quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Joaquim Nabuco - Minha formação

          É com grande empolgação que mergulho meus raros momentos dedicados a tão amada literatura a defraudar as nuances do Brasil do século XIX, mais precisamente ao período imperial. Um sinal muito ilustrativo está nas postagens que fiz falando a respeito aqui e aqui. Mas por que um homem prestes a desembarcar nos quarenta anos seria atraído por tal período da nossa história? Caso se interessem em saber a resposta, respondo de forma simples e direta: _Cansei de um Brasil que se orgulha de frases como: "Nunca antes na história deste país...", que concede a Paulo Freyre o título de "patrono da educação do Brasil", que legitima semianalfabetos com síndrome de divindade criadora como líderes máximos da nação, entre outras tantas razões que seguem neste sentido. Fui levado a acreditar que o meu amado país é uma pátria de corruptos e covardes, mesmo assistindo pessoas honestas acordarem cedo para cumprir com suas obrigações diárias com dignidade e sujeitas a todas as atrocidades do nosso cotidiano. Fui vitima da instrução deficiente e mal intencionada das nossas instituições de ensino, que fizeram com que eu acreditasse que nascera fadado ao fracasso por ser brasileiro. Este país que se envergonha dos discursos mentirosos e ufanistas de nossos políticos, mas que deposita todas as esperanças nestes mesmos. Fui intimado pela desconfiança que sempre tive, mas que se aguçara em uma direção com o avançar da idade a buscar uma história mais condizente com a nobreza que grande parte de meus compatriotas possui. Cavei através de uma camada grossa de merda e lixo que foi construída com o objetivo de esconder o nosso passado. Senti a necessidade de investigar o período do império que tão pouco sabia a respeito. Nunca fiz algo que me valesse tanto a pena e que o retorno tem acumulado valor inestimável. 
         Deparei-me com citações apaixonadas a respeito Joaquim Nabuco, personagem que mal sabia o nome e por alto tinha lido uma narração ou duas sem desinteressadamente. Estava ainda vasculhando as bases de nosso brasileirismo percorrendo as biografias de José Bonifácio e D. Pedro I, quando me vi instigado a conhecer mais sobre tal pernambucano que foi um dos expoentes da luta contra a escravidão no Brasil. Cismado estava eu com a paixão com que seus admiradores falavam dele, quebrei o protocolo estipulado para meus estudos e fui além. Tal fascínio me alarmou por não nutrir por figura alguma de nossa história tal sentimento. Mas como uma única narrativa jornalistica sobre José Bonifácio me fez sentir meu nacionalismo desabrochar numa brisa de esperança, pois sim, houve brasileiros valorosos e com virtudes reconhecidas no exterior que não foram simples jogadores de futebol. Menor não foi minha grata surpresa ao ler as mais de mil páginas compiladas por Otávio Tarquínio de Sousa, divididas em três tomos sobre D. Pedro I. Muito mais que um português oportunista, que com caganeira declarou a independência do Brasil. Desconstruir a imagem jocosa dos personagens da nossa história passou a ser pra mim, mais que uma necessidade intelectual, uma prazerosa obrigação cívica. O simples caminhar nessa direção me faz uma pessoa mais confiante e otimista, afinal, sinto-me fazendo parte da história e fazendo história, tendo num passado uma base virtuosa, mesmo que o Brasil pene por certas idiossincrasias e especificidades de sua existência.
          Quando li as primeiras páginas do livreto que mencionei acima, "minha formação", em plena época de celebração da "consciência negra", onde personalidades como a atriz Taís Araújo, muito bem sucedida em sua profissão, veio a público dizer que brancos trocavam de calçada para não cruzar com seu filho, ou a secretária Luislinda Valois que citou a escravidão ao pleitear receber vencimentos acima do teto estabelecido por lei para ocupar uma secretaria com status de ministério. Negros que poderiam usar de suas prosperas carreiras para elevar a moral de seus semelhantes, se prestando a fomentar picuinhas que jogam os negros mais de um século para trás, de volta as senzalas das casas grandes ou a marginalidade dos quilombos. Pois, ao refletir espontaneamente sobre o tema, fui de encontro ao pensamento de Joaquim Nabuco resumido em sua narrativa sobre sua formação. Acaso ou mero impulso circunstancial, me arrebatou dos primórdios do império para me soltar no seu período de agonia e extinção. Bem ali, situado entre a vitoriosa e tardia abolição e o golpe republicano, se dava o apogeu dessa importante figura de nossa história. A simples menção como sendo um dos facilitadores para a concessão da liberdade dos africanos maltratados por tal realidade desumana já basta para dignificar uma pessoa. Mas Joaquim Nabuco fui muito mais que um idealista, embora tudo que viesse a fazer seria menor do que sua luta. 
          Pelo simples fato de ter dedicado sua vida pela causa abolicionista, mesmo não sendo o único, já que era um movimento que tinha a simpatia de pessoas como José Bonifácio e a própria família imperial, tendo ecoado em diversos nichos como as forças armadas, o jornalismo, a igreja, entre outros, Joaquim Nabuco empenhou-se na liberdade daquele povo sofrido e que tanto amava lutando contra a economia da época e uma realidade que parecia imutável em termos de Brasil, mas que já caíra no restante mundo ocidental. Segundo o próprio, sua afeição pelos escravos vinha desde sua infância na casa de sua madrinha, vendo como ela lidava com seus serviçais e a admiração e o respeito que estes tinham por ela. Detalhe que ficou claro quando a gorda senhora de mobilidade quase nula veio ao óbito. Desconsolados os negros rezaram e choraram a morte de sua senhora, o que ficou vivo na memória do menino de apenas oito anos. Era notório o modo como alguns senhores tratavam seus escravos e sofrimento que lhes impunham, como se a simples ideia de um homem pertencer a outro como simples objeto já não fosse nefasta por si só. Tornando-se politico, já que era filho de um, passou a defender no parlamento suas ideias antiescravagistas e foi arrecadando admiradores e detratores. 
         Sua audiência com o Papa Leão XIII, para que o mesmo intercedesse em favor da causa, foi um dos momentos de maior notoriedade e satisfação pessoal. Contudo, nessa pequena narrativa que tive o prazer de dedicar-me a leitura, Joaquim Nabuco mostra a riqueza de seu caráter ao citar amigos e reconhecer neles méritos muito maiores que os seus. Também fala de personalidades que o influenciaram com doçura e sincera submissão hierárquica próprias de quem busca as virtudes de terceiros em detrimento a seus próprios méritos. Conservador e monarquista convicto, que viu no golpe republicano o início do fim de seu interesse pela política recheada de ideias liberais. Suas memórias de viagens e a forma como descrevia ingleses, franceses, americanos e seus compatriotas brasileiros é sensível e perspicaz. Também faz questão de ficar a sombra de seu pai, considerando a aceitação dos valores paternos que lhes foram repassados como sendo a sabedoria mais grandiosa e suas empreitadas altruístas por outros caminhos, meros lampejos de rebeldia juvenil. É difícil aceitar a mediocridade de políticos, acadêmicos, juristas, jornalistas e outros mais de agora, tendo como referência homens como Joaquim Nabuco. Recomendo a todos abrir o coração e buscar conhece-lo.  
         
 
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