sexta-feira, 3 de novembro de 2017

D. Pedro I

          Devo a educação pública o conceito que sempre tive sobre D. Pedro I. Um professor de história, que depois viria a ser vereador em minha cidade, indicou a compra de um livro para o estudo da história do país. Segundo ele, aquele livro era uma fonte muito confiável sobre nossa história. Não recordo o titulo do livro nem o nome do autor, mas lembro bem das convicções que formei por conta dessa obra. O fato é que era um livro mentiroso da primeira á última página, como a maioria dos livros de história da segunda metade do século XX em diante. Pintam o Brasil como sendo um paraíso violado pelos portugueses e demonizam diversas figuras importantes da nossa história com a intenção de  destruir a autoestima do brasileiro e criar um novo salvador da pátria de tempos em tempos. Mesmo que nossas ruas levem o nome de diversos homens e mulheres do nosso passado, colocaram uma venda em nossos olhos para que não pudéssemos sequer argumentar sobre o que vemos a nossa volta. Tentam nos convencer que um país deste tamanho foi criado por um bando de idiotas. Uma destas figuras importantíssimas para a construção do Brasil nasceu em 1798, no Palácio Real de Queluz em Portugal e chamava-se Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim, ou simplesmente D. Pedro I. Filho do português D. João VI e da espanhola Carlota Joaquina. 
          Em 1807, Pedro com nove anos de idade, atravessou o oceano para chegar no Brasil. Isso foi motivado pela invasão das tropas napoleônicas em boa parte da Europa. O então regente D. João VI, que assumira o poder após sua mãe, Dona Maria, ser abatida por sérios problemas mentais e se tornar incapaz de gerir o reino português, viu como alternativa mais segura para a coroa portuguesa levar a sede do governo para além-mar, longe do alcance de Napoleão, contando com a expertise ibérica em navegações e a ajuda da marinha inglesa. A família real ficou por 14 anos no Brasil, o que fez com que se unificasse o país de certa forma e se desse um aspecto politico e econômico mais definido para essa terra. Enquanto isso, mesmo tendo professores para servi-lo, D. Pedro teve uma educação deficiente e crescera com valores questionáveis, pois seus país viviam em lugares diferentes e não suportavam um ao outro. Pedro tornou-se adolescente em meio aos escravos e pessoas mais humildes, sendo livre para entregar-se as tarefas mais manuais e relações mais carnais com mulheres negras, índias e jovens portuguesas. Essas características faziam de Pedro uma figura muito distante de um monarca tradicional. O próprio pai era desleixado, não vivia rodeado de luxo e tinha como grande característica pessoal procrastinar em tudo, principalmente em seus atos como regente. Não tendo muito tato para lidar com todas as formalidades de uma família real tradicional, D. João VI viu no Brasil um ambiente de tranquilidade e sossego, mesmo que a nova terra ainda estivesse sob um complexo sistema de construção. Foi o regente português quem criou a estrutura inicial sobre a qual D. Pedro I constituiria seu império.
          Em 1817, D. Pedro causou-se com uma princesa austríaca, Maria Leopoldina. Os relatos de seus procuradores narravam inteligência, preparo, cultura e belos olhos, mas ao receber a princesa, D. Pedro deparou-se com uma mulher de poucos atrativos físicos. Isso pode ter mexido um pouco com as fantasias do jovem príncipe, pois era rodeado de diversas mulheres, possivelmente mais belas que aquela que escolheram para ser sua esposa. Mesmo assim, aos poucos a austríaca foi se tornando íntima do príncipe e compartilhando com ele momentos importantes de nossa história. Ela gostava de música e teatro, assim como o príncipe, sendo uma incentivadora de seus poemas e composições musicais. Tiveram sete filhos, pois mesmo que D. Pedro se envolvesse em romances proibidos, principalmente com a paulista Domitila de Castro, sempre foi bom pai e marido dedicado. Alguns relatos de agressões por parte do português para com sua esposa nunca foram comprovados, já que era comum levantarem diversas histórias a seu respeito, muitas delas caluniosas. Mesmo sem ter muita instrução formal, Pedro teve na sua esposa uma mulher preparada para ser rainha, sendo conhecedora de regras de etiqueta e como lidar com a criadagem. Com certeza isso colaborou para a formação do regente do Brasil e depois imperador.
