sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Cinco álbuns alternativos do inicio dos anos 90

          Para esse final de semana resolvi falar dos álbuns de Rock/Metal alternativo que julgo serem muito importantes e foram lançados no inicio da década de 1990. Como ilustração dos discos que gosto tenho falado de apenas cinco títulos de cada vez, já fiz isso em postagens anteriores e tem algum tempo que não falo a respeito. Mas acho interessante falar sobre discos de diferentes estilos, pois gosto de uma gama bem diversificada de bandas, muitas delas fazem parte da minha memória afetiva ou foram trilha sonora de alguma época importante da minha vida. É inegável que os anos 90 foram polêmicos em termos sonoros e resultaram em muitas mudanças profundas, principalmente no cenário do Rock e Metal. Por exemplo, o Black Sabbath lançou discos obscuros e enfrentava, desde a década de 1980, mudanças de formação e diversos outros problemas que impossibilitavam a banda de lançar um álbum a altura da sua representatividade. O Judas Priest perdia Rob Halford para o cenário mais alternativo com sua saída para o projeto Fight. O Iron Maiden perdia seu vocalista da mesma forma e pelos mesmos motivos. Bandas de Death Metal começaram a tomar o lugar de bandas clássicas de Thrash Metal no lado mais agressivo do Metal. Carcass, Death, Morbid Angel, entre outras, apresentavam um trabalho mais polido que outras bandas do estilo, sem deixarem de ir além do Thrash praticado por Metallica, Exodus, Kreator e Megadeth em termos de velocidade e peso. Pantera surgia e o Sepultura se consolidava mundialmente para encabeçar o novo cenário metálico. Muitas bandas clássicas ficavam pelo caminho com trocas de integrantes e mudanças de estilo. Lembro de pessoas virando a cara para álbuns como Endorama do Kreator, Sound of White Noise do Anthrax e Risk do Megadeth.
          No meio dessas incertezas, surgiram bandas com propostas mais simples e conseguiram preencher de certa forma uma lacuna deixada dentro deste panorama musical apresentado no parágrafo acima. Muitas pessoas podem até discordar, mas quando se é jovem o ambiente influencia demais o gosto musical das pessoas. Isso ocorreu com a minha geração, onde a MTV acabou se tornando uma ferramenta que propiciava aos brasileiros conhecerem diversas bandas. Saímos de uma década onde se usava cinturões de balas, calças apertadas, jeans velhos e braceletes de prego para uma década onde bermudas, tênis All Star e camisas de flanela passaram a vestir os jovens rockeiros. Essas bandas que pareciam ser inofensivas levaram o Rock de volta as paradas de sucesso. Tínhamos o Guns n' Roses como sendo o último ícone do Hard Rock de arena boa parte do tempo no topo das paradas e o Metallica com um visual mais simples e uma música mais palatável em seu álbum preto. Na Noruega e alguns outros países europeus surgia o Black Metal de Burzum, Mayhem, Dark Throne e Emperor como potenciais expoentes de um estilo mais conservador de Metal, mas sendo mais extremo e cru que as bandas dos anos 1980. Também ganhava vida, ou ressurgia, o Metal Sinfônico e o Death Metal mais melódico. Em termos de Estados Unidos tínhamos algumas bandas de Metal se reciclando, porém, nada tão contundente quanto os autores do álbuns abaixo. O núcleo foi Seattle, mas não parou por ali. Jovens com problemas sociais e pessoais passaram a falar de seus medos e fraquezas em bandas de Rock visceral com influências de Melvis, principalmente. 
          Facelift do Alice in Chains. Lançado dia 21 de agosto de 1990 e puxado pelo clipe de Man in The Box, esse álbum de estréia dos caras fez com muitas coisas mudassem no cenário musical. Nascia ou se consolidava o estilo que enterraria de vez o Hard Rock farofa e faria bandas velozes e com músicas complexas soarem velhas. Entretanto, Alice in Chains era uma revisita aos primórdios do Black Sabbath, com temas obscuros e sonoridade crua. Entretanto, a banda de  Cantrell e Staley nascia para o mundo 20 anos depois e em outro continente. We Die Young, Sea of Sorrow, Love Hate Love e a já citada Man in the Box influenciariam bandas como Metallica em seus álbuns Load e Reload. Aquilo que apresentavam não era Metal, não era Hard Rock e muito menos Thrash Metal, era algo muito diferente. Embora fosse simples e direto, o som do Alice in Chains até hoje é rotulado como alternativo. Após serem vaiados num festival abrindo para gigantes do Thrash, eles conseguiram rapidamente alcançar o topo das paradas e superar essas mesmas bandas naquela época. A banda teve diversos problemas e algumas perdas irreparáveis, como a morte de seu vocalista Layne Staley e do baixista Mike Starr, mas Facelift foi uma grande influência para muitas bandas e referência de uma década que apresentava um grande leque de opções. Ele e mais Dirt de 1992 estão entre os álbuns que mais gosto de ouvir. A sonoridade das guitarras de Jerry Cantrell é muito marcante e as composições favorecem que o mesmo brilhe como compositor do grupo. Ouvir Alice in Chains nos anos 1990 era quase que natural, tanto pra quem gostava de bandas de Metal, como aqueles que estavam mais receptivos a sonoridades mais modernas e alternativas.
          Nevermind do Nirvana. Esse álbum virou tudo de pernas para o ar. Produzido pelo talentoso Butch Vig, simplesmente mudou a história do Rock dos anos 1990. Se Alice in Chains já fizera um estrago, imagine uma banda alternativa que no segundo álbum supera Michael Jackson nas paradas de sucesso. E esse trio liderado por Kurt Cobain fez isso. Chegou a ser insuportável conviver com Nirvana e Guns n´ Roses naquela época, tal a constante presença de ambas as bandas em revistas, emissoras de TV, rádios e camisetas nas ruas. Claro que engolir uma banda que pregava o desleixo musical e falava sobre as neuroses da vida adulta em meio a drogas e frustrações era muito difícil para quem amava o Heavy Metal dos anos 1980. Se o Alice in Chains teve certa receptividade deste público, o Nirvana agradou muito mais quem buscava o Rock Alternativo ou mesmo nem gostava muito bandas mais pesadas. Parecia coisa da moda escutar Nirvana, porém era inevitável conhecer suas músicas, pois estavam tocando em toda parte. Os moleques das gerações posteriores ajudaram a manchar a imagem da banda frente aos antigos amantes de Rock, mas isso é inevitável. Hoje, ao ouvir este álbum pode se perceber porque foi tão bem sucedido. Com uma produção impecável e hits como Smell Like Then Spirit, In Bloom, Cames As You Are e Lithium tocadas incessantemente nas rádios e sendo boas músicas, seguindo com o suicídio de Kurt no auge da popularidade da banda, fez com que o Nirvana ganhasse uma importância quase que sem precedentes. O trabalho seguinte não foi tão bem sucedido comercialmente e principalmente musicalmente, mas é compreensível que tenha sido assim, Nevermind é um daqueles trabalhos que são feitos de forma certa, no momento certo e que chega as pessoas certas. Demorei vinte anos para gostar do disco por diversos motivos, pois eu era um daqueles que não havia escolhido escutar a banda, fui obrigado pelos diversos motivos já mencionados, entretanto ouço com bastante entusiasmo nos dias de hoje.
