sábado, 27 de abril de 2019

Nada de novo no front de Erich Maria Remarque

          Este livro foi o primeiro que li. Não lembro de tê-lo lido por completo na época, pois não tinha o hábito da leitura. Tinha uns dezesseis anos e morava com minha mãe não fazia muito tempo. Estávamos na primeira metade dos anos 1990 e eu tocava numa banda de black metal, ou death metal, não recordo deste período de forma tão clara. Entretanto, posso garantir que o mundo era muito diferente do que é agora. Não tínhamos a internet, nos ocupávamos com empregos temporários, que pagavam pouco e exigiam muito esforço físico. Recordo de ser repetidas vezes questionado por conta de meus calos em meros apertos de mão. Na verdade, por mais que odiasse ter que acordar cedo, passar o dia lixando madeira e coberto de serragem, mãos calejadas me davam certa honradez, honestidade. Porém, naqueles tempos, eu não era um leitor assíduo e interessado como hoje. Para ser honesto, passei a ler com regularidade quando comecei a perder horas por dia no deslocamento para meu trabalho, já na segunda metade dos anos 2000, portanto, ao reler o livro, questionei-me se o havia terminado e se não o li apenas para parecer intelectualizado junto a um novo grupo social daqueles tempos. As lembranças que me vieram não passaram do terceiro capítulo, ou seja, possivelmente cansei de ler por ser um péssimo estudioso e muito impaciente.
          Falando do livro em si, ao rele-lo me vieram lembranças de cenas de filmes de guerra, não sei se eram do próprio filme baseado no livro ou outro qualquer, que ilustraram meus pensamentos conforme meu olhos corriam o texto. O certo é que o livro foi escrito em cima das lembranças de um jovem de dezoito anos que participara da primeira guerra mundial e fora ferido três vezes em combate. O autor, Erich Maria Remarque, alega ter reunido anotações que fizera durante anos sobre as lembranças daquele período obscuro da história alemã. Cenas que tiravam seu sono e o assombraram por muito tempo após os conflitos. O livro teve seu formato definitivo em 1929, o autor ficou famoso, mudou-se para os Estados Unidos, escreveu outras obras e alcançou grande prestígio, tornando-se um pacifista até certo ponto inconveniente e caricato. Contudo, por ter este aspecto quase autobiográfico, o livro reproduz muito do que historiadores e o próprio Adolf Hitler escreveram sobre este quinquênio entre 1914 e 1918, jogando o leitor para dentro do front alemão.
         A história é narrada pelo protagonista, sendo em primeira pessoa o tempo todo. Este é Paul, um jovem que é convencido ainda na escola e pela própria família, assim como seus amigos, a se alistar para lutar no front alemão. Lá é ferido, perde amigos, passa fome, tem algumas aventuras paralelas a guerra como a surra em um superior, que também maltratava seus colegas que o ajudaram nesta emboscada. Sua fuga para uma casa de jovens francesas para ter sexo em troca de comida, tão escassa naquele período. A licença para passar alguns dias em casa e ter contato com a família. A guerra contra as ratazanas em seus acampamentos, a miséria que devastou os soldados alemães e a morte de seus amigos, que foram ocorrendo com o passar do tempo e a miséria que sobra para um jovem que tem que voltar para vida civil e tem de encarar uma realidade tão particular em tempos de paz. De um lado há aqueles que tinham família e profissão antes da guerra e que apenas voltaram para elas depois de seu desfecho e conseguem esquece-la. Por sua vez, existe aquela geração mais jovem que não participou dos combates e não compreendem a realidade daqueles poucos que perderam anos rastejando na lama e perdendo amigos nas trincheiras, enquanto ouvem o assobio das granadas e as rajadas das metralhadoras. Para estes raros veteranos, não há um espaço para ocuparem num período de paz. Têm que conviver com as lembranças, as alucinações, os sentimentos particulares de quem teve que passar por essa experiência e sobreviveu, ao contrário de muitos que tiveram seus corpos dilacerados por bombas ou tiros.
         Não há muito o que falar sobre essa obra além disso. Ao contrário de heróis e vilões, existe relatos da degradação humana que se abate sobre jovens expostos a todo o tipo de provações onde sobreviver é a única ambição concreta. Ao contrário dos nazistas, o que o autor narra não é uma luta por um ideal específico, e sim, apenas um bando de pessoas jogadas para dentro de uma guerra em que eles ignoram os verdadeiros motivos. Inclusive, este tipo de narrativa foi proibido na Alemanha de Hitler, sendo que o próprio autor foi perseguido em seu país de origem.
         Mesmo esvaziado de magia, heroísmo e de personagens inspiradores, “Nada de novo no front” é uma obra de ficção com inspiração na realidade de quem esteve nos cenários descritos, representando o pacifismo de forma correta, sem narrativas e teses ideológicas, apenas revelando o que realmente ocorre nos campos onde nada se resolve. O livro expõe a versão do soldado, seus medos, suas loucuras e suas experiências sombrias, onde qualquer pensamento que remete a normalidade da vida são o único desejo honesto. Os ataques as instituições, personalidades e ideias são diluídos com tamanha perspicácia, que uma pessoa que lê o livro, que é uma obra curta, passa a ser convencida a se solidarizar com o autor de forma espontânea, sem precisar teorizar muito.
         A obra foi cuidadosamente escolhida para iniciar meus estudos sobre a primeira guerra mundial. Mesmo sendo uma obra de ficção, por se tratar de um trabalho aparentemente honesto, ela dá um sentido de realidade do cotidiano da época que um livro de história não poderia dar. Por este motivo, costumo acrescentar obras literárias com este perfil quando inicio estudos a respeito de determinado assunto. Os artistas têm uma perspicácia de captar e traduzir nuances, que mesmo que suas criações não sejam objetivamente históricas, somam para a compreensão do imaginário e do lado lúdico de determinada época e cultura. Sem o auxílio dos romances não é possível conhecer certos aspectos, pois o talento literário de alguns autores ajuda e traduzir o que os historiadores, por melhores que sejam, jamais conseguiriam.
         Para finalizar, acrescento que a compreensão do século XX ajudará a explicar o mundo atual e pode ajudar a prevenir para que a sociedade não volte a cometer os mesmos erros de outrora, achando que estão inovando e revolucionando o mundo. Por mais que se tente ignorar o passado, e muitas pessoas se ocupam disso por motivos vis, é ele que motivará a maioria das mudanças do século XXI. Ainda existem neonazistas, comunistas, socialistas, globalistas, entre outros tantos “istas”, que tentam maquiar ou esconder o passado para se servirem de antigas táticas requentadas para tentarem impor suas doutrinas maldosas disfarçadas de bondade e justiça social.    

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Mourão: será o autogolpe?

