quarta-feira, 4 de outubro de 2017

E nossas crianças, como ficam?

          Uma mãe é abordada por uma profissional do Conselho Tutelar por expor seu filho a mendigar numa calçada. Nada demais, se o menino não tivesse 12 anos e, acompanhado pela mãe, se apresentasse nas ruas de Santo Ângelo tocando sua gaita. Segundo o padrinho do menino, um conciliador judicial e pequeno agricultor da região, o gaiteiro mirim é um entusiasta da música nativista do Rio Grande do Sul, que desde muito cedo observava com fascínio o avó tocar. Estudou o instrumento após ganhar um de presente. Por azar sua gaita estragou e a mãe usou o dinheiro que ganhava costurando e catando latinhas para comprar outro acordeão para ele. Essa notícia me chamou a atenção ao ir ao ar nessa terça-feira, 03 de outubro de 2017. O vídeo da matéria feita pelo Jornal do Almoço está ao lado.
          Segundo a mãe, a mulher que a abordara se dizendo trabalhar para o Conselho Tutelar ameaçou levar o menino caso ela não o tirasse dali. Constrangida, a mulher pegou seu filho com o instrumento e se retirou do local para evitar mais problemas. Segundo o Conselho Tutelar, a mãe foi apenas aconselhada a ter cuidado com a exposição do menino ao sol. Em entrevista ao Jornal do almoço, uma representante do conselho tutelar expôs alguns motivos para que esse menino não pudesse tocar sua gaita nas ruas. Segundo ela, um menino de 12 não estaria seguro ao se apresentar nas ruas de sua cidade, mesmo em companhia da mãe. Alegou que o menino e sua família teriam que ser investigados para averiguação se não trava-se de trabalho infantil que havia sido denunciado. Resumindo, o parecer da entrevistada endossa a versão da mãe, mesmo que indiretamente, já que deixa claro que o menino não poderia se apresentar em local público mesmo sendo em turno inverso ao de suas aulas.
          Sem entrar em muitos detalhes, esse caso só ilustra alguns cenários criados e que precisam ser analisados com atenção para que a sociedade comece a se questionar sobre a atuação dos órgãos ligados ao governo:
          _O menino estava acompanhado da mãe em horário inverso ao da escola e aparentemente fazia uma atividade que gosta bastante;
          _As contribuições, mesmo que sendo solicitadas pela mãe, o que não foi confirmado, não demonstram um caso de exploração de trabalho infantil pelos quais as leis foram criadas. Contudo, testemunhas alegam que eram contribuições voluntárias;
          _A alegação de que as ruas não seriam um local seguro para o menino se apresentar só depõe contra a incapacidade do Estado de garantir a segurança de seus cidadãos. Sendo o Conselho Tutelar um órgão do Estado, estaria ele agindo para que o menino ficasse fora do convívio social por conta da fragilidade da segurança pública?
          Vamos sair dessa análise pontual deste caso e inseri-lo num contexto mais amplo. O caso do Queermuseu no Santander Cultural em Porto Alegre e a apresentação de Le Betty no Museu de Arte Moderna de São Paulo (escrevi sobre eles a pouco tempo aqui e aqui). Considerando que o primeiro, após fechado pelo banco devido à boicote (boicote e não censura, para deixar claro), foi analisado por um delegado, que comentou haver a algumas obras sacanas, mas nada demais, e um procurador que emitiu um parecer mais sério e oficial a respeito. Este, em sua nota, alegou que a exposição teria como público alvo as crianças e que seriam incentivadas por professores de educação infantil. Rapidamente, embora muitos protestos, foram colocados panos quentes no assunto e se desconversou o ocorrido. Mas não vimos algum Conselho Tutelar, ou órgão que o valha, se manifestar publicamente sobre o assunto. O que pudemos constatar foi uma atitude de repúdio por parte da população após a denúncia de alguns grupos e pessoas, como o MBL. 