          Faith No More e seu Angel Dust de 1992. Epic era uma música que misturava Metal moderno com Rap em uma década que iria ser muito esquisita. Pra mim The Real Thing, primeiro da banda com Mike Patton nos vocais é um clássico, mas Angel Dust é mais importante na minha opinião. Nesse álbum o vocalista começa a influenciar definitivamente na sonoridade do grupo, pois apenas tinha gravado os vocais e escrito as letras em composições quase prontas em The Real Things. Entretanto, confesso que não entendi muito bem o som da banda na época. Pra ser honesto, não gostava de Epic e fui gostar da banda mesmo quando gravaram o cover de Easy. Contudo, lembro deles tocando em Porto Alegre na década de 1990 e como a música Midlife Crisis era boa. Outra coisa que chamava a atenção era o cover para War Pigs do Black Sabbath. Com o turbilhão de bandas surgindo, foi difícil me dar conta de que a sonoridade de Algel Dust resumia tudo aquilo que estava sendo feito nos anos 1990. O baixo distorcido, a pegada de bateria de Mike Bordin e o timbre das guitarras de Jim Martin resumiam o que a sonoridade dos anos 90 tinha de melhor. Angel Dust soa coeso, moderno e controverso e fez com que o Faith No More se tornasse uma das bandas alternativas daquela época mais bacanas de se escutar hoje em dia.
          Lembro de ter ouvido Jesus Christ Pose e visto o clipe de Outshined na MTV e simplesmente ter certeza de que o Soundgarden era a banda mais legal que eu já tinha ouvido. Me apresentaram uma fita cassete que tinha o álbum Badmotorfinger de 1991 na Íntegra. Levei a fita para casa e ao colocar pra rodar, Rusty Cage me encheu de alegria. Adorei os vocais, as guitarras e as composições. Escutei tanto que sabia cada detalhe daquele disco. Claro que com 13 anos não conhecia tantas bandas assim, mas o Soundgarden soava perfeito. Comparava a banda com Metallica e achava mais interessante que o Iron Maiden e seu fraco No Prayer for The Dying. Hoje falar isso soa até loucura a certo ponto, mas estava conhecendo todas essas bandas ao mesmo tempo e não tinha acesso a tantas informações assim sobre elas. Hoje quando ouço esse disco ainda tenho a sensação de que o Soundgarden vai ser a maior banda do mundo, mesmo não gostando dos álbuns da década de 1980 e achando tudo que fizeram depois de Superunknown completamente dispensável. Entretanto, não tem como eu dizer que não gosto muito do álbum até hoje. Talvez seja mais um daqueles casos em que tudo se alinha perfeitamente em torno de trabalho.
          Se Faith No More era estranho por flertar com Rap e as guitarras pesadas e diretas de Alice in Chains e Soundgarden acrescentavam aspectos tão genuínos ao Rock, imagine uma banda de negros com visual de membros de gangues do Brooklyn lideradas por um rapper megalomaníaco? O resultado foi o Body Count e seu álbum homônimo de 1992. Cheio de riffs muito bem sacados, guitarras pesadas, vinhetas criativas, letras agressivas cantadas de forma quase tribal em meio ao rap de Ice T, Body Count reunia um pouco do estilo grunge de bandas como Alice in Chains, temas polêmicos e uma agressividade do Thrash funkeado de bandas como Suicidal Tendencies e Faith No More, mas com uma sonoridade muito particular. Lembro que os skatistas gostavam muito, pois tinha muito do rap que eles curtiam com o som pesado e agressivo que fazia a cabeça dos jovens na época. Ice T lançou mais alguns trabalhos com sua banda, mas nenhum deles foi tão bem sucedido como seu debut. Poucas bandas conseguiram fazer algo tão ousado, pois misturar Metal com rap e tocado exclusivamente por negros tinha tudo para dar errado, mas não deu. Ouça The Winner Loses e Body Count' in The House e tente achar algo tão singelo e marcante. Eu ainda acho esse álbum moderno e ousado, mesmo tendo aparecido tantas bandas depois disso.
          Acho que esses cinco álbuns ilustram bem a fase em que eu estava formando meu gosto musical. Minhas grandes paixões da época eram Sepultura, Pantera, Morbid Angel e Burzum, mas haviam tantas bandas num momento tão bom que era impossível gostar de apenas um estilo. Hoje olho pra trás e vejo o quanto a sonoridade dos anos 1990 foi importante pela sua diversidade e pela qualidade das produções. A partir dos anos 2000 e a popularidade da musica digital parece que houve um retrocesso em timbres e letras. O Nu Metal tem coisas legais, mas não evoluiu como se previa e acabou se deteriorando, fora isso as bandas Thrash dos anos 1980 voltaram a se encontrar e retomaram seus caminhos, as bandas mais novas ficaram um pouco sufocadas, pois há toda uma geração de jovens lotando shows do Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden e todos estes dinossauros, que fica difícil se sobressair em meio a tantas bandas novas. Sem apoio e o filtro das gravadoras o cenário ficou meio confuso. Hoje se escuta musica fazendo outras coisas e de forma diferente. Nos anos 1990 pra trás se reunia os amigos para ouvir um álbum de uma banda vendo a capa do LP, lendo o encarte e ouvindo diversas vezes durante o dia. Hoje a maioria tem milhares de musicas no formato mp3 em um celular ou computador, escutando em fones de ouvido sem respeitar a ordem que as musicas estão no álbum e nem sabem quem toca o que em cada trabalho. Mas garanto que tem muitas bandas fazendo coisas legais hoje em dia, basta ter um pouco de paciência para sentar e escutar atentamente num aparelho de som adequado.
