sábado, 13 de maio de 2017

Ghost e Rob Zombie em Porto Alegre

          Assistí diversos shows interessantes na minha vida desde o primeiro que fui, Raimundos, Sepultura e Ramones na Acid Chaos Tour de 1994, passando por Rammstein, Kiss e Metallica em 1998, Hammerfall, Dio, Yngwie Malmsteen, Angra e Dr. Sin no início dos anos 2000. Nesse período também assisti aos shows do Whitesnake com Judas Priest, depois Deep Purple e Ozzy no Gigantinho, no mesmo local, o festival Live N' Louder com 69 Eyes, Rage, Destruction, Shaaman, Nightwish e Scorpions. Vi o Helloween com o Gammaray, já no Pepsi On Stage, Megadeth, Slash, Winger e Mr. Big. Estive no festival Monsters of Rock na versão reduzida de Porto Alegre na última turnê do Motorhead antes do falecimento do ícone do Rock Lemmy Kilmister, falei a respeito aqui e aqui. Mais shows pequenos tipo do Richie Kotzen no Beco. Deixei de lado alguns, pois simplesmente fui citando os eventos aleatoriamente para ilustrar essa postagem e situar o leitor sobre algumas oportunidades que tive de presenciar momentos interessantes da carreira de certas bandas, como ver uma única música na apresentação do Motorhead em um de seus últimos shows. Assisti ao show do Black Sabbath em sua derradeira turnê, o Guns n' Roses em sua versão alternativa e burocrática antes da volta de Duff e Slash para a banda. O Rival Sons abriu para o Black Sabbath, assim como Sebastian Bach abriu para o Guns. Isso foi legal, pois pude ter uma referência de como essas bandas novas estão se apresentando, falei disso aqui. É comum o pensamento saudosista dos roqueiros que impede que muitos deem atenção para as novas bandas, mas elas que mantém a chama acesa e todos os grupos clássicos já foram iniciantes e foram vistos com desconfiança. A própria banda do Slash com Myles Kennedy era uma novidade na época.
          Bem, esse preambulo serve para falar de um show inusitado que reúne Ghost e Rob Zombie, duas referências mais modernas do Rock/Metal. Rob Zombie é veterano, começou nos anos 1980 com o descartável, na minha opinião, White Zombie. Entretanto, sua carreira solo é interessante e conta com dois álbuns muito bons, os primeiros Hellbilly Deluxe e The Sinister Urge. Já Educated Horses tende a ser mais pop, mas ainda tem boas composições, assim como os dois seguintes. Entre eles há duas coletâneas e meia dúzia de álbuns ao vivo. Seu estilo meio industrial com Nu Metal não me agrada muito, mas o Rock Horror sempre é legal ao vivo. Nessa mesma linha segue o Ghost. Muitos ficaram decepcionados com a sonoridade da banda, pois esperavam algo mais Black Metal talvez, por conta do visual do Papa Emeritus III e seus Nameless Ghouls. São três álbuns, alguns singles e EPs que mostram uma sonoridade mais voltada para o Classic Rock dos anos 1970, na linha do Blue Oyster Cult, com teclados sinistros, guitarras distorcidas e vocais melódicos. Tudo isso embalado em uma roupagem que apresenta uma caveira de um reverendo das trevas e cinco misteriosos músicos mascarados e vestidos de forma idêntica. Eu achei a ideia sensacional e as composições muito boas. Me passou a imagem de uma ressurreição do Rock dos anos 1970, tipo Alice Cooper e Arthur Brown, vindo direto do inferno. Faltava apenas comprovar em um local de médio porte e com muitas referências que já tenho de shows anteriores, se essas duas bandas são realmente consistentes ou são apenas produtos de uma superprodução estética e de estúdio.
          O Ghost começou o show com a famosa trilha do filme Eyes Wide Shut, Masked Ball, onde o plano de fundo é uma espécie de missa negra com todos os participantes mascarados e depois se segue uma orgia. Bem apropriado para a proposta da banda, já que conta com seus integrantes mascarados simulando uma celebração. Porém, quando o show da noite de 10 de maio de 2017, no Pepsi On Stage em Porto Alegre, já se notava a ausência do baixista, no caso a baixista, segundo o Papa Emeritus III, ele estaria acompanhado por apenas quatro dos cinco Nameless Ghouls devido a um problema em particular que fez o músico tocar fora do palco. Isso foi um problema, pois além do som não estar legal, há certos trechos tem linhas de baixo bem evidentes e não ver o musico ali foi um pouco perturbador, para mim pelo menos. Tirando isso, a banda é competente, com seu exótico líder solicitando aplausos para os solos dos guitarristas e do tecladista. As