          Lembro que antes dos registro das candidaturas oficiais para o pleito de 2018 haviam diversas especulações de quem seria o candidato a vice-presidente da república na chapa de Jair Bolsonaro. Falou-se em Joice Hasselmann, que estava em alta no jornalismo digital na época e sempre foi polêmica, mas com posições bem definidas, sendo a maior influenciadora política no meio digital anos seguidos. O nome de Janaína Paschoal, peça chave no processo de impeachment de Dilma Roussef, também foi ventilado para atrair votos femininos, assim como Joice. Mas Janaína alegou dificuldades familiares para não aceitar um eventual convite e preferiu candidatar-se pelo PSL, partido de Bolsonaro, a Câmara Estadual de São Paulo. O nome de Luiz Phelippe de Orléans e Bragança, também do PSL, ativista político, empreendedor, palestrante e escritor, quase foi confirmado oficialmente, mas, mesmo tendo sido informado no site do TSE extraoficialmente, o vice escolhido acabou sendo o general Hamilton Mourão do PRTB de Levi Fidelix. Na época, eu cheguei a comentar que seria interessante Bolsonaro tê-lo como vice, formando uma chapa pura, oriunda do serviço militar e sem apelos genéricos. Embora houvesse determinado aceno perigoso naquele quadro, como fato histórico, esta formação provocava um cenário interessante, onde os militares chegariam ao poder pelo voto popular, caso a chapa fosse eleita, dando um tapa de luva de pelica na esquerda política que ficou trinta anos no poder se queixando dos militares.
          Contudo, mesmo com a simbologia interessante, Mourão havia dado algumas declarações, no período de efervescência política, que lhe renderam um afastamento de função nas forças armadas. Empolgado com o ruído da mídia sobre o apoio popular a uma eventual intervenção militar, chegou avisar que os militares estariam de olho e prontos para entrar em ação caso fosse necessário. Isso fez com que o general ganhasse holofotes apontados pra ele junto à mídia, de maneira pejorativa, é claro, e reforçaria as posições da esquerda junto à população. Como a onda de bater em Bolsonaro somente fazia com que ele crescesse em popularidade, a presença de Mourão reforçou essa posição. Não foi raro o surgimento de especulações sobre uma eventual intervenção militar, embora fosse minoria, e muitas vezes apenas exercícios de probabilidades de cenários futuros, muitas pessoas se manifestaram a favor, tanto nas redes sociais como em conversas de bar. A própria esquerda, oposição à Bolsonaro, criou a narrativa de que ele seria uma ameaça para a democracia.
          Porém, já na campanha, com as chapas devidamente registradas, Mourão deu algumas declarações polêmicas falando em “autogolpe”, no sentido de haver uma intervenção militar de dentro do governo caso algum evento extraordinário acontecesse. Também falou que o décimo terceiro salário era uma jabuticaba brasileira, sem contar outras declarações menos insinuantes que a mídia utilizou para atacar Bolsonaro. Neste contexto o general só cresceu verdadeiramente quando Bolsonaro foi esfaqueado por Adélio Bispo em Juiz de Fora durante um ato da campanha. Até então, Mourão dava a entender que soltara algumas frases fora de contexto e que Bolsonaro, quando podia, remendava alegando sua inexperiência junto à imprensa. Isso foi aceito pela militância bolsonarista que se consolidava.
          No início do mandato propriamente dito, Mourão começou a responder sobre a participação dos filhos de Bolsonaro no governo e suas intervenções junto ao pai. Estranhamente, a mídia passou a tratar Hamilton Mourão de forma diferente. Destacavam seu lado descontraído e passaram a usá-lo para atingir o governo. Pararam de explorar suas declarações como se fossem confissões que Bolsonaro era incapaz de fazer, mas que seu vice, menos preparado o fazia de forma espontânea. Quando da exoneração de Gustavo Bebianno, Mourão defendeu a permanência do ex-presidente do PSL no cargo indo contra a tendência junto ao presidente. Para quem não sabe, teria sido o próprio Bebianno quem inviabilizou a chapa com Luiz Phelippe e fechou acordo com Levi Fidelix. Mesmo sendo algo aceitável sua posição em defesa do ministro, afinal a agora deputada Joice Hasselmann e Onyx Lorenzoni, também interviram na busca de uma solução para o caso.
          Quando falo da mídia ao atribuir uma mudança de posicionamento em relação ao general, falo da Rede Globo, Record, O Antagonista, Bandeirantes e SBT. Sendo que Raquel Sheherazade, ancora do jornal do SBT, assumidamente de direita, mas contrária ao governo Bolsonaro, postou em seu Twitter que Bolsonaro e seu vice eram como o vinagre e o vinho, destacando o tom ponderado do general em comparação ao capitão. Assim, mesmo que não obedecendo uma ordem cronológica, cito a reunião do vice com a CUT para falar da Previdência, apoio a negociações com o MST, declaração pró aborto, defesa do desarmamento dos venezuelanos, contradizer o presidente em relação a transferência da embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, etc. Tudo isso se acumulando, mas mantendo um mesmo tom de continuidade e não mera coincidência ou deslizes ingênuos.
          Contudo, as discordâncias não ficaram somente em relação ao presidente, indo respingar também nos ministros como Ricardo Salles, que criticou a figura de Chico Mendes em uma entrevista para o Roda Viva, mas Hamilton Mourão elogiou o ativista e jornalista falecido aproveitando-se da polêmica em torno do caso. Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, também foi criticado em dois ou três momentos sobre assuntos diversos e até em relação a sua competência pelo vice-presidente. Ele, Mourão, comentou ser contrário a “despetização” proposta por Onyx Lorenzoni e contra a privatização dos Correios, coisas que Bolsonaro apoiou abertamente como ações efetivas do governo. Chegou a haver um decreto revogado posteriormente, que foi assinado por ele na ausência do presidente, tratando da confidencialidade de documentos do governo.
          Hamilton Mourão se mostrou mais ativo em reuniões com empresários do Brasil e do exterior do que Ernesto Araújo, sendo a voz e os ouvidos do Planalto junto à eles, mesmo em desacordo com algumas diretrizes do Governo do qual ele faz parte. Teve seu inglês elogiado por jornalistas nessas reuniões com estrangeiros. Solidarizou-se com a saída de Jean Wyllys do país por conta de ameaças, se posicionou dizendo que aborto é uma opção da mulher, sendo que Bolsonaro se posicionou contra este tipo de ato. Discordou da não nomeação de Ilona Szabó para um conselho consultivo por parte de Sérgio Moro, mesmo ela se posicionando totalmente contra o governo.
          Para uma pessoa que critica Bolsonaro por manter a polarização política em seu discurso, como Hamilton Mourão fez, aproveitar para desmentir o presidente e o chanceler em relação ao nazismo ser de esquerda, até é pouco, mas soma-se a todo o resto que já foi mencionado acima. Indo além, quando os filhos de Bolsonaro criticaram o autoritarismo do STF, ele, o general, disse que até o PT fazia este tipo de coisa, como se não fosse nada demais. É estranho como um vice-presidente tão polêmico em um passado bem recente, considerado pela mídia como reacionário, intervencionista, xucro e suspeito, agora seja tão incensado pela mesma imprensa. Ele não mudou, a mídia também não, então, qual é o acordo? Estão trabalhando no tal autogolpe?
Seu aceno midiático mais claro ocorreu quando o presidente, nos EUA, afirmou que Olavo de Carvalho era um dos responsáveis por sua vitória nas urnas e Paulo Guedes declarou que o filósofo era o mentor da revolução brasileira. Mourão perguntou quem se importaria com as opiniões de Olavo? Isso porque, de forma direta e clara, Olavo de Carvalho acusou o núcleo militar, que inclui Mourão e Santos Cruz, como sabotadores do governo e vaidosos. Por mais que se possa duvidar das afirmações do professor, as intervenções dos militares, principalmente de Hamilton Mourão, apontam para um conchavo junto à mídia para minar o governo. Pergunto novamente, seria este o autogolpe que Mourão se referia? Questionar a qualidade ou a importância de quem se importa com as opiniões de seu crítico, após seu chefe e o principal ministro do governo se manifestarem em exaltação ao trabalho deste é uma empáfia que os vaidosos demonstram quando são provocados.
          Cheguei a comentar com alguns colegas, que o grande desafio do governo não se daria entre este e a oposição liderada pela esquerda, mas sim, no empate dentro do próprio governo em torno do presidente. Se desenha um quadro onde os filhos de Bolsonaro expõem situações, como a de Bebianno e agora a de Mourão, para que o presidente não se envolva diretamente. Isso não se dá entre os três poderes, mas entre a mídia e a opinião pública que repercutem essas picuinhas. Enquanto Mourão acena para a imprensa para ganhar poder dentro do governo, os filhos do presidente apelam para o eleitorado que elegeu-o para mediar as situações mais urgentes e apontar um norte. Com o tempo, certamente as figuras dentro da Câmara dos Deputados, no Senado, no STF e dentro do governo acabaram se posicionando e deixando tudo às claras. Bolsonaro sofreu um atentado por parte de um militante de esquerda, seus mandantes ainda não foram revelados, mas seu vice cresce como o maior interessado em tirar o capitão de seu posto. Neste sentido, o deputado evangélico Marcos Feliciano já acenou com um provável pedido de afastamento do vice presidente. Essas movimentações são importantes, pois o Brasil não pode ficar à mercê de uma nova intervenção militar. Talvez este aceno repercuta na sociedade e faça com que o general se cale.
          Se Bolsonaro, antes de chegar à presidência, sempre defendeu os presidentes do regime militar, não é justo que perca o cargo para um vice-presidente ambicioso e que trama pelas suas costas. Que a esquerda na oposição é um fato plenamente aceitável e necessário para o equilíbrio democrático, um traidor dentro do executivo é algo inaceitável e que deve ser desmascarado e levar a pecha de traidor, como um soldado desertor. Ou Hamilton Mourão se cala e cumpre seu papel ou sai do governo já. Outro João Goulart é totalmente dispensável atualmente no cenário político do Brasil e danoso para a história. Foi Bolsonaro que quase sessenta milhões de brasileiros elegeram, mesmo com as sabotagens de seu vice na campanha, que na época pareciam escorregadas, mas que foram muito utilizados pela oposição. Espero que este barulho todo seja apenas uma manobra para driblar as críticas sobre a reforma da previdência, o que eu considero desnecessário no atual momento – a manobra, não a reforma – sendo muita palhaçada por parte do clã Bolsonaro se isso se confirmar. Fico com o ocorrido no caso Bebianno, onde tanto se falou e o então ministro caiu, esperneou um pouco e sumiu. Ficaremos de olho.       