          Por enquanto é isso. Espero que tenham gostado destes cinco álbuns e fica a dica para revisitar essa década tão bacana para o Rock em geral. A gente não se dá conta, mas na maioria das vezes os grandes trabalhos são atemporais, por isso bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin e Beatles são redescobertos constantemente. Porém é bem legal se conhecer o ambiente em que estes álbuns foram feitos, o que representaram na época e não se ter nenhum preconceito com coisas a parte das músicas. Pode ser que a minha grande empolgação com essa época seja devido a minha adolescência acontecer em plenos anos 1990, só sei que a música feita nessa época foi tão boa quanto as das décadas anteriores e eu ainda ouço o que considero de melhor e tenho meus LPs e meus CDs a mão para relembrar.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

20 de setembro - O dia do Gaúcho

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi no 20 de setembro
O precursor da liberdade
Mostremos valor constância
Nessa ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas 
De modelo a toda terra
Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo
Mostremos valor constância
Nessa ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas 
De modelo a toda terra
          20 de setembro é considerado o "Dia do Gaúcho", onde se comemora o dia em que as tropas rebeldes invadiram e tomaram Porto Alegre durante a Revolução Farroupilha. Isso ocorreu em 1835, devido as reivindicações dos produtores de charque ao valor dos impostos cobrados na importação do charque estrangeiro. Mas não foi apenas isso que motivou os rebeldes a manter uma guerra civil contra o império que durou longos dez anos. Já havia chegado ao país diversas ideias iluministas e as teorias revolucionárias francesas, onde a posse da terra, a igualdade entre as pessoas perante a lei, a livre iniciativa e o direito a propriedade privada se tornaram as bandeiras defendidas nas revoltas contra os governos da época. O fato do Rio Grande do Sul ficar longe da sede imperialista e ter um grande potencial agrícola, possibilitou que essa fosse a maior rebelião regencial.
          Nesses dez anos foram travadas batalhas significativas, foi oferecido aos escravos a abolição da escravatura para que lutassem ao lado dos farroupilhas. Claro que o cerne dessa revolução era os estancieiros, que não passavam de uma elite escravocrata insatisfeita com a submissão a coroa e os interesses comerciais regionais. Possivelmente queriam o controle comercial e produtivo, visando se tornarem a aristocracia de um novo país, assim como ocorrera com a província Cisplatina que é o Uruguay de hoje. Ou seja, como todas as outras revoltas acontecidas no país no período da monarquia, as razões foram econômicas e políticas, aproveitando-se do recente rompimento com Portugal e a juventude do novo império independente. Entretanto, isso não tira o mérito das intenções farroupilhas, havia um senso comum que motivava a reação rebelde onde se destacavam Anitta e Giuseppe Garibaldi, entre tantos outros. Chegou-se a se proclamar uma república independente, como em toda guerra civil, mas isso não se confirmou na prática. Após dez anos foi assinado o Tratado do Poncho Verde, que no fim das contas agradou aos dois lados. Não teve todo o brilho que os apaixonados pregam, mas também não foi algo inútil como outras pessoas alegam, pois o império caiu anos depois dessas revoltas regionais, pelos motivos que as legitimaram.
          Os livros sérios de história podem explicar, e com maior riqueza de detalhes, muito melhor tudo que ocorreu entre 1835 e 1845 do que este mero resumo ilustrativo. Na verdade, mantive o foco nos aspectos mais políticos e sociais para servir de introdução ao que quero realmente expor aqui. Talvez, quem é de fora do estado gaúcho não entenda porque as torcidas dos times de futebol locais mais populares cantem o Hino Riograndense sobre a execução do Hino Nacional antes dos jogos. Muitos não entendem a pilcha (vestimenta tradicional do gaúcho) e os aspectos rústicos dos nossos galpões e utensílios que são mostrados em programas de televisão. Nossas botas são uma referência a lida no campo, onde elas protegiam do frio, dos animais peçonhentos e possibilitava todos os trabalhos nas plantações e nos banhados onde o gado era mantido. A bombacha é uma calça mais confortável para as longas cavalgadas e remete a nossas origens hispânicas. Nosso lenço no pescoço simboliza nosso compromisso politico e nosso poncho é a defesa do frio, num estado onde o inverno sempre foi rigoroso e o chimarrão é um grande aliado contra as intemperes contribuindo para a formação das rodas de bate-papo. A madeira rústica aos quais eram construídos os ranchos de forma robusta, era para garantir a estrutura contra a força do vento e a revolta de animais ou invasores. A imagem tradicional do gaúcho mostra um homem de aparência rude e simples, que vive do campo e não tem outro interesse a não ser defender sua terra e sua família e tirar da primeira sua sobrevivência e sua motivação para trabalhar e lutar pelos seus direitos legítimos.
          Entretanto, esses ideias farroupilhas e essa imagem gauderia estão sendo esquecidas pelo gaúcho aos poucos. Nossas terras estão sendo exploradas para exportar nossas riquezas e enriquecer grandes empresas, enquanto nosso povo é envenenado com o que é vendido nos hipermercados ou passa fome. Somos escravos da violência diária, onde a criminalidade é o único poder constituído e a certeza de que acontecerá algum crime bem próximo de onde estamos. Não podemos defender nossas terras e nem nossas famílias da forma como tudo está posto, sem armas ou um senso de união e coragem que garanta nossa segurança. Somos reféns de todo o caos que foi sendo implantado em nome da ganância e dos interesses obscuros de uns poucos, mas que vitimiza muitos diariamente. Seria um absurdo nesse momento defender nosso estado contra o restante do país, sendo que aqui estamos vivendo o mesmo caos na segurança, saúde e educação, ou seja, qualquer ideia separatista ou libertária parece um delírio absurdo, pois estaríamos entregando nosso estado ao crime, à barbárie. Políticos oportunistas tentam nos enrolar com discursos vazios, enquanto nosso estado fica a cada dia mais miserável, mesmo assim, ainda temos uma empáfia bairrista que não se justifica mais em nenhum aspecto, mas que é usada para justificar certo caráter honroso que não possuímos mais. O orgulho gaúcho é invocado só para servir de ferramenta para algum discurso revolucionário mesquinho e idiota.
          Não adianta fomentar a cultura gaúcha na semana farroupilha e fazer propaganda dos nossas riquezas pecuárias na Expointer, se estamos falidos em vários aspectos sociais e morais. Basta assistir os noticiários para ver o que realmente se tornou a rotina do gaúcho, o que é notícia no nosso estado passa longe do que nossa história representa. Então, é hora de olhar para o passado, e ao invés de ficar discutindo o que realmente aconteceu na primeira metade do século 19, buscar uma nova revolução comum a todos os povos do mundo, para que nossas façanhas sirvam de modelo a toda terra, como diz nosso hino. Precisamos virar nossas costas para esses políticos viciados e corruptos que sempre estiveram no poder e nunca fizeram o que prometeram. É o momento de culpar o poder executivo por todos os crimes que são cometidos no nosso estado e exigir indenizações e punições severas a estes administradores de discurso. Precisamos julgar e condenar nosso poder judiciário pelos criminosos que estão soltos e cometendo os mesmos crimes de sempre. Há de se cobrar e culpar o nosso poder legislativo pelas leis que possibilitam a corrupção e a impunidade. Sim, pôr governadores, prefeitos, deputados, vereadores e quem mais alegar nos representar e age de forma suja e incompetente, na cadeia e obrigá-los a nos devolver todos os impostos que pagamos com serviços de qualidade ou em espécie mesmo, tirando do salário deles, que é bem mais alto do que o salário pago a um trabalhador comum. Porém, não adianta querer fazer tudo isso se não mudarmos nosso jeito dependente e derrotista, que se deixa levar por qualquer discurso bonito. Há de se ter firmeza e opiniões claras, sem medo de ser politicamente incorreto, lutar por algo que realmente seja comum a todos e que é sonegado.
