domingo, 19 de março de 2017

Chuck Berry e a imortalidade da arte


          Ontem, sábado 18 de março de 2017, faleceu a lenda do Rock de codinome Chuck Berry. Negro, pobre, com duas prisões no currículo e respeitado por gerações que o sucederam. Sua música transcende mais de quatro décadas, influenciando Beatles, Elvis Presley, Rolling Stones, ACDC, entre muitos outros. Desde o final da década de 1970 ele não gravava um álbum, mesmo assim seus clássicos como School Days, Johnny B. Goode, Roll Over Beethoven e You Can't Catch Me ficaram para a posteridade como alicerces de um estilo que gerou outros tantos, o Rock n' Roll. Suas letras falavam de carros velozes e luxuosos, mulheres e dinheiro, o oposto do que tinha como realidade na sua vida. O sucesso veio em meio a perturbações e desatinos comuns a todos nós. Mesmo com uma vida difícil no inicio e conturbada no seu auge, Chuck Berry, o homem, morreu aos 90 anos, talvez sem ter recebido o retorno financeiro merecido por sua importância, assim como outros tantos. Nascido no Missouri em 1926, teve como influência Muddy Waters e Nat King Cole. Trabalhou na fábrica na General Motors e só foi entrar na música definitivamente já nos anos 1950, fazendo sucesso em 1955. De lá pra cá seu trabalho é conhecido dos fãs.
          É notório o valor da música negra feita no sul dos Estados Unidos na primeira metade do século XX. Lendas do Blues e do country surgiram nessa época. Já fiz uma postagem falando das origens do Blues aqui e a importância do estilo aqui. É de fundamental importância nos dias atuais as pessoas tentarem se conectar a histórias de outras pessoas. Digo isso porque noto que as gerações que se sucedem após a minha, tendem a se desligar de suas origens, por consequência, tornarem-se pessoas sem legado, sem história, sem responsabilidade histórica. A família tem se tornado mais um estorvo do que motivo de orgulho para os jovens, principalmente. Acostumados a conectarem-se com pessoas do mundo todo via internet, mas incapazes de estreitar laços com as pessoas a sua volta. Quando leio as histórias de B.B. King, Lemmy, Davis Bowie, Elvis Presley, entre outros tantos escuto seus trabalhos, noto como as pessoas, as vezes frágeis emocionalmente, problemáticas e até dignas de pena em determinado ponto, transcendem a vida com sua arte. Parece que uma força maior os escolhe para transmitir algo que os imortalizará. Deslocados dessa graça, estamos todos em estado catatônico, hipnotizados pelas telas de nossos Smartfones, com um mundo de informações em nossas mãos e nos tornando mais idiotas a cada dia.
          Por mais simples e diretas que fossem as letras e as músicas de pessoas como Chuck Berry, há verdade, existe mais do que é gravado em um disco ou apresentado nos shows. É a história de pessoas reais, contadas de forma artística e que conectam pessoas desrespeitando o tempo e o espaço. Em tempos onde grande parte das pessoas estão apenas preocupadas em garantir recursos para garantir o financiamento de seu ócio, ver um homem de 90 anos planejar gravar um novo álbum e projetar sua aposentadoria, tendo estado nos palcos durante mais de seis décadas, deixa espaço para uma reflexão a respeito de nós mesmos. Será que todas essas pessoas que morreram e deixaram seu legado não seriam exemplos melhores a serem seguidos do que estes que temos hoje à frente de movimentos reivindicatórios? Não são os indivíduos os protagonistas dessa imortalidade artística e não os grupos, as minorias? Escritores, músicos, arquitetos, entre outros apaixonados pelas atividades dificilmente param de fazê-las antes de sua morte, deixam um legado para as gerações seguintes e servem de influência para quem quiser segui-los.
          Com a morte de Chuck Berry, mais uma obra está completa, com seu início e agora com seu fim. O corpo esfria, apodrece e vira pó, mas o que foi feito permanece e tende a ganhar força com a morte de seu protagonista. Para os artistas a morte é apenas uma condição momentânea que os iguala aos demais mortais. Viver para produzir é um talento para poucos, a maioria produz pensando no momento que não precisarão mais fazer nada, adiam seus sonhos para uma aposentadoria ou para um acumulo de dinheiro de forma fácil e fraudulenta. Por sorte, a grande maioria dessas pessoas morrem no anonimato e nada significam depois de mortas. Ser culto e sábio é saber ouvir os mortos, para os fãs de música, essa tarefa se torna prazerosa e gratificante. É mais sábio aquele que consegue ver beleza nas coisas simples, que prega sua verdade, seja como música ou de forma escrita, assim, quando sua luz se apaga muitos param para lamentar sua ausência e refletir sobre sua breve passagem no mundo dos vivos. Enquanto escrevo este texto, estou ouvindo os primeiros álbuns de Chuck Berry e tomando uma aula de como um artista de verdade deve lidar com seu ofício. Imagino o quanto era difícil gravar um álbum e fazer shows para sobreviver de música nos anos 1950 e 1960. Hoje, muitos de nós tem estúdio em casa com todas as ferramentas para trabalhar e ficam procrastinando e inventando desculpas. Falo especificamente de mim e dos músicos que conheço, onde há uma preocupação com detalhes e frescuras diversas, quando o verdade artística se afoga num pântano de futilidade e insegurança.
          Para encerrar essa postagem, fico feliz em poder falar de música neste espaço depois de um tempo falando de outras coisas. Há de se pensar muito bem nas coisas que acontecem a nossa volta e refletir sobre elas, afinal, é a história acontecendo e está passando batido, longe da percepção dos artistas, que parecem corrompidos por ideologias e benfeitorias governamentais. Jornalistas, escritores, músicos e as pessoas em geral estão adormecidas e coniventes com tudo que acontece no mundo. Haverá um tempo em que as pessoas buscarão informações sobre o nosso tempo e só encontrarão opiniões furadas, lamentações e discursos vazios, pois é assim que estamos registrando nossa história, com uma pseudointelectualidade de frases prontas, ideologias retrógradas e descoladas da realidade, sendo incapazes de resolver nossos problemas de verdade, estamos debatendo sobre teorias hipotéticas enquanto a realidade dos fatos deixa mais de 60.000 brasileiros mortos por ano, a corrupção age em todas áreas possíveis e imagináveis de nossa sociedade, drenando todos os recursos gerados por nosso trabalho. Mesmo assim, defendemos com unhas e dentes nossas ideologias coletivistas enquanto sumimos como indivíduos. Por sorte, Chuck Berry não precisou perder tempo disputando cotas para negros no Rock e no Blues, pois muitos deles acabariam sendo ignorados para dar espaço para um branco sem talento.
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