sábado, 25 de fevereiro de 2017

O legado nacional


          Sempre fui contra a proliferação de empresas de fora do país como McDonalds, industrias automobilísticas, brinquedos, fabricantes de TVs, e outros aparelhos eletrônicos, enfim, marcas estrangeiras explorando a mão de obra brasileira e/ou simplesmente vendendo seus produtos para o mercado interno ao preço que lhes convêm e mantendo as pessoas em empregos mal-remunerados. Aqui não cito o tal "imperialismo" americano como único vilão, se é que se pode falar assim, há muitas coisas vindas de Taiwan, China e Coréia, onde a mão de obra é mais barata, o que torna as mercadorias mais acessíveis, mas limita a capacidade de produção genuinamente brasileira. Mesmo com os altos impostos praticados aqui no Brasil, os governos sempre fizeram "acordos" comerciais para possibilitar a entrada destes produtos e assim exportar muitas coisas para outros mercados, em detrimento até as necessidades internas. Eu entendo essa estratégia comercial, pois exportações atraem dinheiro de fora, o que é bem vindo economicamente falando. Entretanto, essas empresas e marcas, por mais fortes e reconhecidas praticamente no mundo todo pelo seu know how, sufocam as iniciativas de empresas nacionais e acabam por impedir a evolução tecnológica do brasileiro. Acho muito engraçado quando vejo ativistas empenhados em causas tão nobres como o direito dos trabalhadores, melhores escolas, reforma agrária, etc, mas ignoram totalmente o crescimento tecnológico e industrial do Brasil, na visão deles o trabalhador brasileiro é autossustentável, não precisa de um emprego ou produzir algo para sobreviver. São aquelas visões românticas, descoladas da realidade, de quem recebe do governo para não trabalhar, criar movimentos populares, apenas para benefício próprio.
          Se pensarmos na quantidade de veículos nas ruas e pensarmos que eles são fabricados totalmente com matérias primas nacionais, fica a seguinte questão: "Por que, ao invés de se trazer montadoras de fora com a facilidade tributária sempre oferecida, não se investe em uma empresa brasileira, que não só fabricaria os carros, mas também facilitaria a manutenção de 100 % dos itens?" Já não oferecemos vantagens suficientes para Ford, Peugeot, Fiat, etc, para explorarem nosso mercado? Não há sequer um brasileiro que possa empreender nessa atividade? Será que realmente somos inferiores a alemães, italianos, japoneses e americanos? Não seria mais fácil e justificável investir em uma empresa brasileira que empregasse brasileiros e vendesse para brasileiros? A resposta é "não"! Infelizmente, para nós. Uma nacionalização da fabricação de veículos, com investimentos em tecnologia, aperfeiçoamento de mão de obra e tudo o que for necessário para isso, demanda esforço, planejamento, convicção, disciplina, visão ampla e coragem para investir, boa parte dessas características o brasileiro em geral não possui. Muitos que tiveram este tipo de iniciativa acabaram por vender suas empresas, em estágios quase que embrionários, para não precisarem trabalhar mais e viver de renda. O brasileiro, em sua maioria, busca o ócio. Por esse motivo há tantas fraudes na previdência, gritaria quando se fala em qualquer alteração na CLT, comoção nacional por bolsa família, entre outros.
          O caso da fabricação de automóveis é apenas um exemplo. Poderíamos expandir mais nossa visão para outras áreas com facilidade. Claro que eu não estou analisando de forma exclusivamente econômica, embora essa analise não seja negativa, até considero o contrário, minha analise está mais direcionada a construção de uma nação em si, e todo o seu potencial a ser explorado. A criação de precedentes que gerem frutos, mesmo que não aqueles ideais se comparado a marcas estrangeiras, mas com a marca do brasileiro, que estimulasse nossa iniciativa criativa e construtiva. Claro que muitas empresas nacionais tem destaque no mercado, mas vislumbro algo maior, algo de excelência, onde a própria educação fosse direcionada para esse objetivo. Vemos propagandas na televisão, na internet e no rádio sobre exportação de frutas, legumes, carnes, leite, grãos e etc, enquanto isso safras inteiras são perdidas por não chegarem aos consumidores, excesso de ofertas, queda de preços. Porém, em muitos lugares, pessoas ainda passam fome. Qualquer um que já estudou um pouco de economia sabe que as atividades estão interligadas economicamente, portanto, é um horizonte que se abre ao planejarmos nossa economia com base no mercado interno e com avanço tecnológico.