          Se a revolução farroupilha foi uma guerra contra o poder estabelecido, que explorava por meio de impostos os produtores e quem trabalhava para sustentar a economia do estado, quem comemora o 20 de setembro não pode externar um orgulho regionalista durante uma semana por ano e passar o resto do tempo implorando migalhas do estado. O governo do Rio Grande do Sul, não apenas o atual, mas todos, independente do partido politico, é o responsável pela crise na segurança, na saúde e na educação. São pessoas que em nenhum momento tiveram suas rotinas prejudicadas pelo caos que eles criaram. Eu conheço histórias de ex atletas, empresários, profissionais de várias áreas que faliram, mas não conheço nenhum politico que tenha passado por dificuldades financeiras. Mesmo esses nomes que são mostrados na imprensa como os grandes corruptos, que foram julgados e condenados, suas famílias continuam desfrutando de todo o luxo proporcionado pela corrupção. Você que está comemorando a semana farroupilha, mas depois estará nas ruas com bandeiras e espalhando o lixo eleitoral, você é cúmplice de cada assassinato, assalto, negligencia hospitalar, greve e toda a corrupção que está matando nosso estado.Vote no seu candidato, se ele for eleito e tudo continuar, apresente-se a imprensa e a sua comunidade e assuma a sua culpa, pois tudo que está acontecendo com nosso estado é culpa dos políticos que você elegeu.
          Para finalizar este texto, volto a questão separatista que ainda reverbera em algumas estâncias de nosso Rio Grande. Não basta simplesmente negar nossa origem de brasileiro e criar uma história alternativa e tudo se resolverá. Não esqueçamos que o nosso Estado é o berço de políticos nefastos. Não esqueçamos de Lindolfo Collor, avô do nosso ex-presidente. De Getúlio Vargas, que mesmo tendo sua importância inegável para a política nacional, foi um estadista totalitário e apaixonado pelo poder, sendo um ditador típico, embora não fosse um assassino como outros. Leonel Brizola, que a muitos seduziu pelo discurso forte e populista, mas que nos bastidores conspirava para as ações comunistas que tinham a intenção de transformar a América Latina em uma nova União Soviética e que representou o Brasil na Internacional Comunista, ajudando a criar o Foro de São Paulo. Nosso amado ex-governador Olívio Dutra, que em 2001 recebeu representantes das FARC em visita oficial ao Estado. Sem contar muitos outros como Tarcísio Perondi, Eliseu Padilha, Pompeu de Matos, Antônio Britto, atuais e do passado, são tantos que nem vale a pena mencionar aqui. Ser gaúcho é antes de tudo ser brasileiro e negar isso é querer viver num mundo imaginário, que só existe na cabeça de quem não tem nenhum compromisso com nossa história e tradição.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Depressão

          Médicos falam que a depressão se dá pela ausência ou descontrole de algumas substancias (serotonina e noradrenalina, entre outras) no nosso organismo, mais precisamente em nossos neurotransmissores. Assim sendo, há de se fazer uso de medicação para equilibrar o sistema ou repondo artificialmente o que está ausente. Vendo por esse angulo clinico é até fácil diagnosticar e tratar a depressão, mas esse pensamento é um ledo engano. Não qualifico a depressão como sendo uma doença, e sim um estado físico e mental para o qual somos levados por alguma razão. Esse estado não é provisório como muitos podem pensar, e sim permanente. É uma linha de chegada que antecede a morte, mesmo que essa não se dê de imediato. Não há cura para depressão, há tratamentos que amenizam seus sintomas, que variam de pessoa para pessoa, mas uma volta ao estado anterior é impossível. Não podemos confundir depressão com tristeza ou frustração. Tristeza é um estado que se estende até certo ponto. Infelicidade é outro estado temporário, mesmo que demore uma vida para passar, ele ainda é reversível. Mas a depressão não. Essa morre com a gente, ou melhor, até pode nos matar. Não é raro encontrar depressivos ansiando pela morte, é até mais comum que aconteça exatamente isso, pois viver com depressão é como assistir um mundo sem cores, cheiros, sem graça. Se essa é a doença do século XX, como muitos chamam, eu já qualifico como sendo a realidade do século XX, já que mais e mais casos de depressão são diagnosticados a cada dia que passa. 
          Como eu sei de tudo isso? Simples. Eu fui diagnosticado com depressão em 2010. Os motivos? Não sei se precisava de apenas um motivo para isso, mas sei que foi nessa época que comecei a sentir os sintomas que me levaram a buscar ajuda médica. Não por estar triste em casa chorando e sem querer sair, mas por sintomas físicos e muito reais que passei a sentir e que acabaram crescendo de forma incontrolável. Em uma manhã acordei com dificuldades para respirar. Já tinha passado por isso, mas achava que era por fumar a quase vinte anos. Entretanto, dessa vez não pude me erguer da cama. Estava com os braços dormentes e algo me pressionava a garganta, fazendo com que o ar passasse com dificuldades e quando chegava aos pulmões não satisfazia a pleno a necessidade de oxigenação, Tinha algo muito mais pesado e mais forte do que eu me segurando na cama. A sensação de sufocamento e dormência generalizada impedia qualquer ação mais efetiva no intuito de me erguer. Estava deitado olhando para o teto sem poder pedir ajuda. Naquele momento um filme passou pela minha cabeça. Como podia um homem adulto e aparentemente com boa saúde, pois na época ainda praticava esportes regularmente, acabar imóvel sobre uma cama numa bela manhã de primavera? Mas foi exatamente isso que aconteceu. Não conseguia raciocinar, apenas tentava respirar de forma perturbada e agonizante.
          Após algumas horas de angústia e apatia, consegui reunir forças para chamar ajuda. Fui encaminhado para um hospital e quando fui atendido, falando dos sintomas, o médico simplesmente pegou uma receita e pediu para que eu me encaminhasse à sala ao lado para tomar a medicação. Nesse meio tempo explicou o que estava acontecendo para a minha mãe, que era quem me acompanhava. O que ele me receitou foi um calmante que me fez dormir por algumas horas. Quando acordei, estava com o corpo dolorido e com os movimentos pesados e lentos, porém já conseguia respirar com certa normalidade. Ao ficar de pé, ainda me sentia tonto e um pouco desnorteado, mas conseguia andar e me comunicar de forma razoável. Ai o médico me explicou que eu tinha acabado de ter uma crise de ansiedade devido à depressão e me encaminhou para um psiquiatra, pois meu problema não era nos pulmões ou qualquer outra coisa, era única e exclusivamente psicológico. Difícil para um cético igual a mim aceitar isso, contudo, tive que me render aos fatos e buscar um tratamento para aquilo.
