quinta-feira, 15 de junho de 2017

Nossos heróis


          Olho com desconfiança para uma pessoa como João Dória, atual prefeito de São Paulo, por considerá-lo marqueteiro e pertencer ao PSDB, um partido com origem e princípios parecidos com o PT e que reveza com o mesmo no poder, sempre contando com o apoio do PMDB . Entretanto, por mais que muitos especialistas e jornalistas critiquem a forma com que ele tem tratado a cracolândia, é de vital importância que se acabe com esse tipo de local degradante. O ex-prefeito Fernando Haddad do PT, lançou um programa de combate ao crack chamado "de braços abertos", que ao invés de acabar com a cracolândia que já existia, deu origem a mais cinco em outros locais da cidade. Mesmo vendido como um programa modelo, o resultado fala por si, aumento do uso e do tráfico. Estou longe de São Paulo para saber detalhes de tudo isso, mas conheço dependentes de crack e imagino como seria ter um ponto onde se consumisse e traficasse livremente. Quem fala contra a iniciativa de Dória, com certeza lucra com a situação, ou é financiado para defender a existência de tais locais. Desde a década de 1970 a politica e o tráfico de drogas tem estreita parceria. Imagine um negócio que movimenta milhões de Reais anualmente se não teria apoio de certos partidos e de sua militância? Pois não apareceu um movimento de apoio a cracolândia para hostilizar Dória e Alckimin? Quando costumamos ver movimentos deste tipo, mesmo? Se você pensou em "Fora Temer" e "Diretas Já" está coberto de razão. É fácil notar a semelhança nas palavras de ordem e na forma como agem.
          Mas o que me motivou a escrever este texto hoje, primeiramente, foi uma reportagem do Fantástico que foi ao ar no dia 11, que acabei assistindo de passagem. Eles relataram a morte de um ex-dependente de crack e heroína, que havia sido retirado das ruas de São Paulo. Carlos Eduardo Maranhão, era de uma família de classe média alta do Rio de Janeiro e havia estudado em uma escola carioca de referência. Os amigos o chamavam de Sarda e há muito tinham perdido contato com ele. Foi um vídeo na internet que possibilitou encontrá-lo e resgatá-lo das ruas. Levaram-no para uma clinica de reabilitação, onde ele estava se recuperando bem, até sofrer uma parada cardiorrespiratória no dia 7. Triste para a família e amigos, mas é apenas mais um caso entre milhares que passam anônimos sem serem divulgados. O que me causou repulsa, foi atores da rede Globo aparecerem declamando versos em homenagem ao falecido, como se o mesmo fosse um herói ou um exemplo. Ora, por mais que o lado humano fale mais alto nessas horas, uma pessoa de boa família, que estudou em uma boa escola e resolveu ficar morando nas ruas para entregar-se ao vício, não é exemplo, nem herói. Quantos Sardas frequentam essas cracolândias e quantos mais ainda irão frequentar se a sociedade não acabar com elas? Demonizar quem combate a criminalidade e santificar quem se entrega ao vício e a vida marginal é uma prática corriqueira de uns anos pra cá.
          Aproveitando essa postagem, vou comentar sobre o "coitadinho" do ladrão adolescente que foi pego ao tentar roubar a bicicleta de um deficiente físico. Dois homens o capturaram, torturaram e tatuaram "sou ladrão e vacilão" em sua testa. Isso causou comoção entre certos meios, os mesmos que apoiam a cracolândia, pois não passa de um adolescente de 17 anos. Saiu nas redes sociais, não sei se é verdade, mas teoricamente haviam levantado 15 mil reais para financiar a remoção da tatuagem. É impressionante como certos seguimentos da sociedade, normalmente os de maior relevância, adoram abraçar causas que envolvem bandidos. Na verdade são sempre os mesmos. Como o caso do tal Ximbinha, lembram, o estuprador? Pois bem, essas pessoas que mandam na sociedade e formam a opinião das massas. Ser ladrão pode, mas ter isso escrito na testa não? A vergonha não é roubar e sim ser taxado de ladrão? Sei como é difícil para uma família lidar com uma pessoa que envereda pelo mundo do crime. Começa assim, consumo de drogas, pequenas tarefas para o tráfico, pequenos furtos, e como há uma comoção em defesa do infrator, isso é um incentivo para que o mesmo se torne um bandido altamente perigoso. Infelizmente, vivemos em um país onde o crime compensa sim. Se você é um trabalhador, que pega ônibus ou trem lotado para ir e voltar para o trabalho, paga seus impostos, no máximo pode ser noticia engordando estatísticas de roubos, furtos e morte, como vítima.