músicas executadas foram basicamente as de trabalho de seus três álbuns, o que fez o pessoal cantar junto em algumas partes mais pegajosas. A primeira após a introdução foi Square Hammer, do terceiro álbum da banda, From The Pinnacle To The Pit. Ritual, Absolution, Mummy Dust, Cerice, Year Zero, Secular Haze, entre outras, estiveram presentes. O personagem Papa Eméritus na sua terceira encarnação, agora sem a imagem de bispo católico infernal, lançando mão de um visual mais no estilo King Diamond, visivelmente é o centro de tudo que acontece tanto musicalmente quanto visualmente. Certos trejeitos lembraram muito Rob Halford do Judas Priest, mas sem todo o potencial vocálico, é claro. O Ghost, embora com problemas inegáveis envolvendo a debandada de seus antigos Nameless Ghouls, conseguiu entregar um bom show, embora curto. Eles não são estrelas do tamanho que muito gente pode imaginar, ainda é uma banda iniciante e carece de rodagem e passar pelo teste do tempo. As mudanças de formação não contribuíram para isso, embora os músicos sejam muito competentes e empolgados. O Ghost é um Rock Horror ao estilo King Diamond, Alice Cooper, Arthur Brown, etc, com uma espécie de encarnação genérica de Rock anos 1970 vindo direto do inferno, como falei anteriormente, e suas apresentação, a julgar por esta de 10 de maio de 2017, segue nesse sentido.
          Já Rob Zombie é "o cara" no palco! Gostando do estilo industrial e direto de seu Rock Horror ou não, tem de se admitir que o cara sabe o que faz. Tem uma banda muito competente, esbanja energia, dançando e agitando o tempo todo. Essa vibe se amplia ao seu excelente guitarrista John 5 e seu baixista Piggy D. O baterista Ginger Fish é preciso e tem a mão pesada como Mike Bordin do Faith No More. O som é muito pesado e num ritmo frenético, só prejudicado por alguns problemas técnicos no som e na iluminação. Em determinado momento Rob joga o microfone longe com pedestal e tudo. Ele abriu seu show com Dead City Radio and the Ghosts of Supertown. Rolaram musicas do novo álbum The Electric Warlock Acid Witch Satanic Orgy Celebration Dispender de 2016, como a divertida Well, Everybody's Fucking in a U.F.O, com Rob Zombie jogando dois ETs infláveis para a galera se divertir. Músicas como Dracula, Demonoid Phenomenon, House of 1000 Corpses, Superbeast, Living Dead Girl, fora dois clássicos do White Zombie, More Human Than Human e Thunder Kiss '65 e um trecho de School's Out de Alice Cooper. Se no Ghost falta certa rodagem, pra Rob Zombie sobra. Assistindo seu show eu tive aquela sensação de que aquilo que estava exposto no palco é o tamanho exato daquela determinada banda, embora a quantidade de pessoas presentes tenha decepcionado um pouco, mas jusificável pela grande quantidade de shows em Porto Alegre em maio. É difícil de entender como que Marilyn Manson tenha causado maior aceitação do público que Rob Zombie em termos gerais, já que o segundo tem uma identidade muito mais coesa e é um verdadeiro fã de Heavy Metal. Quem curte um show com guitarras pesadas, quatro seres bizarros tocando músicas de terror com extrema competência e carisma, não deve perder uma apresentação deste cara. Em especial do guitarrista John 5, que com suas guitarras exóticas, ora lançando lasers, ora brilhando no escuro, foi o responsável por todos os efeitos eletrônicos dos álbuns e acrescentando muito peso ao som.
          Em termos gerais, o show foi bom, mas não foi o melhor que prestigiei no Pepsi por motivos que vão além da competência das bandas. Mas se a expectativa era conhecer o que são Ghost e Rob Zombie ao vivo, o primeiro deixou um pouco a desejar, já o segundo entregou o que vendeu na medida exata. O bom é ter na bagagem demonstrações do que o Metal/Rock dos anos 2000 pode oferecer, mesmo que Rob Zombie seja um sobrevivente da década de 1980, sua música é bem atual. Já o Ghost é o fruto deste século e estourado nessa década, portanto, mesmo que, como o Rival Sons, seja um remake do Rock do passado, essas bandas é que carregarão a tocha por um tempo, já que o Black Sabbath, o Deep Purple, entre outros já anunciaram aposentadoria ou ficaram pelo caminho. Ao ver jovens de vinte e poucos anos nos shows em grande quantidade, percebo que o Rock/Metal, está tão vivo quanto estava nos seus melhores momentos, mesmo não estando na mídia tradicional.

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