quarta-feira, 7 de setembro de 2016

07 de setembro (uma reflexão básica)


          Hoje se comemora a independência do Brasil. O maior país da América Latina em extensão territorial. Até meados dos anos 90, o Brasil era visto pelos países desenvolvidos como sendo uma selva, onde algumas grandes cidades eram os lugares perfeitos para se fazer todo o tipo de falcatrua. O Carnaval era tido como uma grande celebração da alegria. O futebol brasileiro era admirado e tido como referência. Só que as citações a este estranho país falando português em meio a vários outros de língua espanhola, eram tudo que tinham de informações do Brasil, ao menos fingiam que era só isso que havia por aqui. Entretanto as multinacionais não hesitaram em querer explorar este mercado desconhecido desde muito cedo. Com certa estabilidade econômica adquirida na década de 90 em diante, após o bizarro mandato de Collor, o Brasil começou a se projetar como um país em desenvolvimento nos anos seguintes. Isso fez com que ficasse ainda mais interessante aos olhos dos exploradores estrangeiros, assim como a China passou a ser alvo das investidas capitalistas. Daí começamos a questionar a nossa tal independência. 
É meio estranho falar sobre algo baseado nos livros de história, mas há muitas informações que dão conta de que o Brasil teve um grande avanço social e econômico nas décadas de 30, 40 e 50. Houve grandes conquistas populares e feitos interessantes por parte dos políticos da época, mas tudo soava de forma a se separar os ricos, os políticos e os militares do povo em geral. Sei que grandes instituições de saúde, escolas, universidades e estatais foram construídas nessa época, mas essa separação social ficou bem clara pra mim, ao ler os relatos de época e comparar com aquilo que ficou. A CLT e outras conquistas significativas dos trabalhadores aconteceram nesse período anterior a ditadura militar e isso já foi um avanço. Houve certa consciência política e até nacionalista nesse tempo por parte das elites e pensadores populares, mas foi sufocada pelas ações políticas da época como a Guerra Fria que dividiu o mundo, teoricamente. Houve o temor da entrada do comunismo no Brasil e a aproximação com Cuba e os regimes de esquerda na América do Sul.
Então tivemos o período da Ditadura Militar. Se por um lado o povo voltou a sofrer com desemprego e todas aquelas coisas que são de praxe nos países de terceiro mundo, os militares conseguiram manter alguns aspectos básicos do nacionalismo adquirido anteriormente, mas isso com a máquina militar agindo de forma inconsequente e criminosa. Nesse período houve uma caça as bruxas por causa da ameaça comunista. Artistas, jornalistas e políticos que eram contrários ao regime estabelecido foram perseguidos e até torturados e mortos. Isso se manteve por 20 anos, mas deu vida a vários movimentos sociais e intelectuais. O povo começou a reagir frente a muitas injustiças e aos poucos a máquina militar foi perdendo sua força, até sucumbir na metade dos anos 1980. O que ficou para as gerações posteriores foi a grande aversão ao controle armado e as regras de comportamento. A busca pela liberdade de expressão foi a munição para artistas e escritores abastecerem sua arte.
A década de oitenta foi marcada pela AIDS e pela sensação de liberdade total. Os problemas sociais continuavam e muitos dos pensamentos sufocados nos tempos da ditadura vieram a criar força. Essa foi a época da minha infância e lembro que havia certa simplicidade nas pessoas que me cercavam. A busca incansável por dinheiro e os impulsos consumistas eram coisas das quais não tive contato em minha formação. Tínhamos um senso de união e organização, mas temíamos a policia e o exército, possivelmente por causa dos nossos pais e avós que viveram aquela época de perseguição e medo. Nos anos 1990 foi o período em que a comunicação passou a se tornar prioridade e aquela liberdade adquirida com o fim da ditadura deu lugar a uma operação mais sutil, porém muito mais poderosa. Com o advento da televisão em quase todas as residências, o Brasil sofreu uma grande invasão de idéias e produtos estrangeiros, principalmente americanos. Em todas essas áreas pode se perceber um grande esforço em nos vender lixo e idéias inúteis.
A década em seguinte foi marcada pela popularização do telefone celular e a expansão da internet. O Brasil passou de um país de terceiro mundo para um país em desenvolvimento em pouco tempo. Isso se deu por causa da abertura para o capital estrangeiro e a propaganda de dois grandes eventos, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio em 2016. Foi necessário passar uma imagem positiva de um país que ainda nem sabia exatamente o que estava acontecendo. Houve uma invasão tecnológica e uma falsa sensação de poder aquisitivo quase ilimitado. Isso para montar um cenário perfeito para que empresas corruptas pudessem ganhar ainda mais dinheiro com suas ações corruptas em parceria com o poder político. Todos ganharam milhões às custas de um povo que achava que estava conquistando tudo que merecia. Porém, quem mais enriqueceu nesse período foram os políticos, os banqueiros e os grandes empresários. Ao invés de se expandir uma consciência social e avançada, estabeleceu-se a cultura da futilidade e implantação do politicamente correto, onde tudo que se faz pode ser jogado na internet e submetido a todo o tipo de criticas.
A partir daí estamos vivendo o presente. Corrupção, uma perspectiva de miséria e desemprego. A violência diária matando mais do que qualquer guerra. Greves e protestos que pouco representam, a não ser contribuir para o cenário caótico em que estamos inseridos. Dividiram a população para demonstrar cada vez mais que o corpo político do país é um só. O mesmo que sempre esteve no comando. Não adianta esperar que o país seja um lugar bom pra se viver, se temos esses políticos malditos com seu circo armado para roubarem e brincarem com o dinheiro público. Talvez o Brasil esteja entrando no seu período mais obscuro e caótico. Portanto não há muito o que comemorar nesse 7 de setembro. Antes tínhamos pessoas engajadas em erguer bandeiras que representavam o interesse geral contra um inimigo comum. Mas agora só vemos apatia e agitação inofensiva, pois o poder virou uma fera de duas cabeças, uma é a esquerda com seus ideais libertários, mas que investe seus esforços a defender os cães malditos do populismo corrupto, a outra é a velha direita conservadora e detentora das regras do jogo que quer seguir enriquecendo os ricos e poderosos para se manter no poder. As duas são metades de uma mesma laranja podre e corrupta que finge brigar para manter a atenção e o apoio das pessoas. 
Pra encerrar, gostaria de deixar um pensamento aqui. Imagine se não fossemos descobertos pelos portugueses. Imagine um mundo sem o tal progresso e a evolução dos povos civilizados. Sem a religião européia trazida para catequizar e amansar nossos índios. Imagine um Brasil sem as mega corporações internacionais despejando seu lixo aqui e controlando quem manda realmente no país. Imagine uma agricultura sustentável e uma fomentação das empresas e economias regionais. Pense numa medicina voltada para a prevenção e que atende apenas o interesse de cada comunidade. Tente imaginar uma escola onde uma criança é educada por profissionais satisfeitos e preparados, que se emprenham em desenvolver o intelecto e o caráter de seus alunos. Pense numa legislação que puna realmente quem rouba, mata e estupra. Onde um político corrupto apodrece na cadeia e sua família é penitenciada a devolver cada centavo desviado. Isso é apenas uma reflexão, pois parece que todo mundo está dormindo e achando que tudo isso que está acontecendo é normal. A maioria fica trocando farpas defendendo lados políticos e coisas do tipo, enquanto inocentes são mortos todos os dias e os criminosos estão soltos por ai seguros de sua impunidade.
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