          Usei estes dois exemplos recentes, mas poderia usar muitos outros, para alertar as pessoas de que é impossível grupos que defendem ladrões e traficantes, cuidarem da sociedade. Qualquer atividade que gere muito dinheiro, seja lícita ou não, vai ter o apoio de partidos políticos e gente ligada ao jornalismo ou sindicatos fortes. A matéria do Fantástico foi uma forma amena de atacar o prefeito de São Paulo, deixando subentendido que se tirar os viciados em crack das ruas e acabar com as cracolândias, acabarão torturando e matando estes dependentes, como se estes já não estivessem em estado de mortos-vivos. Quanto ao ladrão adolescente, quem toma uma atitude contra um bandido é que é punido, não o contrário. O exemplo vem de cima, quem é ladrão, assassino ou corrupto, sempre terá o respaldo de determinados grupos, e estes grupos, controlam a mídia, as escolas, universidades, sindicatos, o meio artístico e os jornalistas. Assim fica difícil vislumbrar um futuro com otimismo.   

sábado, 10 de junho de 2017

A evolução do Heavy Metal

          Lendo biografias, acompanhando matérias de revistas, e ultimamente acompanhando as bandas através da internet, pude montar certos conceitos, que se não são definitivos, ao menos me dão uma visão panorâmica do cenário metálico nos mais de 45 anos do estilo e sua construção evolutiva. Como sou apaixonado pela sonoridade que saltava dos velhos discos de vinil das décadas de 1970 e 80, acompanhei a transição para os cds na década de 1990, também fiquei receoso com o início dos anos 2000, com a popularidade dos arquivos MP3 e o compartilhamento irrestrito dos mesmos pela internet, por último encarando a segunda década do século XXI e suas idiossincrasias. Quando digo Heavy Metal neste texto, também quero citar bandas de outros gêneros como Hard Rock, Metal Melódico, Thrash Metal, Death Metal, Black Metal, e todos os sub estilos derivados destes que foram surgindo ao longo dos anos. Por isso, nesta postagem em especial, vou dar minha opinião a respeito do cenário específico que mais amo, falando das bandas que poderão ilustrar o que digo e dos fãs que mantiveram a chama acesa e jamais largaram as bandas, tendo em vista as mudanças constantes ao longo dos anos. Não quero aqui menosprezar ou comparar importâncias, vou citar os nomes  mais conhecidos e os fatos que ocorreram.
          Em 13 de fevereiro de 1970, uma sexta-feira, foi lançado o primeiro álbum de Heavy Metal, Black Sabbath do Black Sabbath. Se voltarmos aos bastidores da época, o Rock n' Roll e o Blues já estavam em alta. Rolling Stones, Jethro Tull, Beatles, entre outras bandas, já chamavam as luzes dos holofotes para a Inglaterra, assim, Led Zeppelin, Deep Purple e o próprio Black Sabbath se tornaram o alicerce para bandas como Judas Priest, Accept, Rainbow e que tais. Por outro lado, o Yes dava um impulso ao Rock Progressivo, no Canadá surgia o Rush, e por ai vai. Não vou aqui citar todas as bandas e sub estilos, cito estas para ilustrar o pensamento que tenho á respeito da época. O Rock/Metal estava ficando cada vez mais complexo e flertava com jazz e principalmente, com a música clássica. Isso não durou toda a década, pois já havia os primórdios como Hendrix, The Doors, Cream, entre tantos outros, que antes dos anos 1970 já consolidavam o cenário. O festival Woodstock apresentou grandes nomes do Rock do final de 1960. O Rock já era um estilo reconhecido e respeitado em boa parte do mundo. Entretanto, as coisas eram feitas mais na raça do que estruturada. Bandas ganhavam dinheiro com seus shows e lançamentos frequentes de seus discos.
