segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Anitta e Paula Fernandes, orgulho nacional

         
          Ontem postei um vídeo falando sobre o que a apresentação de Anitta e Paula Fernandes ao lado de Andrea Bocelli e todas as polêmicas que aconteceram, clique aqui para assistir. Este texto eu já havia escrito na semana passada, mas acabei deixando em segundo plano, dando espaço a outras atividades e por isso acabei não postando, o que foi bom até, pois outros fatos apareceram e o texto ficou mais realista. Entretanto, como postei o vídeo no Youtube ontem, vou deixar o texto aqui para ficar registrada minha opinião a respeito disso também no blog. Para dar mais um pouco de munição contra as cantoras, o sertanejo Daniel também se apresentou com Andrea Bocelli e fez bonito, afinal, ele sabe cantar. Os vídeos estão todos ai na internet para serem conferidos para que cada um possa tirar suas próprias conclusões. Vou fazer melhor ainda, vou clocar aqui os vídeos do Marcio Guerra falando a respeito com mais propriedade que eu, por ter um canal dedicado a técnica vocal e canto.
          A onda na internet é falar mal da Anitta e da Paula Fernandes por conta da recente apresentação com o tenor italiano Andrea Bocelli. Uma pessoa como Bocelli fica exposta a esse tipo de situação, quando promotores de shows, com o olhar unica e exclusivamente voltado para números, visualizações na internet e seguidores nas redes sociais, acham que a popularidade comprada de artistas como as duas citadas acima, podem ser convertida em talento. Mas isso é muito comum de acontecer atualmente por conta dessa visão de mercado extremamente distorcida. Você tem que dar um desconto para as pessoas menos informadas, e que são fãs deste tipo de artistas, que acham relevante um tenor italiano de renome internacional fazer dueto com artistas populares, li comentários de que quem estaria abrilhantando o show de Bocelli seriam as duas e não o contrário. Entretanto, seria de bom senso, já que organizariam um evento deste tipo, que fizessem algo menos estapafúrdio, isso evitaria alguns constrangimentos, principalmente dos envolvidos.
          O resultado disso tudo é que Paula Fernandes vai a mídia para detonar uma cantora lirica que, segundo ela, deveria cantar um trecho em um tom mais alto e que estaria doente no dia e não havia sido substituída a tempo. Por esse motivo houve um grande e constrangedor vazio no trecho da música onde a cantora simplesmente fica estática sem saber o que fazer.  Maria Aleida foi acusada até de sabotagem pelo fãs de Paula Fernandes. Entretanto, na participação de Anitta no dueto a três com Bocelli, onde ela cantou a parte mais alta da música, sequer havia um microfone posicionado para a soprano cantar. Isso proporcionou uma cena bizarra em que a Anitta canta e dá uns passinhos pra trás logo a seguir e a soprano entra bruscamente em frente a ela para cantar no mesmo microfone. 
          Em entrevista sobre o assunto, Paula Fernandes fala de seu "profissionalismo" e se diz preparada para aquela performance. Por consequência, alega que a soprano estava doente e não pode ser substituída a tempo. Já de sua parte, Maria Alieda alegou que as duas cantoras sequer sabiam a letra da música e só foi avisada da participação com a Anitta duas horas antes do evento (isso justificaria a ausência de um microfone para ela) e ainda postou uma foto do roteiro das duas apresentações para provar sua versão em que seu nome não constava ao lado da canção. Mas, o que importa a opinião de uma soprano cubana desconhecida para os fãs de Paula Fernandes, não é mesmo? Absolutamente nada. Para os fãs de Anitta, dane-se que ela não sabe cantar de forma erudita. Para cantar o "Show das Poderosas" e remexer seu corpo cheio de plásticas no palco ela serve muito bem, não é essa a questão. Que ela se limite a fazer o que ela faz e não tentar forçar uma situação para parecer eclética ou agradar o interesse de terceiros.
          Só pra demonstrar como todo esse circo é vexatório e desnecessário. Basta ver a postura do tenor, extremamente relaxado no palco, afinado e demonstrando um controle total da respiração. Por outro lado, vemos que a Anitta pressiona uma mão contra a outra na hora de cantar. Isso é uma técnica que amadores dizem servir para alcançar notas mais altas, um professor de canto nunca indicará uma postura dessas. A cantora, extremamente desajustada ao articular as notas, com uma respiração dura e incorreta, interpretou a música de forma medíocre e amadora. A Paula Fernandes não demonstrou a mesma desafinação que Anitta, mas sua postura ao cantar e a interpretação acho que foram ainda piores.
