sábado, 5 de agosto de 2017

Espantalho

          Acho que todo mundo sabe o que é um espantalho e para que serve. Para quem não sabe, um espantalho é um boneco que se coloca no meio da lavoura para espantar os pássaros. Isso é mais lúdico do que prático na verdade. Não acredito na eficiência deste estratagema, embora possa admitir que uma forma humana em meio a escuridão pode assustar uma pessoa. Porém, uma simples simulação não engana nem os animais nos dias de hoje. A figura do espantalho habita o imaginário infantil e até serve como personagem para filmes de terror e de ação. É compreensível que tal conceito possa ser muito bem vindo nas fantasias de quem lida com arte ou contos infantis, o problema é que adultos, com capacidade intelectual assemelhada ou menor que de uma criança do ensino fundamental, popularizaram a figura do espantalho, não como mera ilustração, mas como técnica de debate intelectual e filosófico.
          Mas não é exatamente no espantalho tradicional que quero falar aqui. Vou falar especificamente do curioso fenômeno citado no final do parágrafo anterior. Essa técnica usada por aqueles que tem uma capacidade limitada de compreender e qualificar algo ou alguém, que se assemelha a isso, criação mental de um espantalho ou avatar a ser confrontado. Completamente alheios a observação, por indiferença ou falta de inteligência mesmo, pessoas tem o hábito de criar estes espantalhos. Tais espantalhos assumem o lugar da pessoa, ou conjunto de pessoas, e fantasiosamente são qualificados conforme a imaginação doente do indivíduo. A eficiência pueril e infantil dessa artimanha se justifica. Não podendo debater ideias com um oponente levemente informado e sóbrio, ataca-se o espantalho, pois o mesmo é incapaz de responder, afinal, sequer está ali. O contraditório é ignorado e silenciados por gritos, tiradas irônicas ou acusações estéricas e deslocadas, fruto dos clichês previamente construídos.
          Oriundas da educação deficiente e tendenciosa do nosso país, pessoas com baixíssima inteligência e algum espírito de liderança, acabam por criar espantalhos com as características que elas mesmas possuem. Por ter um cérebro subdesenvolvido, esse tipo de pessoa não consegue ver muita coisa além de seu próprio umbigo. Então, para alcançar seus objetivos, criam estes símbolos a partir de si mesmas, constroem uma narrativa para se dissociar de sua criatura imaginária e estimulam um exército para combater o tal espantalho. Isso funciona, afinal, uma massa acéfala cuidadosamente amestrada e instigada pelo seu ponto mais fraco, acaba por se deixar levar por técnicas de contos infantis. 
          Há uma máxima soviética que diz, "acuse-os do que você faz e insulte-os do que você é". Não recordo se a frase é exatamente essa, mas a ideia está correta. Quando você acusa alguém de fazer algo que você faz, automaticamente o olhar de terceiros é desviado de você. Se você ofende uma pessoa com adjetivos que caracterizam você, normalmente você estará isento de tal pecha. Isso é muito comum em discussões politicas. Na verdade, são nesses embates políticos que o espantalho aparece mais forte e majestoso.  Basta que uma pessoa faça uma ressalva qualquer sobre determinado assunto para ser substituída por um espantalho. Ai começam os xingamentos, gritos, cusparadas e todo o teatrinho revoltado. Normalmente, quem age dessa forma, demonstra sua incapacidade de debater, pois só consegue ver o espantalho a sua frente, afinal, foi instruído para isso. Não pode deixar o espantalho falar, por isso berra e ataca incessantemente. O antagonista, quando racional e meramente instruído, acaba vendo na discussão uma simples perda de tempo. Nesse ínterim, o oponente do espantalho se sente vitorioso, inteligente, superior e poderoso. Isso faz com que sua autoestima suba e infle seu ego. Ele é um vencedor de um debate que nunca ocorreu. 
          A forma mais eficaz de se desmascarar quem utiliza deste tipo de subterfúgio é pegar seu discurso, trocar os pronomes e comparar com seus atos práticos. Nesse campo da politica já temos frases, textos completos e expressões de gatilho tão comuns que são utilizadas a exaustão por quem mergulha nesse mundo sujo da politica partidária. Só tendo um discurso muito bem preparado e um público amestrado para engolir tais asneiras, que essas práticas podem ser exitosas, e aqui no Brasil elas são. No nosso país a frouxidão das raízes nacionais, a constante repetição de narrativas artificiais e a falta de escrúpulos em destruir a imaginação das crianças usando as entidades de ensino, fazem com que seja o palco perfeito para tudo que vemos hoje na sociedade.
          Para finalizar, sugiro a você que analise se suas opiniões sobre livros, filmes, pessoas, etc, são opiniões embasadas em teses verdadeiras e aprofundadas ou são mera criação fantasiosa herdada de terceiros. Isso pode ser ainda pior. Você pode estar propagando opiniões que não são suas e quando se deparar com um oponente, acabará por atacar um espantalho como todos costumam fazer. Não digo que seja errado fazer isso no contexto em que vivemos, afinal, como as coisas estão "errado é estar certo", "a mentira é mais real do que a verdade" e assim por diante. Contudo, é por isso que estamos nas últimas colocações em qualquer comparação com outros países, levando-se em consideração aspectos realmente significativos em termos sociais. Depois não adianta falar mal do país e fugir para o exterior, a merda que ajudou a criar sempre estará fendendo em você. 
          

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