sábado, 20 de abril de 2019

Ilíada de Homero

          A “Ilíada” de Homero, assim como o próprio autor, é alvo de muitas polêmicas em relação à sua autoria. Se fosse analisada hoje em dia, com esse mar de ideologias por trás do pensamento atual, seria considerada uma obra escandalosa, mas, por sorte, passa a margem destes grupos perturbados por essa enxurrada de ideias idiotizantes. Os motivos para isso estão explicados em outro texto meu que fala só a respeito da “questão homérica”, porém, não avança em aspectos sociais dessa epopeia homérica, apenas há críticas direcionadas aos historiadores e sugestões aos leitores curiosos sobre isso. O próprio conteúdo da obra pode ser um pouco decepcionante para aqueles que esperam algo parecido com “Crime e castigo” ou “Guerra e paz”, pois são apenas cânticos originais do grego e que chegam a nós em forma de um texto épico homogêneo e traduzido. Insisto na teoria de que, por melhor que seja uma tradução, ela não passa de uma versão aproximada e interpretativa do original. Este, por sua vez, era encenado em praças públicas durando o dia todo e dividido em três dias. Mesmo que a pessoa dedique-se a estudar a fundo determinado idioma para apreciar a obra no seu original, o distanciamento temporal e cultural não permitiriam ao leitor médio ter a mesma experiência que um “nativo”, por assim dizer. Por este motivo, Schopenhauer dizia preferir que os textos técnicos e filosóficos fossem escritos em latin, para que todos pudessem dialogar utilizando a mesma linguagem. Isso que o escritor e professor era um defensor ferrenho de que o alemão seria a única língua original da Europa, sendo as outras meros dialetos. A tradução para poesia, como falei ao escrever sobre “Fausto” de Goethe e “A divina comédia” de Dante, não passa de mero simulacro visando o acesso dos povos de outras línguas a obra em questão. Imagine para um americano ou um russo uma tradução de “Dom Casmurro”, por exemplo, com toda variedade de expressões e falando sobre um período específico que nem os brasileiros de hoje compreendem direito.    
          Polêmicas à parte, a narrativa que consta na “Ilíada” se passa aos arredores de Tróia, ou Ílio, segundo historiadores, localizada onde hoje é a Turquia, sendo uma espécie de feudo cercado por muralhas fortíssimas, quase intransponíveis. Ali se trava uma batalha violentíssima que dura dez anos e com vários momentos das pugnas descritos em detalhes consumindo grande parte da narrativa. Os dois protagonistas se destacam exatamente em combate, Heitor, por parte dos troianos, e Aquiles, do lado grego. Estes dois têm seus destinos interligados por conta dessa batalha.
          Os deuses alertaram Heitor de que este seria morto por Aquiles, embora seja o carrasco de diversos gregos, inclusive Pátroclo, grande amigo de do ilustre pelida. Por outro lado, o herói troiano é salvo duas vezes por deuses ao confrontar-se com outros heróis gregos como Diomedes e um dos ajazes, muito mais poderosos em batalha do que ele. O próprio Aquiles tem dificuldade para matar Heitor, não por ser equivalente em combate, mas por ter que lidar com a proteção dos deuses ao seu principal oponente. Apolo é o grande protetor de Troia e intervém seguidamente no confronto, usando suas virtudes como frecheiro para vitimar muitos gregos. Isso dá grande vantagem aos troianos em muitos momentos, pois estes até chegam a encurralar os aquivos junto a seus navios. Isso porque Aquiles e os mirmídones se afastam das lutas por motivos pessoais do grande herói.
          Agamémnone, irmão de Menelau, marido de Helena, que havia sido raptada por Páris, príncipe troiano, toma de Aquiles sua escrava preferida, Briseide. Isso faz com que o herói seja tomado por grande ira. Não podendo lutar contra Agamémnone por conta da hierarquia e da aliança formada pelos povos designados para o resgate de Helena e vingar a honra do grego, cuja esposa havia sido raptada por um troiano, o grande herói se resigna a ficar em sua tenda amargando sua cólera.
          Aquiles tem uma escolha de Sofia que dá mais dramaticidade a história, pois sua mãe, a deusa Thethis, quando se dá a missão que enviaria os gregos a Tróia, apresenta as seguintes opções ao filho: Aquiles vai para Tróia, derrota os troianos e morre por lá, mas fica imortalizado como o grande herói grego de todos os tempos ou fica em sua pátria, os gregos não vencem os troianos por conta disso, mas ele morreria de velhice sem honra alguma. O herói, que não esconde sua vaidade durante a trama, opta por morrer jovem e ser admirado por toda a eternidade.
          Pois, mesmo com grandes heróis como Odisseu lutando pelos gregos, Heitor consegue vencer a resistência do oponente e chega próximo as embarcações destes com o objetivo de queimá-las. Aquiles autoriza Pátroclo, seu estimado companheiro a usar sua armadura e suas armas para espantar os troianos, mas recomenda que ele não persiga Heitor até as muralhas da cidade. Pátroclo entra na batalha, o que dá grande vantagem aos gregos, que avançam sobre os troianos e os fazem recuar. Entretanto, o impetuoso guerreiro desobedece as instruções de Aquiles e persegue Heitor até as muralhas. Apolo desarma o grego e Heitor o mata em uma cena comovente. Grande choque essa perda causa aos gregos, que lutam desesperadamente para resgatar seu corpo, mas não evitam que Heitor fique com a armadura e as armas de Aquiles.
          Os dois valentes e poderosos ajazes resgatam o corpo de Pátroclo com dificuldade e mandam um mensageiro para informar o ocorrido ao pelida. Aquiles tem o desejo de vingança superando sua cólera pela perda de sua escrava, promove jogos em homenagem ao dileto amigo, aceita as ofertas de Agamémnone, inclusive a devolução da estimada escrava, para depois voltar a guerra e dar vitória aos gregos ao matar Heitor e profanar seu corpo por dias até devolve-lo a Príamo, seu pai, em troca de presentes caros e por conselho dos deuses. A versão que tenho da “Ilíada” termina exatamente com o resgate do corpo de Heitor e a trégua de doze dias para o velório e sepultamento do herói troiano. Portanto, Aquiles não morre no final da obra e sim Heitor.