          Com a Revolução do Porto em 1821, D. João VI foi coagido a voltar a Portugal, tendo que deixar na regência do Brasil seu filho Pedro. O rei deixou um esboço de uma estrutura criando o Banco do Brasil, organizando o comércio do Rio de Janeiro e formulando leis que norteariam os processos jurídicos e sociais. Não demorou para que o príncipe fosse instigado a tomar partido na causa da independência que já pululava os debates e as mentes dos portugueses nascidos no Brasil. Apoiado por sua esposa e pelos políticos cariocas, D. Pedro decidiu ficar no Brasil quando de sua intimação para retornar ao seu pais de origem. Então 09 de janeiro de 1822 ficou conhecido como "o dia do fico". Como regente e defensor perpétuo do Brasil, teve diversos problemas para manter a estabilidade politica e social. Ingressou na maçonaria e teve como grande amigo e companheiro o paulista José Bonifácio. Juntos tentaram manter o governo unido, dar um rumo para as questões separatistas e organizar a sociedade. Então, após alguns despachos de sua esposa oriundos do Rio de Janeiro, D. Pedro, que se encontrava em viagem, declarou a independência do Brasil e assinou a oficialização. O Brasil passava a ser um império e o jovem português seu monarca em 07 de setembro de 1822.
          Ao contrário do pai, o jovem imperador não tinha muita paciência para lidar com as questões do império. Por volta de 1823, não tolerando a demora dos deputados em dar ao Brasil uma constituição aos moldes que o imperador desejava, dissolveu a assembléia constituinte e outorgou ele próprio uma constituição. Essa atitude autoritária, entre outras, fizeram com que muitos políticos o detestassem, principalmente os portugueses. Talvez por influência de alguns membros da maçonaria e também da Marquesa de Santos, D. Pedro entrou em atrito com José Bonifácio e não tardou para que o Andrada fosse exilado após ter renunciado o ministério que ocupava e voltar ao cargo. A relação de D. Pedro com José Bonifácio era muito estreita, sendo que o Andrada construíra, de certa forma, a imagem do imperador a ser levada aqueles que ainda não o conheciam fora do Rio de Janeiro. Uma das sugestões fora que o imperador viajasse aos principais cidades para ser conhecido pelo povo. Nesse ínterim, José Bonifácio e D. Leopoldina tomavam conta das ações imperiais. 
          D. Pedro tentou montar ministérios para proceder com seus ímpetos liberais, mas sempre acabava por sofrer com sua impaciência e pessoalmente lidava com os mais diversos assuntos, passando por cima de pessoas que escolhera para ocupar os cargos do governo. Era homem ativo, dormia pouco, muito dado ao concubinato, causou escândalos, cultivou inimigos, sofreu com a morte do pai, o desaparecimento da mãe, a morte de sua esposa, mesmo assim, regeu Portugal dando-lhe uma constituição em épocas de crise política e abdicou do trono português em nome de sua filha Maria da Glória em 1826, para ficar no Brasil. Mesmo assim, em 1831 abdicou por pressões políticas para seguir a risca a constituição. Havia Casado com D. Amélia, após dois anos de viuvez. Seu casamento fez com que abandonasse de vez a Marquesa de santos, assim como seus eventuais casos extra conjugais. Isso não foi o suficiente para que seus detratores o poupassem, já que D. Pedro, além de ser regente, depois imperador, escrevia em jornais com pseudônimos para responder que o criticava e atacar seus desafetos. Fora, inclusive, em dado momento, acusado de tentativa de assassinato de um de seus antagonistas, sendo o próprio alvo de atentados de homicídio mal-sucedidos, tal a tensão politica que estava no país. 