          O que quero dizer com tudo isso? Quero só chamar a atenção porque este não é um fato isolado. Já vi Ivete Sangalo, Claudia Leite, dentre outros, fazer a mesma coisa nesses tipos de apresentação. Basta ver os especiais de fim de ano do Roberto Carlos, a enxurrada de bizarrices que aparecem para conspirar com ela, já que isso é um atentado ao bom gosto. Esses artistas escolhidos a dedo tem um grande investimento por trás, não podem simplesmente serem ignorados, eles giram um montante de dinheiro muito representativo, muitos deles até de forma ilícita. Quem pensa que esses The Voice Brasil, X-Factory, Superstar, dentre outros, objetivam revelar artistas, está muito equivocado. O papel destes programas é atender aos interesses dos patrocinadores, manter um cast de artistas na mídia como jurados e convidados especiais, ditar as regras de mercado e facilitar a vida de investidores e quem quer lavar dinheiro. Paula Fernandes, Anitta, esses MCs da vida, Wesley Safadão, duplas sertanejas e cantores de momento, são apenas fantoches atendendo as demandas das emissoras de TV, patrocinadores e empresários pilantras. O resultado desta mistura é o que testemunhamos no show do Andrea Bocelli, total falta de bom senso, pra dizer o mínimo.
          A TV é um espaço muito valioso e tem que atender a diversos interesses comerciais, políticos e sociais para se sustentar e promover essas pessoas. Se vimos um Faustão no passado levando artistas bregas, mas com carreiras relevantes e certo talento, para seu programa Perdidos na Noite, hoje o mesmo demite uma dúzia de músicos competentes para ficar com playbacks de péssima categoria em seu ridículo programa semanal. E quanto o Faustão ganha para fazer isso? Algo em torno de R$ 1.500.000,00 Reais, segundo muitas fontes. Ele é só um exemplo, temos o famigerado Esquenta, o Caldeirão do Huck, na mesma emissora e mais outros tantos espalhados pelas emissoras deste país.
Em suma, o que toda essa gente quer é continuar pondo fantoches na mídia, se aproveitar de grandes eventos para lavar dinheiro e sonegar impostos, vide a Lei Rouanet, e investir numa cultura rasteira e descartável.
          Para quem acha que é o que temos para o momento, saibam que aqueles grupos de pagode xexelentos da década de 1990 estão na ativa ainda, os sertanejos bregas também, os mesmos diga-se de passagem, os grupinhos pop volta e meia reaparecem, ou seja, aqueles que durante um tempo ficaram irritantemente na mídia continuam por ai, só que ninguém mais dá bola pra eles. Isso acontecerá com essas duplas sertanejas de agora, com os MCs, com o funk bagaceiro, Wesley Safadão, recentemente tivemos a queda do Calypso, e a vida segue. O que incomoda é a quantidade de dinheiro e atenção que essas pessoas geram em cima de muitas famílias pobres, trabalhadores que sentam em frente a TV nas suas horas de descanso e são bombardeados por essa mídia podre. Ao invés de se contentar com essa realidade que sempre se renova e cai vertiginosamente de qualidade, escrevo este texto para, ao menos, levar algumas pessoas a reflexão, como fiz com a politica e outros assuntos. Fora esses exemplos bizarros que estão na mídia e que sumirão em breve, temos um Caetano Veloso e um Gilberto Gil, que podemos dizer que são velhos militantes políticos que hoje eventualmente relembram seu passado artístico com interesses vagos e inúteis. Um Roberto Carlos aposentado fazendo shows eventuais para atender a mídia e sendo constrangido com todas as grandes ideias de parcerias. 