Para esclarecer, a editora Nova Fronteira lançou um combo com as duas obras de Homero “Ilíada” e “Odisseia”, sendo que esta análise se dá sobre o primeiro volume. Portanto, faço agora comentários sobre alguns aspectos da obra que vão além da narrativa em si, que no geral, é bem simples e tem sua formatação adaptada para sair dos cânticos épicos e se tornar uma peça literária com ênfase nas lutas entre heróis, deuses e mortais.
          Os deuses olímpicos chegam às vias de fato, principalmente Posido, Ares, Afrodite e Apolo. Isso porque, embora sejam parentes de alguns heróis ou tenham cidades inteiras como seus zelosos devotos, cada deus representa algum fator que compõe os diversos elementos da vida como Sono, Morte, Aurora, Noite, os ventos, o amor, a ira, etc., e essas coisas costumam entrar em conflito devido as circunstâncias e a narrativa apresenta estes atritos. Além disso, o próprio parentesco que transforma os humanos intimamente ligados aos deuses até de forma carnal, faz com que muitos se identifiquem tanto com seus pares ao ponto de guerrearem junto a eles ou salvá-los da morte. Zeus, filho de Crono, muitas vezes entra como mediador dos conflitos, sendo convocado por outro deus ou espontaneamente. As próprias dinâmicas das situações são decididas pelos deuses e revelam a interferência direta e decisiva nas vidas dos seres humanos.
          Saindo da parte religiosa, temos a questão social em que um guerreiro podia roubar uma mulher para ser sua esposa ou escrava, aqui não se distingue muito a diferença, pois Helena, objeto de disputa, era casada com Menelau, foi raptada por Páris, casou-se com ele, mas em muitos momentos é vista como sendo sua escrava. Já Briseide, escrava de Aquiles, era tão valiosa para este que faz com que ele abandone sua missão e exponha os aquivos a morte ao afastar-se das batalhas. Em trechos da história, percebe-se que os heróis, ao invadir uma cidade, matavam seus heróis, se apoderavam dos objetos de valor, tomavam as mulheres por escravas e vendiam servos e crianças em feiras no exterior. Assim como os deuses, não havia uma fidelidade para com as esposas, mas estas, assim como as escravas, tinham que ser fiéis e dedicadas aos heróis. Imagine uma feminista lendo Homero nos dias de hoje e tendo que engolir essa situação.
          O último fator que quero comentar é a reverência, até mesmo por parte dos inimigos, com que os heróis e homens de virtudes eram tratados. Há um grande apelo a coragem, a comprovação da capacidade física e a prudência dos guerreiros, assim como seu senso de compromisso e justiça frente aos aspectos hierárquicos da época, que muitos acreditam ser por volta do século XI a. C. As habilidades guerreiras dos homens e dos deuses, assim como suas capacidades laborais são o que os destacam e lhes dão fama. Mas o fator mais relevante é sua origem. Aquiles, por exemplo, é chamado de pelida, por ser filho de Peleu, como Zeus é chamado de crônida, por ser filho de Cronos, assim por diante. Então, os componentes que se destacam como valores nos tempos de Homero são a origem familiar e a ligação com algum deus, as habilidades e a coragem em combate e a capacidade laboral, ou seja, patriarcado e meritocracia. Por este motivo, entre vários outros, é claro que a alta cultura é tão desprezada nos dias de hoje. É impossível para um professor universitário, com raríssimas exceções, trabalhar com esses elementos que foram instruídos a rejeitar. Religião, família, superação e conhecimento empírico são completamente opostos as crenças ideológicas posteriores ao iluminismo.
          Pelos fatores expostos acima é que muitas pessoas preferem o “desconstrucionismo” de Derrida, o “maoísmo” de Sartre, a sociologia de Rousseau, o socialismo de Marx e até mesmo a psicologia de Freud, pois a retomada deste protagonismo do indivíduo como filosofia derrubaria por terra o niilismo e outras correntes de pensamento que buscam tirar das pessoas tais impulsos, afinal, se isso se espalhar tornar-se-á impossível qualquer política de dominação das massas tendo indivíduos conscientes de suas limitações, mas motivados a romper barreiras e superar estereótipos. Naturalmente as pessoas vivem preocupadas com as demandas do dia-a-dia como conseguir dinheiro para pagar as contas, se defender da violência, melhorar as condições de vida, se divertir de vez em quando, criar e educar os filhos, etc. Injete um pouco de alta cultura na vida delas, erudição, senso de continuidade histórica, respeito aos valores mais ricos, entre outros, você terá uma pessoa independente, dedicada a família e que repudia revoluções coletivas.
          A compreensão destes aspectos, mesmo que de forma rudimentar como eu expus, é que pode permitir que haja evolução da humanidade para um próximo estágio civilizatório. Nunca esquecendo que foram os indivíduos, através de suas descobertas, que permitiram a descoberta e a criação de quase tudo que temos hoje. Se pensarmos em níveis temporais, teremos a metade do século XX, com as tentativas coletivistas de se moldar a sociedade, mas que se iniciaram cerca de dois séculos antes com a revolução francesa, como o comunismo, o socialismo, o nazismo e o fascismo principalmente, uma ruptura com a alta cultura, o que impediu que grandes obras literárias surgissem, os livros ficaram bobos ou serviram de propaganda política, os filósofos passaram a se dedicar numa busca por uma utopia imaginária, usando a sociedades como laboratório. O resultado de tudo isso é a violência, a confusão e o declínio psicológico e intelectual do século XXI, onde as ferramentas dominam as pessoas e fatores físicos substituem a comunicação e as expressões mais básicas.       