          Abdicando em nome de seu filho D. Pedro II, D. Pedro, agora Duque de Bragança, tratara de resolver suas finanças vendendo propriedades e estruturando as condições de seus filhos que ficariam no Brasil. Antes disso, reaproximou-se de José Bonifácio deixando-o como tutor de seus filhos por um tempo. Abandonou o longo relacionamento com Domitila, com quem teve dois filhos,  por conta de seu casamento com D. Amélia, como havia mencionado anteriormente, tratando de garantir que não ficassem de fora de seus cuidados, proporcionando-lhes educação e títulos. Sua saúde era instável, mesmo sendo um homem muito ativo e sempre a frente de todas as iniciativas. Mal chegara na Europa e já se pôs a frente de um plano para montar uma diligência que visava restituir a coroa lusa para sua filha, então usurpada por seu irmão Miguel. Passou um período entre França e Inglaterra até o nascimento de sua filha caçula e levantar o montante necessário para custear a investida contra o usurpador. Por volta de dois anos lutou contra o exército de seu irmão, muitas vezes se expondo na frente de batalha. Seu esforço valeu a pena. Conseguiu reconduzir sua filha ao trono e tomar o controle político de Portugal. Entretanto, em 1834 faleceu por diversas complicações de saúde em Queluz onde tinha nascido. Seu coração foi enviado ao Porto em reconhecimento aos tempos que foi general do exército constitucional.
          D. Pedro I foi um personagem controverso e a fama de mulherengo e instável se justificava. Contudo, muito longe de ser um tirano ou um ignorante, tinha virtudes que possibilitaram separar Brasil de Portugal para sempre. De forma deficiente e peculiar escrevia seus poemas, compunha suas musicas, escreveu duas constituições liberais e aceitáveis para época, apreciava muito o trabalho de Benjamin Constant, se dedicava a trabalhos manuais e insalubres, era avesso ao luxo, embora apreciasse belas artes. Um homem com belas virtudes e defeitos escandalosos, mas que foi a figura que manteve o Brasil unido, sem se desmanchar em pequenos países hostis entre si como ocorrera na América espanhola. Seus méritos foram soterrados pelas campanhas republicanas e depois foi motivo de zombaria por aqueles que contaram a história principalmente nos últimos trinta anos. Quem acuso D. Pedro de déspota, oportunista, mulherengo e belicoso, normalmente considera guerrilheiros e terroristas como sendo heróis do povo. Quem o chama de tosco e inculto, faz companha e tem um semi analfabeto como grande líder nacional. Quem despreza a figura de D. Pedro é ignorante ou mal caráter, pois não se pode exigir nobreza de um imperador tendo como referência a mais rasteira classe política e intelectual.
          Tenho dedicado parte de meu tempo pra estudar o período imperial brasileiro e ter acesso as informações que me foram sonegadas pelos professores e pelo estamento cultural brasileiro. Não é difícil ter contato com pessoas de grande importância para o Brasil e que foram substituídas por símbolos positivistas e muitas vezes autoritários de nossa república tão problemática. Posso citar Joaquim Nabuco, José Bonifácio e seus dois irmãos, André Pinto Rebouças, o próprio D. Pedro II, a princesa Isabel, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Evaristo Ferreira da Veiga, Diogo Antônio Feijó, Machado de Assis, José do Patrocínio, Barão de Mauá, entre outros tantos, que tem seus nomes conhecidos, mas seus feitos, pensamentos e suas personalidades permanecem estranhos a maioria dos brasileiros. Como é popular dizer, um povo que desconhece suas origens não pode saber para onde vai. Talvez seja esse o principal problema do brasileiro, usar do coitadismo para justificar tudo e receber benefícios. Perguntando a opinião de um produtor musical inglês o porquê dos brasileiros serem tão diferentes dos ingleses em termos culturais, desfazendo de suas origens e sempre buscar criar símbolos artificiais para idolatrar, recebi como resposta: "Pode ser porque na Inglaterra somos todos súditos e os brasileiros se dividem em minorias." Faz algum sentido para mim.     
Postar um comentário