sábado, 2 de setembro de 2017

Articulações

          Tinha decidido não falar mais de política neste espaço, mas como não pude escapar da fria realidade dos fatos e ficar calado, exponho este texto para reflexão das pessoas interessadas e para registro histórico, quem sabe. Estamos as vésperas de um ano de eleições, por este motivo, há de se ficar atento as nuances que acontecem, não nos bastidores do cenário político, mas na nossa cara mesmo, de forma descarada. Os políticos já tratam a população brasileira como completos idiotas, por isso vemos o "presidente" distribuir milhões em emendas parlamentares para se safar de um processo político/criminal, por conta de suas atividades escusas por trás de seu relacionamento com a JBS e seus encontros fora da agenda. 
          Em 2016 a então "presidenta" Dilma Roussef sofreu Impeachment. Escrevi a respeito aqui. Segundo a versão petista e de seus aliados, foi um "golpe" tramado pelo PMDB de Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Michel Temer. Tanto o primeiro, então presidente da câmara, como o segundo, então presidente do senado, foram classificados como "golpistas". Michel Temer assumiu a presidência, como reza a constituição, por ser vice de Dilma. Este também sendo acusado de "golpista" por petistas e aliados. Temer trouxe o PSDB para linha de frente do governo, sempre teve rejeição plena da população, mas se manteve firme no poder, mesmo com escândalos envolvendo a JBS e o encontro gravado por Joesley Batista, já citados acima. De quebra, com a morte em um "acidente" aéreo de Teori Zavascki, então relator da Lava-jato, colocou seu ministro da justiça, Alexandre de Moraes, como Juiz do Supremo. Resultado, Aécio Neves do PSDB, flagrado em conversa criminosa e usando linguagem de marginal, sequer foi acusado, mesmo tendo integrantes de sua família envolvidos em esquemas de corrupção, sua irmã chegou a ser presa. Da mesma forma, as acusações envolvendo a chapa Dilma/Temer feitas pelo PSDB em 2014, foram engavetadas. Houve um racha no PSDB, mas apenas teatral, possivelmente. O partido continua no poder, segundo os seus representantes, para dar continuidade as reformas propostas pelo governo, e segundo eles, fundamentais para o futuro do Brasil.
          João Dória, que havia derrotado o candidato a reeleição pelo PT, Fernando Haddad, em primeiro turno nas eleições municipais de São Paulo, surge como possível candidato a presidência em 2018. Em um primeiro momento apoiando seu padrinho politico, Geraldo Alckimin, o "santo" segundo a planilha da Odebrecht. Entretanto, com as primeiras pesquisas apontando o fraco apoio ao nome de Alckimin e a ascensão de Dória, o prefeito de São Paulo já intensificou seus ataques a Lula e passou a viajar pelo Brasil. Em seus canal do Youtube, passou a entrevistar celebridades, chegando a bater papo amistosamente com o vereador Eduardo Suplicy do PT, aquele mesmo que estava na comitiva para receber o terrorista italiano Cesare Batisti, entre outras pessoas entre jornalistas e personalidades das mais variadas. O prefeito de São Paulo demonstrou seu apoio a Temer por conta das reformas, segundo ele, e tenta se manter como uma figura neutra de seu partido, entretanto, assumiu o discurso do partido neste ponto específico. Contudo, é impossível se descolar da realidade imposta pelos fatos. Mesmo apresentando um perfil liberal, se mostra cada vez mais volátil em se tornar o elo de ligação entre PMDB, PSDB e seguimentos da esquerda brasileira mais branda.
          Por outro lado, Lula, agora já um condenado na operação Lava jato, percorre o nordeste recebendo diplomas com erros de português e gritando aos seus correligionários que é vitima de uma perseguição politica de um grupo de procuradores e da imprensa. Ao passar por Alagoas, teve a companhia do "golpista" Renan Calheiros e de seu filho. Como se não bastasse os elogios ao ex-presidente do senado, tendo quase uma duzia de processos contra ele, também citou José Sarney como sendo uma das figuras mais importantes da política. Se até nos jornais pagos pela CUT e derivados, Lula declara certa parceria com Renan Calheiros, então temos o mesmo cenário politico que tínhamos durante os dois mandatos de Lula e Dilma, o PT sendo a cabeça de um corpo formado pelos partidos de esquerda como PCdo B, mais os mercenários do PMDB, PSB, PTB, PTdoB, PR, PRB e afins.
          De um lado Dória com o PSDB e apoiando o PMDB de Temer, do outro Lula tendo o apoio do PMDB de Renan Calheiros. Neste meio tempo a Lava jato vai se esvaindo por conta dos cortes de recursos físicos e financeiros e tendo o STF trabalhando para salvar quem é indiciado. Se por um lado Janot ataca o PSDB e parte do PMDB para livrar o PT, já há uma substituta aguardando para tomar posse e esfriar de vez as coisas. Em suma, com as estratégias que estão montando na reforma politica, mais as articulações na câmara, no senado, no STF e na Procuradoria Geral da República, fica claro que há um movimento forte da classe politica para se salvar, pois muitos políticos como Lula, Michel Temer, Aécio Neves, Renan Calheiros, Rodrigo Maia, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Romero Jucá, Gleise Hofmann, entre muitos outros, precisam se reeleger para garantir foro privilegiado e escapar da justiça comum para responder por inúmeros atos criminosos.
          Peço que não se esqueçam do que veio a público com a operação Lava jato, pois não se trata de apenas delações furadas jogadas pela imprensa. Há uma série de irregularidades envolvendo as empresas e os políticos citados. Coisas que se comprovaram na prática e ficaram claras, levando empresários e políticos para a cadeia. Infelizmente, o STF solta alguns deles ou manda para regimes mais brandos, afinal, Dias Tóffoli, Ricardo Lewandovski, Alexandre de Moraes, Fachin, Gilmar Mendes, etc, são filiados à partidos e indicados pelos então presidentes. Não há como esperar grandes condenações já que os guardiões da constituição são células partidárias adormecidas esperando para serem chamadas a ação. Como descreveu Raymundo Faoro, a luta de classes não se dará mais entre proletários e a burguesia, e sim entre o povo e o estamento burocrático. 
          Para encerrar, acredito que vale a pena uma reflexão a respeito deste cenário. Ao invés de tentar defender A atacando B, não seria mais produtivo se colocar a margem de tudo e analisar friamente os fatos e suas consequências, sem paixões ou apegos ideológicos, afinal, estamos sendo vítimas do resultado prático de tudo isso, mais de 60 mil assassinatos por ano, escassez de recursos para a saúde, educação e infraestrutura. Por outro lado temos diariamente noticias de corrupção, de fraudes e de escândalos envolvendo políticos. Já não está na hora de dar um basta nisso? Como? Rompendo os laços que prendem o cidadão comum ao corpo político, pois nem o discurso de ser a favor dos pobres e coisas do tipo está sendo usado, estão falando abertamente como fazem as coisas, para que aquele que defende determinado partido ou político, o faça com a certeza de que está apoiando um bandido sem vergonha, portanto, é um dos protagonistas de tudo que está acontecendo no Brasil.
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