          Em 1977 surgiu o Punk Rock, jogando um balde de água fria sobre os grandes nomes do Rock, que ousavam com seus álbuns conceituais e cada vez mais complexos. O novo estilo oferecia músicas mais simples e com letras mais condizentes com a realidade do mundo. Bandas como Black Sabbath e Yes mostraram em suas discografias os efeitos colaterais do surgimento do novo estilo. Porém, nesse cenário surgiu o antidoto contra o ostracismo e o grande salto de qualidade do Heavy Metal, a New Wave of the British Heavy Metal, com bandas como Sansom, Angel Witch, Tygers of Pan Tang, Def Leppard e principalmente, Iron Maiden. O Metal se mostrou mais focado em mostrar atitude, certo virtuosismo técnico e um grande leque de opções de sonoridades. As experiências das bandas precursoras e a cena montada por elas, ajudaram o novo estilo a dar bons frutos. O Metal se tornava uma epidemia que se renovava, cada vez mais selvagem e atraente.
          Fãs de NWOBHM acabaram por criar o Thrash Metal, seu principal nome, Metallica. Ao mesmo tempo surgiram Slayer, Anthrax, Megadeth, Testament, Armored Saint, Kreator, e por aí vai. Músicas rápidas e com riffs elaborados, bumbos dobrados e coletes jeans sobre jaquetas de couro, o Heavy Metal alcansava sua maturidade, cheio de testosterona e radical em alguns sentidos. Os anos 1980 foram bem interessantes, pois os grupos formados na década anterior, mesmo perdendo um pouco de sua superioridade, davam ao mundo álbuns muito bons. É o caso do Black Sabbath com seu Heaven and Hell, com Dio nos vocais, e ao mesmo tempo, Ozzy Osbourne lançava Blizzard of Ozz, um disco ótimo. No final da década de 80, crescia novamente o Rock de arenas com o Whitesnake se consolidando, o surgimento de bandas como Poison, Cinderella e principalmente, Guns N' Roses. Nos EUA, havia a rivalidade entre as bandas de Hair Metal, com laquê no cabelo, batom e maquiagem, contra os jovens magricelos, de cabelos longos, mais agressivos e desleixados. Thrash versus Hard Rock, um antagonismo que se desmanchou quando ambos os estilos se encontraram em baixa. Em determinado momento, bandas como Motley Crue e Metallica apresentavam a mesma sonoridade.
          O Thrash esfriava com o excesso de bandas e a saturação do estilo, mas o Death Metal mostrava sua cara com bandas como Morbid Angel, Deicide, Death, Cannibal Corpse, Carcass e Napalm Death, jogando o Metal para um outro nível de peso e velocidade. Se as bandas de Thrash amenizavam seu som e buscavam o mainstream, o Death Metal conquistava o coração daqueles órfãos de música extrema. Talvez o final dos anos 1980 e início dos anos 90 tenham sido o período mais emblemático do Heavy Metal, praticamente todas as principais bandas já tinham dado o seu melhor, sendo que Guns N' Roses e Metallica eram as maiores bandas do mundo, enchendo estádios e vendendo milhões de álbuns. Mas os anos 1990 mostravam certa crise de criatividade por algumas bandas e sub estilos. O Thrash e o Death Metal flertavam com o Punk, enquanto o Heavy Metal tradicional tentava se aproximar da sonoridade mais pesada e densa. Iron Maiden era um nome soberano e representava a sobrevivência do NWOBHM. Muitas bandas mais tradicionais pararam ou mudaram sua sonoridade tentando sobreviver no cenário.
          O fator Seattle foi definitivo para a terceira década de Heavy Metal. Se o aparecimento do Punk no final dos anos 1970, brecou de certa forma as bandas tradicionais do Rock e lançaram dúvidas sobre o futuro do estilo, Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chais e Soundgarden faziam um revival daquele sentimento. Ao invés de grandes espetáculos em estádios de futebol, virtuosismo técnico e tudo levado ao extremo, o Rock Alternativo esquentava bares intimistas e cheios de frustrações juvenis. Letras obscuras, ambientes desoladores, que remontavam o ambiente onde nascera o Black Sabbath. Para muitos, o cenário grunge poderia ser um hibrido entre os pais do Heavy Metal e o punk do final da década de 1970. Vários músicos daquele estilo confessaram sua aberta influência de Tony Iommi e o Blues, com pitadas de Punk Rock. Se na cabeça de muitas pessoas, o Rock voltava a ser cru, abandonando suas características mais óbvias como solos virtuosos de guitarra e baterias rápidas e pesadas, tudo voltaria rapidamente com a afirmação do Pantera e os embriões do Nu Metal. Mesmo num cenário desolador, ainda dava pra notar que em alguns lugares pequenas cenas borbulhavam. O Death Metal começou a ficar mais polido e evoluiu sua sonoridade ficando mais parecido com o Thrash Metal. Bandas como Death e Carcass chegaram a lembrar em muito o Heavy Tradicional. Entombed e Testament chegaram a apresentar a mesma sonoridade, houve uma fusão de estilos.