quinta-feira, 18 de abril de 2019

A questão homérica

          Relendo a “Ilíada” recentemente, me veio naturalmente a questão homérica à cabeça, já que na introdução do livro – possuo uma edição de 2018 da editora “Nova Fronteira” com o texto integral das duas obras, a já citada “Ilíada e a “Odisseia” – tal questão é apresentada e uma rápida exposição é feita para situar o leitor a respeito do autor. Para mim é impossível acreditar objetivamente em qualquer versão, mas é razoável comentar sobre emitindo opinião a respeito das teses apresentadas buscando a motivação por trás de tais especulações.
          Para os que acreditam e defendem que Homero existiu realmente e se tratava de um mendigo cego ou prisioneiro de algum reino, temos duas possibilidades. Uma de que ele era brilhante e concebeu as duas obras por pura motivação ou inspiração divina que o fez transcender, ficando sua obra mais real e relevante do que sua verdadeira existência. Assim sendo, Homero se tornaria um fenômeno das artes como Michelangelo. Se ele foi compilando cânticos e anedotas e reproduzindo-as, tamanha importância teve que seu trabalho deve ser igualmente reconhecido, mesmo que modernamente este tenha suprimido a verdadeira autoria das histórias.
          Outras versões apontam Homero como uma espécie de Goethe, tendo uma obra inicial estruturada, mas mais simples, que foi sendo aperfeiçoada até se tornar o clássico conhecido, mesmo que haja terceiros intervindo para possibilitar tal resultado. Assim como “Fausto”, o brilhantismo e a importância da obra também são igualmente irrefutáveis. Se compararmos, teremos o “Fausto” original, depois a versão aprimorada e uma segunda parte ou continuação da tragédia, por parte do alemão. De Homero teremos uma versão mais rústica da “Ilíada”, depois um ou mais aprimoramentos, terminando na “Odisseia” como continuação da epopeia.
          Se, por um acaso, não houvesse um verdadeiro Homero, e sim, três ou quatro criadores desconhecidos por conta do distanciamento temporal, atribui-se a eles as mesmas especulações anteriores, entretanto, com uma diversificação de possibilidades bem mais complexa e mais difíceis de se resolver. Mas tal prática não é exclusiva na história, o próprio Cervantes teve que lidar com um D. Quixote apócrifo, contudo, possível de ser identificado e ser refutado em tempo. O fato é, em se tratando da tese e não da verdade ainda oculta, busca-se tirar do autor os méritos da criação para distribuí-los à coletividade anônima. É um vício histórico e prática mesquinha tirar do indivíduo o protagonismo e distribuí-lo para uma coletividade que jamais chegaria a um consenso sobre temais mais simples, quanto mais elaborar uma obra de tal envergadura. Por coincidência, para não falar outra coisa, tais teorias são oriundas do século XIX e respaldadas no século XX.
          Independente da questão homérica, tendo o autor vivido por volta do século VIII a. C. e suas obras podendo ser contextualizadas dois ou três séculos antes disso, o fato é que se tem uma ideia muito vívida do pensamento e da cultura dos mitológicos gregos da antiguidade. Não esquecendo que Sócrates, outro personagem polêmico em relação a veracidade de sua existência, viveu no século IV a.C., se deste, por mais escritos que se tenha através de Platão, Aristófanes e Xenofonte extraído, ainda se duvida da existência do personagem histórico, quiçá Homero, de uma civilização mais antiga e recheada de mitos. Pois, se é justo desacreditar Homero pela ausência de provas, seria também justo questionar a existência da civilização grega e de todo seu legado?
          A resposta à pergunta anterior não se faz necessária, pois o próprio questionamento é a afirmação necessária para diluir tal dúvida. Considero impossível dar vida aos personagens de Homero duvidando de sua existência, afinal uma história não surge do vácuo. Numa leitura só se extrai integralmente seu conteúdo ao se acreditar cegamente no que está escrito, para só depois questionar e se formar um conceito. Ignorando Homero, desdenhando sua obra e criando teorias nada relevantes, apenas joga-se areia sobre o passado para esvazia-lo de seus valores e colocar qualquer besteira no lugar. Tudo isso para afirmar que qualquer estudo ou pesquisa buscando desvendar tais mistérios são irrelevantes, assim como os estudiosos envolvidos. Incapazes de superar tal autor, lançam-se em campanhas para obscurece-lo, levantando dúvidas a seu respeito para que não precisem carregar o fardo de não poder superá-lo. Apoiam-se na infeliz desculpa de jogar luz sobre o personagem real e estar servindo a humanidade pela ciência, mera canalhice.
          Sei que com minhas ideias eu entro em conflito com ao menos três séculos de filosofia, dando ao leitor a certeza de que não passo de um crédulo seduzido por ideias fantasiosas. Mesmo sendo irrelevante para ter detratores, faço questão de motivar tais caracterizações, pois elas, se realmente ocorrerem, reforçarão minhas convicções e farão com que eu mergulhe mais fundo em minhas jornadas literárias, assim sendo, não corro o risco de me intoxicar ainda mais com o pragmatismo infértil da atualidade intelectual. Se não posso apreciar a genialidade dos clássicos e extrair de heróis e deidades antigas seus defeitos e virtudes como procederei entre os homens de hoje? Vivo num mundo onde cegos guiam cegos sem saber pra onde estão indo, muito menos poderem apreciar as belezas que existem pelo caminho. Quanto mais reflito sobre a antiga tradição e suas obras, mais aprimoradas se tornam minhas ferramentas para entender o mundo de hoje.
          Para encerrar, não esvazio de importância verdadeiros historiadores, cuja sede de encontrar a verdade lhes queimam o peito. Tais personagens tornam menos obscuros os mistérios do mundo, mas critico os teóricos de laboratório, difundindo desinformação, desconstrutivistas trabalhando para destruir reputações, minar das pessoas suas bases históricas ao debochar de suas crenças para empurrar-lhes seus embustes ideológicos. Buscar a verdade histórica é apenas uma parte do processo de plena compreensão do mundo, porém, Homero e outros não precisam de materialização provada de existência, suas obras são a totalidade útil e relevante e conhece-las já basta.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Muito além da liberdade de expressão