          Lidar com psiquiatras é uma coisa estranha e até surreal. Normalmente são sujeitos simpáticos que lhe pedem para contar tudo, sem restrições e garantem sigilo absoluto. Acredito que psiquiatras e psicólogos buscam uma grande revelação para sair do marasmo. Possivelmente quando me viu o doutor achou que ouviria histórias de abusos com drogas, rituais insanos ou qualquer coisa do tipo, mas acho que frustrei suas expectativas. Enquanto você fala ele, o psiquiatra, fica rabiscando num papel e aparentemente achando tudo que você diz normal, mesmo que você diga que esquartejou um cachorro com um canivete sem fio e comeu seu coro com pelos e tudo. Depois ele te dá uma receita ou duas e dizem que um medicamento vai tirar a sensação de sufocamento e o outro fará você dormir a noite. Mas, quem está com depressão e passa por algumas crises de ansiedade, não confia em soluções tão fáceis. Na verdade, eu esperava que ele tirasse um revolver 38 da gaveta e me incentivasse a estourar os miolos ali mesmo. Confesso que essa vontade não saia da minha cabeça e em algumas ocasiões, se tivesse realmente uma arma a mão, não estaria escrevendo esse texto hoje.
          Um dos remédios que o doutor me receitou era para ser ingerido pela manhã. Com o tempo, notei que ele inseria certa alegria idiota em determinadas partes do dia. Como se eu bebesse uma cerveja e o álcool começasse a fazer efeito. Porém, rapidamente a sensação passava e pairava um vazio no ar, algo sem sentido, como se tudo que estivesse acontecendo ao redor não tivesse importância. Já o outro remédio me deixava com a fala enrolada e um cansaço físico desproporcional ás minhas atividades diárias. Começava uma frase qualquer e de repente nem sabia mais sobre o que eu estava falando, totalmente grogue. Quando deitava a noite para descansar, só acordava quando tinha que levantar para ir para o trabalho, sem sonhar e com a sensação que nem tinha dormido. Em determinadas ocasiões dormia mais de doze horas ininterruptamente. Tomei estes remédios por alguns meses, mas tive que desistir. Não passava de um zumbi que não conseguia sequer tocar uma de minhas músicas sem cometer erros bisonhos. Estava arruinado como musico e como pessoa. Decidi parar de tomar os remédios e me entregar à depressão com as armas que eu tinha, ou seja, estupidez e autossuficiência.
          Voltei a jogar futebol aos sábados, aumentei o ritmo dos meus estudos de produção musical, criei meu blog, comecei a sair nos finais de semana e ouvir muita música. Não importava o que eu fazia, quando tinha que ter uma crise isso acontecia de forma natural, independente do que estivesse fazendo ou onde eu estava. Porém, ficar em casa muito tempo me levava a ter diversos pensamentos autodestrutivos. Conseguia me distrair e fazer as coisas normalmente, mas não sentia as coisas da mesma forma que antes, tudo era superficial. Não importava se acontecia uma tragédia ou algo extremamente empolgante, nada me tirava daquele marasmo. Então entendi o que realmente estava acontecendo. Tinha chegado num ponto onde não há mais volta. As emoções pouco se alteram, não há uma dinâmica que faça o coração disparar ou as mãos suarem. Entretanto, quando aconteciam as crises, o desespero me tirava totalmente à razão. Meus sentidos mais básicos como a audição, a visão, assim como o equilíbrio e a sobriedade se transformavam em uma avalanche de sentimentos e reações biológicas descontroladas e imprevisíveis. Era impossível prever quando iria acontecer, pois não havia um gatilho para disparar isso que eu pudesse evitar.
          Quando disparava uma dessas crises de ansiedade, o que era aleatório, independente do que acontecia, eu sentia minhas vias aéreas se descontrolarem. Tinha que me concentrar na respiração, mas ela ficava incontrolável. Logo essa sensação de sufocamento desencadeava efeitos físicos como tontura, vistas escurecidas, não conseguia distinguir uma pessoa de um poste nas ruas, não conseguia andar em linha reta e meus membros, braços e pernas, adormeciam e passavam a ter vida própria. Pelo peito subia uma sensação equivalente a do choro misturada com aquele frio na barriga que dá quando algo muito triste ou assustador acontece. Isso é uma visita ao inferno e cada segundo demora uma eternidade pra passar. Tive ataques semelhantes aos da epilepsia, o corpo ficava febril e sentia ressaca após as crises. Depois de cada uma delas ficavam sequelas, como se não me recuperasse plenamente e não voltava ao estado anterior. Sentia-me ansiado por morrer, pois essas sensações nunca passavam, simplesmente não valia mais a pena ficar vivo para testemunhar as coisas piorarem ou buscar ajuda, já que ninguém parecia entender exatamente o que acontecia comigo, nem mesmo eu.
          Com esse turbilhão de sentimentos, simplesmente saia de casa mesmo sem vontade, buscava interagir com as pessoas fugindo de meus sentimentos, embora isso fosse impossível. Entrei numa banda e saia ensaiar e pra fazer shows, gravei demos, comprei equipamentos para me manter ocupado e estudando, fui idealizando meu estúdio, entrei em cursos de produção musical, saia a noite pra beber, encontrar os amigos e prestigiar bandas iniciantes tocando. Em nenhuma dessas atividades eu me isolava ou ficava pra baixo. Se estava entre meus amigos me sentia mais seguro, pois se acontecesse algo, alguém me acudiria, melhor do que agonizar até morrer sozinho em casa. Todo este sofrimento se estende até hoje. Como falei, não há cura para isso. Meus sentimentos não voltarão a ser como eram no passado. Não sentirei euforia nos momentos mais eletrizantes e nem tristeza nas piores situações. Há apenas um resquício de tudo aquilo que havia dentro de mim emocionalmente. 
          Parece fraqueza tudo isso, mas é simplesmente a verdade. O pouco de emoção que ainda tenho é direcionada a minha família, mulher e filhos. Todo o resto é irrelevante praticamente. Desde que meu avô morreu em 2010, após um período considerável de sofrimento, que não temo por receber a noticia da morte de ninguém além destes que falei. Saudade é apenas uma lembrança de uma ou outra pessoa que se perde rapidamente e eventualmente me vem à memória, sem muita relevância. Nada é forte o suficiente para fazer eu me programar para uma visita. Mesmo com tudo isso, sei que tenho que estar vivo e lúcido para cuidar de quem eu amo e dependem de mim. Esse compromisso é que faz com que eu levante pela manhã e tente fazer o melhor no meu trabalho, que me mantem compondo e estudando musica, gravando algumas coisas, lendo livros e ouvindo muita musica. Tudo precisa ser calculado conforme um padrão previamente estabelecido para que seja executado e quase nada é feito na emoção. Mesmo assim, muitas vezes não me animo a fazer muitas coisas como fazia antes, perco dias na apatia ou simplesmente fazendo coisas rotineiras em casa.
