueles que acham que se deve monetizar tudo, que o foco é o dinheiro e não a qualidade artística, eu pergunto: _Stevie Vai é pobre? As pessoas tem usado a necessidade de ganhar dinheiro como desculpa para não almejarem uma realização artística maior. É nesses casos que entram os músicos de finais de semana, classificação que sempre me definiu bem. Nunca me empenhei em ser um musico profissional e tocar musicas que eu não gosto para sobreviver. Nada contra quem faz isso e faz muito bem, mas isso nunca me seduziu. Embarcar em projetos mais alternativos com amigos sempre trouxe mais satisfação. Novamente fazendo menção a Steve Vai, a musica muitas vezes deve ser uma celebração com os amigos, o que era o meu caso, fazer musica com os amigos. Fazer música por si só já é prazeroso, quando podemos compartilhar desse prazer com quem está a nossa volta, se torna ainda melhor. #stevevai #heavinna #heavymetal #ibanez #pauloramos
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