          A liberdade, como conceito, é uma das maiores dádivas que um indivíduo pode defender e desfrutar nessa vida. Winston Churchill baseou seus discursos na segunda guerra na defesa da liberdade. Porém, mesmo que seja quase que cantada em uníssono publicamente, a liberdade é um conceito muito relativizado nos dias de hoje. Isso se caracteriza pela palavra “liberdade” estar sempre acompanhada de alguma outra que lhe completa o sentido, no caso deste texto, acrescento “expressão” como complementar. Isso porque, atualmente, com a polarização política, todas as palavras e expressões passaram a ter duplo sentido, um real e outro ideológico. Como se houvesse, e realmente há, um dicionário comum a todos e um particular para servir base para interpretação em casos pontuais. Citando exemplos recentes, podemos pegar quatro situações em que isso é percebido:
          _Uma juíza de São Paulo condenou o humorista Danilo Gentili, do SBT, por ter reagido a uma moção de censura, isso mesmo, censura, enviada em nome do Senado Federal por conta de uma piada que o humorista havia feito. O apresentador do “The Noite” recebeu tal correspondência junto aos colegas de programa e fez um vídeo do fato. Depois, já em sua casa, rasgou o documento, colocou dentro da cueca e depois enviou ao remetente. Mesmo que se considere a atitude do comediante reprovável, ele estava reagindo a uma moção de censura contra sua liberdade de expressão e por isso foi condenado a seis meses de prisão;
          _Outro fato ocorreu com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que chamou a polícia para prender um advogado que manifestou sua opinião sobre a Suprema Corte adjetivando-a de ser uma vergonha;
          _O presidente dessa mesma instituição, Dias Toffoli, por conta do fato citado acima e por ter sido outro ministro, Gilmar Mendes, alvo de investigações do COAF, emitiu uma declaração onde solicitava investigação de qualquer pessoa ou instituição que investigasse ou se dirigisse de forma crítica ou ofensiva a qualquer membro do STF;
          _Para finalizar, o mesmo Dias Toffoli mandou retirar uma matéria da revista eletrônica “Crusoé” e todas as publicações do site “O Antagonista” sobre um anexo de um processo onde Marcelo Odebrecht citava-o como sendo “o amigo do amigo” na planilha de propinas de sua empresa;
          Poderíamos ir muito além disso, comparar o comportamento de A ou B em cada caso, levantar teses de perseguição política, etc., mas não farei isso neste texto. Quero apenas chamar atenção das pessoas que me leem, que são muito poucas, é verdade, para os valores fundamentais da sociedade e os direitos legítimos dos indivíduos que estão sendo vilipendiados publicamente e a sociedade não está reagindo. A liberdade expressão é um bem público fácil de ser atacado direta e indiretamente. Por mais que os jornalistas sejam todos mentirosos, não se pode jamais tirar-lhes o direito de falar, por exemplo. Da mesma forma os políticos, tão ou mais mentirosos que os jornalistas, eles têm o direito de defender suas convicções mesmo que de forma falsa e covarde. Emitir uma opinião ou manifestar-se de forma verbal para expressar uma determinada posição, conjecturar uma situação ou mesmo expor uma situação a partir de uma interpretação equivocada não podem ser criminalizadas, até porque, nos casos supracitados, há censura, o que é inconstitucional, inclusive com a palavra sendo citada de forma direta e documentada. Some-se a isso o pedido de exclusão das matérias da revista e do site após um prévio aviso de que não se poderia referir-se aos membros da Corte para critica-los. Existe claramente, personificado na figura de outro ministro, Alexandre de Moraes, um movimento defensivo por parte dos agentes políticos para calar qualquer voz que não atenda os interesses destes ou critique suas ações.
          Para não ficar apenas no campo reativo, tivemos diversas manifestações que foram criticadas, mas que receberam defesa efusiva por parte de seguimentos da sociedade. Cito o caso do “Queermuseum” - escrevi sobre isso aqui - onde figuras expostas como sendo “obras de arte”, apresentavam cenas de vilipêndio religioso, zoofilia, entre outras coisas, tendo como público alvo crianças de escolas de ensino infantil. Acrescento a apresentação no Museu de Arte Moderna de São Paulo - também escrevi a respeito aqui - onde um ator nu fazia uma performance para crianças de seis ou sete anos que o tocavam em determinado momento. Esses dois momentos foram criticados em seus conteúdos e os defensores acusavam os críticos de praticar censura.
          Mais recentemente, o presidente Jair Bolsonaro, durante o Carnaval, postou um vídeo onde dois homossexuais, sobre um ponto de táxi ou algo assim, urinavam um no outro em público. Logo, seus opositores o acusaram de compartilhar pornografia, mas percebendo que isso ia contra suas argumentações, se viram criticando seu próprio modus operandi, sendo obrigados a relativizar as críticas. Este é um exemplo de um peso e duas medidas. Foi então evocado o segundo dicionário que mencionei no início do texto, e para surpresa de ninguém, os agentes ideológicos que trabalharam para censurar Danilo Gentili, defender o “Queermuseum” e a performance no MAM e criticar o presidente por compartilhar o “golden shower” pertencem exatamente ao mesmo grupo, quando não são as mesmas pessoas.
          Todo este texto, que cita pouquíssimos casos em comparação ao número ocorrente na sociedade, serve para expor o pensamento de que há essa patrulha do “politicamente correto”, que não age com uma moral ou conceitos claros, mas de acordo com a situação e a posição política de quem está envolvido. No caso de Danilo Gentili, condenado a prisão por conta de uma piada, se contrapõe a crítica feita no programa “Zorra Total” onde fizeram uma música com um compêndio de acusações a respeito do presidente e sua família, e, até o momento, ninguém, exceto eu, falou a respeito. Já sobre o STF, que realmente é uma vergonha para o Brasil, há essa tentativa de blindagem, que visa transformar os onze ministros em cidadãos intocáveis. Entretanto, tais cidadãos são meros professores de direito indicados para os cargos, sequer juízes concursados alguns deles são, muito menos eleitos pelo povo, portanto, como podem exigir tal distinção?
          Para encerrar, entendo que este texto vai muito além de mera narrativa em torno da liberdade de expressão, mas joga luz exatamente sobre os agentes que trabalham para relativizar ou suprimir a liberdade de expressão no Brasil, principalmente se você não faz parte do grupo ideológico que governou o país nos últimos vinte anos. Não peço que todos concordem com meu ponto de vista, onde todos podem falar o que quiser e expressar suas opiniões, mas que deixem claro, como o STF está fazendo, que querem censurar aqueles que lhe criticam ou discordam de suas opiniões. Deixem claro a todos este desejo de controle para que não precisem disfarçar os discursos e camuflar tais intenções. Sei que é muito difícil emitir opiniões sinceras quando se sabe que a reação contrária será dura, mas tentem, já que se julgam estarem com a razão.