          Vou a alguns shows de bandas que gosto, escrevo para meu blog, interajo nas redes sociais, faço planos, alimento um personagem, mas dentro de mim há só escuridão, vontade de desistir por achar que a maioria das coisas não vale mais a pena. Consigo manter um padrão de existência aceitável por já ter atingido certa maturidade e eventualmente me descontrolo ao ponto de sentir raiva. Na verdade, o ódio é a única emoção que flui naturalmente e faz com que tenha reações espontâneas, de resto apenas me atenho às circunstancias e decido racionalmente como proceder de acordo com meu estilo de vida. Quando me divirto ou tenho momentos agradáveis, me satisfaz mais ver as pessoas alegres ao meu redor do que sentir alguma satisfação interna. Ainda sou capaz de amar, sentir raiva, ficar tenso e me alegrar, porém essas coisas não tem o efeito que tinham antigamente. A única presença constante é da escuridão, que me deparo quando olho para o futuro ou pra dentro de mim mesmo, e aquele desejo sutil de que tudo acabe de uma vez. As crises ainda existem, mas já não me pegam desprevenido, meu corpo já acostumou a conviver com o descontrole e o sufocamento, então consigo ignorar os efeitos até certo ponto, pois sei que não vou morrer e se isso vier a acontecer, a morte será bem-vinda. Mesmo sabendo que não posso simplesmente desistir e desamparar quem depende de mim, uma morte involuntária cairia bem, pois afastaria a sensação precoce de culpa. Afinal, para quem chegou a esse ponto, viver ou morrer passa a ser quase que uma condição insignificante. Mas, enquanto eu for funcional e conseguir atender as necessidades de quem eu zelo, ainda valerá a pena estender essa existência por mais algum tempo. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

07 de setembro (uma reflexão básica)


          Hoje se comemora a independência do Brasil. O maior país da América Latina em extensão territorial. Até meados dos anos 90, o Brasil era visto pelos países desenvolvidos como sendo uma selva, onde algumas grandes cidades eram os lugares perfeitos para se fazer todo o tipo de falcatrua. O Carnaval era tido como uma grande celebração da alegria. O futebol brasileiro era admirado e tido como referência. Só que as citações a este estranho país falando português em meio a vários outros de língua espanhola, eram tudo que tinham de informações do Brasil, ao menos fingiam que era só isso que havia por aqui. Entretanto as multinacionais não hesitaram em querer explorar este mercado desconhecido desde muito cedo. Com certa estabilidade econômica adquirida na década de 90 em diante, após o bizarro mandato de Collor, o Brasil começou a se projetar como um país em desenvolvimento nos anos seguintes. Isso fez com que ficasse ainda mais interessante aos olhos dos exploradores estrangeiros, assim como a China passou a ser alvo das investidas capitalistas. Daí começamos a questionar a nossa tal independência. 
É meio estranho falar sobre algo baseado nos livros de história, mas há muitas informações que dão conta de que o Brasil teve um grande avanço social e econômico nas décadas de 30, 40 e 50. Houve grandes conquistas populares e feitos interessantes por parte dos políticos da época, mas tudo soava de forma a se separar os ricos, os políticos e os militares do povo em geral. Sei que grandes instituições de saúde, escolas, universidades e estatais foram construídas nessa época, mas essa separação social ficou bem clara pra mim, ao ler os relatos de época e comparar com aquilo que ficou. A CLT e outras conquistas significativas dos trabalhadores aconteceram nesse período anterior a ditadura militar e isso já foi um avanço. Houve certa consciência política e até nacionalista nesse tempo por parte das elites e pensadores populares, mas foi sufocada pelas ações políticas da época como a Guerra Fria que dividiu o mundo, teoricamente. Houve o temor da entrada do comunismo no Brasil e a aproximação com Cuba e os regimes de esquerda na América do Sul.
Então tivemos o período da Ditadura Militar. Se por um lado o povo voltou a sofrer com desemprego e todas aquelas coisas que são de praxe nos países de terceiro mundo, os militares conseguiram manter alguns aspectos básicos do nacionalismo adquirido anteriormente, mas isso com a máquina militar agindo de forma inconsequente e criminosa. Nesse período houve uma caça as bruxas por causa da ameaça comunista. Artistas, jornalistas e políticos que eram contrários ao regime estabelecido foram perseguidos e até torturados e mortos. Isso se manteve por 20 anos, mas deu vida a vários movimentos sociais e intelectuais. O povo começou a reagir frente a muitas injustiças e aos poucos a máquina militar foi perdendo sua força, até sucumbir na metade dos anos 1980. O que ficou para as gerações posteriores foi a grande aversão ao controle armado e as regras de comportamento. A busca pela liberdade de expressão foi a munição para artistas e escritores abastecerem sua arte.
A década de oitenta foi marcada pela AIDS e pela sensação de liberdade total. Os problemas sociais continuavam e muitos dos pensamentos sufocados nos tempos da ditadura vieram a criar força. Essa foi a época da minha infância e lembro que havia certa simplicidade nas pessoas que me cercavam. A busca incansável por dinheiro e os impulsos consumistas eram coisas das quais não tive contato em minha formação. Tínhamos um senso de união e organização, mas temíamos a policia e o exército, possivelmente por causa dos nossos pais e avós que viveram aquela época de perseguição e medo. Nos anos 1990 foi o período em que a comunicação passou a se tornar prioridade e aquela liberdade adquirida com o fim da ditadura deu lugar a uma operação mais sutil, porém muito mais poderosa. Com o advento da televisão em quase todas as residências, o Brasil sofreu uma grande invasão de idéias e produtos estrangeiros, principalmente americanos. Em todas essas áreas pode se perceber um grande esforço em nos vender lixo e idéias inúteis.
A década em seguinte foi marcada pela popularização do telefone celular e a expansão da internet. O Brasil passou de um país de terceiro mundo para um país em desenvolvimento em pouco tempo. Isso se deu por causa da abertura para o capital estrangeiro e a propaganda de dois grandes eventos, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio em 2016. Foi necessário passar uma imagem positiva de um país que ainda nem sabia exatamente o que estava acontecendo. Houve uma invasão tecnológica e uma falsa sensação de poder aquisitivo quase ilimitado. Isso para montar um cenário perfeito para que empresas corruptas pudessem ganhar ainda mais dinheiro com suas ações corruptas em parceria com o poder político. Todos ganharam milhões às custas de um povo que achava que estava conquistando tudo que merecia. Porém, quem mais enriqueceu nesse período foram os políticos, os banqueiros e os grandes empresários. Ao invés de se expandir uma consciência social e avançada, estabeleceu-se a cultura da futilidade e implantação do politicamente correto, onde tudo que se faz pode ser jogado na internet e submetido a todo o tipo de criticas.