          Como tem muita gente que faz aquele tipo de comentário: "Mas é o que tem por aqui, tirando isso não existe mais nada!". Para essas pessoas eu falo, sem citar artistas da minha preferência, temos Zeca Baleiro, Lenine, Tom Zé, Almir Satter, Zé Ramalho, Ney Matogrosso, Filipe Catto, Lobão, entre muitos outros, que seguem com suas carreiras passando ao lado de toda essa mediocridade imposta pela mídia. Tentei exemplificar com músicos de diversas faixa etárias para ser o mais abrangente possível, todos fazendo músicas que atenderiam o gosto popular se tivessem algum espaço. Acredito que esses artistas não precisariam colocar seus trabalhos em xeque e se sujeitarem aos caprichos de quem tem o poder de fazer as coisas acontecerem. Para requentar a obra de compositores do passado é que estes programas de música já citados, as trilhas de novelas e vinhetas de programas resgatam material do tempo que as gravadoras mandavam em tudo, e que foram absorvidas pelas emissoras de TV e empresas maiores do ramo do entretenimento, misturados com essas aberrações artísticas do nosso mainstream. Soube de depoimentos de muitos músicos consagrados que foram chamados para fazer trilhas para Globo, Record, ou mesmo para os comerciais dos patrocinadores delas, e usaram pseudônimos temendo que suas obras e reputação fossem manchadas ao assinar coisas de péssimo gosto. Já falei em alguns momentos de grandes músicos se submeterem a se perder num ostracismo artístico em troca de um emprego temporário que é bem pago e certa estabilidade.
          Hoje se admite Anitta e Paula Fernandes fazendo fiasco ao lado de Andrea Bocelli e se apaga a imagem de Tom Jobim tocando ao lado de Frank Sinatra. Que grande evolução artística! Tivemos Toquinho e Peninha escrevendo trilhas de novelas e se afundando no ostracismo, enquanto Chico Buarque de Holanda bebe vinho importado em Paris as custas do governo, Gilberto Gil vira ministro, e coisas do tipo. Quem investe numa carreira séria é ignorado, quem é profissional sério da música sai do país pra estudar e fazer carreira no exterior, outros viram empresários ou políticos para não precisar viver exclusivamente da música. Então, tínhamos Felipe Dylon, depois Michel Teló, logo após Luan Santana, agora Gustavo Lima e assim em outros estilos também. Tivemos Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Claudia Leite, agora Anitta e Paula Fernandes, mas tantas cantoras de real talento ficaram pra trás e estão tentando sobreviver? Imagine Elis Regina, Rite Lee nos tempos de Tutti Frutti e Mutantes, Alcione, até Fafá de Belém, isso sem contar as clássicas da década de 50 e 60, hoje serem representadas em sua posição na mídia por Walesca Popozuda, Tati Quebra-Barraco e tantas outras atrocidades? Sim, isso está acontecendo hoje e todo mundo aplaude.
          Mas há quem diga que isso sempre existiu. Concordo, mas agora parece que é só o que existe. Essas duplas que se dizem Sertanejo, mas que são a síntese da dor de corno e a imagem de playboy brega e o funk pop bagaceiro, que é o polimento daqueles improvisos tribais de gueto com linguagem canalha. Não existe moda de viola com sanfona e canções rurais, muito menos o swing dançante e malicioso do negro americano. Acho muito insano Gustava Lima e Mc Guimê soando iguais. É o mesmo que tentar imaginar uma relação entre a sonoridade de Tonico & Tinoco e James Brown.
Ao escrever este texto pensei em tantas outras coisas bizarras que precisariam de um livro pra explicar e citar bastante sobre elas, mas por hora vamos ficar nessa presepada ridícula envolvendo Andrea Bocelli e as duas cantoras Top Brasil e esperar a próxima bobagem. O que mais entristece é saber que há muita gente talentosa hoje em dia sem espaço ou incentivo e que um país que já foi lembrado por Tom Jobim e Villalobos, hoje mostram ao mundo Wesley Safadão, Anitta, Walesca Popozuda, Tiago Iorch e afiliados. E mesmo assim, se gasta com a promoção desses artistas uma quantia muitas e muitas vezes mais elevada do que se gastou com os grandes nomes da nossa música nos áureos tempos. Como brasileiro costuma fazer alusão ao futebol, artisticamente estamos vivendo a mesma realidade que a Seleção Brasileira mostrou na Copa de 2014. Temos tudo em nossas mãos para mostrarmos nossa qualidade e tomamos uma goleada vexatória e histórica. Como se nada pudesse ser pior, a cultura ainda pode ser motivo de piada, mas na educação, saúde, segurança e honestidade, que são coisas que realmente importam, estamos fazendo o mesmo papel. Essa é a triste verdade do Brasil no século 21, uma vergonha no esporte, na música, na politica e na sociedade. E não venham me dizer que essas coisas são desconexas, pois refletem claramente o rumo que o país está traçando para o futuro.
          Abaixo alguns links de vídeos sobre o assunto:
          https://www.youtube.com/watch?v=-MhvedF_svU
          https://www.youtube.com/watch?v=IxTGFptcT3E
          https://www.youtube.com/watch?v=g3gDG7rPYsc

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