sábado, 13 de abril de 2019

Os EUA e a Nova Ordem Mundial

          Para aqueles que se interessam por geopolítica, o tema a “Nova Ordem Mundial” é sempre recorrente e atual. Mas tal expressão eu não considero adequada, pois NOM é um título quase que hilário, pois quando se pesquisa sobre o assunto usando tal expressão o que mais aparece são teorias absurdas e fantasiosas sobre conspirações das mais variadas, principalmente se a pesquisa for feita pelo Google e assemelhados. Os conteúdos a respeito são tão confusos que conseguem misturar elementos incongruentes como sendo a mesma coisa e distinguir associações ligadas intimamente. Acredito que isso ocorra exatamente para que as pessoas não levem a sério aqueles movimentos reais, que só são identificados quando causam algum impacto indisfarçável, como, por exemplo, as duas guerras mundiais do século XX. O que é claro e objetivo é a grande confusão entre os termos utilizados para caracterizar cada movimento, organização, fenômeno, etc. que estejam diretamente ligados aos acontecimentos geopolíticos. Talvez os termos mais confundidos em se tratando deste assunto sejam:
          Globalização: é o comércio entre nações com a finalidade de benefício para ambos. Normalmente se dá entre empresas privadas através de acordos bilaterais, em alguns momentos intermediados por seus respectivos governos ou por lobby político. Isso é benéfico dentro de alguns limites, pois possibilita que uma pessoa no Brasil possa comprar uma televisão coreana, muitas vezes fabricadas no Brasil mesmo, ou um iPhone, qualquer produto de origem estrangeira.
          Globalismo: é a denominação usada para indicar movimentos de dominação mundial, por mais louco que isso possa parecer. Não tem a ver com acordos comerciais, que podem ser rescindidos caso haja a necessidade, mas sim o uso de empresas, fundações e acordos comerciais que visam o controle econômico para interferir na soberania dos países. Posso citar a União Europeia, a ONU, o Mercosul e a Unasul como entidades criadas para agir em determinadas regiões com fins específicos e que acabaram por serem usadas para pressionar alguns países que não se comportavam conforme os interesses destes grupos.
          Pois é sobre o segundo que se trata o livro “Os EUA e a Nova Ordem Mundial”, que se é um debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho. Um debate realizado via internet que pode ser verificado no site: http://debateolavodugin.blogspot.com/ e se deu entre março e julho de 2011, com a primeira edição do livro sendo lançada em agosto de 2012 pela Vide Editorial.
          O debate se fez com um parecer inicial sobre o tema enviado por cada debatedor por e-mail, depois foram feitas réplicas, tréplicas e considerações finais intercaladamente. O confronto de ideias não foi presencial, pois os organizadores estavam no Brasil e os debatedores estavam na Rússia e nos Estados Unidos. Mas este formato me pareceu bem interessante, pois cada debatedor pode responder as questões após uma boa reflexão e até consultar fontes externas o que considero ter enriquecido o debate.
          Alexandre Dugin é um estrategista e agente político muito importante para o governo russo, sendo por muito tempo, o braço direito de Putin. Ele é um dos idealizadores e teóricos do nacional-bolchevismo, uma espécie de nacional socialismo similar ao tentado por Hitler na Alemanha nazista, até onde pude entender das palavras do russo. Este movimento busca na tradição russa um dos alicerces para fundamentar uma nova base de um movimento eurasiano contra a influência do ocidente. Se Dugin foi honesto em suas declarações e a tradução foi bem feita, o que acredito, ele prega a união do oriente, incluindo árabes e países ocidentais que queiram colaborar para derrubar a cultura ocidental, principalmente a influência americana, que ele considera como sendo o coração deste inimigo. Claro que tal movimento não poderia deixar de lado a narrativa anti-imperialista. Aquela desculpa muito usada na América latina, onde tudo de ruim que acontece é culpa do imperialismo americano.
          É por esta pseudo defesa contra a hegemonia americana que Alexandre Dugin convoca os povos do ocidente, principalmente aqueles que ele acredita serem ainda socialistas, não vamos esquecer que o debate se deu em 2011, o que atualmente não faz muito sentido. O fato é que o ideólogo russo apela para a tradição da igreja ortodoxa, a união dos países eurasianos e o sentimento de defesa da liberdade para apresentar uma Rússia proativa e engajada em solucionar os males do mundo. Entretanto, para quem conheceu um pouco da história da URSS e a formação da “Cortina de Ferro”, percebe que tudo não passa de uma requentada no projeto de expansão soviético de outrora, sendo Vladimir Putin, ex-membro da KGB – coisa que ele declara ser impossível existir – como o líder máximo dessa empreitada.
          Por sua vez, Olavo de Carvalho acusa diretamente a Rússia de ser a cabeça de uma das três forças que agem globalmente para assumir o controle mundial. As três forças são o movimento eurasiano, defendido por Dugin, os árabes e seu “Califado Universal” e por último, e mais desenvolvido e atuante, segundo o filósofo, o globalismo estruturado sobre os “meta capitalistas” que atuam principalmente no Estados Unidos. Olavo vê nas fundações capilarizadas e atuando no mundo inteiro como a grande ameaça ao mundo ocidental, tendo a ONU como principal avalista destas ações. Contudo, é comum que um dos três se alie eventualmente com outro para barrar quem dispare nessa corrida. É o que a proposta de Dugin apresentada no debate dá a entender. Ele convoca forças distintas para lutar contra um inimigo em comum, os EUA, apontando este como sendo o motor de todo o intento dominador por abrigar os meta capitalistas. Mas Olavo defende que a maior resistência contra tal movimento esteja exatamente nos Estados Unidos, dependendo de quem lidere a política de momento.
          Sem entrar em maiores detalhes sobre o debate, considero o livro, embora um pouco confuso por conta do formato e a complexidade do tema, muito interessante para aqueles que buscam estudar estas teorias mais amplas, pois as cartas foram postas na mesa, principalmente por parte de Alexandre Dugin, e tendo uma interpretação muito embasada por Olavo de Carvalho, que atacou diretamente tal plano e ainda fez diversas acusações ao russo sem fugir ao seu estilo provocativo. Claro que os detratores do filósofo brasileiro irão reagir, xingar e desacreditar todo o trabalho realizado aqui, mas isso já não é problema meu. Adquiri o livro interessado mais na perspectiva de Dugin, afinal, o trabalho e as opiniões de Olavo são bem conhecidos, ainda mais no Brasil de 2019.
          Embora pareça uma absurda teoria da conspiração, não podemos ignorar a quantidade de guerras e mudanças ocasionadas no mundo por conta de ideólogos ousados que não foram levados a sério ou mesmo não foram bem interpretados ao longo da história. Temos o “Estado Islâmico”, agora sufocado, mas que espalhou o terror pelo mundo com suas ações, tivemos as iniciativas norte-coreanas de declarar guerra à Coréia do Sul e aos Estados Unidos, a crescente influência russa sobre a União Europeia, as novas iniciativas da Rússia em retomar parte do território perdido na dissolução da URSS, a situação venezuelana, as guerras no oriente médio, os exemplos são numerosos, precisa ser um imbecil para não perceber certa ligação entre estes eventos.
          Para encerrar, admito que é uma parcela ínfima de pessoas que se interessam realmente por estes assuntos e buscam entender a complexa estrutura internacional, ainda mais no Brasil onde as pessoas não leem, se leem não entendem e ainda acreditam que compreendem tudo graças as suas fontes de informação totalmente contaminadas ideologicamente. Claro que serei acusado de ser bolsonarista, olavete e coisas do tipo, mas não me incomodo com isso, aliás, não me incomodo com adjetivo algum no atual momento. Assim como leio muito material conservador, busco as versões liberais, socialistas, socialdemocratas, comunistas e fascistas com o mesmo interesse, só formulo minha opinião sobre determinado assunto, livro ou obra de qualquer tipo após uma leitura atenta e buscando acreditar cegamente naquilo que estou estudando. Creio que essa seja a única maneira de estudar, qualquer outra me parece auto doutrinação, masturbação ideológica ou conluio de conspiradores fracassados.              