A partir daí estamos vivendo o presente. Corrupção, uma perspectiva de miséria e desemprego. A violência diária matando mais do que qualquer guerra. Greves e protestos que pouco representam, a não ser contribuir para o cenário caótico em que estamos inseridos. Dividiram a população para demonstrar cada vez mais que o corpo político do país é um só. O mesmo que sempre esteve no comando. Não adianta esperar que o país seja um lugar bom pra se viver, se temos esses políticos malditos com seu circo armado para roubarem e brincarem com o dinheiro público. Talvez o Brasil esteja entrando no seu período mais obscuro e caótico. Portanto não há muito o que comemorar nesse 7 de setembro. Antes tínhamos pessoas engajadas em erguer bandeiras que representavam o interesse geral contra um inimigo comum. Mas agora só vemos apatia e agitação inofensiva, pois o poder virou uma fera de duas cabeças, uma é a esquerda com seus ideais libertários, mas que investe seus esforços a defender os cães malditos do populismo corrupto, a outra é a velha direita conservadora e detentora das regras do jogo que quer seguir enriquecendo os ricos e poderosos para se manter no poder. As duas são metades de uma mesma laranja podre e corrupta que finge brigar para manter a atenção e o apoio das pessoas. 
Pra encerrar, gostaria de deixar um pensamento aqui. Imagine se não fossemos descobertos pelos portugueses. Imagine um mundo sem o tal progresso e a evolução dos povos civilizados. Sem a religião européia trazida para catequizar e amansar nossos índios. Imagine um Brasil sem as mega corporações internacionais despejando seu lixo aqui e controlando quem manda realmente no país. Imagine uma agricultura sustentável e uma fomentação das empresas e economias regionais. Pense numa medicina voltada para a prevenção e que atende apenas o interesse de cada comunidade. Tente imaginar uma escola onde uma criança é educada por profissionais satisfeitos e preparados, que se emprenham em desenvolver o intelecto e o caráter de seus alunos. Pense numa legislação que puna realmente quem rouba, mata e estupra. Onde um político corrupto apodrece na cadeia e sua família é penitenciada a devolver cada centavo desviado. Isso é apenas uma reflexão, pois parece que todo mundo está dormindo e achando que tudo isso que está acontecendo é normal. A maioria fica trocando farpas defendendo lados políticos e coisas do tipo, enquanto inocentes são mortos todos os dias e os criminosos estão soltos por ai seguros de sua impunidade.

domingo, 4 de setembro de 2016

DAWs, plugins, periféricos e bobagens afins

          
          Depois que os computadores ficaram mais populares e entraram nos estúdios de gravação, não demorou para que as DAWs se popularizassem. Lembro que quando comecei a ter contato com computadores ainda na escola, no final da década de 1980, tínhamos aquela tela preta ou verde do DOS onde usávamos comandos para abrir diretórios e escrever textos. Não era nada atraente e parecia coisa de nerd. Durante a década de 1990 os computadores e softwares começaram a se popularizar dentro das indústrias e laboratórios para comandar máquinas de produção e análise. Se não me engano, em 1997 um álbum do Rick Martin foi o primeiro a ser produzido totalmente com o Pro Tools. Entretanto, desde 1993 já havia uma pequena parcela dos trabalhos de estúdio feita com o auxílio de computadores. Quando ouço os álbuns do início da década de 1990, tenho como padrão a sonoridade daqueles registros. Sons de guitarra, bateria e vocais foram muito bem desenvolvidos e registrados nessa época. Os gigantes de arenas estavam muito próximos de sua queda, mas ainda estavam em alta, vide Metallica e Guns n' Roses. Acho que isso ajudou para que se chegasse uma maturidade de produção, que possibilitou uma gravação ao vivo bem próxima da qualidade de estúdios, muitas delas feitas de forma híbrida e com a chegada dos CDs. Recursos como reverb, delays, compressores, equalizadores e demais equipamentos de estúdio chegaram a um nível de desenvolvimento e de utilização que firmaram alguns padrões adotados como ideais até hoje .
          Imagino que no final da década de 1990 começou-se a buscar alternativas para os grandes estúdios, já que as grandes gravadoras começaram a disputar espaço com o compartilhamento digital das músicas. Isso foi imposto pela popularização dos computadores e a difusão da internet como alternativa de comunicação e lazer. Isso tudo foi muito rápido e nem todo mundo estava pronto para essa mudança tão radical. Gravadoras falindo ou encolhendo seus tamanhos, incertezas no mercado, pirataria e uma radical mudança na produção musical. Equipamentos caros e clássicos foram deixados apenas nos estúdios de grande porte que ainda se mantiveram de pé. Os simuladores arcaicos que eram utilizados em música eletrônica e produções alternativas, ganharam versões digitais para computadores e passaram a ser vendidos por quantias muito mais acessíveis que os hardwares populares. Isso se estendeu para os amplificadores, orquestras, microfones e e tudo o mais. Os recursos MIDI ganharam terreno muito rapidamente e se tornaram padrão em pré produções e na área de jingles comerciais. As orquestras virtuais ganharam espaço em produções de cinema, onde até as imagens foram ficando cada vez mais manipuladas digitalmente.
          Entram em cena as DAWs com toda força e com um desenvolvimento muito rápido devido a necessidade de se ganhar espaço nesse novo mercado. No inicio eram seguimentadas e ocupavam certos mercados específicos. No topo dessa lista estava o sistema Pro Tools com suas interfaces e placas aceleradoras proporcionando um processamento interessante de seus plugins DSP. A Steinberg com seu driver ASIO proporcionou uma queda significativa na latência ocorrida durante a integração de placas de som e os programas de computadores. Assim surgiram outras opções de softwares de empresas comuns no mercado musical como a Roland e sua DAW exclusiva para Windows, Cakewalk/Sonar. A Apple com seu Garage Band e o Logic investiu também nesse mercado. Temos Cubase/Nuendo, Studio One, Reaper, e por aí vai. São muitas opções para se produzir música no computador. Parece que todas essas Digital Audio Workstations convergiram para um mesmo fim. Depois de um tempo em que uma investia mais em sons sintetizados, outras com foco mais direcionado para gravações, agora elas fazem de tudo, desde simulações de hardware e instrumentos virtuais, edições MIDI, edições de áudio avançadas, mixagem e masterização, ou seja, tudo mesmo, cada uma com seu fluxo de trabalho específico, mas com as mesmas ferramentas e opções. A interação com plugins de vários fabricantes diferentes como Waves, IK Multimedia, Universal Audio, entre outras, também se aprimorou.
          O Pro Tools continua no topo por ser mais utilizado em grandes estúdios e por apresentar uma solução completa desde o início, sendo que a DAW dentro do computador é apenas parte do sistema. Para sistemas profissionais o Pro Tools continua sendo uma opção recorrente, mas ele não tem tanta vantagem quando falamos de home estúdios. A Yamaha/Steinberg começou a ganhar popularidade quando as versões do Cubase LE e AI passaram a acompanhar interfaces de baixo custo como as versões da Tascam, M Audio, entre outras. A Avid, dona do Pro Tools, chegou a integrar versões do software com interfaces da M Audio, as versões M-Powered, mas isso durou pouco tempo. O Ableton Live e o Studio One passaram a ocupar esse mercado também. Essa oferta desesperada, não só de versões para diferentes tamanhos de clientes, mas atualizações anuais dos principais softwares, causou uma confusão e um monte de discussões infinitas e que não chegam a lugar algum. O certo é que a qualidade dos produtos físicos caiu bastante, mesmo assim são defendidos com unhas e dentes por alguns entusiastas do meio em fóruns de internet e páginas pessoais.