          Como eu tenho minha origem profissional em fábricas de fundo de quintal, passei pela iniciativa privada e trabalhei em multinacionais, conheço por dentro algumas coisas relativas as empresas estatais, pude construir, com o auxilio de palestras e muita leitura técnica, esse pensamento mais nacionalista, mas prioritariamente, mais localista. Se compararmos os perfis regionais de nosso país continental, constataremos que há um gigante heterogêneo a ser interpretado e reorganizado. É estúpido e canalha quem prega que, como sendo uma unica federação, todos os estados devem ser iguais e funcionarem da mesma forma. Isso é um absurdo. As características regionais precisam ser respeitadas, e isso só é possível com a descentralização de diversos assuntos, principalmente o econômico. É preciso compreender que temos um potencial enorme a ser explorado em quase todas as áreas, mas é necessário um estudo mais profundo do perfil de cada localidade. Entretanto, isso é impossível com a alta carga tributária e a atual divisão dos percentuais, sendo que 69,83% é da União, os Estados ficam com 25,59% e os municípios ficam com apenas 4,58% do total dos impostos. Há formas bem mais objetivas de se analisar isso e construir um cenário mais detalhado, mas pelos percentuais, já se tem uma base de como as coisas funcionam. É exatamente pela distancia e a necessidade do repasse da União para baixo, que se dão inúmeras fraudes dos mais variados tipos. Se houver um planejamento local, de acordo com a arrecadação do município, com uma parcela maior para este, também o repasse de certas responsabilidades, creio que haverá uma facilitação no diálogo entre os governos e a iniciativa privada, onde os impostos pagos por determinada empresa, de preferência nacional, ficariam para a manutenção do entorno da mesma.
          Para ilustrar algo bem comum e que pode soar absurdo, mas que a maioria das pessoas não se dá conta, ou não dá a devida atenção, é a forma como as empresas no Brasil agem, principalmente as concessões e as empresas públicas. Empresas de comunicação, energia, entre outras atividades, ao invés de desenvolver tecnologias próprias para determinadas atividades, acabam por contratar mão de obra estrangeira, fazer concessões a multinacionais ou simplesmente entregar as riquezas brasileiras para exploração estrangeira. Cada equipamento que entra em uma ampliação de uma usina hidroelétrica, numa subestação de transmissão ou distribuição de energia elétrica, por exemplo, é projetado lá fora, muitas vezes fabricados também e normalmente são instalados por mão de obra estrangeira. A própria Petrobras, com o advento do pré-sal, entre outras atividades, acaba por terceirizar ou ceder por completo a exploração de parte de seu nicho. Há uma dependência ampla, e que aumenta a cada dia, do know how estrangeiro e isso só trás facilidade para quem lida com esse assunto, mas nenhum benefício real para o brasileiro. O Brasil deveria ser o único responsável por explorar as riquezas e as possibilidades dentro do território nacional, mas é muito mais comodo entregar para as empresas estrangeiras. Fica outra pergunta: "Por que existem tantas universidades e escolas técnicas se todo o know how produtivo vem de fora?" Alias, quem busca ser realmente qualificado em algum setor, normalmente vai esse conhecimento fora do Brasil. Mesmo que muitas premiações possam ser discutidas, até fraudulentas, não vemos brasileiros recebendo prêmios ou citações por inovação ou serviços prestados, se eles figurarem em alguma cerimônia dessas, é por ser exótico ou por ter se preparado fora do país. 
          Aí eu olho para o mapa e vejo o tamanho de países como Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, entre outros, começo a pensar no que estes países já contribuíram em diversas áreas, tanto cultural como tecnológica, e tento entender por que o Brasil não pode, ao menos, evoluir mais um pouco? Eventualmente emergem do nada casos de escolas premiadas, pessoas se destacando em algumas áreas, mas se compararmos até a nossos esportes, veremos que há muito pouco a ser mostrado. Temos um pouquinho de África, um pouquinho de Europa e um pouquinho de Ásia em nosso DNA, mas essa prularidade não tem convergido em grandes avanços. Podemos assistir comerciais com maravilhas tecnológicas a pouco tempo por conta da Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas o que sobrou foram obras inacabadas, estruturas abandonadas e um grande déficit econômico. O aclamado "legado da Copa" é uma grande crise econômica e um monte de "elefantes brancos" sugando milhões de Reais que não servem pra nada. Acostumamos a debochar de pessoas como D. João VI, que trouxe uma biblioteca inteira de conhecimento de Portugal, José Bonifácio que deixou um legado que simplesmente gerou um país inteiro, tivemos dois imperadores que são tão denegridos, mas que tinham mais cultura do que toda a classe intelectual brasileira do século XX junta. Pra quem teve a oportunidade de ler alguns dos discursos dos senadores do império, ou até do início da república, e compara com o que temos no nosso legislativo hoje é de dar vergonha. Como o Brasil é vasto em território e populoso, podemos encontrar casos de excelência em algumas áreas, no mais é uma mediocridade que se reflete na arte, na ideologia, na arquitetura, na economia e está em estágio avançado de degradação também de caráter. 
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