sábado, 6 de abril de 2019

A vida intelectual de A.-D. Sertillanges

          É muito difícil para uma pessoa que começa a se dedicar a alguma atividade artística ou intelectual não seguir certos modismos e tendências de momento. Eu passei por isso em diversas fazes da minha vida. Embora seja corriqueiro e temporário, tal tendência não chega a ser prejudicial. Particularizando, quando me dediquei ao aprendizado da guitarra, também comecei a usar os termos da época e do meio guitarrístico. Da mesma forma, quando iniciei meus estudos sobre produção musical e home estúdio, obviamente assimilei jargões e macetes do meio que estava me inserindo. Agora, mais maduro e dedicado aos estudos filosóficos e literários, mesmo que de forma alternativa, a história se repete. Estou me interessando pelos livros em voga do seguimento com o qual me identifico mais, a literatura conservadora. Portanto, mesmo que secular e sem um direcionamento específico, também fui apresentado ao livro “A vida intelectual” do padre e filósofo tomista, Antonin-Dalmace Sertillanges.
          O livro em questão foi escrito entre 1919 e 1920, sofrendo algumas alterações ao longo do tempo e passando por uma última revisão em 1944. A edição que possuo é de janeiro de 2019 e, segundo alguns críticos, conta com a melhor tradução brasileira até então, feita por Roberto Mallet. Cheguei até este volume devido aos comentários de alguns intelectuais, principalmente, Olavo de Carvalho. Para o filósofo brasileiro contemporâneo, este seria o livro que norteou suas atividades filosóficas devido as influências de seu conteúdo.
Sertillanges(1863-1948) escreveu diversas obras filosóficas de destaque e recebeu grande influência de Santo Agostinho. Foi um padre francês que dedicou sua vida ao trabalho intelectual e este livro é um pequeno apanhado de suas técnicas de estudo e sua opinião relativa a essas atividades filosóficas. É um guia informal comprimido em um pequeno volume de fácil leitura e assimilação, mas conta com alguma espécie de feitiço que cativa o leitor e o tira de sua zona de conforto. De forma grosseira, pode-se dizer que este livro serve como uma espécie de propaganda, amostra grátis ou workshop que tem como principal objetivo atrair o estudante comum, ou mesmo aquela pessoa meramente curiosa, para um aprofundamento nas questões intelectuais. Como um conservador genuíno, e não um mero sintoma do atual momento, não costumo deixar com que depoimentos exagerados me seduzam, muito pelo contrário, quanto mais elogios uma obra angaria junto ao seu público, mais desconfiado eu fico, independente de quem os faça. Por este motivo, tomei este volume com um ceticismo impertinente e uma curiosidade mórbida. Sim, confesso meu preconceito, afinal, um padre francês da virada dos séculos XIX para o XX dando macetes de filosofia é merecedor de desconfiança.
          O conteúdo do livro é iniciado pela vocação, onde Sertillanges aconselha o leitor a ficar atento aos sinais, depois fala das virtudes que um intelectual deve possuir e buscar. Logo, dá dicas de como deve ser organizada a vida do estudante, seu tempo e suas disponibilidades, passando para o tempo de trabalho, o campo de ação, seu espírito, entrando para a parte prática ao falar da preparação das atividades em que explica a leitura, a memorização e como criar e organizar as notas.
          Os dois últimos capítulos do livro são dedicados ao trabalho de criação e a figura do trabalhador e do homem como sendo o produto acabado do filósofo um híbrido de trabalhador e homem comum. Nessa parte derradeira do livro o leitor já está em êxtase depois de ser seduzido lentamente pelas instruções do padre, que foi gradualmente preparando o terreno ao falar de forma simples sobre cada etapa básica. Embora suas obras mais significativas sejam densas, claramente fruto de um esforço contínuo e minucioso, em “A vida intelectual” o filósofo entrega o jogo e faz o leitor, que tenha a mínima aptidão ou interesse por tal labuta, sentir-se pronto e sedento para iniciar seus trabalhos.
          Não sei se o efeito que esta leitura teve sobre mim é passageiro ou eu sou muito sugestionável, o fato é que, ao iniciar a leitura do livro seguinte, já não conseguia me desvencilhar facilmente da leitura ao mesmo tempo que ficava inquieto por sentir falta das anotações que nunca tive o hábito de fazer e querer ampliar meus estudos a cada deixa que eu reparava ao longo de minha leitura. Não foram raros os momentos em que me peguei com leve remorso por não estar lendo, escrevendo, compondo, gravando ou praticando em meus instrumentos. Isso se deu de forma significativa no meu trabalho cotidiano, que exerço a mais de uma década, onde as atividades corriqueiras me pareceram tão frescas e sem o peso convencional do trabalho diário. Me senti mais sereno, confiante, cuidadoso, mas sem tensões, ansiedade ou dissabores. Até um determinado ceticismo em relação as pessoas com quem converso e sobre os assuntos abordados apareceu de forma indiscreta em alguns momentos. Comecei a questionar a qualidade do meu tempo e o valor das pessoas ao meu redor, quase que naturalmente reavaliei cada um deles com alguns critérios mais objetivos.
          Embora não concorde com muitas das abordagens de Sertillanges, no todo seus ensinamentos não só se mostraram muito valiosos, como passaram quase que automaticamente a influenciar meus hábitos. Posso dizer que me surpreendeu ele recomendar ler pouco, evitar a leitura de romances, valorizar a solidão do trabalho, mas concordei que a preparação é muito importante, a organização, a seleção objetiva do assunto, das obras a serem consultadas, da curadoria de um verdadeiro especialista, entre tantas outras coisas, principalmente a dedicação maior a reflexão e o treinamento da memória, onde a pessoa se esforça para identificar o que precisa ser retido e o que é descartável. No todo, a estruturação apresentada pelo filósofo respalda a seriedade das observações de um pensador, mesmo que ele ainda seja um iniciante, mas livre de distrações, intoxicações pelo excesso e redundâncias.
          Para encerrar este texto, mesmo que ainda seja cedo para apresentar resultados, que ainda não tenha me aprofundado em nenhum estudo que realmente necessite de um volume de notas relevantes e uma bibliografia dedicada, já percebo que em determinados momentos me fazem falta umas anotações aleatórias, o registros de algumas pequenas ideias ainda em germe, noto a ausência de momentos de solidão e reflexão, mas deparei-me com o desconforto pela necessidade de interromper uma leitura no meio para fazer outra coisa, por me incomodar ao não poder falar dos assuntos que eu gostaria para ouvir e participar de conversas vazias e até constrangedoras. Essas meras observações já comprovam os efeitos que tal obra tiveram sobre mim apenas com uma rápida leitura.