          Eu tive o primeiro contato com uma DAW ainda em 2007 quando montei um computador pessoal e queria gravar algumas coisas. Acho que foi por essa época que conheci o Cakewalk, mas não cheguei a usa-lo. O Audacity foi realmente minha primeira DAW, mas era extremamente limitada. Ainda nessa linha de software livre, tentei usar o Ardour no Linux, mas não consegui absolutamente nenhum resultado. Mais adiante comprei uma câmera fotográfica digital e baixei alguns pacotes de edição de imagem, áudio e vídeo da Sony. Isso já foi mais interessante em termos de gravação, embora os problemas de latência, impedância e a minha total incapacidade de lidar com essas ferramentas que eram novidade pra mim. O driver ASIO resolveu o problema da impedância, o Guitar Pro foi um recurso bem interessante na edição de trilhas MIDI para acompanhamento. Mas a coisa só fluiu mesmo quando adquiri um multiefeitos para guitarra, o Zoom G2.1u que também era uma interface de áudio USB. Junto com o pedal vinha uma versão do Cubase LE 4. Tomei contato com VSTs e outras ferramentas mais avançadas do que as anteriores. Infelizmente não tive tempo nem conhecimento para tirar o máximo daquilo que possuía, devido a minha empolgação em conhecer equipamentos e técnicas de produção mais avançadas.
          Em um segundo momento eu me interessei pela formação Pro Tools e Mac. Adquiri uma mesa da Yamaha antes disso e um par de monitores ativos da Behringer, o Truth B2031. Com a mesa veio mais uma versão do Cubase, o AI 5, com mais recursos. A mesa também era uma interface de áudio USB muito interessante. Consegui utilizar esses itens de forma coerente conforme fui estudando e acumulando informações mais consistentes. Usava PCs com Windows XP. Também baixei muitos plugins piratas e versões gratuitas. O resultado foi uma grande instabilidade no sistema como um todo. Esse pacote fez com que eu desejasse ainda mais ter um Mac. Faltava o Pro Tools ainda. Em 2013 fiz um curso de home estúdio. Conheci o Reaper, uma DAW alternativa que se popularizou rapidamente por ser mais leve e não ser necessário pagar para ter a versão integral do software. Conheci modelos interessantes de interfaces, microfones e periféricos e isso me possibilitou uma quebra de paradigmas. Estava instruído de forma mais objetiva e tive acesso a outras fontes de informação como a revista Sound On Sound e alguns cursos on line. Comprei uma interface de áudio Profire 2626, fiz um release dela e dos itens que falo a seguir aqui. Tive problemas com ela e mandei para manutenção. Adquiri um Mac Pro G5, o melhor computador que já tive, entretanto ele estava praticamente obsoleto. Consegui uma versão de Pro Tools, a M-Powered 7.5, que normalmente acompanhava as interfaces da M-Audio. Quando consegui juntar tudo, foi meio decepcionante.
          Cheguei a conclusão de que o Cubase seria a DAW que me adaptei melhor. Comprei uma versão completa do Cubase 7.5. Instalei num PC com Windows 7, já não poderia utilizá-lo no meu Mac e troquei-o por um contrabaixo. Num negócio de oportunidade acabei conseguindo um microfone Shure SM57 e uma interface Tascam US1800. Quando parecia que tudo ia se estabilizar, as caixas Behringer deram pau. Uma delas ficou com um chiado irritante, a outra queimou do nada. Vendi minha Profire, a Tascam, o Zoom, troquei o Pro Tools por um compressor DBX 266 e passei a anunciar minhas coisas como a mesa Yamaha no Mercadolivre. Tinha uns microfones e uns pedais da Behringer que acabei vendendo. Comprei bateria acústica também e alguns softwares para seguir estudando e tentar evoluir nas minhas produções. Fiz mais alguns cursos de produção on line interessantes, passei a seguir alguns produtores nas redes sociais e assim fui chegando as minhas próprias conclusões sobre muitas coisas.
          Em 2014 eu ousei, e com alguns patrocínios interessantes, comprei um par de monitores da Yamaha HS 8, controladores da série CMC da Steinberg e a interface UR44, escrevi sobre ela aqui. Também atualizei a versão 7.5 para a versão 8 do Cubase. Havia conseguido um compressor DBX 160A e outras coisas na troca por um Mac Mini. Comprei um MacBook Pro também, mas tive que me desfazer deles por necessidades financeiras. Decidi experimentar um set mais simples, como uma interface Avid Fast Track Duo com Pro Tools Express e ficar só com os monitores da Yamaha, falei a respeito disso aqui. Porém a qualidade da interface era muito inferior a da Steinberg que eu tive. Aí entram aquelas comparações que só quem tem acesso aos produtos e pode testá-los, acaba formando uma opinião mais consistente. A interface se mostrou muito frágil e rapidamente apresentou problemas. O Pro Tools tem ferramentas interessantes, porém os instrumentos virtuais são inferiores aos da Steinberg. Como estava acostumado com o Cubase, senti um retrocesso na fluides na execução dos meus projetos.
          Obriguei-me a vender um Mac Mini que tinha adquirido e comprar um PC novo e com mais recursos. Comprei uma interface UR28M da Steinberg e um Cubase Artist 7.5 com a possibilidade de atualização para versão 8.5, o que acabei fazendo recentemente. Tenho uma boa relação com um dos representantes da Yamaha/Steinberg no Brasil e isso contribuiu de forma decisiva para eu optar por essa marca. Vejo que o a Avid ainda está em evidencia, como sempre esteve por conta do Pro Tools, e seus produtos topo de linha são excelentes, mas estão fora da realidade de quem tem home estúdio. Constatei isso num workshow que compareci e fiz um texto que pode ser visto aqui. Conheci certos artistas alternativos de lugares bem exóticos da Europa e eles tem grandes resultados com os produtos da Steinberg. Tirando o charme da tela do Pro Tools estar presente nos maiores estúdios do mundo e ser a ferramenta dos grandes engenheiros de áudio, pra mim o Cubase, tão mal falado nos fóruns de áudio, é a ferramenta perfeita para mim atualmente. Não tenho a pretensão de trabalhar em grandes estúdios, apenas fazer meus tracks de estudo e gravar minhas músicas, para isso o que possuo atualmente está mais do que suficiente. Também não aconselho usar softwares piratas nem para experimentar, pois isso pode danificar o sistema e ainda não é uma prática digna de quem é um profissional ou amador sério, que realmente se importa com qualidade musical.