          O Metal se reciclou, se fundiu a outros estilos e entre si, Pantera, Sepultura e Faith No More apresentavam uma opção de sobrevivência para o estilo, assim como Living Colour e Red Hot Chilli Peppers, trouxeram muito do Funk e música negra para o Rock. Body Count e Suicidal Tendencies mostravam uma faceta mais ligada a periferia urbana, com skate e Rap se integrando a mistura. As gravadoras já não investiam tanto em bandas de Rock e Metal, o que fez muito gigante do cenário parar por um tempo, ou mesmo buscar novas formas de arte, pois as misturas eram as apostas de mercado. Enquanto bandas como Black Sabbath, Judas Priest, Deep Purple, entre outras, rechearam suas discografias com muitos álbuns, as novas bandas não conseguiam passar de quatro ou cinco lançamentos, isso prejudicava suas ascensões e decepcionava seus fãs. Muitos projetos paralelos e um cenário de confusão marcaram o final da década de 1990 e início dos anos 2000. A MTV que ajudara a trazer muitas bandas para a mídia e mostrar seus trabalhos, contribuiu para que as bandas de Heavy Metal fossem jogadas para um plano intermediário. As também também deixaram de lado estes estilos, dando maior exposição para a musica fácil e popularesca.
          Se o século XXI iniciou com bandas como Slipknot, Korn e Linkin Park ditando as tendências, com afinações baixas e flertando com música eletrônica, isso mostrava que as bandas de Metal Clássico eram coisa do passado. Pessoas cobertas de tatuagens e piercings apareciam nos festivais tradicionais em meio a jaquetas de couro e camisas de flanela. O que parecia ser uma mistura soturna e decadente, foi o surgimento da reciclagem e a idade da razão do Heavy Metal. Ver lado a lado Judas Priest, Motorhead, Ozzy, Rival Sons, Helloween, Ghost, Faith No More, Testament, Metallica, Iron Maiden, entre tantas outras, mostram que o Metal é atemporal e pode ir desde o Rock acústico com características locais até o mais moderno, agressivo e insano, agradando de forma até meio exótica, todo o público que frequenta os shows e acompanha as bandas.
          Os anos 2010 já voltavam a mostrar bandas de Metal lotando casas de shows, dinossauros do Rock voltando a ativa e lançando bons álbuns, a internet foi compreendida e usada a favor das bandas e agrega milhões de jovens para os shows. Mesmo com Black Sabbath, Deep Purple, entre outras, anunciando aposentadoria, muitas bandas surgiram e começam a se consolidar ou serem reconhecidas pelo público. Embora não seja algo muito comum, muitas bandas novas tem alcançado o reconhecimento de fãs mais ortodoxos de cada estilo. Vejo que as coisas se modificaram, se misturaram, houve revivals, idas e voltas de certas bandas, turnês comemorativas, parcerias inusitadas e muito mais. O Metal está onde sempre esteve, na obscuridade, mas chamando muito atenção. Quando o Heavy Metal chegou ao mainstream, foi a época mais pobre, entretanto, está no caminho que sempre trilhou. Ainda ouço os álbuns clássicos com a mesma paixão, mas prefiro sempre ficar atento as bandas novas que aparecem em revistas e sites. Há muita qualidade e criatividade no cenário metálico atual, basta um pouco de atenção e menos preconceito para perceber isso. Recentemente bandas como Metallica, Megadeth, Iron Maiden, Deep Purple, lançaram álbuns de inéditas, assim como Muse, Ghost, entre outros, se consolidam e ficam definitivamente suas presenças na história, gostando os ortodoxos ou não.