sábado, 6 de agosto de 2016

Vaidade

Hoje vou falar de uma característica que, para muitos, é tida como defeito ou falta de humildade. Acho interessante pegar certos conceitos prontos e desmembrá-los para tentar acabar com certos tabus e ideias que as vezes herdamos de outras pessoas sem sequer pensar a respeito. São informações que recebemos na infância e devido a nossa ignorância típica da idade, não questionamos ou pensamos bem a respeito. Na verdade, agregamos esses pensamentos a nossas personalidades ou vamos contra eles por rebeldia em determinado momento, mas quando somos jovens não costumamos questionar. A vaidade é uma dessas características que muitas vezes é vista de forma equivocadamente prejudicial. Entretanto, sem ela o ser humano perde muito de sua magia e personalidade.
A vaidade é a característica mais notória dos seres humanos. Até os atos mais simples são motivados pela vaidade. A arte, muitas vezes, é uma grande demonstração de vaidade. Esta característica pode se confundir com a própria alma de um artista. Mas a mesma é criticada e até marginalizada por algumas pessoas. Contudo, sempre incompreendida por aqueles que a atacam. Todos direcionam o pensamento a uma vaidade física, às vezes até uma vaidade voltada para o consumismo e ao exibicionismo fútil e autoafirmativo. Entretanto, a vaidade é a razão de ser de um ser humano sadio intelectualmente. Quanto pode ser desinteressante uma pessoa sem vaidade, jogada ao acaso, sem nada a oferecer aos outros ou á si mesma? Quem não aprecia a vaidade não pode ostentar cultura, não pode compreender a arte e nem a ciência. Afinal, desde um cozinheiro que prepara deliciosos e elaborados pratos, passando por um musico que compõe suas melodias e as executa em seu instrumento e até as mãos hábeis de um grande cirurgião, tudo está sendo motivado pela vaidade, pelo prazer em ser bom e produzir algo grandioso. Seja ela intelectual, seja ela profissional e até física, a vaidade sempre moverá o ser humano para suas grandes conquistas e, principalmente, seus grandes fracassos. Pois como outras características dos seres humanos, a vaidade é algo perigoso se tratada de forma exagerada. Como todo o excesso é um pecado mortal para tudo na vida, o excesso de vaidade pode levar ao narcisismo, ou a coisas mais peçonhentas e nocivas ainda, a inveja é uma dessas coisas.
O que seria pior do que inveja motivada pela vaidade? Talvez nada.
A vaidade deve ser bem tratada, pois como motivadora de quase tudo, ela também se vizinha a autoestima. Mais do que isso, a vaidade alimenta a autoestima. Ambas estão interligadas e são manifestações do ego. O ego produz a vaidade para sobreviver e a autoestima é o sintoma de sua existência, sua manifestação mais fiel. Onde há inveja, não há autoestima, esta é a encruzilhada que o excesso de vaidade pode levar, o resultado prático de uma, destrói todas as possibilidades da outra produzir frutos.
Algumas religiões tentam fazer com que o ego seja totalmente reprimido. Consideram-no como uma erva daninha, e a mesma tem que ser arrancada e apartada para que o ser humano seja feliz. Como uma ideia pode ser tão equivocada e absurda, mesmo assim tida como dogma? O ego é a essência intangível do ser humano. Ele reúne todas as características natas do individuo, assim como suas aptidões, paixões e sentimentos. Para que o ser humano não seja considerado algo vazio como uma casa sem mobília, os religiosos tentam rebatizar o ego, chamam-no de alma, porém alma é algo mais profundo e particular. A grande falha da religião, e ao mesmo tempo sua principal razão de ser, é a mensagem da imortalidade da alma, algo criado por elas para substituir o ego, entretanto todo este conceito é paradoxalmente depressivo e melancólico. O cristianismo, socialmente difundido pelo mundo, parece ter o objetivo de diminuir o ser humano a um mero fantoche, onde viver é seguir uma cartilha de privações e submissão. Um cristão não pode querer se destacar dos demais. Um cristão não pode sentir prazer em coisas simples como o sexo ou até mesmo uma reunião entre amigos onde haja consumo de bebidas alcoólicas e prazeres gastronômicos. A religião tenta padronizar o ser humano sem respeitar suas características individuais. Tenta tirar dele suas ambições e seus prazeres em troca de servidão a um Deus criado pelo homem. A resposta para isto é simples e óbvia, quanto mais o individuo acredite necessitar de algo externo para se manter feliz, mais apático e sugestionável ele será, essa é a garantia da perpetuação da religião. Por mais absurdo que possa parecer, a maioria das pessoas prefere ser uma cobaia de laboratório, permitindo que tirem tudo que há dentro dela e a encham com idéias de redenção, culpa e insignificância, onde tudo de certo é motivado por Deus e tudo que está errado é culpa do Diabo.
O mundo sem a vaidade dos artistas não seria belo, sem a vaidade das mulheres também não. Uma pessoa sem vaidade não pode ser bela, culta ou fazer algo relevante. Uma pessoa sem vaidade não pode ser interessante. Não se pode viver apenas pela vaidade, mas também não se pode ser nada sem ela. Um ser humano vaidoso, equilibrado e proativo pode fazer grandes coisas. Quem abre mão de si mesmo pela ideia dos outros não produz quase nada e o pouco que constrói não lhe pertence e não lhe proporciona prazer algum.
Quanto mais verdade existir em um trabalho artístico, quanto mais vaidoso o artista for, mais seu trabalho terá condições de ser bem sucedido. Alimente sua arte para que ela possa colocar seu nome no hall dos imortais, suas teorias serem vistas como geniais, seus trabalhos tidos como caríssimas obras de arte e sua marca como garantia absoluta de qualidade e bom gosto. Coloque sua vaidade em tudo que faz e naturalmente terá grande cuidado em seus atos. O anonimato é uma ferramenta essencial dos sem caráter, dos corruptos. Todos aqueles que fazem seus trabalhos de acordo com sua vaidade e buscam reconhecimento, certamente colocarão sua alma nisso e o resultado pode ser brilhando, só ai seu ego será alimentado e ele se sentirá seguro para produzir mais. A vaidade não dá lugar a apatia, por isso os vaidosos não param muito, pois precisam alimentar seus egos e colocar a alma em um novo projeto assim que finalizam algo.   
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