          No caso de Le Betty, em São Paulo, dois pontos chamam a atenção:
          _Pessoas envolvidas com o evento seriam as mesmas ou próximas, as que fizeram campanha contra a presença de crianças nos comerciais de alimentos direcionados ás crianças exibidos na televisão;
          _Uma coreógrafa, chamada Renata Fischer ou nome semelhante, o que não vem ao caso pois não se trata de um ataque pessoal, seria a mãe de uma das crianças que interagiram com o homem nu. Coincidente essa mãe teria trabalhado na campanha de Dilma Roussef e é filiada ao PT. Isso poderia ser visto em seus perfis nas redes sociais, mas após o vazamento destas informações, a mesma passou o status de seus perfis para privado;
          _A pessoa que encarna o espírito da teologia da libertação e um dos fundadores do PT, Leonardo Boff, em seu perfil do Twitter, escreveu algo como: "daqui a pouco o MBL estará atacando vitrines por conta dos manequins usando lingerie". Para quem não sabe a qual entidade a teologia de libertação é ligada, saiba que é parte de uma grande liderança católica no Brasil e conta com diversos bispos, mesmo que não seja reconhecida pelo Vaticano;
          Por que fiz esses links? Para mostrar como a ação de entidades ligadas ao estado e também religiosas, agem de acordo com interesses ideológicos e não legais ou em defesa daqueles que são o objeto de sua existência. Afinal, o Conselho Tutelar se cala frente a duas exposições que expõe crianças a cenas de nudez e manifestações sexuais diversas, mas se manifesta quando uma mãe acompanha seu filho de 12 anos em apresentações artistas em locais públicos. Eu introduzi Leonardo Boff só pra ilustrar quem defende este tipo de direcionamento artístico e por que se manifestam. No caso, para se posicionar contra o MBL, movimento de oposição política. Em nenhum momento você verá alguém identificado com o PT, PSOL, PC do B e assemelhados, atacando uma exposição como Queermuseu ou Le Betty. Você verá eles atacando obras como "Jardim da s aflições", "Real" e "A justiça é para todos", mesmo sem ter contato com o conteúdo desses filmes, apenas por serem contrários do ponto de vista ideológico. Eu vi reproduções das obras criticadas no Queermuseu e vi os vídeos de Le Betty e o que assisti me perturbou, não pelo conteúdo em si, mas pelas crianças que estavam tendo contato com ele.
          Sei que é uma batalha inglória lutar contra um estamento aparelhado, mas é bom ressaltar que, uma manifestação artística de um menino de 12 anos, acompanhado pela mãe e ligada á cultura regionalista é motivo de intervenção do Conselho Tutelar. Por outro lado, a Lei Rouanet é usada para financiar artistas como Ivete Sangalo, Luan Santana, Claudia Leite, entre outros, mas também aparece em exposições como as que foram diversas vezes citadas. Se por um lado o Estado age para intervir em algo supostamente irregular envolvendo um menino de 12 anos, por outro financia e faz vistas grossas para eventos que expõe crianças em idades entre 6 e 10 anos a cenas de nudez, zoofilia, pedofilia e interação com um homem nu. O pior é que muitas vezes os próprios pais estão envolvidos. Acho que está na hora de artistas, que minimamente levam suas carreiras a sério, se posicionarem a respeito de tudo que está sendo exposto, ao invés de se entregarem ao patrocínio estatal através de leis de incentivo. Me constrange a ideia de tirar dinheiro da saúde, educação e segurança para investir em um CD meu que nem minha mãe compraria, por isso me incomoda saber que, indiretamente, estou patrocinando aberrações através da Lei Rouanet.
          Para encerrar, outro caso revoltante foi o de um menino encontrado dentro de uma cela com homem condenado por pedofilia. Segundo os noticiários, os pais do menino, também de 12 anos, estariam atendendo um pedido do próprio menino. Esse fato ocorreu no Piauí numa colônia penal no município de Altos, á 38 km de Teresina. Isso mostra o quanto nossas crianças estão expostas á uma realidade que beira a barbárie, pois além da escolaridade ser de péssimas condições devido ao despreparo dos professores e uma base curricular patética, ainda tem que conviver com a realidade apresentada neste texto e em outros desse blog. Em todos os níveis o Estado se mostra incompetente, corrupto, mal intencionado e multiplicador de práticas obscenas, que atingem não só as pessoas no presente, mas destroem o futuro tratando as crianças da forma que estamos vendo.
Postar um comentário